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6 de julho de 2022

PALAVRAS E COMICHÕES

Falamos hoje sem a percepção da história que há por trás das palavras. Na verdade, a palavra vale como a pule do jogo do bicho: pro dia. O que é passado é esquecido. Quando dizemos alguma coisa, não imaginamos, nem de longe, o quanto aquela palavra andou pelo tempo, tropeçou em línguas e bocas, cortou voltas por caravanas e caravelas, até chegar ao que hoje soa e significa. Parece que, por velha, parece saída requentada do forno. Nosso saber linguístico é contemporâneo. Só nos assustamos quando ouvimos uma pessoa de mais idade usando um termo desconhecido, ou quando nos deparamos com textos escritos de décadas ou séculos atrás. Mas a palavra é uma viajora. Vem de longe, tanto no tempo, quanto no espaço. E, por isto, às vezes perde pedaços pelos caminhos que percorre, troca de trilha, muda de sentido, altera a pronúncia, mas está sempre fervendo de nova em nossa boca, a comunicar nossos pensamentos, sentimentos, emoções. A servir para nos entendermos e, por vezes, nos desentendermos com o outro.

E isso em qualquer língua. Não só na nossa.

O mais interessante, contudo, é que sempre achamos que falamos inteligivelmente. Qualquer pessoa nascida no nosso meio entende com perfeição o que dizemos, sem estranheza. Porém é só sair do país, para perceber como os outros falam complicado. É cada língua esquisita, que fica difícil acreditar que eles se entendam. E se entendem perfeitamente como nós mesmos nos entendemos, por mais estranha que tal língua possa parecer.

É que a palavra, como disse uma velha amiga de magistério, é uma experiência gestáltica. Às vezes não é necessário que a pronunciemos por inteiro para que seja entendida, sacumé? Chega a ser um simples comichão sonoro, sem sua integralidade, e é compreendida facilmente, né? Tá bom pr’ocê?

A maioria esmagadora das palavras da língua percorreu um longo caminho no tempo. Outras entraram por esses dias e já estão fazendo sucesso na boca de uns e outros. As línguas se permitem isso. São os chamados empréstimos linguísticos. A ciência, a tecnologia, os esportes, o comércio exterior, as comunicações ajudam a entrada e a saída de palavras e expressões. O uso massivo pode fazer com que elas entrem em definitivo para o léxico. O mais normal é que, ao entrarem em contato com o português, por exemplo, passem a funcionar como uma palavra comum de nossa língua.

Há, porém, algumas palavras vernáculas, provenientes do latim, que têm uma história interessante. Vou-me permitir mostrar-lhe algumas delas, leitor amigo.

As formas pronominais comigo, contigo, consigo, conosco e convosco – algumas mais usadas, outras nem tanto – vieram do latim. Lá eram, respectivamente, mecum, tecum, secum, noscum e voscum, formadas pelos pronomes mais a preposição  cum (com, em português), que indica companhia. No português arcaico, é possível encontrar atestadas formas como migo, tigo, etc., com o mesmo sentido dos pronomes modernos. Entretanto o falante deixou de perceber que o –go era a forma que o cum latino tinha assumido na passagem ao português. O que é que se fez, então? Simplesmente se acrescentou novamente a preposição de companhia, agora no início da forma: com+migo, com+tigo, etc., e criamos os pronomes comigo, contigo, etc. Assim, historicamente, tais formas têm duas vezes empregada a forma que indica companhia, uma antes e outra depois do pronome propriamente: co-mi-go.

