O cara, espécie de secretário particular, faz anotações sobre os desejos finais do Seu Leocádio.
- O senhor vai querer ser enterrado ou
cremado?
- Não sei. É preciso responder agora?
Depois, querer é um verbo muito forte nesta pergunta.
- É apenas para orientar a família
sobre as providências a tomar depois de tudo.
- Isso ainda não decidi. Vou pensar
hoje à noite. Amanhã te respondo.
- O senhor vai querer banda de música
acompanhando o féretro?
- Ah! Isso vou querer! Vai me fazer
voltar à infância, quando ouvia a Furiosa. E anote aí: tocando Saudades
de Matão.
- Mas, Seu Leocádio, aí o senhor estará
morto: não terá como voltar à infância. Além disso, se for cremado, não haverá
féretro. Portanto não haverá banda e muito menos Saudades de Matão!
Seu Leocádio pensa, pensa, passa a mão
pelo queixo, como sempre faz diante de resoluções intrincadas, e diz:
- Isso pode esperar para quando eu
decidir se quero virar cinzas ou ser comido pelos vermes, não pode?
- Pode, mas é que as anotações acabam
não acontecendo. E flores? E igreja? E elogio fúnebre do padre Eustáquio? Isso
tudo o senhor tem de decidir. Por exemplo, aquele bibelô que o senhor trouxe de
Paris, quando lá esteve pela primeira vez, de quem será? Tenho de anotar isso
aqui também.
- Faça uma pergunta de cada vez, senão
me atrapalho. Mas o bibelô se quebrou há muito tempo.
- Ele foi restaurado naquela loja de
antiguidades. Não se lembra?
- É verdade! Tinha me esquecido disso.
E onde ele está agora então?
- Bem aí atrás do senhor, na estante de
livros. O Camões está escorado por ele.
- Camões?! Aquela edição histórica d’Os
Lusíadas que encontrei num sebo em Coimbra?!
- Sim, essa mesma! E o senhor tem de
pensar para quem deixar seus livros também. Sua neta Marietinha é muito estudiosa.
Acho que ela vai ficar muito grata, se o senhor lhe deixar seus livros.
- Boa lembrança! Mas a Marietinha não
está morando na Finlândia? Não foi para lá atrás daquele finlandês maluco, com
o nome cheio de letras dobradas e que vive correndo maratonas mundo afora?
- Sim, ela mesma. Ele é o Eerikki, o
marido dela. Mas a gente dá um jeito de fazer os livros chegarem lá. Ou ela vem
aqui para o seu velório e aproveita para levá-los na volta.
- É verdade! Pode ser. Mas eu queria
pensar melhor. Eu poderia doá-los à biblioteca da minha velha escola primária
lá na minha terra. Tenho de pensar melhor sobre isso. O que mais você
perguntou?
- Sobre o elogio do padre Eustáquio?
- Padre Eustáquio... Padre Eustáquio...
É melhor, não. Padre Eustáquio andou falando mal de um amigo nosso que morreu
ano passado. Não quero que ele use seus conhecimentos da minha vida, para me
desabonar na hora final. São coisas antigas, mas que podem voltar na hora. Não
vou querer isso.
- Ele não fará isso, Seu Leocádio. Com
certeza! O senhor é amigo dele, desde o movimento pela emancipação da cidade.
Se lembra?
- Sim, certamente! Mas é melhor, não.
Deixe o padre Eustáquio fora disso.
- E a igreja?
- Como igreja?! Vou ter de passar pela
igreja antes de ser enterrado? Eu quase nunca vou à igreja. Poucas vezes, para
não dizer que não vou.
- O senhor é quem decide. Sua família
talvez goste. É um conforto espiritual para os que ficam.
- É melhor pensar direito. Pensando
bem, se eu passar por lá, o Padre Eustáquio poderá fazer a oração fúnebre. Uma
boa recomendação final pode abrir portas. Nunca se sabe. E ele é meu amigo.
- Então... É o que eu falava, seu
Leocádio.
- Vou pensar melhor sobre isso também.
- Seu Leocádio, está ficando tudo para
depois. O senhor ainda não decidiu nada.
- Nem decidi morrer ainda! Você não
acha que está sendo precipitado demais? Tudo pode esperar.
Naquela noite, Seu Leocádio se recolheu
por volta das vinte e duas horas, após ter tomado uma sopinha de batata-baroa
rala, com pouco sal, e migas de pão, que a mulher chamava de consomê, e não se
levantou mais. Sem resolver nada sobre seu funeral, deitado ficou para o resto
da eternidade. Ou até que virasse cinzas, ou os vermes o comessem. Nunca se
saberá.
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Gustave Caillebotte, Retrato de homem escrevendo em seu escritório, 1835 (imagem colhida em wikiart.org). |