Vou chamá-lo seu Gumercindo,
para não criar melindres com seus familiares. E trocarei, também, os nomes de
todos os demais. Só eu serei eu mesmo.
Pois seu Gumercindo, após o
almoço de domingo, cercado pela família numerosa, sentiu uma pontada no peito e
foi levado às carreiras para a emergência do Hospital do Andaraí, não muito
distante de casa.
O médico de plantão percebeu
que o quadro não era dos melhores e resolveu interná-lo imediatamente. Parte da
família que o acompanhou ficou estacionada na sala de espera, aguardando por
notícias vindas lá de dentro. Passado algum tempo, veio outro médico a procurar
por familiares do senhor Gumercindo Nascimento, aos quais minuciou a gravidade
do seu estado geral, motivo por que resolvera deixá-lo no centro de tratamento
intensivo. A enfermeira que o acompanhava anotou os telefones do filho mais
velho, para qualquer emergência, e disse que eles poderiam voltar para casa e
só retornar no dia seguinte, pela manhã, para notícias atualizadas sobre as
novidades do doente e uma possível visita a ele.
No dia seguinte, logo cedo,
lá foram três de seus filhos. O mais velho, Roberto, foi autorizado a ver o
pai. Ele se paramentou, higienizou as mãos e foi conduzido até o leito em que o
pai estava. Chegou próximo a ele, que tinha os olhos fechados, e disse
baixinho:
- Pai, é o Roberto. Está me
ouvindo?
O velho abriu os olhos e
respondeu que sim. Deu as informações ao filho de como passara a noite, pediu
que rezassem por ele, sem desespero, e falou que precisava dizer-lhe algo
importante, muito importante mesmo. Roberto dobrou-se um pouco sobre o leito, já
um tanto apreensivo, a fim de ouvir o que o pai lhe tinha a dizer.
- Filho, quero que você vá
até a agência do Banco do Brasil, na Rua Senador Dantas, e procure pelo gerente
Ricardo. Acho que não escapo desta e preciso que você faça isso por mim.
- Sim, pai! Pode dizer.
- Procure por ele. Ele é seu
irmão.
Roberto pensou não entender,
pois a voz do pai não tinha a potência e a clareza costumeiras, e perguntou:
- Como é mesmo, pai?!
- Procure o Ricardo, gerente
da agência. Ele é seu irmão, e é preciso acertar as coisas.
Seu Gumercindo e dona Sílvia
já tinham ultrapassado as bodas de ouro como casados, tinham cinco filhos –
três homens e duas mulheres – e vários netos. Desses, Roberta, filha do
Roberto, era a mais velha e já cursava Arquitetura na PUC. Sua vida, a dele,
sempre fora devotada à família, com quem gastava seu vasto salário de fiscal de
rendas aposentado. Pudera, por isso mesmo, dar conforto material a todos, e sua
presença era constante entre eles, apenas interrompida pelas viagens de
fiscalização aos mais diversos pontos do estado, a que todo fiscal está
sujeito.
Roberto como que não
acreditou no que ouvira. E o pai moribundo teve de repetir o pedido:
- Procure o Ricardo, na
agência da Rua Senador Dantas. Ele é seu irmão. Precisa acertar as coisas.
Pela cor com que Roberto
saiu do centro de tratamento intensivo, seus outros dois irmãos, Regina e
Ronaldo, sentiram que a situação devia ser de extrema gravidade.
- Falou com ele? Como ele
está? O que você achou? Papai está bem, não está, Roberto? – uma sucessão de
interrogações apreensivas.
Roberto não sabia como dizer
o que ouvira, mas garantiu que o velho estava em recuperação, embora ainda um
tanto debilitado e completamente ligado à parafernália hospitalar. Mas começou
cuidadoso.
- Preciso dizer a vocês uma
coisa grave. Não é quanto à saúde do papai, mas é capaz de causar um choque em
vocês.
Os irmãos se entreolharam
apreensivos com que estava por vir.
- Papai pediu que eu vá à agência
do Banco do Brasil na Senador Dantas, para falar com um irmão nosso lá. Um tal
de Ricardo.
- O quê?! – indagaram ambos
com espanto.
E foi lá, no dia seguinte, o
Roberto à procura do Ricardo.
De imediato, espantou-se com
a fisionomia do irmão, que era da mesma forma de todos. Nem precisaria de teste
de DNA. Estava na cara! E mais espantado ficou, ao saber que seu pai tinha
outra família semelhante à sua, com outros três irmãos, sendo duas mulheres e o
Ricardo, todos com a letra inicial R no nome: Roberta e Rosália. Todos mais ou
menos com as mesmas idades, nascidos em anos subsequentes uns aos outros, e já
com outros tantos filhos.
A filha mais velha do
Ricardo, a Ricarda, era também estudante de Arquitetura da PUC, da mesma sala
da Roberta, e sua melhor amiga.
Quando as duas jovens descobriram
os laços que as unia, ficaram estremecidas uma com a outra, sem saber o que se
dizerem, até que, à medida que os relacionamentos entre todos os familiares se
foram estreitando, no período de recuperação do velho Gumercindo, voltaram ao
mesmo convívio fraterno anterior.
Seu Gumercindo, ainda no
leito do hospital - e antes que fizesse a passagem desta para a melhor -, foi perdoado por suas esposas, seus filhos e netos, motivo
que o fez se recuperar por completo, ainda mais celeremente. Confortável com a
situação, resolveu promover um almoço de congraçamento, com o beneplácito das
mulheres, para que todo o estranhamento se dissipasse.
A festa rolou, todos se
divertiram, se confraternizaram, com exceção das duas esposas, que apenas
trocaram cumprimentos protocolares ao início da festa, restando cada uma no seu
canto do salão, como a que demarcar ainda seus territórios.
Passados seis meses, o
coração do velho deu-lhe novo tranco, agora com a potência redobrada, fazendo-o
finado, num pequeno átimo de tempo, sem mais essa ou aquela.
O velório foi marcado para o
Cemitério São Francisco de Paula, no Catumbi, num sábado à tarde, para onde
acorreram todos os membros das duas famílias.
Tão logo o corpo de seu
Gumercindo foi encaixado na gaveta que lhe cabia nesse epílogo da vida, dona
Sílvia mandou chamar a segunda viúva, dona Otília, aqui nomeada apenas nos estertores
do texto, para lhe dizer com todas as letras do alfabeto romano:
- Agora sumam da minha vida!
Escafedam-se! Não quero mais saber de ninguém! Desatou-se o elo que nos atava.
Está desfeito e acabado! Desapareçam!
Eu estava lá, mas não ouvi a
fala desabrida de dona Sílvia. Um dos seus netos me contou depois.
E seu Gumercindo, com o
corpo ainda nem de todo frio pelo bafo da morte, deve ter-se contorcido na
gaveta apertada em que foi descansar em paz.
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Cemitério, Carabuçu-RJ (foto do autor). |