Outra forma interessante é a do verbo comer. Em latim, a língua mãe, a noção de comer era expressa pelo verbo edere, da terceira conjugação. O radical da palavra, aquilo que expressa o sentido, é ed- (cf. inglês eat). –ere é a terminação verbal, que indica a conjugação (-e-) e o infinitivo (-re). Como o romano que levou o latim para a Península Ibérica entendia o ato de comer como um ato social e não apenas a necessidade humana de se nutrir, juntou ao verbo a preposição de companhia cum. Assim a forma passou a ser cumedere, isto é “comer em companhia de alguém”. Na passagem ao português, ocorreram regularmente certos fenômenos fonéticos. Um deles fez com que as consoantes sonoras do latim que estavam entre vogais viessem a desaparecer na passagem. Cumedere passou a comeer. Houve também a perda do –e final da forma verbal. Tal forma vigorou no português arcaico, com o hiato entre as duas vogais /e/. Como duas vogais iguais sofrem o fenômeno da crase, o verbo atual passou a comer. Vejam que o que, historicamente, compõe o verbo moderno é o que era, de início, a preposição de companhia e a terminação verbal (-e-, segunda conjugação, -r, infinitivo). Desapareceu, portanto, a raiz originária –ed-, que representa o sentido do verbo. O que a língua tratou de fazer? Simplesmente transferiu o sentido da palavra para aquilo que era o prefixo, a preposição com. Hoje temos uma gama de palavras derivadas, que o falante entende perfeitamente como membros da mesma família semântica: comida, comestível, comedouro, comilança, comensal, etc., cujo radical é com-.

Em francês há um caso interessantíssimo. Hoje, na moderna língua, é aujourd’hui, que é formada por au/jour/d/hui, literalmente “no dia de hoje”. É que, em algum momento da evolução do latim ao francês, a forma hui, oriunda do latim hodie (hoje), perdeu seu sentido. Assim os falantes tiveram necessidade, para expressar o dia atual, em lançar mão de uma expressão - au jour de hui, ou melhor, aujourd’hui. O falante atual não tem a noção de que esse finzinho da palavra, um dia, já significou sozinho tudo o que a palavra comprida hoje significa.

Fico por aqui, por hoje. Ou por aujourd’hui.

 

Imagem em solucaoperfeita.com.

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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 28/12/2014.

9 de fevereiro de 2015

COISAS EM QUE NÃO ACREDITO, MAS QUE ACONTECERAM


Embora tenha sido extremamente religioso boa parte da infância e juventude – era católico – e vivesse, por esse tempo, no interior, onde as crendices e superstições têm, ou tinham, um papel importante na vida diária, nunca fui chegado a acreditar em boa parte daquelas coisas. Tenho a impressão de que o germe da incredulidade já se esboçava lá dentro da minha cabeça.
Alguns desses tabus eu mesmo procurava quebrar; para outros, tinha alguma reserva. O medo, às vezes, me fazia prudente em não cruzar certas fronteiras.
Havia, por exemplo, coisas assim: não se pode tomar banho depois de almoçar ou jantar, porque dá congestão; não se bebe leite e se come manga, porque é um veneno mortal. O mesmo valia para beber cachaça e comer manga. Quando chovia com raios e relâmpagos, as pessoas cobriam os espelhos com um lençol, para evitar atrair o raio. Não se devia apontar o dedo para a lua, pois nasciam verrugas. As figueiras, árvores de grande porte, eram comumente mal-assombradas, sobretudo nas noites de lua cheia. Nos ermos escuros da noite, havia sacis. Mulas-sem-cabeça se manifestavam em filhos de padre e outros tipos de amaldiçoados pela sorte. Para alguns males, havia sempre uma reza, uma benzedura: espinhela caída, pescoço-duro, vento-virado, panarício, descadeiramento. Punham-se e tiravam-se quebrantos das pessoas. Havia o olho gordo, ruim de matar passarinho, fazer murchar as plantas do jardim e da horta. Fora a imensidade de simpatias e garrafadas para várias ziquiziras que assolavam as pessoas. Tínhamos na vila algumas pessoas especializadas nesses assuntos. Seu Gregório e seu filho, o Filhinho Gregório, faziam garrafadas famosas, capazes de resolver muitos incômodos. Uns eram benzedores: benziam gente e bicho achacados por alguma macacoa.
Uma delas, por exemplo, Sá Luzia, certa vez foi chamada lá em casa. Eu havia voltado do campo do glorioso Liberdade Esporte Clube, onde fora brincar de bola com meus amigos. Ao final da pelada, pulei para pegar a camisa que tinha pendurado no travessão do gol. Mal bati o pé no chão, camisa segura na mão, notei que meu pescoço tinha ficado duro. Por esse tempo, chamávamos torcicolo de pescoço-duro. Já cheguei em casa mal aprumado, pescoço de revesguete. Mamãe não conhecia melhor remédio que a reza de Sá Luzia. Quando a velha mulher chegou e disse o que tinha de fazer, fiquei cabreiro, pois ela pediu à minha mãe agulha e linha, para costurar meu pescoço. Deitei desconfiado sobre sua perna, e ela passou a costurar, sem linha, o pequeno pedaço de pano, que colocara sobre o lado do pescoço acometido pelo torcicolo. E debulhava baixinho uma reza que eu não compreendia. Daí a alguns minutos, levantei dali sem mais sentir nada.
Pouco tempo depois, apareceu-me na parte interna do dedo anelar esquerdo – o seu-vizinho – uma verruga. Quando meu pai viu aquilo, falou com seu Nico Fragoso, tabelião da vila, ateu e comunista, o qual tinha uma simpatia infalível para verrugas e outros problemas de pele. Lembro-me de que meu pai escreveu num papel, a pedido dele, meu nome completo e a data e hora do meu nascimento, pois ele iria fazer a simpatia, sem tocar em mim. Alguns dias depois a verruga desapareceu misteriosamente. E nunca mais voltou.

