Não
há nada tão democrático e interativo, quanto encostar o umbigo a um balcão de
bar.
Ontem,
por exemplo, fui encomendar sanduíches no Ponto Jovem e, enquanto aguardava sua
feitura, resolvi beber um chope no Botequim Chalé, exatamente ao lado, já que a
lanchonete não vende bebida alcoólica.
Ao
entrar, entre pessoas e barris, o garçom que conversava com os outros clientes
que já lá estavam abriu espaço no balcão, para que eu também ali encostasse
meu umbigo. Era o justo instante em que ele perguntava ao português ao lado se
havia bares desse tipo na Terrinha.
Já
de posse da minha tulipa sob pressão, de farto colarinho cremoso, servida pelo
João e espécie de alvará para me meter em conversas alheias, entrei no papo que
se desenvolvia àquela altura.
Daquele
lado do balcão do botequim, que fornece um dos melhores chopes de Niterói, tornamo-nos
quatro com a minha chegada. Eu e o outro à direita passamos a explicar ao
português, que desde 2008 vem uma vez ao ano a trabalho ao Brasil, como se dá o
funcionamento das relações num balcão de bar aqui abaixo da linha do equador.
Expliquei para ele, com a autoridade de várias décadas naquele ambiente, que é
do estatuto dos bares e botequins nacionais, que não se pode beber sem puxar
conversa com o vizinho. Garanti-lhe que em todos esses anos jamais bebi um
chope ali, sem que puxasse conversa, ou me metesse em conversas já entabuladas.
E ninguém jamais estranhou isso, ou fez cara feia em sinal de desaprovação. Ao
contrário, todo conversador de balcão de bar é sempre muito bem-vindo a
qualquer papo.
É
que, em princípio, ninguém está ali debulhando problemas estritamente pessoais,
coisas de foro íntimo, confissões inconfessáveis. Os assuntos são sempre de
âmbito macro, como na economia que rege o país, e quase nunca chegam ao varejo
das lamentações privadas. A não ser que se tenha teor alcoólico muito elevado,
capaz de tirar o lacre da discrição e da língua. Por isso é que todos podem
meter sua colher de pau nas conversas de balcão de botequim, sem causar constrangimentos,
pois elas não têm dono, pertencem ao fundo coletivo das preocupações humanas
presentes nesses ambientes. Aliás, bem ao contrário, são públicas e notórias.
Na segunda
tulipa do líquido dourado, eu e o lusitano já éramos quase amigos de infância,
embora ele seja bem mais novo do que eu. E contei-lhe da minha única visita ao
seu país e da minha próxima viagem para lá agora em agosto. Ele disse morar em
Alenquer, ao me ouvir dizer que conheci Torres Vedras, onde comemos – Jane e eu
– o melhor polvo de grelha, expressão que ele me ensinou, com batatas ao murro
que um vivente pode experimentar.
Daí
a instantes o jovem que estava à minha esquerda, sumido por alguns minutos,
voltou com churrasquinhos no espeto e farofa, que fez questão de compartilhar
com todos, inclusive com os garçons que simpaticamente nos atendiam.
O
português, ao pegar seu pedaço, que fez rolar generosamente na farofa, reclamou
que na sua terra não existe essa iguaria tão brasileira, que minha mãe fazia
questão de dizer, para nos incentivar a comê-la, em criança, ser um produto da
incomparável cozinha francesa.
Resolvi
fechar a conta e pegar os sanduíches na lanchonete. Contudo o lusitano, em prol
da amizade lusófona, cavalheirescamente pagou outra rodada de chope para nós,
que, antes de levantar o brinde, nos apresentamos, a fim de que ninguém saísse
incógnito daquele prazeroso encontro: Mário, o português; eu, papa-goiaba do
norte do estado; Fernando, niteroiense; e Marcos, o rapaz do churrasquinho,
goiano da capital, com seus erres característicos e uma simpatia quase mineira.
Nó
último instante, ao cumprimentar o Mário, assim que saía do bar, ainda recebi
uma recomendação veemente:
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Não deixes de tomar um Cartuxa. É de
facto excecional! – com aquele jeito tão lusitano de tirar o P onde o mantemos
e de colocar o C de onde o tiramos.
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Bartolomeo Manfredi (1582-1622), Cena de taberna com um tocador de alaúde (wikipedia.org.). |