(Para Lucir Moraes.)
Meu assento era quase sobre
a asa direita do avião, um pouco para trás. Dali era possível ver a turbina.
A decolagem deu-se naquilo
que é uma decolagem em aeroportos nacionais: a aeronave no empuxo máximo, sobre
uma pista um tanto irregular, trepidou, resfolegou, mas subiu. A sensação de
estar passando sobre costelas no chão abrandou-se tão logo ela atingiu uma
altura razoável.
Nunca tive medo de avião.
Nem mesmo quando voei, pela primeira vez na vida, num velho turboélice Buffalo,
que pareceu chegar batendo asas, no aeroporto aberto numa clareira na selva, na
cidade de Puerto Suárez, na fronteira da Bolívia com o Brasil. Aliás, aquilo
não era bem um aeroporto, mas tão somente um campo de aviação, como se dizia na
minha terra. Faltava-lhe certa dignidade arquitetural para assim ser considerado. Acho que, no instante em que
vimos aquele monte de alumínio modelado a poder de arrebites pousar no chão de
terra, sob o olhar apavorado da minha mulher e de uns amigos, a informação do
boliviano ao nosso lado, num portunhol fronteiriço, me deu a tranquilidade que levaria
como divisa por toda a vida em tais situações, mas que iria ser posta à prova
anos depois:
- Estadísticamente es el
avión que menos cai.
Como fomos levados sãos e
salvos a Santa Cruz de la Sierra, pus na cabeça que nenhuma outra máquina voadora
mais moderna, nas quais viajei desde então, fosse capaz de me fazer uma desfeita,
uma trapaça de mau gosto.
Até o instante em que o
comandante anunciou, com indisfarçável acento grave na voz, que a turbina
direita entrara em pane. Num átimo, retirei os olhos da revista, olhei pela
janelinha acanhada ao meu lado e constatei a informação. Ela realmente parecia
inerte.
De imediato os passageiros
entraram em pânico. Começou um vozerio confuso, com gritos desesperados e
orações suplicantes. Percebi que até ateus convictos começaram a apelar aos
poderes celestiais. Eu, por exemplo! Naquele instante sombrio, a fé que perdera
no início da idade adulta, como que por milagre, recebeu o que na linguagem cibernética
se conhece como refresching: voltou
fresquinha à tona. E não tive o mínimo pudor em implorar:
- São Pancrácio! Santa
Engrácia! Valei-me! – disse baixinho, para que só os dois santos me ouvissem.
A esta altura da narrativa,
é preciso fazer um esclarecimento.
Quando religioso, descobri
esses santos ao ler um compêndio de hagiografia antiga e tomei a decisão de
que, em minhas agruras e atribulações, para não entrar em pânico, pediria por seu
socorro, na hipótese de que, por certamente desconhecidos por aqui, estivessem
sempre desocupados para acudir seus minguados devotos, dentre os quais me
incluí. E sempre me dei bem enquanto era crente. Portanto não seria naquele
exato momento em que eles me faltariam.
E, para garantir que eu não
tinha preferência no atendimento, repeti a invocação fazendo uma inversão nos vocativos:
- Santa Engrácia! São
Pancrácio! Valei-me! – agora com a voz já ligeiramente alterada, em função dos
segundos a menos de vida que vislumbrava, e com acento na forma culta do imperativo
verbal, porque me dirigia a santos e não a um zé mané qualquer.
Nesse instante, meu
pensamento chegou até minha mulher, que deveria estar cuidando inocentemente de
seus afazeres. Eu me esquecera de renovar o seguro de vida! Embora não seja
vultosa, a grana poderia até lhe dar a possibilidade de arranjar a vida – dela,
evidentemente, já que a minha estava indo pro beleléu –, até mesmo conseguir namorado
novo, que com certeza iria dissipar o que eu lhe deixaria. Pensei, então, com
certo conforto, que tinha sido melhor assim. Não ia querer minha viúva em
desfrute sobre minha memória.
Os passageiros mais próximos
de mim berravam apopléticos!
Sempre fui um cara tranquilo,
controlado, e, embora a situação fosse de consequências funestas, eu também
estava chegando ao descontrole. Contudo não sei de onde surgiu certa lucidez,
que me fez gritar com todos:
- Tenham calma! Se vamos
morrer, que seja com um pouco de dignidade! E não como um bando de desesperados,
parecendo galinhas fugindo de mão-pelada!
Naquele momento não tinha
certeza de que mão-pelada comesse galinha, mas foi o que saiu na hora.
Uma senhora de cabelos avermelhados,
com a expressão estertorante, gritou comigo:
- Não está percebendo que
vamos todos morrer e fica aí querendo compostura da gente?
- Só quero morrer em paz,
minha senhora! E não no meio de uma balbúrdia infernal! Isso aqui está virando
a antessala do inferno! – falei decisivo.
O avião negaceou um pouco, parecendo
carroça com o eixo quebrado, o que fez sacolejar sua carga humana.
E voltei a apelar a São
Pancrácio e a Santa Engrácia, enquanto tornei a olhar a turbina, através da
janelinha.
Não sei se foi por obra
deles ou de algum dos outros santos invocados naquela confusão insana, mas a
turbina começou a voltar à vida, no justo momento em que a voz do comandante, já
visivelmente aliviada, informou que a pane elétrica fora superada, inesperadamente e sem explicação
plausível, de modo que o voo continuaria
até o seu destino. E em segurança, desejei eu!
O suspiro de alívio generalizado
daqueles mais de cem passageiros candidatos a defuntos quase despressurizou o
avião. A mulher de cabelos avermelhados logo solicitou à comissária de bordo um
copo d'água fresquinho, para diminuir a palpitação.
A tripulação determinou que
todos guardassem seus lugares, porque o pior havia passado, e procurou atender
os mais nervosos.
Perguntei se havia uísque.
Não havia. Queria afogar o nó na garganta com uma boa talagada, mas não foi
possível. Tomei em seguida o café quente servido a alguns, o qual me pareceu o
mais saboroso que já bebera, e relaxei.
Ao desembarcar, passei na capela
ecumênica do aeroporto, para agradecer a São Pancrácio e a Santa Engrácia. Não
sei se eles tiveram participação efetiva no conserto da turbina, mas é melhor
não duvidar. E, se tiveram, podem estar orgulhosos agora do seu milagre.
Eu iria renovar o seguro de
vida. E pedi perdão aos santos por aquele pensamento vexaminoso sobre minha
ex-futura viúva. Porque não se pode, até na hora da morte, ser tão egoísta como
fui. Ou não veria as faces cândidas de Santa Engrácia e São Pancrácio quando desembarcasse
do outro lado da vida.
 |
Imagem em labs.sogeti.com. |