Aí o leitor amigo vai me perguntar se eu acreditava ou acredito nisso. E vou dizer que, desde então, até hoje, nunca acreditei nesse tipo de procedimento, mas que aconteceu comigo, ah!, isso aconteceu.

Helena Coelho, A benzedeira, 2002 (em pinturasnaifdehelenacoelho.blogspot.com).

16 de maio de 2013

NOVELAS



Engraçado, a novela Salve Jorge está acabando e não tive tempo nem de dar uma mãozinha a Jorge. Que, aliás, não sei quem é, nem se está salvo. Tenho um cunhado Jorge, mas ele não precisa de salvamento por hora. Está bem, gozando de plena saúde, tomando lá suas cervejinhas inocentes, trabalhando dentro do previsto e curtindo seus netinhos, quando a lida permite. É em casa dele, na Bicuda, na serra de Macaé, que, vez em quando, vou desfrutar um programa maneiro, tranquilo e familiar. Sempre muito bom. Fora a comilança a que nos entregamos, encantados com o tempero de minha concunhada Rita.

Começou, por outro lado, nova novela – como se isso fosse novidade! – em cuja chamada estava Ellen Roche: Sangue bom. Pedi aos céus que me dessem um pouco de pertinácia, de concentração e interesse, para acompanhar, na certeza de que em coisa em que está Ellen Roche nunca se há de errar. E, desgraçadamente, não consegui assistir a um mísero capítulo. Nem mesmo vi aquele portento que é Ellen Roche, ai, ai! Mortifico-me aqui, por saber que devo estar perdendo a imagem maravilhosa da Ellen. Mas o que fazer quando a indolência toma conta do meu ser?´

É que acompanhar novela é muito complicado, muito difícil. Exige um esforço de concentração - física e não, mental - de estar disponível naquele mesmo horário durante meses a fio. E eu não costumo ser repetitivo comigo mesmo. Apenas com os outros.

Há um tempo – e já faz algum – também perdi uma novela em que Vera Fischer, ainda no auge de sua beleza, fazia um strip-tease sobre a mesa de uma boate. Naquele momento, minha mulher gritou lá da sala:

- A Vera Fischer está fazendo strip-tease!

Como um mondrongo preguiçoso, não me desabalei do lugar em que me encontrava, pensando: outro dia vejo a cena em repeteco. Nunca me perdoo por isso. Hoje meu filho vive de implicância com ela, através do Facebook, sem ter noção de quem foi Vera Fischer para pessoas da minha geração. Inclusive já lhe chamei a atenção sobre isso: ficar destruindo os mitos dos mais velhos pode causar traumas irreversíveis na terceira idade.

