10 de junho de 2018

SAUDADES DO LEITE QUEIMADO


Não sou dado a saudades de coisas, lugares e épocas. Sou mais chegado a saudade de pessoas, de gente. Mas hoje amanheci com saudades de mim, em minha terrinha natal, nos meus verde anos, como diria o poeta romântico. É que vi um programa de viagem gastronômica na tevê, e a linda apresentadora estava tomando leite queimado, num restaurante em Belo Horizonte.
A cena me deixou bem balançado. Só não chorei, porque ainda há um resquício de espírito machão lá no fundo dessa carcaça septuagenária a me mandar segurar certas emoções baratas. Mas que deu vontade verter umas lágrimas, isso deu! Tenho de ser sincero com vocês, pelo menos agora, em que resolvi abordar o assunto.
É que leite queimado, que os mineiros chamam de leite queimadinho, era uma das delícias da minha infância, sobretudo no dias frios do inverno de Carabuçu. Era só a temperatura cair, para que pedíssemos à nossa mãe que nos fizesse aquela delícia, elaborada com açúcar, que se queimava na panela; o leite, que se lançava sobre o açúcar derretido; e a canela em pau, lançada em seguida. Então, eu e meus irmãos tomávamos com cuidado, aquele líquido doce e quente, encorpado e cheio de sabor, para espantar um pouco o frio que entrava pelas gretas de portas e janelas e acabava por penetrar nos ossos e na pouca carne de nossos corpos miúdos.
Por essa época, o inverno em nossa vila costumava ser rigoroso. Já disse alhures que, certa vez, ouvi meu pai responder a uma pergunta sobre a temperatura e dizer que estava em oito graus. Lá fora, pela janela, era possível ver a cerração baixa sobre as casas e os paralelepípedos das ruas.
Hoje já não faz tanto frio. Os especialistas estão cansados de nos alertar sobre  o aumento gradual da temperatura do planeta.
Hoje também, já perdida a infância descompromissada do interior e as boas taxas da saúde geral, o leite queimado que me fazia tão bom gosto na vida é iguaria de que já não posso mais usufruir.
Por isso é que, ao ver a cena em que Mel Fronckowiak, a bela apresentadora do programa, provava maravilhada aquele gosto de infância, inverno e saudades provocou em mim um marejamento incômodo nos olhos. Bem que eu não queria, mas foi meio incontrolável, confesso.
Fui levado de supetão a uma infância que ficou perdida num tempo e num lugar mágico, que a memória, teimosa que só ela, ainda preserva. Para que a vida não pareça de toda sem sentido. E eu possa ter histórias a contar a meus netinhos.

Na casa da mãe (foto do autor).

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