11 de abril de 2017

ADEGA PÉROLA

(Para Roberto Assis, primo.)
Meu primo Bedu (Roberto Assis) e eu, lá pelo início dos anos 70, resolvemos ver o show que Rita Lee faria no Teatro Tereza Rachel (hoje Net Rio), num sábado de tempo agradável. Por aquela altura, éramos solteiros e abandonados.
O teatro fica na sobreloja de um shopping na Rua Siqueira Campos. Ao chegar lá, para a compra dos ingressos, encontramos uma verdadeira muvuca, que não nos permitia saber onde começava ou terminava a fila. Gal Costa desfilava sua vasta cabeleira, seu largo sorriso e suas saias rodadas no meio do povaréu.
Entramos naquilo que seria uma fila. Depois de certo tempo, combinei com o Bedu que iria dar uma volta pelas imediações, para conhecer, e depois eu ficaria na fila, para que ele também saísse na prospecção da área. Desci as escadas e saí pela entrada principal, na Siqueira Campos. Do lado oposto da rua, me chamou a atenção o movimento de pessoas num bar. Li o letreiro – Adega Pérola – e resolvi fazer uma incursão de reconhecimento. Já na entrada, fiquei maravilhado com o balcão de bons metros de comprimento, todo envidraçado e repleto de um número impensável de variados tira-gostos.
As pessoas sentavam-se em barris de vinho, em que também depositavam seus copos e os pratos com petiscos, à esquerda de quem entrava no estabelecimento. Ao fundo havia umas poucas mesas, todas já ocupadas. Da parede, pedia um aviso proibindo tocar instrumentos e fazer cantoria.
Voltei imediatamente ao furdunço da fila do teatro e disse para o Bedu abandonar a missão, porque outro valor mais alto se alevantava lá fora, a exigir nossa presença.
- Você precisa conhecer a tal Adega Pérola aqui em frente.
Descemos as escadas e, em menos de cinco minuto, já estávamos com o umbigo encostado ao balcão, com uma caneca de vinho nacional de barrica – por essa época bebíamos o que se apresentasse plausível aos nossos parcos poderes econômicos – e atrapalhados na escolha de um dos muitos tira-gostos para acompanhar.
A partir de então voltei à Adega Pérola muitas vezes. Saía de Icaraí, normalmente acompanhado de amigos – o Bedu mesmo foi em várias ocasiões comigo – e, posteriormente, da Jane, para passar uma noite de delícias gastronômicas populares do cardápio lusitano e brasileiro, regados ao tal vinho ou a chope, a depender das condições climáticas.
Assim que nos nasceu o primeiro filho, a vida mudou, como é comum. E fiquei anos sem lá voltar. Até que há cerca de oito anos, ao levar minha filha e a Jane a Copacabana, nas imediações do local, decidi, enquanto as esperava, tornar ao bar. Lá encontrei o último proprietário remanescente daqueles tempos, em que religiosamente a polícia fazia uma vistoria de olhos ditatoriais sobre os presentes.
O ambiente tinha passado por uma reforma que inverteu a posição da prateleira e do balcão. Agora eles ficam à esquerda, e as mesinhas de seis bancos fixos ficam à direita. Falei para ele sobre minha história com a casa, os bons momentos ali passados. Seus olhos brilharam, e ele abandonou a caixa registradora e veio sentar-se comigo. Disse da perda dos irmãos que eram seus sócios no empreendimento. Contou que dois antigos fregueses, na iminência do fechamento da adega, entraram na sociedade, injetando capital e propiciando a reforma que eu estava vendo. E reclamou que o Chico Buarque, que sempre ia lá para tomar sua cachacinha, não mais aparecia.
Jane chegou daí a pouco, e ele ficou tão feliz que a presenteou com uma embalagem de chocolate. Algum tempo depois, tivemos a notícia de sua morte. E temi pelo destino da casa.
Neste último sábado retornamos a ela, agora com meu cunhado Jorge e sua mulher. Ele que várias vezes fora conosco nos áureos tempos em que podíamos sair de Niterói e voltar tarde da noite, de ônibus e barca, sem o mínimo problema de segurança. Chegamos de táxi, vindos do Teatro Casa Grande, onde vimos Ubu Rei, e saímos de uber.
E o balcão gigante continua lá, bonito como só, um convite irresistível a qualquer tipo de paladar, repleto dos mais diversos tira-gostos: azeitonas variadas, quase todos os frutos do mar ao molho vinagrete, diversos peixes à escabeche, favas, ovos de codorna, alho assado, muitos embutidos, boa quantidade de queijos, sardinhas fritas, bolinhos de bacalhau, frango a passarinho e outros tantos que a cozinha providencia para chegarem quentinhos à mesa, bem ao gosto do freguês.
Desta vez, foi tudo bem planejado, para que não perdêssemos nada. Saímos com a alma e a memória revigoradas por doses de boas lembranças e sabores que ultrapassam o tempo.

O show da Rita Lee – aquele dos anos setenta – vimos tempos depois, no campo do Botafogo, em General Severiano.

Adega Pérola (imagem em Acervo O Globo).

3 comentários:

  1. Que ótima lembrança Saint-Clair. A descoberta da Adega Perola foi uma maravilha. Ainda guardo um par das canecas de cerâmica em que o vinho era servido - Roberto Assis

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  2. Ah... que bom ler isso... essa cumplicidade que criamos com os lugares onde nos sentimos bem... são, na verdade, uma extensão de nossa própria casa, onde queremos estar com os amigos e parentes para podermos contar e ouvir histórias - e tomar vinho ou chope, dependendo das condições climáticas.

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