Numa manhã,
encontrou o curió morto dentro da gaiola. Formigas o tinham aniquilado, sem
respeito ao canto maravilhoso. Caiu, assim, na maior prostração.
As manhãs de
domingo seguintes pareciam o silêncio etéreo e o abandono trágico da criatura.
Vagava por entre as alamedas do Campo de São Bento, olhando as gaiolas dos
amigos. Todas lindas, deslumbrantes. Mais e mais humilhou-se. Sem o curió, o
menor dos mortais. Sem o pássaro, nem os filhos, nem a mulher.
Murchou
tanto, definhou tanto, que perdeu suas próprias canções, seus íntimos gorjeios.
Num dia de
muda, o frio intenso da solidão, amanheceu morto sobre a cama do casal, a
mulher chorando, a porta da gaiola aberta para o desconhecido.
Curió (imagem colhida em https://play.google.com/)
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PS: Este conto ligeiro, da década de 80, foi baseado em pássaro e formigas reais e pessoa e desfecho imaginários, de um tempo em que ter pássaros em gaiolas não se constituía em crime.
dilacerem-se
estraçalhem-se
devorem-se por lá
ministros presidentes aiatolás
mas me deixem por aqui
tocando meu barco soprado a sonho
e minha vida movida a desespero
engulam-se
destruam-se
eliminem-se
idiotas eternos da guerra
chacais abjetos da violência
mas evitem-me qualquer parcela em sua luta
livrem minha cara de sua saliva irada
meu sangue não tingirá suas mãos despóticas
nem meus descompassos marcharão nos exércitos
dos que destroem homens
e continuam impunes
morram todos vocês
para que os povos enfim sobrevivam
do que lhes sobrar desses tempos de estupidez
[e ódio
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Nota: Este poema é do inícios dos anos 80 e está publicado em meu livro Ucronia, pelo Clube de Autores. Trago-o aqui por nunca ter deixado de expressar minha opinião sobre os que promovem guerras.
Lá se foi mais um grande amigo: José Luiz Padilha Martins.
Aliás o ser vivo tem a péssima mania de morrer. Digo isso em tom de humor, para amenizar um pouco a dor da perda desse amigo de infância, de juventude, de idade adulta e de velhice. Não vou aqui contemporizar com expressões como terceira idade, melhor idade, ou coisa que o valha. Da minha idade (Na verdade ele é seis meses mais velho que eu.), começamos nossa relação de toda uma vida nas ruas de Carabuçu, nos espaços do Grupo Escolar Marcílio Dias, nas reuniões do Friend’s Clube, lá nos idos de 60 do século passado, criado por iniciativa do Celinho (Célio Domingues Machado), meu primo, que conseguiu com isso, ainda mais, estreitar os laços entre nós. E, sobretudo, na paixão pelas mesmas meninas bonitas da vila, pela música brasileira, pela novidade do tal de roquenrol e da Bossa Nova, que surgiu como um respiro de renovação na até então música brasileira. Ficamos fãs de Elvis Presley e João Gilberto; de Little Richard e Tom Jobim. Assim bem misturados, sem fronteiras que pudessem barrar nosso desejo de novidade e arte, ainda que estivéssemos numa pequena vila do interior do antigo Estado do Rio de Janeiro.
Quando, aos quinze anos, fui aprender o ofício de barbeiro com o Moreninho, por instrução do meu pai, o amigo Zé Luiz era um dos que se dispunham a enfrentar minhas primeiras tesouradas nas cabeleiras dos clientes. E jamais pôs um reparo, ou reclamou de caminhos de rato que pudesse ter feito em seu cabelo.
E foi numa dessas oportunidades que trocamos ideias a respeito do sucesso que o show de Bossa Nova, levado por artistas brasileiros ao Carnegie Hall, fez em Nova Iorque e, a partir daí, em boa parte do planeta. Lá, em Carabuçu, Zé Luiz e eu estávamos orgulhosos da repercussão da nossa música em terra de gringo.
Alguns anos depois, vim para Niterói, atrás do meu curso superior. Zé Luiz ficou por lá, estudou, se aprimorou, inteligente e interessado que sempre foi, tornou-se um professor amado por seus alunos e personagem crucial para a Educação no nosso município.
Por esse tempo, aproveitou para conhecer e se apaixonar por sua Jane, de cuja relação vieram Dudu e Guilherme, que anos depois lhe deram netos.