As novelas sempre foram um problema para mim. Nunca consegui acompanhá-las, exceção feita talvez a Beto Rockfeller, nos idos dos sessenta, quando morava na pensão da Dona Dinorah. A novela, sucesso à época, era exibida na TV Tupi apenas aos sábados à noite, com vários capítulos concentrados. Sempre que não houvesse nada mais importante, estava eu lá diante da tevê preto-e-branco, cheia de chuviscos, acompanhando as peripécias de Beto Rockfeller, um bicão cheio de artimanhas, para se dar bem na high society.

Seguir mesmo, com devoção, algum sofrimento e grandes alegrias, só o Botafogo, que é uma novela. Convenhamos!
Vejam só a cena que perdi em Salve Jorge, por minha indolência! (imagem em veja.abril.com.br).





18 de fevereiro de 2013

SABORES DE ONTEM E DE HOJE

Estou aqui tentando pensar num assunto para um papo reto com você, leitor amigo, quando Jane, esta companheira de todas as horas, me traz um pote de jabuticabas geladinhas, colhidas ontem no quintal da casa de sua mãe em Miracema.

Não vou descrever o paladar, para que você não fique aguado, como dizemos lá, sempre que não se pode provar de algo delicioso. Não cometerei esta descortesia com você. Mas saiba que seja ela, talvez, a mais saborosa das jabuticabas que chupei na vida. E olhe que minha vida já desce desgovernada pelas corredeiras do rio, indo de encontro à cachoeira logo ali.
Quanto ao paladar, confesso, não sou pessoa saudosista. Aprendi há algum tempo que este sentido humano só está maduro aos vinte e cinco anos. Portanto tudo que provei até essa idade, pode ter sido sentido com os defeitos próprios da imaturidade gustativa.

Inclusive até comentei aqui sobre os sabores da infância, quando, num papo com meu saudoso pai, lhe dizia, por exemplo, que as mangas de hoje não têm mais o mesmo paladar das de outrora, quando eu era menino. Com a sabedoria que os pais acumulam pela vida, ele me disse que o paladar da manga não havia mudado, o que mudara era o paladar do menino.
E isto foi uma excelente dica para que eu me livrasse desse tipo de preconceito com as coisas da cidade grande, as novidades, sobretudo aquelas relativas a este ato tão comezinho e agradável, que é o comer.

Por isso é que, anteontem, estava eu na casa de minha mãe, em Bom Jesus do Norte, e rebatia o argumento do paladar do passado, relativamente à manga, dizendo que a mais saborosa que experimentei até hoje foi a manga Palmer, novidade que conheci há pouco mais de cinco anos.
Meu irmão e minha cunhada não acreditaram muito em mim e tentaram recuperar, por uma argumentação saudosista, o sabor da manga espada de nossas vidas. Mas lhes garanti que a da Palmer é superior. E descasquei uma, ainda não muito madura, das que levara para minha mãe, a fim de comprovar meu argumento. E, ainda que ela não estivesse no ponto ideal de consumo, eles puderam provar o gosto inigualável desta manga.

Outra novidade maravilhosa, descoberta também recente, é a atemoia, fruta da família da pinha (fruta-do-conde), produto do cruzamento da cherimoia, originária do Peru, com a pinha.
A atemoia tem paladar bem mais marcante que a pinha, muito mais polpa e sementes maiores, porém em número mais reduzido. Seu teor de doçura ultrapassa em muito a própria pinha. A cherimoia me é totalmente desconhecida.

Contudo outra novidade – e esta não entendo –, que me deixa politicamente grilado, é a laranja-baía importada dos Estados Unidos, que está tomando o lugar da nossa, nas gôndolas de supermercados e quitandas.
É uma laranja com a casca mais alaranjada, extremamente suculenta, sem caroço, como a nossa, e com o umbigo mais desenvolvido, em forma mesmo de uma pequenina laranja. O paladar é um pouco menos ácido que a nossa.

