2 de julho de 2016

CACHORRO DOIDO


Era uma noite morna de domingo na vila. A missa havia acabado há bem umas duas horas, e a Rua Coronel Alfredo Portugal e a Praça Antônio Guimarães estavam cheias das mesmas pessoas de todos os dias anteriores, de todos os anos anteriores, enquanto a vila teve suas lavouras de milho, arroz, café, cana de açúcar; seu comércio pulsante; seus quebrantos e encantos. Como se fosse uma festa do interior.
Meus avós Juquinha e Maína, pais da minha mãe, tinham sua casa diante da pracinha. Eu estava lá na varanda, com meus dez-onze anos, olhando o movimento de pessoas naquele vaivém que parecia não ter fim. Mesmo que fosse tudo diminuto, tudo bem caipira, bem interiorano, aos meus olhos, contudo, era o mundo inteiro. Por essa época, achava que a vila fora o início do mundo. Tudo partira dali. O resto era o resto.
Lembro-me de algumas meninas da minha idade, com belos vestidos de domingo, a passear pela praça, naquele instante.
Até que se ouviu um grito de alerta, para um dos mais terríveis acontecimentos possíveis entre nós:
- Cachorro doido!
Nós tínhamos aprendido com as histórias que nos contavam que cachorro doido era das piores coisas que poderiam ocorrer em nossa comunidade. Uma mordida de cachorro doido era sinal de uma dolorosa morte anunciada, o padecente amarrado a uma árvore, espumando pela boca, sem poder ver água, agonizando até a morte, gritando desatinadamente. Não havia remédio possível. Eu mesmo tinha – e ainda tenho – a imagem de um homem qualquer, que nem existiu, amarrado, o corpo todo suado, a vociferar imprecações, espumando, com os olhos injetados, nos estertores da morte. Cachorro doido foi o meu maior medo.
A rua e a praça se esvaziaram rapidamente. Eu corri para minha casa, dois quarteirões além, levando a notícia de que um cachorro doido aparecera do lado do Elias Nunes e vinha em direção ao centro da vila.
Meu pai fechou toda a casa, recomendou que não saíssemos, pegou sua garrucha cano duplo, carga reforçada, e foi para o terreiro, pois havia a notícia de que o amaldiçoado viera pela rua de trás.
O quintal da casa do tio Nalim, que dava para tal rua, ficava aberto até que ele colocasse sua caminhonete na garagem. O cachorro por ali entrou.
Havia uma lua cheia a iluminar a pouca iluminação da vila, cujas lâmpadas, por essa época, pareciam tomates maduros.
Meu pai vislumbrou o vulto do cão próximo à garagem, construída em madeira. Mirou no bicho e disparou aquele tirambaço que uma garrucha cano duplo, carga dobrada, faria numa noite morna de domingo numa vila pacata do interior.
O cachorro ganiu de dor e saiu correndo.
Meu pai entrou em casa e nos disse que acertara o bicho no vazio, uma região que fica entre o final das costelas e a anca. E pediu que ninguém jamais dissesse que havia sido ele o autor do tiro. Não queria que soubessem que tinha uma arma em casa, num tempo que era comum ter arma em casa.
Ficamos todos quietos, diante das especulações de quem teria desferido tal potente – ou barulhento – tiro naquela noite morna.
No dia seguinte, encontraram o cão morto no além do valão Liberdade, depois da ponte perto da fábrica de manteiga do Libelton Boechat, já dentro das terras do Zé Doença.

Meu pai matou o cachorro doido e o medo terrível que eu tinha de ser mordido por um bicho excomungado desses, que nos metia em um sofrimento bem próximo do que padeceriam as almas condenadas ao fogo eterno do inferno, segundo a crença comum.


Teia de aranha em  poste de iluminação (foto do autor).






6 comentários:

  1. Fomos criados com os mesmos medos. Muito bom.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Não sei se teria o mesmo significado, mas aqui, nos anos após a Grande Guerra, dizíamos: Cuidado que lá vem cão raivoso!
    Havia até um professor primário, professor Roque, que tinha fama e proveito de ser muito mentiroso. Contava ele, que um dia estava em cima da ponte de Santa Clara, quando gritaram: fujam que lá vai cão raivoso!
    Eu nem pensei duas vezes, dia ele, atirei-me de cabeça para o rio, mas a meio lembrei-me que tinha um chapéu novo, dei tamanho golpe de rins que caí na água, de pé e nem o chapéu molhei.

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    1. Também aqui dizemos cão raivoso. Era o cão acometido de hidrofobia. Esse professor Roque era supimpa numa mentira. Hahah

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  4. É assim se faz a lenda: um medo e um pai herói.

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  5. Que belo texto. Que foto maravilhosa. E você, aqui, agora, Saint-Clair, revelando a autoria de gesto heroico aos olhos dos meninos e aos olhos de todos os que estavam por ali naquela noite, depois da missa, num tempo que já vai distante...

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