Carlinda chutou o pau da barraca, como se diz naquele
beco estreito do bairro fofoqueiro da Vila Coreia.
Carlinda abandonou os três filhos com o marido,
Diomedes, e fugiu com o palhaço do circo que viera instalar-se no terreno
baldio de sempre, cedido por seu Fulgêncio, sob módico aluguel.
Quando, antes da primeira luz da manhã, o caminhão do circo levantou a última poeira no
Morro do Mato, deixou no ar um peso terrível nas costas do Diomedes.
Mas Carlinda sempre fora desembestada na vida.
Quando criança pequena, como todas as crianças de sua idade,
brincava de boneca. Ao chegar aos nove anos, começou a brincar de médico e
doente com os meninos da vizinhança. Aos quinze já se deitava com os mais
espertos. Ao se casar, houve um zum-zum-zum na vila, porque mais da metade das
fofoqueiras já não esperavam que ela encontrasse quem a quisesse, difamada e
reprovada por línguas ferinas das vizinhas dos quintais de cerca de arame
farpado.
Diomedes a quis. Fez que não sabia de nada, deu-se
por desentendido – ou paspalho, como diriam os homens da sinuca e do cisprandi
– e providenciou tudo, desde o padre, até o vestido de cor creme, para que não
desse mais motivos para as línguas de trapo.
Vieram três filhos de carreirinha, um mais velho que o
outro cerca de um ano apenas: Dionísio, Deoclécio e Diomedes Júnior, o qual,
segundo as mesmas péssimas línguas, era a cara do rapaz que cortava tecidos na
loja do Cid. Até uma pinta escura sobre a sobrancelha esquerda, o menino tinha.
Valha-me Deus!
Diomedes nunca se fez de entendido. Gostava da
brincadeira.
Carlinda era uma mulher avultada nas carnes: coxas
grossas, ancas volumosas, sem exagero, platibandas superiores de fazer vista.
Era isso que ele queria. Não sabia muito bem o que seria um casamento com
Carlinda, possuída de um fogo entre as pernas famoso na vila. Tanto grande e
saliente, que ela procurou acalmá-lo muitas vezes antes de tomar estado com Diomedes.
E, possivelmente, também depois.
Nunca fizera muita questão nessa coisa de casamento,
marido e filhos. Casa para cuidar, com todos os seus encargos sem salário.
Contudo percebeu, por volta dos trinta, que começava a ficar estranha no meio
de tanta gente de sua idade já casada. Por isso não relutou em aceitar a
intermediação de sua mãe viúva para as pretensões de Diomedes, levadas até ela
após a missa de um domingo ensolarado, na pracinha da vila.
A mãe, dona Lucinda, ouviu as ponderações de Diomedes, seus
planos, suas promessas, e viu naquilo a salvação da honra da filha, tão
difamada, tão espezinhada. E chegou para ela com argumentos fortes,
contundentes.
Ia ser difícil, depois do pai morto e da previsível sucumbência de sua velha mãe – Deus a guardasse por mais tempo – manter-se vida
afora, sustentar-se.
Carlinda não trabalhava fora. Vivia, se é que se pode
dizer, de fazer paninhos e bordados, marcas e ponto em cruz, que vendia a uns e
outros. Tudo coisa de pouca monta, sem valor maior para o sustento de uma casa.
Passou quase uma semana avaliando a proposta de
Diomedes.
O pretendente era proprietário do bar da esquina da
praça, onde havia uma mesa de sinuca. Seu estabelecimento sempre estava com
fregueses. Quando as bolas não rolavam sobre o pano verde, alguém tomava uma
cerveja, um refresco de groselha, ou comia um pastel de carne moída com batata
picadinha, um bolinho de mandioca. No verão, a venda de picolés era grande.
Mas Carlinda impôs uma condição: não iria para o fogão
fazer frituras para o bar. Podia, sim, ficar ao balcão atendendo os fregueses,
nos momentos em que ele não pudesse.
Condição aceita, os dois marcaram o casamento para três
meses depois. E foi o tal zum-zum-zum na vila. Agora, inopinadamente, na calada
da madrugada, quando Diomedes se levantou para ir ao banheiro e verificar se os
filhos estavam protegidos do friozinho de maio, encontrou a janela da sala
aberta, a cortina de tule balançado e um perfume de traição recendendo no
ambiente.
Carlinda pulara a janela, pois as dobradiças da porta,
por velhas, iriam denunciar a fuga. E, como uma menina arteira, colocou o
canapé encostado à janela, a fim de lhe facilitar ultrapassá-la.
Sobre a mesa, um bilhete, em letra caprichada –
naturalmente feito com todo o cuidado –, em que se despedia dele e dos meninos
e explicava que havia encontrado, finalmente, a paixão nos braços do palhaço
Rapadura. Não a procurasse mais, não fosse desesperado atrás dela, pois até já tinha
aceitado a função da moça assistente do atirador de facas.
Diomedes, que nunca rezara em sua vida, entre lágrimas,
pediu a Deus que desnorteasse a mão do miserável atirador de facas e o fizesse acertar
uma delas bem no coração da ingrata, no dia da sua estreia triunfal no Gran
Circo Pan-Americano.Imagem em pt.dreamstime.com. |
Um texto exemplar! Um misto de realidade com imaginação!
ResponderExcluirVeio-me à memória que também eu, em criança, queria fugir com uma equilibrista do circo (Mimi Codonis)! Eu tinha 6 anos e a Mimi teria uns 15. Uma vizinha fofoqueira impediu a fuga!...
Obrigado por mais este belo texto, Saint-Clair!
Obrigado pelas palavras, Moreirinhas! O circo sempre está a nos sugerir algo. Nunca me esqueço das pernas da moça que brincava com os elefantes de um circo aqui no Rio.
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