(Para Jane, Rosa e Rogério.)
Ando pelas ruas de Roma à
procura de personagens e cenários de Roma
de Felini, de 1972, magistral filme do não menos magistral diretor Federico
Fellini.
Aqui cabe uma digressão
sexagenária. Tenho como grandes do cinema os diretores italianos: além de Felinni,
Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti e Vittorio de Sica. Todos os demais
hão de me perdoar.
Mas, como dizia, procurava
sobretudo certo largo da cidade, em frente a uma igreja de estilo romano, em
que se comemorou com uma lauta macarronada o dia de San Genaro.
Claro que não achei. Nem a
igreja de San Genaro, nem o Largo de San Genaro, nem aquele italiano gordo que
levou a gigante panela de pasta para o deleite da pequena multidão aglomerada
no enquadramento da câmara comandada por Giuseppe Rotunno. Seria impossível achá-los.
Mas a cena se estabeleceu em minha memória de forma definitiva. Lembro-me,
mesmo, de que saí da sessão no extinto Cinema Icaraí e fui direto para a Gruta
di Capri, ainda hoje no mesmo endereço da Rua Miguel de Frias, saciar o desejo
por um suculento espaguete.
Mas nem toda a procura se
revelou vã.
Na quinta-feira (4/9) à
noite, fomos até a margem do Rio Tibre, para comes e bebes. O local, que os
romanos chamam de Lungotevere e tem por acréscimo a região onde está, lembra um
pouco as margens do Sena, em Paris, onde, durante o verão as pessoas vão para
comer, beber; divertir-se, enfim. Tínhamos a indicação de um amigo da Rosa,
nossa parceira de viagem, com o Rogério.
O taxista que nos conduziu
nos deixou além do rio, no Trastevere, pela ponte Garibaldi, no trecho
conhecido como Lungotevere della Anguillara onde estavam armadas várias tendas
de comidas, bebidas e badulaques em geral. Durante três meses por ano, naqueles
menos frios, isto é uma espécie de diversão dos moradores da cidade.
Descemos pela escadaria ao
lado da ponte, até a margem do rio, cujas águas não me pareceram totalmente
limpas. Ali, porém, não encontramos nada de interessante, e sobrelevava no ar
um cheiro enjoado de fritura de camarão vinda de uma das barracas. Para não
passar de todo em branco nossa ida ao local, Jane comprou algumas lembrancinhas.
Embora o local fosse agradável, e a temperatura da noite convidativa,
retornamos pela ponte e seguimos pela Via Arenula, à procura de um bom lugar
para comer. Até que vimos uma ruazinha estreita e simpática – Via de Santa
Maria del Pianto –, em que avistamos pessoas sentadas a mesas de bares.
Passamos por uma espécie
de tronqueira moderna, que impede a passagem de autos e motos, e, num pequeno
largo encontramos alguns restaurantes, um deles, inclusive, com cerca de duas
dezenas de crianças que pareciam comemorar o aniversário de uma delas.
Curiosamente, ao passarmos, ouvimos um dos pequenos dizer “É tudo brasileiro!”,
assim mesmo, na língua de Camões e Tom Zé.
Percebemos que esta é uma
área de restaurantes judaicos, pois todos ofereciam comida kosher. Um, contudo,
nos chamou a atenção pelo ambiente: o Beppe
e i suoi formaggi, cujo nome faz uma evidente alusão ao filme Rocco e i suoi fratelli, famoso drama de
1960 de Luchino Visconti.
Depois de alguma troca de
ideias, optamos pelo Beppe e qual
não foi nossa agradável surpresa. Estávamos numa casa – como o nome indica –
especializada em queijos. Ao abrir a porta, fomos atacados pelo sensacional
cheiro dos queijos dispostos dentro de um comprido balcão de vidro. Se o odor
sugeria, a visão convidava.
Tivemos sorte de, não
tendo feito reservas, encontrar mesa vaga.
O serviço é gentil,
atencioso, porém vagaroso, como aliás está assinalado em cada página do
cardápio. A pressa ali não tem vez. E foi preciso que recalibrássemos nossas
expectativas para aquilo que agora chamam slow
food.
Jane e Rosa optaram pela
mesma salada verde, com pequenos pedaços de tomates, queijos, nozes e croûtons.
Rogério e eu nos deliciamos com uma tábua com oito queijos diversos, produzidos
com leite de vaca, de cabra e de ovelha, cada um deles explicado, e colocados
na ordem da degustação. Acompanhavam os queijos um pouco de geleia, uma espécie
de gelatina de mel e condimentos secos espalhados no centro da tábua, que na
verdade era uma folha de metal escuro, com caroços de romã, que deram um toque
todo especial aos queijos. Para o toque de harmonia, um vinho branco Elena Walch
Pinot Grigio, Alto Adige DOC, pois a noite não estava muito fresca. Ao
deixarmos o local, sentado ao lado do balcão dos queijos, um italiano nos
saudou com um Viva!, erguendo sua taça.
Saímos dali praticamente
purificados. E, para completar o fascínio da experiência, após alguns instantes
esperando um táxi que nos reconduzisse ao hotel, fomos surpreendidos por uma
bela e jovem taxista italiana, a fazer sua última corrida da noite.
Não se gastou nenhum euro
em vão!
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Tábua de queijos do Beppe e i suoi formaggi (foto do autor). |