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Studbaker 51 (imagem em auto.howstuffworks.com). |
No final dos anos 50 do
século escorrido, aconteceu em Carabuçu um acidente que foi transformado em
anedota.
Ivo Basílio, dono da
minúscula empresa de ônibus da vila, ia para Bom Jesus do Itabapoana em seu
automóvel. Como iria sozinho, resolveu dar carona para Nico Dutra, fazendeiro
com propriedade na entrada da vila e seu vizinho, e também para seu xará, o
subdelegado conhecido pelo apelido de Ivo Saratonga.
O choffeur, como se dizia então, dono de uma visão estrambótica,
corrigida por grossas lentes, e reconhecidamente inábil na condução de veículos
com motor a explosão, perdeu o controle do seu Studebacker e o precipitou num
dos remansos do Rio Itabapoana, ao lado da estrada de terra, de onde o bólido derrapou.
Depois de salvos do
afogamento por pescadores ali perto, Nico Dutra entrou a reclamar a perda de
suas dentaduras duplas, feitas recentemente pelo Dirceu dentista; e o
subdelegado, dos seus óculos de grau.
Indagado pelos curiosos de
sempre, que se reuniam nos finais de tarde na esquina das ruas Coronel Alfredo
Portugal e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo, o Ivo motorista justificou a
barbeiragem por ter caído na gargalhada
com a pergunta estapafúrdia do seu xará:
- Vocês já orçalo o
Reportelesso hoje?
O Repórter Esso era o
noticiário de maior audiência e credibilidade da época.
-o-o-o-o-o-
Ferreirinha, da grande
família Monteiro, tinha propriedade na curva dos eucaliptos, à margem da
estrada que ia até a sede do município. Era produtor de leite e negociante nas
horas vagas, como boa parte dos homens da vila, os quais não podiam vislumbrar
um bom negócio em qualquer ocasião, sem que dele pudessem tirar proveito.
Ferreirinha, que à época
devia ter por volta de quarenta anos, era um homem divertido, cheio de causos a
contar, apenas com o intuito de ver seus parceiros gargalharem. Também criava
passarinhos, um dos entretenimentos mais difundidos naquela época, agora
transformado em crime ambiental, a depender das condições.
Na venda do meu pai, a que
sempre ia em busca de uma boa conversa, no meio de uma roda de amigos, tentava
fazer negócios com cavalos, bois e passarinhos.
Certa feita, voltando com
meus primos da casa de seu Isaque Mestre, que tinha um sítio pelos lados do
Elias Nunes, passamos dentro da propriedade do Ferreirinha. Era um caminho mais
alongado até a vila, mas nos dava a oportunidade de tomar banho no poço do
valão que banhava as terras dele.
Embora fôssemos um grupo de
crianças, ele nos recebeu com toda simpatia, nos levou até sua cozinha,
ofereceu café com broa e aproveitou para contar casos. Pouco depois, ao
sairmos, vi na cocheira um de seus cavalos, que achei meio debilitado, tipo
pangaré, e perguntei a ele como estava o animal. Marotamente, nos disse:
- Aqui para nós, está
perrengue, meio capenga. Mas, se for para negociar, é o melhor cavalo do mundo!
E deu uma boa gargalhada.
-o-o-o-o-o-
Meu pai tinha um grupo de
amigos que saíam à pesca com ele no Rio Itabapoana. O trajeto, de cerca de seis
quilômetros, era vencido de bicicleta. Todos tinham a sua magrela.
Normalmente seguiam com ele
o Domingos Peçanha, o João Coleto, o João Dutra e o Alcino, dentre outros. Às
vezes saíam de madrugadinha, o dia ainda escuro. Acendiam os faróis e pedalavam
em meio à neblina, que chamávamos cerração, que, de tão densa, não permitia que
se avistasse longe.
Numa dessas vezes, vinham em
sentido contrário dois fracos faróis de seis volts tentando romper aquela massa
turva. Alcino, sempre muito divertido e gaiato, produziu uma de suas imitações
mais fidedignas: a sirene de uma ambulância. E era tão alto o som produzido,
que o motorista do veículo jogou o carro para os lados da estrada de chão, a
fim de permitir a passagem do comboio que vinha logo atrás da “ambulância”.
E o Alcino, depois, contou
essa peripécia às gargalhadas, entre um e outro pé de moleque que comia na
venda do meu pai.