Meu pai gostava de
passarinho e de pescaria.
João Mestre gostava de
raspar o pé-de-moleque com o canivete, para facilitar comê-lo.
Tio Tatão gostava de tocar
sanfona nas festas juninas da escola.
Domingos Peçanha gostava de
pescar e contar sobre peixes imensos que lhe escaparam do anzol.
Zé Carola gostava de contar
causos de assombração, enquanto fazia caixões para defuntos conhecidos.
Ferreirinha gostava de
negociar cavalos e passarinhos de qualidades duvidosas.
Carijó gostava de entrar de
sola em atacantes que invadiam a área do Liberdade Esporte Clube.
Zezete gostava de passar
filmes no salão do clube.
Moreninho gostava de cinema
e de qualquer comida que contivesse carne.
Narck Pontes gostava de
espargir música em seu serviço de alto-falantes pelos céus da vila.
Azamor gostava de dar
gargalhadas com as patuscadas dos amigos na venda do Argemiro.
Eloy gostava de ouvir jogos
do seu Vasco da Gama num imenso rádio Transglobe da Philco, até mesmo durante
as sessões de cinema.
Tio Nalim gostava de torcer
fervorosamente pelo time do Liberdade, não importasse a categoria que fosse.
Minha avó gostava de fazer
biscoito engano, manteiga e broa de milho.
César Portugal gostava da
vila e do seu automóvel preto cristaleira de mil novecentos e poucos.
Neném Moreira gostava de dar
reguadas nos alunos que não atentassem para suas aulas.
Aristides Lugão gostava de
pescar e ajudar meu pai na venda aos fins de semana.
Juca Teixeira gostava de
contar bravatas para os outros rirem, enquanto cuidava dos cavalos em sua
cocheira.
Argeu, Caburé e Pedro
Moranga gostavam de lamber uma branquinha nos fins de semana, até ficarem
tortos e contarem estrelas.
João Coleto gostava de
dirigir o time do Liberdade, pescar e trocar dedos de prosa com os parceiros.
Meu avô Juquinha gostava de
dar gargalhadas, como se a vida sempre fosse benfazeja.
Dona Maria Peçanha gostava de,
à tardinha, ir conversar com minha avó e experimentar um quitute fresquinho.
Cristóvão Padilha gostava de
política, de suas terras e de ajudar pessoas.
Louro gostava de tocar
maraca e pandeiro, acompanhando Darcyzinho ao violão.
Darcyzinho gostava de pinga
gelada e de soltar seus trinados em boleros e sambas-canções.
Crevalzinho gostava de fazer
casamentos e dar gargalhadas sonorosas.
Alcino gostava de pescar e
dar gargalhadas dos causos que ele mesmo contava.
Jeremias gostava de malhar o
ferro e lhe dar a serventia precisa no dia a dia.
Dona Olívia gostava de
dirigir aquele monte de alunos travessos, que iniciavam seus passos na
educação.
Antônio Xambão gostava de
ficar sentado em uma cadeira, em seu bar, observando as tacadas dos clientes na
mesa de sinuca.
Barrosinho gostava de fazer
picolés de vários sabores que encantavam a criançada.
Chico Furtado gostava de
fazer pães perfumados e rosca baroa.
Dona Mocinha, esposa do
Chico Furtado, gostava de fazer mironga, bom-bocado e marom, que nos deixavam
com água na boca.
Dirceu gostava de futucar o
dente das pessoas, para aliviar suas dores lancinantes.
Elias Pelanquinha gostava de
sair fantasiado no carnaval com um penico cheio de cerveja, com salsichas
boiando dentro.
Waldemar gostava de
consertar sapatos, dar-lhes brilho e puxar ladainhas na capela local.
Zé da Farmácia gostava de
aplicar injeção no paciente e curá-lo daquele mal recalcitrante.
Celestino Amil gostava de
fazer pães e ostentar sua família bonita para os vizinhos.
Lódi gostava de prestar
serviços aos demais, em troca de alguma ajuda para sua vida difícil.
Eu gosto de recuperar essas
memórias, para que o tempo não as deixe no limbo para sempre.
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Mnemósine, deusa grega da memória - escultura em granito de Fredrik K. B. (em wikipedia.org). |