Confesso que tenho comprado desta, na falta da nacional, e não desgosto. No entanto o equilíbrio do sabor doce-azedo do produto brasileiro, que tende mais ao azedo, é mais instigante ao meu paladar, sempre disposto a viver perigosamente. 
Tenho adquirido esta laranja eminentemente nossa, porém importada dos EUA, mas o faço com certo pudor nacionalista (eu e esse meu antigo vezo universitário 68). Mas, para mim, é muito difícil passar por uma gôndola cheia delas e me fazer de indiferente. É a minha laranja favorita.

Agora, vou parar de chupar as jabuticabas – e encerrar este papo –. Elas têm uma péssima fama: dão prisão de ventre. Na verdade, isto nunca me aconteceu. Mas é bom prevenir. E, depois, guardo mais algumas para logo mais. Vou chupá-las pensando em você leitor, que desafortunadamente não está aqui para provar.

Jabuticaba no pé (foto do autor).

9 de maio de 2012

COITADO DO ADJETIVO! VIVA O ADJETIVO!

Quando fazia o curso de Letras, entre os anos de 1968/1971, fui como que doutrinado a ter pavor a adjetivos.
Os estudos literários de então – não sei os de agora, pois não frequento bancos escolares há muito, nem ministrei aulas de Literatura ou Teoria Literária – pintavam o adjetivo como o patinho feio da linguagem literária. Era um pobre coitado!

Propugnava-se por uma linguagem ascética, asséptica, anoréxica, praticamente um ambiente de UTI na frase, que deveria conter o menos possível de adjetivos, sobretudo aqueles chamados de valorativos (como os três usados no início deste parágrafo), por serem de caráter subjetivo, a servirem ao autor para a emissão de juízo de valor acerca do que é dito. Como se ao autor, o dono do texto, não se permitisse manifestar ponto de vista.

É bem verdade que não se pode escrever sem adjetivação, ainda que seja possível minimizar sua presença no texto. É possível, por exemplo, substituir um adjetivo por uma locução adjetiva, feita com substantivo. Lembro, por exemplo, uma expressão de O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho, em que tal recurso é recorrente: “a rinha era de conforto”, em vez de “a rinha era confortável”.

De qualquer forma – “de conforto” ou “confortável” –, a expressão adjetiva está lá.

É que, basicamente, a língua é a codificação em palavras da realidade a ser comunicada. E a percepção que se tem do mundo passível de ser traduzida em linguagem resume-se – penso eu – a: coisas e seres (substantivos), a qualidade das coisas e dos seres (adjetivos), ações e fenômenos (verbos) e a qualidade das ações e dos fenômenos (advérbios). Ou melhor, para sermos rigorosos, aquilo que o falante entende como coisas, seres, ações, fenômenos e qualidades.

Fica claro, por isso, que os adjetivos são classe de palavra extremamente necessária, como se fossem – mal comparando – uma das cores básicas do espectro visual. Constituem, com as outras três classes, o quadrilátero que estrutura a frase – unidade básica da comunicação linguística:

substantivo + adjetivo + verbo + advérbio > frase.

Todas as outras demais classes são apenas vocábulos gramaticais que se prestam a estabelecer as relações sintáticas entre essas, as verdadeiras palavras, com conceito do mundo externo à língua.

João Cabral de Melo Neto, um dos nossos maiores poetas, sempre foi badalado nos meios acadêmicos pelo fato de que sua linguagem é praticamente isenta de adjetivação. Ele se tornou o exemplo da expressão seca, enxuta.

Gosto muito de João Cabral. É um grande poeta, sem dúvida. Mas não é pelo fato de abrir mão da adjetivação como um traço de seu estilo. Há outros componentes muito mais interessantes, como o domínio do ritmo e da melodia, a precisão da palavra empregada, o universo intelectivo de seus textos, o equilíbrio entre conteúdo e forma, qualidade primordial no texto poético.

Custei algum tempo para fazer as pazes com os adjetivos, por conta do trauma da doutrinação a que fui submetido. Apenas após alguns anos na atividade de professor, é que tive a visão convicta que expressei acima sobre as classes de palavras.

