Há
algum tempo não vejo mais os passos de meu pai pela casa. Sua última caminhada
o levou ao nada, ao vácuo.
Mas
seus passos ainda os sinto pelos cômodos em que, em vida, habitava. Sempre
passos lentos, firmes, seguros. A não ser no seu último ano entre nós, em que
deixou de caminhar.
Na
verdade, em toda a minha convivência com ele, nunca o vi caminhar de forma
apressada, ligeira. Sempre de passos serenos, confiantes, como se o mundo se fizesse
a cada pisadela no chão de modo extremamente seguro, sem surpresas. Já
conhecido desde tempos remotos.
Nem
quando ia de bicicleta para a pescaria com os amigos, imagino, ia afoito.
Pedalava com serenidade. Sentia meu pai como um vulcão extinto em sua fúria. Se
é que ele a tenha experimentado em qualquer momento. Pode ser que já tivesse
alguma atividade mais destemperada, mas isso já não transparecia em seu jeito
tranquilo.
E a
serenidade sempre foi a marca registrada de sua caminhada.
Por
isso, penso que esse meu jeito também de andar com vagar seja resquício dele em
mim. Já até precisei correr. Mas isso foi na infância. Hoje, como meu pai, vou
sereno, sem afobamento. Quero chegar até onde ele, em seu caminhar vagaroso,
chegou. E não foi curto o caminho.
A natureza
mostra que os mais lentos vivem mais. Está aí a tartaruga a não me deixar
mentir.
Não sou
propriamente uma tartaruga, mas gosto daquele seu jeito desapressado de correr
mundo. E vai longe, se deixarem. Se outros impedimentos não lhe barrarem o
caminho. É possível até que corte volta, encontre outros atalhos a não parar.
Meu pai
e eu, duas tartarugas humanas a percorrer trilhas, caminhos e estradas, com um
jeito bem simples, sem sofreguidão.
Espero
chegar lá. Como ele.
E ele
foi longe.
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Horto florestal, Miracema-RJ (foto do autor) |