13 de outubro de 2016

O BANDIDO CABELEIRA ESTEVE EM CARABUÇU

A Coreia é uma espécie de sub-bairro da vila de Carabuçu, antiga Liberdade. Fica após o morro do cemitério e é a continuação da Rua Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo.
Não era longe, mas, em minha cabeça e pernas de criança, era uma boa distância a se percorrer. Mas era logo ali, atingida a poucos passos. Mas a Coreia tinha seu ar, sua mística, seus mistérios. Tinha um quê de diferente do restante da vila. Pelo menos era o que minha imaginação infantil engendrava.
Pois não é que lá ocorreu, no início dos anos 50 do século passado, um fato de sair nas folhas da capital da república.
Pela época, apareceu com destaque na história criminal do Rio de Janeiro certo bandido de alcunha Cabeleira. Por se ter tornado o inimigo público número um, como era comum se dizer então, foi caçado ferozmente pela polícia.
Mas, tanto para desparecer um pouco, quanto para tramar novos crimes, Cabeleira acabou indo para Carabuçu, levado por Chico Mané, neto de Sá Luísa, parteira afamada na vila e já com mais de cem anos, e Élcio do Coruja.
Chico Mané e Élcio do Coruja, nascidos na vila, conheceram Cabeleira pelos morros do Rio de Janeiro, para onde se mudaram em busca de ganhar dinheiro fácil. Como já não fossem muito escrupulosos na vila, na cidade grande deixaram de lado qualquer resquício de conduta sensata. E convenceram Cabeleira e irem para a vila, já que certamente algum produtor de café, a grande fonte de renda da região, estaria com dinheiro da venda da última safra guardado em seu colchão. Não era comum, naqueles tempos, que as pessoas deixassem suas economias em bancos, que só existiam na cidade.
Zé Guido, antigo morador da vila e também produtor de café, achou estranha a presença e a atitude do trio, quando passou pelo bar do Mateus na Coreia, onde eles jogavam sinuca e bebiam pinga com jiló frito. Chegou mesmo a inquirir Élcio do Coruja sobre suas intenções, valendo-se da ascendência que imaginava ter por ser amigo do pai dele, o Coruja. A discussão se tornou acalorada e Élcio disparou um tiro em direção ao pé do Zé Guido, como aviso de que não estava para brincadeira, de que não se metesse a besta com ele.
Zé Guido foi até o chefe político da vila, Dudu Mestre, e contou o ocorrido, dizendo-lhe, inclusive, que o tal Cabeleira fazia parte do trio, conforme conseguira apurar.
Sem maiores delongas, Dudu Mestre pediu ao libanês Amim, dono do único carro de praça lá disponível, que rompesse os dezenove quilômetros de chão entre o distrito e Bom Jesus, no intuito de trazer a polícia armada do que pudesse, a fim de sanar aquele incômodo importado de cidade grande.
Ao chegarem, os meganhas desceram do carro ainda na entrada da vila e seguiram a pé até a Coreia. Lá os encontraram na casa de Sá Luísa, que foi cercada. Élcio, cabra frouxo e covarde que ele só, foi o primeiro a tentar a fuga pelos fundos, sendo contido por dois soldados que se postaram no quintal.
Élcio foi, então, conduzido até o táxi do Amim, que, com auxílio do Argemiro, estava incumbido de vigiá-lo. O delegado da cidade, no comando da ação, entregou a Amim uma grande peixeira, com a recomendação de que sangrasse o bandido sem piedade, caso ele tentasse a fuga. E voltou para dar continuidade ao cerco.
Chico Mané, neto da velha, outro também da mesma laia do comparsa, roeu a corda e se entregou. Cabeleira, no entanto, desassombrado e violento, opôs resistência feroz, disparando contra os policiais, um revólver em cada mão. Como era vida real, diferentemente dos bangue-bangues, a munição terminou, e o meliante foi dominado, amarrado com corda, como um porco arisco, e conduzido à delegacia de Bom Jesus do Itabapoana.
À saída do carro com os comparsas detidos, ainda se ouviu Sá Luísa de sua janela lançar uma maldição nos três, sobretudo no Cabeleira, que tinha levado seu neto querido para o caminho do pecado e do crime.
De Bom Jesus, Cabeleira foi conduzido para o Rio de Janeiro, por escolta vinda da capital, e teve o fim comum a todos os inimigos públicos da época: foi assassinado na prisão.
E foi este fato, movido a tiroteio, que, segundo minha mãe, fez com que aquele pedacinho da vila recebesse a injuriosa alcunha de Coreia, em referência ao país asiático onde, ao mesmo tempo, ocorria uma sangrenta guerra, que o dividiu em dois.

Imagem em tokdehistoria.com.br.

5 comentários:

  1. Êta cabrunco sô. Sou da época que a Coreia tinha oito botequins e tínhamos por costume, eu e Adilson, boquejarmos uma pinga e uma cerveja em cada um deles, antes do almoço, claro.

    ResponderExcluir
  2. Êta cabrunco sô. Sou da época que a Coreia tinha oito botequins e tínhamos por costume, eu e Adilson, boquejarmos uma pinga e uma cerveja em cada um deles, antes do almoço, claro.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Deixou bem claro: antes do almoço! Hahaha! Grande abraço, Paulo!

      Excluir
  3. Sensacional... Não sabia dessa história. Muito bacana a narrativa Sant-Clair Mello, mas gostaria de saber em que não isso aconteceu. Forte abraço.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pela leitura. Acho que saiu um erro na sua frase. Se for o ano do acontecido, devo dizer que foi pelo anos 50 do século passado.

      Excluir