É claro que um texto não pode estar calcado na adjetivação, sobretudo se ela é repetitiva, obsoleta, enfadonha (mais três adjetivos que usei aqui, viram?).

O adjetivo bem achado, bem colocado, é como uma incrustação bem feita de um detalhe numa peça maior do artesanato da palavra.

É por esta razão que nos meus textos – contos e crônicas, sobretudo – uso bastantes adjetivos e sinto que eles mais colorem, que desbotam minhas frases.

Pode ser que, um dia, eu pense diferentemente, mas por enquanto não posso prescindir desse meio vocabular que a língua me oferece aos milhares.

Todos os que escrevem com certa consciência crítica naturalmente fazem isto, e cada um segue o que lhe pareça mais adequado.

Com mais ou menos adjetivos, o texto precisa ser criativo e ter alguma coisa de ineditismo, para que possa agradar. Porque ninguém escreve para ser taxado de chato. Ainda que assim possamos ser julgados.


Marc Chagall, Le poète Mazin (séc. XX), em canais.sol.pt.



7 de maio de 2012

PARA NÃO DIZEREM QUE NÃO FALEI DO JOGO DE ONTEM

Ontem, quando saí para o Engenhão, fui-me despedir de minha mulher e lhe pedi que me desejasse boa sorte. Chateada, ela me disse:

- Eu, não! Seu time ganhou do meu, domingo passado!

Ela é vascaína, mas não se interessa muito por futebol, que também não entende muito.
Fui e não percebi que aquilo já era um sinal de má sorte. Sou um botafoguense atípico: não sou supersticioso. É que acho que dá um trabalho danado você ficar guardando com que cueca foi àquele jogo em que o Botafogo ganhou, ou a camisa, ou onde se sentou, dentre outras coisas.
Pois, no jogo de ontem, com os amigos Zatonio Lahud e Marcelo, fui sentar na fileira em que eles estiveram no jogo contra o Vasco: Oeste Superior, entrada não sei qual, fileira tal, cadeiras 20, 18 e 16. Eu fiquei na 16, porque não estava no jogo anterior. Cada um na sua: Marcelo na 20 e Zatonio na 18. O filho de Marcelo, que não foi conosco, também ficou lá na posição do jogo com o Bacalhau, algumas fileira mais abaixo, com a mesma camisa, o mesmo par de tênis e por aí afora.

Levamos aquele sacode que é preferível esquecer. Façamos de conta que foi um pesadelo. E foi mesmo!

Quando cheguei a casa, minha mulher estava quase furiosa com o Botafogo:

- O que é que houve com o Botafogo? Não jogou nada! Foi uma porcaria!

Ela é assim mesmo: quando estou em casa e vejo futebol na tevê, ela reclama e diz que todos os jogos são iguais, que é uma perda de tempo, uma bobagem. Quando vou para o estádio, ela fica vendo o jogo, até mesmo o do Botafogo.

E ainda faz análise apaixonada pela pífia exibição do time.

Acho que ela é que dá azar. Da próxima vez, vou proibi-la de ficar vendo jogos do Botafogo em minha ausência.

Nunca se sabe, não é mesmo?
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PS: O Botafogo jogou apenas os quinze primeiros minutos da partida. Os outros setenta e cinco foram totalmente do Flu.

11 de agosto de 2011

MEU AMIGO PITANGA ALERTA SOBRE DOAÇÕES AO CEDCA

Meu amigo Pitanga, colega de trabalho dos mais corretos, pede-me que coloque aqui no blog sua reclamação acerca de problemas na devolução do seu imposto de renda, por falta de comunicação de dados da beneficiária para a qual doou certa quantia.
Espero que este blog despretensioso possa ajudar de alguma forma. Eis o seu texto.

