Resolvi juntar neste breve texto algumas histórias de rádio que me ficaram na memória. O rádio a que me refiro é o aparelho de escuta, não a estação, fonte das ondas sonoras que tanto nos agradam. É o prosaico aparelhinho falador, que já fez enorme sucesso, quando sua versão à pilha chegou ao mercado.
O RÁDIO CHEGA A CARABUÇU
Minha vila de Carabuçu, que à época da história se chamava Liberdade, tão logo as ondas sonoras do rádio se espalharam por vastos quilômetros além de seu ponto de produção, teve seu primeiro aparelho, adquirido por um fazendeiro progressista, cujo nome já não me ocorre. Por sua iniciativa pioneira, ganhou ainda mais prestígio entre nossa gente, que acorria até sua casa para escutar rádio, como se dizia então. Uma dessas pessoas era o jovem Alcebíades, que anos mais tarde se tornaria meu querido tio, porque se casaria com a irmã de minha mãe.
Alcebíades trabalhava na propriedade de seu pai, vizinha à do proprietário da novidade tecnológica movida a válvulas, que recebeu o nome de rabo-quente, já que necessitava de um certo tempo, até que esquentasse, entre ser ligado e começar a falar.
Sem conhecer bem aquela nova traquitana, meu futuro tio chegou até a casa do fazendeiro e, esperançoso de que se surpreenderia com a novidade, pediu:
- Põe na Moda a mula preta.*
A vitrola seria inventada um pouco depois.
RÁDIO DE PILHA I
Por volta dos anos 50 foi lançado o rádio de pilha, que oferecia o conforto de ser levado para todos os lugares. Em Carabuçu, já com este nome novo, o morador Elói adquiriu um poderoso e reluzente rádio Transglobe da Philco, movido a diversas pilhas grandes. Era um tipo de aparelho corpulento, que o Elói, para não perder o jogo do seu Vasco da Gama, carregava no ombro, quando se dirigia ao salão do Liberdade Esporte Clube, para assistir a uma sessão de cinema.
Era também hábito entre alguns moradores levar sua cadeira, a fim de não correr o risco de ficar sem lugar para sentar, já que a disponibilidade de assentos não era lá essas coisas.
E lá ia o Elói, pela Rua Coronel Alfredo Portugal, levando sua cadeira em uma das mãos e o rádio no ombro.
Entrava na sala de projeção, alojava-se numa posição ao fundo sala, ligava seu rádio, que encostava ao ouvido, em volume baixo para que não atrapalhasse os demais espectadores, e assistia simultaneamente ao filme e à transmissão da partida do Gigante da Colina, por essa época um poderoso time de futebol.
Lá pelas tantas, o time fazia um gol. Elói não se continha e gritava durante a sessão de cinema:
- Gooooool!
O restante da plateia reagia, gritando de volta:
- Cala a boca, Elói!
RÁDIO DE PILHA II
Essa também é de um Transglobe da Philco.
José Maria era meu colega de pensão, assim que cheguei a Niterói no fim dos anos sessenta do século passado, e foi quem me contou a história.
Um seu amigo da cidade de Paulo de Frontin, que os moradores teimavam em chamar pelo nome antigo de Rodeio, resolveu comprar o famoso aparelho da norte-americana Philco, para com ele ter momentos sonorosos de lazer.
E aproveitou o fim de semana seguinte para levá-lo à praia em Itaguaí, conforme combinou com o grupo de amigos que sempre estavam juntos.
E lá foram eles até Itaguaí, distante de Paulo de Frontin cerca de sessenta quilômetros.
José Maria contou que, depois de dar uns mergulhos no mar, o parceiro de excursão resolveu pegar uma cor numa das pedras da praia. Ali se deitou, ligou o rádio, sintonizado na Rádio Globo, fechou os olhos para se proteger do sol e ficou usufruindo do programa, ao tempo em que se bronzeava. Após alguns instantes, terminada uma das músicas, ele ouviu uma voz de locutor que informava:
- A Rádio Globo faz uma breve pausa, para troca de transmissores. Voltamos em um minuto.
Passado mais de um minuto sem que a rádio voltasse a sussurrar nos seus ouvidos, o amigo, incomodado, abriu os olhos para ver o que acontecia e constatou que um espertalhão lhe roubara o Transglobe de que ele pagara apenas a primeira prestação.
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*Caso queira conhecer a música, é só clicar sobre o título, que o levará à gravação de Luiz Gonzaga.

