Asfalto&Mato
contos, crônicas, poesias e dedos de prosa
6 de agosto de 2026
LÍNGUA (II)
21 de julho de 2026
EXPECTATIVA
1 de julho de 2026
GOL DE PORCO
(Em comemoração à Copa do Mundo da FIFA, compartilho aqui este conto esportivo, publicado originariamente em Gritos&Bochichos.)
O campo do Fluminensinho margeava bem junto do Rio Itabapoana, do lado do Estado do Rio, próximo à charqueada.
Era meramente um espaço demarcado num gramado um pouco mais amplo, decorado com duas balizas de madeira simples e escassa marcação das linhas regulares dos gramados oficiais. E tinha dimensões acanhadas para os padrões atuais.
O Fluminensinho mesmo não fazia parte da chamada elite do futebol bonjesuense e disputava seus esporádicos jogos, quase sem plateia, lá uma vez e outra. Torcida mesmo, acho que também não tinha. Assim como sede, ou uniforme completo. Seus jogadores não jogavam em nenhum dos dois clubes importantes das duas Bom Jesus, o Olímpico, do lado fluminense, e o Ordem e Progresso, do lado capixaba. E seus abnegados atletas de ocasião se cotizavam sempre que surgia despesa com bola, rede, cal, pinga, carne para churrasco e cerveja.
No entanto o Fluminensinho disputava partidas, com todas as consequências inerentes a este antigo e viril esporte bretão.
Num desses jogos, contra um certo time Tupi, de plagas adjacentes a Bom Jesus, a disputa seguia ferrenha, mas sem que nenhuma das equipes tivesse ainda furado as redes do adversário. No Fluminensinho, dois jogadores se destacavam. Nem tanto por suas habilidades com a redonda, mas antes por sua compleição física, digamos, um tanto avantajada.
Um era o Absoluto, negro alto, dobrado da cintura para cima, que trabalhava como carregador e descarregador de caminhões, para o comércio local. Dizia sua mitologia da época que ele era capaz de transportar quatro sacos de sessenta quilos de uma só vez: um na cabeça, um sob cada braço e o quarto nos dentes. Tirante isso, era um homem cordial, de muito bom humor e prestativo para quem dele necessitasse. Também com aquela massa muscular, não havia ninguém que tirasse farinha com ele!
O outro era o Nivaldo. Mulato também dobrado, entregador de banda de boi do matadouro da cidade, a qual ele carregava nas costas com uma facilidade tão grande, que parecia transportar fardo de algodão. Nivaldo tinha um bigodinho estreito a fazer comichão na platibanda do beiço, o que lhe dava aspecto de cantor de boleros e sambas-canções na guaxa localizada um pouco mais acima do mesmo rio. Mas também ninguém tinha coragem de dizer isso em público ou em privado.
Os dois, Absoluto e Nivaldo, compunham a dupla de ataque do Fluminensinho, de modo que todo e qualquer adversário já entrava em campo com metade da razão perdida, na discussão de possíveis erros e acertos de arbitragem. Mas eles não entravam para brigar, e sim para jogar sua bolinha descompromissada dos fins de semana.
Pois ia lá o jogo empatado até quase o final da partida, quando um meio-campista lança a bola na direita, para a entrada em profundidade do Absoluto, que disparou no espaço aberto. Quando ele lá chegou, em sincronia com a pelota, inadvertidamente adentrou o gramado do Fluminensinho distraído leitão, proveniente dos lados da charqueada, fugindo da corrida de um cachorro vira-lata. O pobrezinho coitado, na inocência dos seus seis quilos e pouco, entrou no ângulo da linha da bola e do pé do Absoluto, naquela confluência em que, se atingida, dela não se escapa, e foi pego no vazio pelo pontapé potente do atacante tricolor. E voou ele, na mesma curva que faria a redonda se lá estivesse, em direção à área, para onde, também como um corisco, se precipitava Nivaldo e toda a sua pessoa dobrada. Nivaldo chegou no exato instante de meter a cabeça no mamífero artiodáctilo doméstico, da família dos Suídeos, e mandá-lo ao fundo das redes e assim assinalar o primeiro e único gol suíno de que tenho notícia, em setenta e poucos anos de causos e histórias.
E o Fluminensinho venceu mais uma emocionante contenda. Só o artilheiro não conseguiu ir até o fundo das redes pegar a bola e beijá-la, porque àquela altura o porquinho fugia grunhindo, em desabalada carreira na direção do vira-lata.
12 de junho de 2026
HUMANOS
31 de março de 2026
EU TE AMAREI
(Para minha netinha Maria, autora do autorretrato que ilustra o poema. )
Até que a luz se apague
No quarto
Na festa
Na cidade
No universo.
Eu te amarei
Em palavra
Prosa e verso
Em verbo e carne
Enquanto a minha carne
Sustentar os sonhos
Que sonho por ti.
Eu te amarei
Por todo o tempo
Antes
Durante
E depois
Do que já foi e será
Um dia
E até o fim,
Maria.
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| Maria Linhares, Autorretrato, 2026. |
21 de março de 2026
O CURIÓ (Conto ligeiro)
Numa manhã, encontrou o curió morto dentro da gaiola. Formigas o tinham aniquilado, sem respeito ao canto maravilhoso. Caiu, assim, na maior prostração.
As manhãs de
domingo seguintes pareciam o silêncio etéreo e o abandono trágico da criatura.
Vagava por entre as alamedas do Campo de São Bento, olhando as gaiolas dos
amigos. Todas lindas, deslumbrantes. Mais e mais humilhou-se. Sem o curió, o
menor dos mortais. Sem o pássaro, nem os filhos, nem a mulher.
Murchou
tanto, definhou tanto, que perdeu suas próprias canções, seus íntimos gorjeios.
Num dia de
muda, o frio intenso da solidão, amanheceu morto sobre a cama do casal, a
mulher chorando, a porta da gaiola aberta para o desconhecido.
Curió (imagem colhida em https://play.google.com/)
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PS: Este conto ligeiro, da década de 80, foi baseado em pássaro e formigas reais e pessoa e desfecho imaginários, de um tempo em que ter pássaros em gaiolas não se constituía em crime.
14 de março de 2026
CANTO DE GUERRA
dilacerem-se
estraçalhem-se
devorem-se por lá
ministros presidentes aiatolás
mas me deixem por aqui
tocando meu barco soprado a sonho
e minha vida movida a desespero
engulam-se
destruam-se
eliminem-se
idiotas eternos da guerra
chacais abjetos da violência
mas evitem-me qualquer parcela em sua luta
livrem minha cara de sua saliva irada
meu sangue não tingirá suas mãos despóticas
nem meus descompassos marcharão nos exércitos
dos que destroem homens
e continuam impunes
morram todos vocês
para que os povos enfim sobrevivam
do que lhes sobrar desses tempos de estupidez
[e ódio
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Nota: Este poema é do inícios dos anos 80 e está publicado em meu livro Ucronia, pelo Clube de Autores. Trago-o aqui por nunca ter deixado de expressar minha opinião sobre os que promovem guerras.