“Boa tarde, caro Amigo Saint-Clair

É possível colocar no seu blog esta mensagem, já que até a presente data nada foi resolvido?
Gostaria que alertassem a todos doadores, que não fizessem mais DOAÇÕES ao CEDCA, pois os responsáveis pouco se importam com os doadores, já que não comunicam à RECEITA FEDERAL as doações, ficando a sua devolução com pendência junto à RECEITA.
Já há dois anos que acontece comigo, e até a presente data nada foi feito pelo CEDCA junto à RECEITA, para que possa receber a minha devolução do IMPOSTO DE RENDA.
Espero há bastante tempo uma resposta, quando virá?

Obrigado Amigo.
Alivaldino Cícero Santos Pitanga.”

Esta aí, então, a mensagem, a fim de que nossos leitores tomem conhecimento do que tem ocorrido.

24 de fevereiro de 2011

PEQUENOS ANÚNCIOS

Este blog tem recebido inúmeras solicitações para veicular propaganda paga. Seu proprietário, com olho grande no que possa faturar, resolveu abrir espaço e publica aqui os primeiros pequenos anúncios. Espera-se que haja alguém interessado a responder. Cartas para a redação, pois os anunciantes pediram sigilo absoluto, com medo do imposto de renda.
 

DENTISTA PRÁTICO: Alferes da Cavalaria, tropeiro, minerador e dentista prático, especialista em bocas malditas, presentemente desempregado, tira dentes com anestesia local, ou melhor, em local incerto e não sabido. Discreto e parceiro. Roga-se não denunciá-lo ao Conselho Regional das Minas Gerais. Dá como referência o Sr. Joaquim Silvério. / Joaquim José Xavier

ESPIÃO PARTICULAR: Serviço garantido. Especialista em revolucionários e subversivos de todo tipo. Mestre em disfarces e infiltrações. Superdiscreto, não levanta suspeita, passando-se facilmente por um dos investigados. Em pouco tempo, entrega às autoridades qualquer tipo que esteja perturbando a ordem, com gesto suave. Pagamento adiantado: 30 dinheiros. Não aceita pagamento em qualquer tipo de corda. / Judas Iscariotes
PROCURAM-SE CARGOS PÚBLICOS: Partido político, sem ideologia definida, procura partido político com que possa estabelecer relações de poder estáveis, porém com alguma turbulência, como um casamento é. Não discrimina credo político – aceita-se qualquer um –, desde que esteja no governo. Todos os seus filiados estão autorizados a negociar cargos e alianças, nos âmbitos municipal, estadual e federal. Experiência atestada desde sua fundação em 1980. / PMDB, Brasília-DF.
TORNEIRO MECÂNICO RECÉM-APOSENTADO: Aposentado recentemente, com larga experiência em máquinas públicas. Aceita função nova que não exija sujar as mãos, como dar palestras, viajar por aí, exibir-se em shows e eventos. Pequeno defeito na mão não atrapalha em nada. A língua presa pode até facilitar as coisas. Cachê a combinar (não se esquecer de incluir a patroa, que o acompanha a todos os lugares). / Luís Silva
VENDO FÍGADO: Vende-se fígado, já testado e aprovado por anos de libações homéricas nos mais diversos botecos e por comida baiana temperada no azeite de dendê e reforçada na pimenta malagueta. Atualmente no estaleiro, só alambicando água, leite, chá preto e aguinha de coco. Ainda pode servir a todo o povo brasileiro que tenha o sorriso do lagarto. / João Ribeiro de Itaparica
MAUSOLÉU: Vendo mausoléu sem uso, bem montado, com estátua de bronze ao lado e alguns parentes agarrados a cargo de confiança, em local de grande valor histórico, em terras devolutas da União de estado do Nordeste, pois não pretendo morrer nunca e largar a carne-seca. A Pátria sempre há de precisar de mim! Preciso do dinheiro para compra da tinta para pintar bigode e cabelo – o preço subiu muito. Só aceito pagamento através de depósito em paraíso fiscal. Tratar com meus filhos, que a comissão fica em casa. / José Ribamar, São Luís/MA.
PIROTÉCNICO: Pirotécnico com vasta experiência em incêndios, músico e poeta incompreendido e ainda não descoberto pela mídia, aceita qualquer tipo de função em que não tenha de levar sua mãe, pois já não aguenta a pressão, ou acabará botando fogo na cidade. Muito hábil para engolidor de fogo de circo de cavalinhos. Fala latim com fluência, mesmo que isso para nada mais sirva atualmente. Referências com Peppino di Capri, Nicola di Bari e Bento di Zesseis./ Nero di Roma
Em mondoitaliamagazine.
blogspot.com

