4 de outubro de 2017

A PRIMEIRA VEZ QUE VI OURO PRETO

(Para Eduardo Campos e Rogério Barbosa, amigos.)
Já disse por aí – ou alhures, para enobrecer o texto – que devo ter alma mineira, ainda que me considere um animal sem alma. A não ser que se entenda alma como alguma coisa interior que nos individualize, nos torne particulares no meio da multidão: esse jeito próprio de ver o mundo e nele se inserir de forma única.
Pois muito bem! Esta minha alma mineira, sobretudo barroca, chegada a um queijo e a uma pinga de alambique, foi definitivamente estabelecida em meu ser na primeira vez que vi Ouro Preto. E o encantamento pelo colonial, pelo barroco, consolidou-se com a argamassa dos prazeres gustativos que as terras das Gerais têm a capacidade de despertar em qualquer ser humano que esteja aberto a novas experiências.
E, como toda primeira vez, a minha também foi inesquecível, marcada por momentos que permanecem ainda hoje na minha memória afetiva.
Era a época do então famoso Festival de Inverno de Ouro Preto, um acontecimento organizado pelos alunos da Universidade Federal de Ouro Preto, como um contraponto de liberdade, naquilo que era possível à época, ao regime militar. Ele já acontecia há uns três ou quatro anos, quando os amigos Eduardo Campos e Rogério Barbosa propuseram a viagem, em julho de 1974.
Em um bar da Miguel de Frias, encostados ao balcão e alimentados por cervejas, planejamos a viagem, enquanto a capanga do Duda, com todos os seus documentos, era roubada do seu Fusca Acidentes do Parto, estacionado bem na frente do estabelecimento. Por essa época, não tínhamos ainda o hábito de trancar tudo, com medo de ladrões. Talvez tenha começado aí com este episódio a via crucis, que só vem agravando, por que passamos atualmente.
Tivemos – Rogério e eu – de vencer a contrariedade do Eduardo, para que a viagem não se frustrasse. Na sexta-feira seguinte, à tardinha, saímos de Niterói. A Jane ia conosco. Ainda éramos apenas namorados. E, dos quatro, apenas eu não conhecia a cidade.
Como era nosso hábito então, ficamos acampados um pouco antes da entrada da cidade. Chegamos ao camping, armamos nossas barracas, tomamos o banho e partimos para a zona urbana. Os amigos e a Jane prepararam o encontro entre mim e a cidade: a partir de determinado ponto, eu deveria fechar os olhos e só abri-los assim que fosse autorizado. Rodamos alguns quilômetros – não muitos –, até que descemos do Acidentes do Parto. De olhos fechados, saí do carro guiado pela Jane e sob o comando dos três. Assim que fiquei sobre uma calçada, tive a permissão de ver. E o que vi foi de uma beleza estonteante.
Devia ser lá pelas oito ou nove horas da noite. Em pleno quadrilátero da Praça Tiradentes, bem na esquina com a Rua Cláudio Manuel, lentamente fui abrindo os olhos e o espetáculo urbano que se descortinou aos poucos foi inesquecível: a cidade estava tomada por uma névoa baixa, que encobria os telhados dos casarões e se inundava com a luz dos lampiões. Aos poucos, fui girando o corpo, conduzindo o olhar pela praça, até dar com o Museu da Inconfidência, que ficara às minhas costas. Completara, assim, o primeiro impacto em trezentos e sessenta graus com a cidade.
Fui tomado de uma emoção incomum, até então não sentida diante das coisas feitas pelo homem. A cidade não poderia ter-se preparado de melhor forma, para que o barroco e o colonial se instalassem entre minhas preferências estéticas.
Entretanto, para não dizer que tudo fosse perfeito, observamos no centro da praça, junto à estátua de Tiradentes, um veículo estranho, carrancudo, de cor preta, antena parabólica sobre sua carroceria blindada, com letras brancas a indicar que não estávamos liberados para tudo: DOPS, a famigerada polícia política do regime militar, ali a postos para as ações de praxe.
Passados esses dois sustos, carro estacionado, ainda muito poucas pessoas nas ruas, saímos para o conhecimento do que ocorria. Subindo e descendo ladeiras, ladeadas por casarões preservados, procuramos por gente, por música, por bebida e comida. Alguns porões abrigavam bares e restaurantes, onde os jovens se reuniam para confraternizar. Num desses, fomos apresentados a certa iguaria da mais tradicional cozinha mineira: o bambá de couve. Também conhecido como mambá de couve, o prato é um tipo de mingau de fubá, acrescido de pedaços de carne de porco e tiras finas de couve. É um prato de sustança, que acompanhado por vinho em caneca, desses que hoje não mais temos coragem de beber, esquentava o peito, o estômago, as canelas e a alma. E deu a energia necessária a que percorrêssemos outras tantas ladeiras, parássemos em rodas de violão a céu aberto, confraternizássemos com grupos que passavam, até voltarmos ao camping, já entrada a madrugada, para a primeira noite de sono sob o manto colonial da lua de Ouro Preto.

Resultado de imagem para Ouro Preto Guignard
Alberto da Veiga Guignard, Paisagem de Ouro Preto, 1950 (em criticadeartebh.com).


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