Cada terra
com seu uso, cada roca com seu fuso. O dito popular já define bem que cada
lugarejo, por menorzinho que seja, tem lá seu jeito todo especial de viver,
sobreviver e levar a vida adiante.
Embora tenha
vivido em Carabuçu, minha terra natal, apenas até meus dezessete-dezoito anos,
tenho boa parte daquilo por que me entendo marcado por esse tempo de formação.
São as tais raízes, que, por vezes, teimam em aflorar à terra antiga da minha
memória e produzir certos textos que divido aqui com meus amigos.
Assim, de vez
em quando, sou assaltado por algum tipo de reminiscência que imagino ser
interessante dividir com os leitores. Sobretudo aquelas de cunho linguístico,
que tão bem caracterizam uma comunidade. Quem, por exemplo, nunca se notou
estranho em meio diverso do seu apenas por seu modo de falar, por uma expressão
própria, um sotaque diferente? Ou que não tenha reparado isso em pessoas que se
intrometeram no seu ambiente?
O Brasil,
esse país de dimensões sentimentais, tem uma unidade linguística invejável,
malgrado sua extensão territorial. Com poucas exceções, principalmente no
âmbito do vocabulário, nos entendemos perfeitamente de norte a sul, de leste a
oeste, sem maiores sobressaltos.
Já aqui no
blog trouxe alguns textos em que tentei resgatar a maneira peculiar por que
usávamos a nossa rica língua, à época em que lá vivi, anos 50 e 60 do século
passado.
Hoje trago um
aspecto bem especial deste mesmo falar, focado nos xingamentos e imprecações
comuns àquela altura, na nossa vilazinha perdida no noroeste do Estado do Rio
de Janeiro. Apesar do caráter fortemente rural, simplório e conservador,
Carabuçu também tinha – e deve ter até hoje! – suas raivas, seus
aborrecimentos, suas contrariedades, e os verbalizava com jeito muito peculiar.
Claro que muitos dos vocábulos e expressões aqui arrolados são comuns a outros
territórios linguísticos, já que somos frutos da mesma colonização, que, na
bagagem dos seus feitos e malfeitos, como toda e qualquer colonização porta,
deixou uma língua comum em todo o nosso território.
Organizo por
intenções de uso as principais formas que utilizávamos para xingar e imprecar.
RAIVA – Para expressar raiva diante de um fato adverso ou de um
aborrecimento, era comum usarmos:
Capeta!
Cabrunco! Diabo! Saci! Corisco! Raio! Merda! Bosta! Desgraça! Desgraceira!
Desgrama! Cacete! Praga! Preca! Caralho! Puta que pariu!
Desses, cabrunco seja talvez o termo que mais
identificava o falante de Carabuçu, embora fosse também empregado em outras
áreas próximas. Parece-me variação da forma carbúnculo,
doença grave que acomete sobretudo bovinos, ovinos e caprinos. Entretanto, no
dicionário Caldas Aulete,
sua origem é dada como desconhecida. Michaelis não o registra, bem como o Aurélio.
Preca, por exemplo, não está
dicionarizado e equivale a praga.
Não era de
muito uso o vocábulo caralho,
que o consenso julgava extremamente pesado do ponto de vista moral.
Nesses
xingamentos, não raro se reforçava a expressividade com o emprego de que, comum no uso geral da
língua: Que preca! Que praga! Que merda!
ESPANTO – Para expressar espanto diante de algum fato inusitado,
imprevisto, sempre ocorriam formas como Que
isso?! Pelo amor de Deus! Cruz-credo! Cruz em credo! Desconjuro! Desconjuro
credo! Nossa Senhora! Meu Deus! Meu Deus do céu!
OFENSA – Usavam-se várias palavras e expressões para ofender a pessoa com
quem se estivesse discutindo rispidamente.
Feadazunha! Feadaputa! Filhote de cruz-credo!
Filhote de saci! Estropício! Encravo! Cuiudo! Roncolho! Rendido! Arrombado!
Safado! Moleque! Pilantra! Atraso de vida! Desgramado! Desgraçado!
Feadazunha ou fidazunha correspondem a filho das unhas e são formas eufemísticas de filho da puta, às vezes
pronunciado feadaputa ou fidaputa, raramente usadas
diante do outro por serem extremamente ofensivas. E também porque quase todos
se conheciam, bem como as mães de quase todo mundo. O xingamento filho da puta, assim dito com
todas as letras, poderia provocar até morte, por aquela altura. Entretanto
a forma mais eufêmica de fazer este tipo de xingamento era chamar o outro de Filho da mãe!, que ofendia só um pouquinho. Como se fosse possível!
As formas cuiudo, roncolho, rendido e arrombado têm conotação sexual e eram
dirigidas aos homens. Desnecessário esclarecer a que referem tais xingações. As
formas safado e moleque, se aplicadas a homens
feitos, também eram muito ofensivas.
Atraso de
vida era expressão que denotava pessoa sem iniciativa, dessas que
atrapalham o progresso alheio, e equivalia a encravo, estropício.
Criança
arteira, desobediente ou enjoada, recebia do adulto, até mesmo dos pais,
xingamentos mais brandos, como: Bruaca!
Cagança! Entojo! Entojado(a)!
Ao homem
também se ofendia com as formas Corno!
