No
devagar, quase parando, tinha construído toda a sua vida. Nascera de dez meses,
com a ameaça médica de uma ação de despejo na forma de cesariana. Menino, os
dentes lhe custaram a brotar. Aprendeu a andar depois de um ano. A fala só lhe
veio aos quatro, e ainda hoje fala de modo tão manso, que dá sono no ouvinte.
Ficou adolescente às portas da idade adulta. Embora com trinta anos agora, com
cara de garoto. Talvez um privilégio.
Essa vagareza toda reflete-se em sua vida
por completo, o que justifica os apelidos de Moleza, Marcha Lenta, Pressão
Baixa, Freio de Mão Puxado.
Ainda nem pensa em casar-se, e filhos são
preocupação que não lhe ocorre. Dia desses, pela primeira vez, aproximou-se de
uma moça com segundas e terceiras intenções. Demorou tanto a entabular
conversa, que o ônibus chegou e ela foi embora, sem saber o desfecho da
cantilena. Qualquer dia, voltará ao assunto, com toda a calma do mundo.
Por ironia, trabalha nos Correios, no setor
de correspondência expressa, tendo já passado pelo de entrega rápida. Até sua
promoção é mais demorada que a dos colegas. Principalmente se for por tempo de
serviço: o seu é mais dilatado.
Para comer ovos com arroz, leva o mesmo tempo
que uma pessoa normal para comer peixe espinhento.
Sua única e exclusiva vantagem sobre os
demais mortais é também uma faca de dois gumes: quando consegue chegar ao
orgasmo, nele permanece por quatro minutos. Em compensação, tem de ser
socorrido com algodão com amônia e oxigênio. Ao voltar a si, sorriso amarelo,
diz coisas tipo o apressado come cru, devagar se vai ao longe, de grão em grão
a galinha enche o papo, a pressa é inimiga da perfeição.
Ao morrer, será seguramente o último a
chegar ao enterro, os amigos já voltando, o seu carrinho funerário
dolentemente, vagarosamente, pacientemente, pachorrentamente subindo, subindo,
subindo o morrinho do cemitério sem a mínima pressa.
![]() |
C. Portinari, "Enterro", 1959, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco. |