Há velórios e velórios.
Assim como há mortos e mortos.
Há aqueles velórios
empertigados de mortos ilustres, merecedores de toda consideração, discursos,
avaliações de sua vida laboriosa dedicada à causa da comunidade.
Há aqueles outros velórios,
de gente mais morrível, mais simples, cheia de afeto dos amigos e parentes.
Nesses não há discursos. Há causos, piadas, lembranças de acontecimentos
engraçados em que o defunto esteve envolvido. Forma, talvez, de querer segurar
sua memória, marcar a passagem para o desconhecido com as boas referências de
quem nessa vida se limitou a viver, esquecido de que se multiplicou aos olhos
de todos. Meras recomendações dos que ficam para aquele que vai atravessar o
rio da morte, sem o dinheiro para o barqueiro. Nesses velórios, a viúva chora
inconsolável, enquanto as amigas coam café, fervem leite, passam a bandeja de
broa e rosca, e os homens, no alpendre da casa, na varanda, no terreiro, falam
baixo, dão gargalhadas, raspam a garganta de um pigarro comprido. A noite alta
não pega ninguém no desaviso. Por isso, os mais chegados ficam ou se revezam,
para não deixar que as velas se apaguem e o finado fique sem luz. No finzinho
da madrugada, a luz já embabadando os morros ao longe, costuma passar um prato
fumegante de mingau de fubá ou uma boa caneca de café com leite, para matar a
ressaca da noite indormida. E o finado lá, todo feliz, porque sabe que, embora
não tenha levado absolutamente nada para pagar ao barqueiro do rio da morte,
percorre o caminho inverso da anunciação do Salvador: a sua carne se fez verbo
e continuou habitando entre nós.
![]() |
Caronte (imagem em espiraisdotempo.blogspot.com). |