Asfalto&Mato
contos, crônicas, poesias e dedos de prosa
21 de julho de 2026
EXPECTATIVA
1 de julho de 2026
GOL DE PORCO
(Em comemoração à Copa do Mundo da FIFA, compartilho aqui este conto esportivo, publicado originariamente em Gritos&Bochichos.)
O campo do Fluminensinho margeava bem junto do Rio Itabapoana, do lado do Estado do Rio, próximo à charqueada.
Era meramente um espaço demarcado num gramado um pouco mais amplo, decorado com duas balizas de madeira simples e escassa marcação das linhas regulares dos gramados oficiais. E tinha dimensões acanhadas para os padrões atuais.
O Fluminensinho mesmo não fazia parte da chamada elite do futebol bonjesuense e disputava seus esporádicos jogos, quase sem plateia, lá uma vez e outra. Torcida mesmo, acho que também não tinha. Assim como sede, ou uniforme completo. Seus jogadores não jogavam em nenhum dos dois clubes importantes das duas Bom Jesus, o Olímpico, do lado fluminense, e o Ordem e Progresso, do lado capixaba. E seus abnegados atletas de ocasião se cotizavam sempre que surgia despesa com bola, rede, cal, pinga, carne para churrasco e cerveja.
No entanto o Fluminensinho disputava partidas, com todas as consequências inerentes a este antigo e viril esporte bretão.
Num desses jogos, contra um certo time Tupi, de plagas adjacentes a Bom Jesus, a disputa seguia ferrenha, mas sem que nenhuma das equipes tivesse ainda furado as redes do adversário. No Fluminensinho, dois jogadores se destacavam. Nem tanto por suas habilidades com a redonda, mas antes por sua compleição física, digamos, um tanto avantajada.
Um era o Absoluto, negro alto, dobrado da cintura para cima, que trabalhava como carregador e descarregador de caminhões, para o comércio local. Dizia sua mitologia da época que ele era capaz de transportar quatro sacos de sessenta quilos de uma só vez: um na cabeça, um sob cada braço e o quarto nos dentes. Tirante isso, era um homem cordial, de muito bom humor e prestativo para quem dele necessitasse. Também com aquela massa muscular, não havia ninguém que tirasse farinha com ele!
O outro era o Nivaldo. Mulato também dobrado, entregador de banda de boi do matadouro da cidade, a qual ele carregava nas costas com uma facilidade tão grande, que parecia transportar fardo de algodão. Nivaldo tinha um bigodinho estreito a fazer comichão na platibanda do beiço, o que lhe dava aspecto de cantor de boleros e sambas-canções na guaxa localizada um pouco mais acima do mesmo rio. Mas também ninguém tinha coragem de dizer isso em público ou em privado.
Os dois, Absoluto e Nivaldo, compunham a dupla de ataque do Fluminensinho, de modo que todo e qualquer adversário já entrava em campo com metade da razão perdida, na discussão de possíveis erros e acertos de arbitragem. Mas eles não entravam para brigar, e sim para jogar sua bolinha descompromissada dos fins de semana.
Pois ia lá o jogo empatado até quase o final da partida, quando um meio-campista lança a bola na direita, para a entrada em profundidade do Absoluto, que disparou no espaço aberto. Quando ele lá chegou, em sincronia com a pelota, inadvertidamente adentrou o gramado do Fluminensinho distraído leitão, proveniente dos lados da charqueada, fugindo da corrida de um cachorro vira-lata. O pobrezinho coitado, na inocência dos seus seis quilos e pouco, entrou no ângulo da linha da bola e do pé do Absoluto, naquela confluência em que, se atingida, dela não se escapa, e foi pego no vazio pelo pontapé potente do atacante tricolor. E voou ele, na mesma curva que faria a redonda se lá estivesse, em direção à área, para onde, também como um corisco, se precipitava Nivaldo e toda a sua pessoa dobrada. Nivaldo chegou no exato instante de meter a cabeça no mamífero artiodáctilo doméstico, da família dos Suídeos, e mandá-lo ao fundo das redes e assim assinalar o primeiro e único gol suíno de que tenho notícia, em setenta e poucos anos de causos e histórias.
E o Fluminensinho venceu mais uma emocionante contenda. Só o artilheiro não conseguiu ir até o fundo das redes pegar a bola e beijá-la, porque àquela altura o porquinho fugia grunhindo, em desabalada carreira na direção do vira-lata.
12 de junho de 2026
HUMANOS
31 de março de 2026
EU TE AMAREI
(Para minha netinha Maria, autora do autorretrato que ilustra o poema. )
Até que a luz se apague
No quarto
Na festa
Na cidade
No universo.
Eu te amarei
Em palavra
Prosa e verso
Em verbo e carne
Enquanto a minha carne
Sustentar os sonhos
Que sonho por ti.
Eu te amarei
Por todo o tempo
Antes
Durante
E depois
Do que já foi e será
Um dia
E até o fim,
Maria.
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| Maria Linhares, Autorretrato, 2026. |
21 de março de 2026
O CURIÓ (Conto ligeiro)
Numa manhã, encontrou o curió morto dentro da gaiola. Formigas o tinham aniquilado, sem respeito ao canto maravilhoso. Caiu, assim, na maior prostração.
As manhãs de
domingo seguintes pareciam o silêncio etéreo e o abandono trágico da criatura.
Vagava por entre as alamedas do Campo de São Bento, olhando as gaiolas dos
amigos. Todas lindas, deslumbrantes. Mais e mais humilhou-se. Sem o curió, o
menor dos mortais. Sem o pássaro, nem os filhos, nem a mulher.
Murchou
tanto, definhou tanto, que perdeu suas próprias canções, seus íntimos gorjeios.