Mas antes que seus netos surgissem e, já aposentado do magistério, veio para Niterói, onde pudemos retomar a convivência que tivéramos na infância e na juventude. E foram diversas oportunidades em que viajamos por aí, nos encontramos em torno de uma cerveja no Mondial de la Bière, por exemplo, de um vinho, de uma feijoada, de uma confraternização, de um papo descontraído, sempre regado a inteligência e bom humor, como ele sabia conduzir.
E continuamos amantes da música, já de gostos um pouco diferentes. Ele, que ficara por mais tempo na terra natal, desenvolveu a paixão pelo jazz. Eu, que vim ainda jovem para a cidade grande, me agarrei aos sons tradicionais da música brasileira. Nenhum de nós – nem ele, nem eu –, porém, abriu mão da boa música, não importasse o estilo.
Agora, esse amigo de sempre partiu na Quarta-feira de Cinzas de um Carnaval que ele sempre amou.
Sua Jane ainda me disse que, na Terça-feira Gorda, como dizíamos, ao ver o desfile das escolas de samba, ele lamentou, por problemas de saúde, não mais poder estar lá. E disse, contrariado, para ela: se eu não posso ir lá, é melhor ir embora.
Naquela mesma noite, após passar mal e ser levado para o hospital, meu amigo Zé Luiz nos deixou. E como disse nosso outro amigo, Eduardo Campos, “partiu nas cinzas do Carnaval”.
Eu teria aqui muitas outras histórias, depois de tanto tempo de convivência, contudo fica este registro como uma oração fúnebre para este amigo querido.
Árvore ao pôr do sol em Bom Jesus do Norte (foto do autor).
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* Verso inicial de uma cantiga de amigo medieval de Pero Meogo. É bem verdade que amigo por aquele tempo significava namorado. Usei-o aqui com o sentido moderno da palavra e para expressar o quão antiga é essa nossa amizade.
Era pai para toda obra, pau puro, dos que não deixam pedra sobre pedra e sempre estão cavando um jeito de ajudar. Aliás, como seu pai também o fora.
Por isso não renegava as origens, afirmando que o cavaco não voa longe do pau.
Assim quebrava o galho de todo mundo, principalmente dos que faziam parte da sua árvore genealógica. Mas tinha, em contrapartida, comportamento reservado, desses de não meter a colher de pau em assunto alheio, a não ser que fosse instado a tanto. No restante, era madeira de dar em doido e não um pau-de-amarrar-égua que servisse de escárnio a toda gente.
Por mais de uma vez, quando necessário, o pau cantou com sua intervenção, como num baile a candeeiro, na casa de pau a pique do Noca Silvestre, em que um cara de pau de nome Zeca Pinheiro se engraçou com a filha mais nova do Antônio Madeira.
A notícia voou longe como cavaco de lenha, e as pessoas contavam que o pau comeu na casa do Noca, com tapas, bofetões e pauladas, com fueiro de carro de boi, no lombo do desaforado, que abriu nos paus, antes que vestisse paletó de madeira. É que juntou gente para meter a lenha nele, sem dó nem piedade.
Esse cara de pau teve até de se mudar da vila, porque todos metiam o pau no seu comportamento. Mas foi bom para que ele aprendesse com quantos paus se faz uma canoa e não se metesse mais em pau com formiga, de que fosse difícil se desembaraçar. E foi até ameaçado pelo subdelegado de que iria para o pau de arara, caso repetisse a afronta. Foi expulso da vila a poder de pau furado do Cabo Zico Figueira, a mando da autoridade superior.
A única oportunidade em que tal pai levou pau foi na subida do pau-de-sebo, na festa junina da vila, porque a disputa não foi pau a pau. Paulino Carvalho, dos Carvalhos de Conceição de Mato Dentro, tinha tarimba e era magrelo como um pau-de-virar-tripa. E acabou ganhando o prêmio de cinquenta paus, no envelope na ponta lá no alto.
E, no restante de sua vida, esse pai foi morar numa casa de troncos de árvores, embaixo de um pé de pau, ao lado do ribeirão Madeira. E, quando espichou as canelas, teve a bandeira a meio pau hasteada no mastro na pracinha da vila, com discurso do filho primogênito que, na homenagem, destacou que ele nunca fora um pau-mandado, um zé ruela, muito menos um pau de cabeleira, um alcoviteiro qualquer. Fora um pai para toda obra!