11 de agosto de 2016

ANTÕI NHOQUINHA


Quando você engrena um namoro que parece ter ares de coisa mais séria, dá uma vontade danada de apresentar a namorada a todos os parentes, desde os pais e irmãos, até os tios e primos, mesmo de uma família grande e espalhada no mundo. Principalmente se tal mundo é a terra natal, escondida lá no interior do estado.
Isto é tão comum, que Eduardo resolveu levar Estefânia até Paraíso do Tobias, em Miracema, para apresentá-la à parentagem de segundo e terceiro graus.
Era um sábado à tarde, na beiradinha da noite, quando chegou com a namorada à casa da Tia Cacheada. O nome da tia fora dado a ela, ainda em criança, bem se vê, pelo tipo de cabelo. Ainda que agora, ali, naquele instante, seus cabelos já não fossem tão cacheados quanto na infância, o apelido resistira ao tempo.
Tia Cacheada, ao ser apresentada à Estefânia, soltou do fundo do peito, uma frase aliviada, mas guardada por alguns anos de preocupação:
- Graças a Deus, meu filho, que você não vai acabar como seu tio Antõi Nhoquinha!
Antõi Nhoquinha – Que Deus o tivesse sob sua guarda e proteção nos escaninhos do paraíso! – havia sido um tio-avô que não serviria, certamente, de modelo para os sobrinhos. Viveu e morreu solteirão, em companhia de outros dois irmãos, encalhados como ele – Benício e Gibinha –, numa casa na roça, nos arredores de Paraíso do Tobias, vilazinha simpática, de cerca de duas mil almas dedicadas ao trabalho, perdida no noroeste do Rio de Janeiro.
Dentre as coisas que cultivava e os bichos que criava, possuía também de si uma esquisitice no viver, coisa não vislumbrada em derredor de muitas léguas. Conseguia falar melhor com os bichos do que com gente. E tinha uma grande estima por seu cachimbo de barro, em que queimava fumo de rolo picado de canivete e esfarinhado na concha da mão, sentado sobre um toco no meio do terreiro.
A casa em que moravam os irmãos era um primor de desordem, típica de moradia de homens sozinhos, cheios de manias – o tempo desenvolve manias nas pessoas, sobretudo se não são casadas, amasiadas ou orelhadas com outra qualquer.
Na cozinha, por exemplo, mobiliada por um grande fogão à lenha, um armário de madeira antigo de ranger as dobradiças e uma mesa retangular, também de madeira, servida por dois bancos compridos, não era incomum que, do armário, assim que se abrisse uma das portas, pulasse de dentro uma galinha espantada, a cacarejar, anunciando o ovo que acabara de botar.
Da cumeeira, sobre o borralho, pediam teias de aranha e picumãs enegrecidos pela fumaça da lenha cujo fogo servia a alimentar as trempes. O picumã tinha valia no estancamento de sangue que vertesse de algum corte acidental, coisa não rara na lida da roça.
Os quartos – cada um tinha o seu – pareciam acampamentos provisórios, com roupas penduradas em uma espécie de cabide comprido feito de cipó gurumbumba e pendente do teto por fios de arame. Sob cada cama, também de madeira maciça já escurecida pelo tempo e sempre em desalinho, imperava um penico de ágate branco cheio de descasques, precioso nas necessidades noturnas, vez que o quartinho, nome que se dava ao banheiro, ficava fora do corpo da casa, no fundo do terreiro.
O tal quartinho era uma construção tosca de tábuas de madeira velha, cheias de gretas, em que também se tomava banho, ou coisa que o valha. Porque era sabido que, nas poucas oportunidades que os três irmãos tinham para cuidar da higiene corporal, era comum vê-los atravessar o terreiro, em direção ao quartinho, carregando o enxugador pendurado nas costas, o sabão preto feito de cinzas do fogão e um canecão d’água, que as más línguas teimavam em dizer ser apenas e tão-somente uma xícara, com a qual tomavam o famoso banho ocasional.
A única peça mobiliária dos quartos, além das camas, eram pequenas cômodas, em que se guardavam as roupas miúdas e onde um escondia do outro, em meio às cuecas tipo samba-canção, a linguiça defumada que compravam numa vendinha na vila, quando lá iam aos sábados à noite.
No tempo em que Eduardo começara o namoro, ele morava com o primo Marcinho e a cadela Jane, assim nomeada e chamada com a pronúncia inglesa, pela semelhança do olhar, segundo eles, com a grande atriz norte-americana Jane Fonda. A casa – está lá até hoje - fica pelos lados do Engenho do Mato, região rural da cidade de Niterói. E só isso bastava para que Tia Cacheada nutrisse sérias preocupações de que aqueles sobrinhos acabassem suas vidas como Antõi Nhoquinha, Benício e Gibinha. E veja, leitor: Tia Cacheada não sabia que os dois escondiam pacotes de Miojo entre suas cuecas nos armários.
Para a tia, Antõi Nhoquinha, o mais velho dos três irmãos, era modelo a não ser imitado. E, apenas pelo fato deste antecedente familiar, Tia Cacheada sofria pesadelos constantes de preocupação de que “os meninos”, como dizia, tivessem tal destino na vida.
Por isso é que, quando Eduardo lhe apresentou a namorada, ela liberou a frase carregada de toda essa preocupação. E, para demonstrar aprovação ao namoro e cativar a moça para a família, abriu garrafas de seus famosos licores de frutas regionais – jenipapo e jabuticaba, dentre os mais apreciados –, em comemoração a tão alvissareira notícia.
Antõi Nhoquinha, Gibinha e Benício não mais deixariam herdeiros de suas esquisitices na família! Deus fosse louvado!



Almeida Jr., Caipira picando fumo, 1893 (enciclopedia.itaucultural.org.br).

3 comentários:

  1. Antõi Nhoquinha, Gibinha e Benício... "não tiveram filhos (nem deixaram sucessores), não transmitiram a nenhuma criatura o legado dos rastros deixados por suas existências": é gente humilde, que vontade de chorar! Grande abraço, Saint-Clair. Gosto de ler suas histórias.

    ResponderExcluir
  2. Uma delícia de conto. Neste texto tive que ir duas vezes consultar o meu dicionário Luso-Brasileiro, mas valeu, fiquei a saber o que é miojo e cacheada! Por acaso, acho o cabelo cacheado, bem bonito.

    ResponderExcluir