14 de fevereiro de 2017

TPO ASSIM (VII) - DOUTOR LAMARTINE


Foi só pegar num velho cartão de visita, guardado de muitos amarelos, para voltar de imediato no tempo. É o cartão do doutor Lamartine Costa, cirurgião dentista de Corumbá. É tão antigo, que o número do telefone tem apenas quatro dígitos 2674. Os mais novos vão achar que é da época do tacape e da flecha, mas faz tão-somente uns poucos instantes. É só a memória funcionar!
Jane tinha-se disposto a casar comigo, por uma deferência toda especial da sua beleza mulata, em 20 de dezembro de 1975. Sacramentado o acordo em cartório e vencida a primeira tentativa frustrada de lua de mel em Teresópolis e na posse de um mês de férias no janeiro seguinte, resolvemos mudar os planos iniciais e armamos uma longa viagem pelo chamado Cone Sul da nossa América: Bolívia, Peru, Chile e Argentina. Acompanhavam-nos nesta nova lua de mel, de mochila às costas, os amigos e padrinhos Rogério Barbosa, Eduardo Campos e sua então namorada, cujo nome não citarei, mas que era uma loura tão bela, quanto complicada.
Os planos foram traçados no mapa, apenas com o dia da partida e o da chegada.
Saímos do Rio, a bordo do vagão de bagagem do antigo Trem de Prata, até a Estação da Luz em São Paulo, porque não havia mais passagens nas demais classes. De lá, tomamos o comboio a nos levar a Corumbá. O projeto era, de lá, pegar o famoso Trem da Morte, que ligava Corumbá a Santa Cruz de la Sierra, já nos contrafortes dos Andes. Chegamos ao fim da tarde do dia seguinte. Na outra manhã, Jane começou a sentir dor em um dos dentes. Naquela situação, resolvemos procurar auxílio de um profissional, e nos foi indicado o doutor Lamartine.
Em chegando ao consultório, explicamos a ele o que estava ocorrendo e nossa situação passageira pela cidade. Doutor Lamartine dispensou duas mocinhas que aguardavam seus serviços, dizendo a elas que aquilo era uma emergência, caso de dor, remarcou suas consultas e foi atender a Jane.
Era problema de canal! E canal quando apresenta problema não dá para esperar. Prontamente ele perfurou o dente, extraiu a raiz doente, fez o curativo e as recomendações necessárias. Poderíamos continuar a viagem, sem, contudo, pegar o Trem da Morte, e, ao chegar a Niterói, Jane deveria procurar seu dentista, explicar o que houve e providenciar o tratamento definitivo, já que o curativo que fizera não tinha tal caráter. Aconselhou-nos também a, no alto dos Andes, usar pastilhas de Coramina, para prevenir palpitação, comer e beber moderadamente e evitar fazer sexo nos primeiros dias, a fim de que Jane não voltasse viúva das grimpas da América do Sul. Se você, leitor, está lendo isto, é sinal de que estou vivo até hoje.
Ao final da consulta, perguntamos o valor do tratamento, e o doutor Lamartine se recusou a receber. Disse que iríamos precisar do dinheiro para a viagem, que não aceitaria pagamento naquela hora. Quando chegássemos de volta a casa, poderíamos fazer a transferência para sua conta bancária. Ainda insistimos em pagar, mas ele, definitivamente, não aceitou.
Ficamos emocionados com seu gesto. Então pedi o número de sua conta. Foi o momento em que ele me passou o seu cartão de visita, onde anotei com caneta esferográfica: Banco do Brasil, conta número tal.
Agradecemos grandemente ao doutor Lamartine, que talvez fosse menos dez anos mais velho que nós, e nos dirigimos até os Correios, onde adquirimos um telegrama pré-pago, no qual pedi ao primo Zé Fábio, funcionário do Banco do Brasil com quem deixara alguns cheques assinados para emergências, que transferisse a quantia para o dentista.
Anos depois, tive uma colega no curso de mestrado na UFF, também de Corumbá, a quem contei toda a história. Para minha surpresa, ela me disse que o doutor Lamartine era velho amigo de sua família. Aproveitei uma de suas idas à terra natal para enviar minhas saudações a ele.
Agora o velho cartão de visita amarelado reaviva todas essas lembranças, calcadas numa emoção que só as grandes pessoas podem proporcionar.
Nunca mais tivemos notícias do doutor Lamartine Costa, cirurgião dentista de Corumbá.
Espero que ele continue do mesmo jeito que era, talvez apenas com alguns cabelos brancos.

Dentista, mestre Vitalino (em conradoleiloeiro.com.br).

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