Passeava
há pouco com meu netinho e, na volta para casa, dei uma olhada rápida nos
jornais expostos na banca em frente ao banco. Lá estava estampada uma tragédia
pessoal: um homem de 66 anos – um só ano mais novo do que eu – pela primeira
vez foi a um médico, o que em si não é propriamente uma tragédia, e descobriu
que é mulher.
Ora, como
pode ser uma coisa dessas? Confesso que não li a notícia, mas o direito
inalienável ao pitaco não exige conhecimento prévio de qualquer natureza, para
que se saia por aí falando sobre tudo e todos. Então vou exercê-lo soberanamente
aqui.
Voltemos,
então, à pergunta: como é que pode uma pessoa passar sessenta e seis anos da
vida pensando que é homem, e um médico qualquer, despreparado, formado não se
sabe onde, jogar na sua cara que ele é mulher?
- Seu
Jeroboão, infelizmente tenho de lhe informar que o senhor não é homem, seu
Jeroboão! O senhor é mulher, pelo que pude examinar.
- Mas,
doutor, e esse troço pendurado aqui no meio das minhas pernas?
- Isso,
seu Jeroboão, é o que a ciência chama de hipertrofia do clitóris. Isso não é um
pênis, seu Jeroboão, é um clitóris. E só mulher tem clitóris. E pelo que vejo é
uma hipertrofia e tanto. Valha-me Deus! Confesso ao senhor que nunca vi uma
hipertrofia deste tamanho neste órgão.
- Mas,
doutor, o senhor há de me desculpar a ignorância: e essas bolotas penduradas
logo embaixo?
- Outra
aberração da natureza, seu Jeroboão. Pelo que a ciência informa, elas não
poderiam estar aí, já que tecnicamente o senhor é mulher.
- E o
bigodão? E a barba que tenho de fazer sempre?
- Conheço
muita mulher barbada, seu Jeroboão. O senhor nunca foi a circo que tem mulher
barbada? Pois é! É a mesma coisa. Na minha família, seu Jeroboão, tinha uma tia
por parte de pai, uma tia avó, que tinha barba e falava grosso como o senhor.
Infelizmente já faleceu, que Deus a tenha!
- Sei não,
doutor, acho que o senhor está enganado. Eu nunca fiquei incomodado. Mulher não
fica incomodada todo mês?
- Também a
ciência explica o seu caso: quando há hipertrofia do clitóris e essas bolotas
se desenvolvem desembestadamente, as regras não vêm. Ficam inibidas pelo resto
da vida. E de regras passam a exceção, seu Jeroboão!
- Tá na
ciência isso, doutor?
- Claro
que está, seu Jeroboão! Ou o senhor está achando que sou um charlatão? Passei
anos da minha vida estudando o assunto e posso garantir, sem erro, que tudo
isto está na ciência.
- E como é
que vou explicar à Dulcina, minha mulher, com quem tenho sete filhas, mais os
netos que vieram, que eu sou mulher nessa altura da vida, doutor?
- Aí, seu
Jeroboão, o problema é seu! É bom o senhor mandar investigar, porque é muito
esquisito. Nunca soube que mulher transando com mulher desse em procriação. O
senhor, por acaso, não tem um vizinho muito chegado, muito amigo? É bom
averiguar, seu Jeroboão, porque aí tem truta.
Jeroboão
estava transtornado com a notícia do médico. Pensou que talvez tivesse sido
melhor nunca procurar um doutor formado. Lá no seu sitiozinho perdido no alto
da serra, vivia muito bem, tratando-se com ervas e plantas.
E agora o
que faria? Como falar com Dulcina, mulher de sérios princípios religiosos, que
ela esteve casada com outra mulher por mais de quarenta anos. E, pior, que a
sua parceira – ele – nunca tinha negado fogo. E também ia tirar umas suspeitas
com o compadre Tonhão Campista, vizinho de propriedade e muito chegado à
família. Tanto que é padrinho das sete filhas dele. Miserável do compadre
Tonhão Campista, pensou Jeroboão lá com seus botões.
Pagou a
consulta ao médico, que lhe deu o receituário com reguladores de menopausa e a
seguinte recomendação, assim que saía do consultório:
- Seu
Jeroboão, e trate também de ir a um cartório trocar esse nome. Que não pega bem
uma mulher como o senhor com esse nome de macho.
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