João
Perigoso era perigoso lá para as negas dele. Em casa, andava pianinho, pisando
em ovos. Só dava palpite se Dona Encrenca, este o modo como se referia à sua
santa esposa nas rodas do botequim do mercado, fizesse inquirição de sua pessoa
em matéria de cano furado, curto-circuito e assuntos adjacentes. No mais, não
tugia nem mugia, sob pena de levar descompostura em que sua periculosidade
descia às raias de traquinagens de criança de fralda.
Na
vida civil, contudo, por uma questão tocada na base do sopapo numa pelada de
futebol não se sabe quantos anos atrás, quando ganhou o apelido, fazia de conta
para manter o eco do bofete liberado nas ventas de um rapaz franzino que ousou
dar-lhe uma tesoura voadora, no exato instante em que ia inaugurar o placar do
jogo entre os de camisa e os sem camisa, num acanhado campinho de chão batido e
traves de bambu. Coisa de somenos importância, de relevância discutível.
Naquele instante, entretanto, no destampatório de que foi possuído, levou a mão
aberta no pé do ouvido do magrelo, e passou a carregar o assustador apelido de
Perigoso, que, a partir de então, substituiu por completo o sobrenome de
família, de que nem tinha assim tanto orgulho: Morgado. Foi até um progresso:
de Morgado a Perigoso.
Só
dona Engrácia, a Dona Encrenca, nunca deu bola para seu afamado marido. Aliás,
desde que começaram a entabular namoro, nos idos do governo do General Gaspar
Dutra, ele já portava tal alcunha. Com ela, contudo, ele jamais tirou farinha,
jamais levantou a voz, jamais questionou seus desejos. Vivia num cabresto
curto, dando conta de cada passo seu, a fim de não ferir as suscetibilidades de
Engrácia, conhecida desde a escola primária por seu mau gênio. E passou de
namorado a noivo, de noivo a marido, sempre nessa levada, porque não gostava de
guerras conjugais, como garantia. No sacrossanto recesso do lar, conforme
pontificava, gostava de que reinasse a paz. Deixava seu proceder periculoso
apenas para a vida mundana, nos extravasos do espaço doméstico.
- E
aí, Perigoso? Qual é a última?
Perguntavam-lhe
sempre que adentrava o recinto pé-sujo do botequim do Braz, para beber umas e
outras e inventar reinações que nunca tinha vivido, apenas para manter a fama
de mau, como na canção do Erasmo. E dizia do arranca-rabo num baile a candeeiro
lá pelos lados da Serrinha, em que teve de exemplar um dançarino audacioso, que
passou dos limites na saliência com a filha de um amigo. E contava do causo no
jogo do Liberdade, em que invadiu o campo para exigir do árbitro a validação de
um gol do time da casa, em total impedimento. A turma do deixa-disso correu
atrás, para sossegar o possível perigo que ele causaria ao clube, no julgamento
da súmula durante a reunião da Liga Bonjesuense de Desportos, a rigorosa LBD, na
semana entrante. A diretoria do Liberdade, aliás, enviou ofício caprichado à
Liga, eximindo-se de toda e qualquer responsabilidade por “aquele ato insano e
de todo reprochável”, como no segundo parágrafo aduzia o remetente.
Outras
periculosidades de menor perigo ele nem avalizava. Uns e outros se metiam a
inventar histórias suas, nas rodas de conversa em torno da sinuca do bar do
Mateus, na Coreia, e ele posava de superior. Não daria aval a coisa menor, a
temeridades banais. Com ele, pelo menos no quesito ostentação, era só coisa
desassombrada, coisa de vulto, que pudesse deixar os circunstantes de queixo
caído.
Mas,
um dia, as coisas não funcionaram a contento. Estava ele passando o giz no
taco, a fim de tafulhar a bola sete na caçapa do lado direito da mesa, quando
dona Engrácia, a indigitada Dona Encrenca, adentrou os domínios masculinos
daquele recinto de jogatina e beberagem e exigiu dele, diante de todos os
presentes, e para humilhação total de sua alcunha, que imediatamente retornasse
a casa, a fim de acabar de lavar a louça que deixara pela metade.
Daí
em diante João Perigoso não se aprumou mais. Avexado com a situação, ficou
quase quinze dias sem pôr a cara na moldura da janela que dá para a rua. Enfim,
quando saiu de seu esconderijo de opróbrio, levou pelas fuças mais uma ofensa
de um moleque que passou pedalando morro abaixo:
-
João Dengoso!
E
nunca mais ninguém ouviu falar, em Liberdade, de um tal João Perigoso. De João
Dengoso também não, porque, na semana seguinte, já se tinha bandeado, com todos
os seus pertences, mais Dona Encrenca, para os lados de Nanuque, bem na divisa
do Espírito Santo com a Bahia, onde ninguém soubesse da má fama que acabara de
adquirir.
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