Num dia de
muda, o frio intenso da solidão, amanheceu morto sobre a cama do casal, a
mulher chorando, a porta da gaiola aberta para o desconhecido.
Curió (imagem colhida em https://play.google.com/)
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PS: Este conto ligeiro, da década de 80, foi baseado em pássaro e formigas reais e pessoa e desfecho imaginários, de um tempo em que ter pássaros em gaiolas não se constituía em crime.
14 de março de 2026
CANTO DE GUERRA
dilacerem-se
estraçalhem-se
devorem-se por lá
ministros presidentes aiatolás
mas me deixem por aqui
tocando meu barco soprado a sonho
e minha vida movida a desespero
engulam-se
destruam-se
eliminem-se
idiotas eternos da guerra
chacais abjetos da violência
mas evitem-me qualquer parcela em sua luta
livrem minha cara de sua saliva irada
meu sangue não tingirá suas mãos despóticas
nem meus descompassos marcharão nos exércitos
dos que destroem homens
e continuam impunes
morram todos vocês
para que os povos enfim sobrevivam
do que lhes sobrar desses tempos de estupidez
[e ódio
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Nota: Este poema é do inícios dos anos 80 e está publicado em meu livro Ucronia, pelo Clube de Autores. Trago-o aqui por nunca ter deixado de expressar minha opinião sobre os que promovem guerras.
19 de fevereiro de 2026
"TAL VAI O MEU AMIGO..."
(Para Jane, Eduardo e Guilherme Padilha.)
Lá se foi mais um grande amigo: José Luiz Padilha Martins.
Aliás o ser vivo tem a péssima mania de morrer. Digo isso em tom de humor, para amenizar um pouco a dor da perda desse amigo de infância, de juventude, de idade adulta e de velhice. Não vou aqui contemporizar com expressões como terceira idade, melhor idade, ou coisa que o valha. Da minha idade (Na verdade ele é seis meses mais velho que eu.), começamos nossa relação de toda uma vida nas ruas de Carabuçu, nos espaços do Grupo Escolar Marcílio Dias, nas reuniões do Friend’s Clube, lá nos idos de 60 do século passado, criado por iniciativa do Celinho (Célio Domingues Machado), meu primo, que conseguiu com isso, ainda mais, estreitar os laços entre nós. E, sobretudo, na paixão pelas mesmas meninas bonitas da vila, pela música brasileira, pela novidade do tal de roquenrol e da Bossa Nova, que surgiu como um respiro de renovação na até então música brasileira. Ficamos fãs de Elvis Presley e João Gilberto; de Little Richard e Tom Jobim. Assim bem misturados, sem fronteiras que pudessem barrar nosso desejo de novidade e arte, ainda que estivéssemos numa pequena vila do interior do antigo Estado do Rio de Janeiro.
Quando, aos quinze anos, fui aprender o ofício de barbeiro com o Moreninho, por instrução do meu pai, o amigo Zé Luiz era um dos que se dispunham a enfrentar minhas primeiras tesouradas nas cabeleiras dos clientes. E jamais pôs um reparo, ou reclamou de caminhos de rato que pudesse ter feito em seu cabelo.
E foi numa dessas oportunidades que trocamos ideias a respeito do sucesso que o show de Bossa Nova, levado por artistas brasileiros ao Carnegie Hall, fez em Nova Iorque e, a partir daí, em boa parte do planeta. Lá, em Carabuçu, Zé Luiz e eu estávamos orgulhosos da repercussão da nossa música em terra de gringo.
Alguns anos depois, vim para Niterói, atrás do meu curso superior. Zé Luiz ficou por lá, estudou, se aprimorou, inteligente e interessado que sempre foi, tornou-se um professor amado por seus alunos e personagem crucial para a Educação no nosso município.
Por esse tempo, aproveitou para conhecer e se apaixonar por sua Jane, de cuja relação vieram Dudu e Guilherme, que anos depois lhe deram netos.
Mas antes que seus netos surgissem e, já aposentado do magistério, veio para Niterói, onde pudemos retomar a convivência que tivéramos na infância e na juventude. E foram diversas oportunidades em que viajamos por aí, nos encontramos em torno de uma cerveja no Mondial de la Bière, por exemplo, de um vinho, de uma feijoada, de uma confraternização, de um papo descontraído, sempre regado a inteligência e bom humor, como ele sabia conduzir.
E continuamos amantes da música, já de gostos um pouco diferentes. Ele, que ficara por mais tempo na terra natal, desenvolveu a paixão pelo jazz. Eu, que vim ainda jovem para a cidade grande, me agarrei aos sons tradicionais da música brasileira. Nenhum de nós – nem ele, nem eu –, porém, abriu mão da boa música, não importasse o estilo.
Agora, esse amigo de sempre partiu na Quarta-feira de Cinzas de um Carnaval que ele sempre amou.
Sua Jane ainda me disse que, na Terça-feira Gorda, como dizíamos, ao ver o desfile das escolas de samba, ele lamentou, por problemas de saúde, não mais poder estar lá. E disse, contrariado, para ela: se eu não posso ir lá, é melhor ir embora.
Naquela mesma noite, após passar mal e ser levado para o hospital, meu amigo Zé Luiz nos deixou. E como disse nosso outro amigo, Eduardo Campos, “partiu nas cinzas do Carnaval”.
Eu teria aqui muitas outras histórias, depois de tanto tempo de convivência, contudo fica este registro como uma oração fúnebre para este amigo querido.
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* Verso inicial de uma cantiga de amigo medieval de Pero Meogo. É bem verdade que amigo por aquele tempo significava namorado. Usei-o aqui com o sentido moderno da palavra e para expressar o quão antiga é essa nossa amizade.


