Às
vezes, canto no banheiro. E até gosto do que ouço, no pequeno ambiente com
acústica favorável. Parece que minha voz de pato esganado melhora um pouco, com
o amortecimento da chuva que cai do chuveiro e com a fofura das toalhas de
banho.
E,
quando canto, não canto nada além dos meus trinta anos. Se tanto! O que minha
memória reteve de letras de música são, principalmente, os versos das canções
que ouvia em menino. Talvez até Geraldo Azevedo e Alceu Valença, em seus
primeiros discos. Ou mesmo Caetano, Chico, Gil, Paulinho, também só no início. Um
tanto de Belchior, Fagner e Ednardo, em
seus começos. Depois nada mais retive. Não sei cantar nenhuma canção dos Titãs,
por exemplo. Ou da linda Tiê, de que tanto gosto. Nem da Vanessa da Mata, outra
minha paixão musical. Ou mesmo da Roberta Sá. Oh, céus!
Por
isso é que canto coisas antigas, até mesmo canções de que nunca gostei, mas que
ouvia em criança, em Carabuçu, espalhadas aos quatro ventos pelo alto-falante
do Narck Pontes. Ou as canções de serestas, que odeio, mas ouvia o Darcizinho
cantar pelas ruas e praça da minha vila natal. E também jamais gostei daquele
canto empolado, de timbre potente, voz de tenor ou barítono, que nossos
cantores populares à época faziam, com raríssimas exceções.
Assim,
quando surgiu João Gilberto, com sua voz de pavio de lamparina, achei mesmo que
poderia – eu também – me tornar um cantor famoso. Até que ouvi minha voz
gravada e não a reconheci. “Esse não sou eu falando!”, disse para o amigo
Dalmar, que fizera a gravação num poderoso gravador de rolo de fita recém
importado, à venda na Ótica Avenida, onde trabalhávamos. “É exatamente a sua voz!”,
informou ele, para a minha total decepção, mas para garantir a qualidade do
produto. Não, eu não ganharia a vida cantando, pois aquele não era um gravador
qualquer!
Mas,
a despeito de todas as provas em contrário, continuei cantando no banheiro até
semana passada. E, nessas oportunidades, me vêm à memória canções que ficaram
no limbo de nossa música popular, porque, segundo me parece, estiveram entre a
velha canção brasileira, cujos últimos intérpretes foram Nelson Gonçalves e
Orlando Silva, e a revolução trazida pela Bossa Nova e, logo depois, pela hoje
identificada MPB, com expoentes como Gil, Caetano, Chico, dentre os mais
badalados. Porém, naquele vácuo lá pelos idos de 50/60, já se prenunciava que a
estética da música popular brasileira estava a mudar de cara. Ou melhor, de
poesia, de letra. Até então o que se tinha de maior veiculação nas rádios era
uma música com temática de cais do porto, de bordel, de paixões por mulheres de
vida airosa, para ficar num eufemismo, em que o autor chorava dores de cotovelo
irremediáveis.
Tais
músicas fizeram a transição entre aquela estética antiga – e de mau gosto, para
os meus ouvidos – e a nova MPB. Traziam uma linguagem mais moderna, com novas
metáforas, e um ritmo que prenunciava a bossa-nova. E tenho quase certeza de que a
maioria de meus leitores nunca as ouviu. Menina
moça, Mulher de trinta, E daí, Carinho e Amor, Bolinha de sabão, Balanço Zona
Sul, Lembranças, Cara de palhaço, dentre
outras, e que podem soar velhas para as novas gerações.
Por
isso é que continuo singing in the bathroom
tais músicas, já que não consegui gravar nenhuma letra das que vieram depois
que meu disco rígido natural já estava sem muito espaço livre.
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