PRÍAPO: Homem maduro, rico e poderoso, do ramo de comunicações, com os cabelos sempre penteados, atualmente em cargo político de destaque, que sofre de priapismo incontrolável, necessita de moças jovens e bonitas, descompromissadas, discretas e que não saiam dando com a língua nos dentes, para bunga-bungas e altre cose di piu. Posso, depois, interceder por cada uma, nas mais diversas esferas, quando fizer merda. Ligações para o Palazzo Chigi, pelo telefone privativo. / Silvio B., Primo do Ministro

Imagem best-cine.com.
CRUZEIRO MARÍTIMO: Venha fazer a travessia do Atlântico, no maior e mais moderno navio de cruzeiro do mundo, praticamente insubmergível. Guiado pela nova tecnologia de GPS, adquirida na feira de Acari (Rio de Janeiro/BR). Saída de Southampton. Viagem inaugural, segura e garantida até Nova Iorque. Afogue suas mágoas a bordo com as melhores bebidas: vinhos finos, champanhes, uísques com gelo à vontade e a famosa cachaça brasileira na Água. Darei minha vida para satisfazer a sua: palavra de comandante. / Comandante Smith, RMS Titanic


Em vitrine.blog.br
PÊNALTIS E CHUTES A GOL: Entes do folclore brasileiro e personagens da literatura universal, um tanto ou quanto folgados no momento, em virtude dos brinquedos tecnológicos, vêm oferecer seus serviços para clubes de futebol carioca bicolores ou tricolores, que cheguem à final de torneios e necessitem cobrar tiros livres diretos da marca da cal. Temos pernas firmes, pés retos e confiáveis e não costumamos falhar na hora exata. / Saci Pererê, Curupira, Pinóquio e Pirata da Perna-de-Pau

17 de dezembro de 2010

CONCURSO NACIONAL DE CONTOS JOSÉ CÂNDIDO DE CARVALHO


Mais uma vez este ano, a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes, através da Fundação Cultural Jornalista Osvaldo Lima, promoveu nova edição do concurso nacional de contos, cuja denominação dá título a esta nota.
Vi, achei interessante e para lá enviei três contos, conforme permitido em seu regulamento. E qual não foi minha surpresa ao ver que um deles obteve o segundo lugar. Hoje estou publicando o conto no blog, para que os meus parcos e pacientes amigos-leitores também o conheçam.
Este conto, todos os que me leem perceberão muito bem, é uma homenagem que presto ao grande José Cândido de Carvalho, na minha opinião um dos maiores escritores de língua portuguesa.
Assim, para a consecução desse fim, tentei fazer a aproximação da linguagem do meu conto à de sua obra-prima O coronel e o lobisomem.
O conto vai aí abaixo.

6 de dezembro de 2010

MULHERES BRASILEIRAS - MULATAS (PS)

Este post scriptum extemporâneo, muito depois da publicação da crônica dedicada às nossas mulheres mulatas (veja em http://asfaltoemato.spaces.live.com/blog/cns!423604DCC16797D8!355.entry) tem sua justficativa: dia desses vi a mesma mulata monumental, ciclópica, acachapante, idiossincrática (sei que a palavra não se aplica ao caso, mas é isso que me parece), esperando a abertura da mesma agência bancária de Icaraí, bem próxima do meu endereço.
Fiquei deverasmente (permitam-me o advérbio) preocupado com o cidadão a receber a visita da mulata. Não há alibi, habeas corpus, defesa, despacho, simpatia, sessão de descarrego, exorcismo, capazes de livrá-lo. Ainda bem para ele, porque a mulata é de fazer Cabral perder o caminho marítimo para as Índias. Valha-me, Deus!