Chifrudo! Galhudo!, como a
levantar suspeitas sobre a fidelidade da esposa. Quanto à dúvida sobre sua
masculinidade, aplicavam-se Mariquinha!
Mulherzinha! Frouxo! e Veado!
Caso, no
entanto, a referência fosse ao aspecto físico – evidentemente, ninguém elogia
-, eram comuns as formas: Caolho!
Zarolho! Fiação trocada!, se o problema fosse o estrabismo. Se se tratasse
das feições, aí usavam-se: Cara
de motor de arranque! Cara de cu! Os
que manquitolavam ou tinham problemas na marcha, com frequência eram
identificados como Deixa que
eu chuto! Aqui tá alto, aqui tá fundo! Esacabufado!
Porco! se aplicava aos que eram descuidados com a
higiene pessoal. Aos teimosos ou ignorantes, aplicavam-se: Burro! Jumento! Besta! Besta
quadrada! Mula! Tapado!
Por vezes,
acrescentava-se a esses xingamentos, para reforçar a carga semântica negativa,
a palavra empacado/empacada:
Mula empacada! Burro empacado!
O que tinha
caráter suspeito era sempre identificado como Boa
bisca!, com evidente ironia no adjetivo boa.
Boca suja!
Boca de cumbaca! e Língua de trapo! aplicavam-se aos que proferiam
palavrões ou eram indiscretos e não mantinham segredos alheios.
Para
ressaltar o caráter avarento, utilizavam-se expressões de sentido humorístico,
como: Mão de vaca! Munheca de
porco!, bem como as palavras Miserável! Miserento! e Pão-duro!
Ofensas
raciais eram sobretudo Negro
safado! Tição! Branquelo! e Branco
azedo!
Banana! Lesma! Preguiça! e Preguiçoso! serviam para
ofender os que não demonstravam muito entusiasmo por realizar trabalhos e
afazeres. Os que eram vagarosos na realização de algo eram conhecidos
como marcha lenta.
É bom registrar que as palavras desgraça e desgraçado tinham
sentido bastante negativo, por sua perspectiva religiosa – “aquilo ou aquele
que estavam sem a graça de Deus”. Usadas mais raramente, por isso mesmo, e
denotando evidente raiva do falante, eram à miúde substituídas por desgrama e desgramado.
Com frequência, muitos desses xingamentos eram antecedidos
por seu/sua: Seu miserável! Seu banana! Sua besta
quadrada! Sua mula empacada!
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Imagem em robsonpiresxerife.com. |
VOCIFERAÇÃO – Aqui arrolarei as
várias frases que eram proferidas contra o outro, a fim de que ele se afastasse
e parasse de importunar. Começo pelas de sentido mais brando, até as mais
ofensivas.
Vai peidar n’água pra fazer borbulha!, cuja última palavra era pronunciada borbolha ou bibolha.
Vai caçar preá!
Vai ver se eu estou na esquina!
Vai caçar (procurar) sua turma!
Vai te catar!
Vai à merda!
Vai cagar! / Vai cagar no mato!
Vai pro raio que o (te) parta!
Vai pro diabo que o (te) carregue!
Vai pro inferno! Vai pro meio do inferno! Vai pro quinto dos
infernos!
Vai tomar no cu! / Vai tomar na olhota do seu cu!
Evidentemente que essas duas últimas frases ofendiam gravemente e, não raro, provocavam as famosas vias de fato.
OFENSAS INFANTIS - As crianças, também frequentemente,
punham-se a implicar mutuamente, gerando, por vezes, brigas. Havia algumas
formas de provocação utilizadas nas preliminares dessas contendas.
Por vezes, um ofendia o outro chamando-o de Mané! ou Zé Mané! O menino que não jogava bola muito bem era chamado de Pereba!*, depreciativo que se aplicava também a adultos.
Frases mais elaboradas eram essas que ocorriam em forma de poesia cantada:
Frases mais elaboradas eram essas que ocorriam em forma de poesia cantada:
Zé Prequeté / tira bicho do pé, / pra comer com café!
Ou esta outra em que se introduzia o nome da criança:
João, / catibiribão, / pega a matutagem / do firinfinfão!
José, / catibiribé, / pega a matutagem / do firinfinfé!
Ainda que brandas, as ofensas dessas frases quase sempre
provocavam desavenças, brigas e trocas de mal por algum tempo.
Como os amigos leitores podem perceber, sabíamos xingar com certa
criatividade, às vezes produzindo expressões engraçadas, que atenuavam um pouco
a carga semântica negativa que elas portassem, de modo que a ofensa também não
ofendesse tanto assim. Afinal de contas, a vila era muito pequena, e os
possíveis desafetos iriam encontrar-se com bastante frequência, senão no bar do
Chambão, para uma partida de sinuca, na venda do Argemiro, para uma roda de
prosa em volta do vidro de pé de moleque.
É bem verdade que esses sãos os principais vocábulos e expressões deste tipo de
uso que me ocorreram. Espero que meus conterrâneos possam enriquecer este texto
com sua contribuição.
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* Lembrança do amigo Marcelino Medeiros, que confessou ser assim qualificado, como, aliás, eu também era.
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* Lembrança do amigo Marcelino Medeiros, que confessou ser assim qualificado, como, aliás, eu também era.