22 de julho de 2024

AMAR À BEIRA MAR

Amar à beira mar
Como o mar ama a onda
Que morre na preamar
Quase sem ar
Quase sem fôlego
Em vias de se afogar 
No mar profundo
E sinistro
Que é o tal verbo amar. 


Foto do autor.

15 de julho de 2024

NOSCE TE IPSUM E CREIA UM POUCO MAIS EM SI MESMO

Vez em quando, recebo mensagens dessa coisa nomeada autoajuda, para que eu acredite mais e sempre em mim mesmo. Vêm elas normalmente com uma ilustração enjoadinha, dessas que não se penduram mais em paredes de casas humildes. Segundo se depreende de seu conteúdo, isso seria a chave do sucesso e da realização pessoal, o que me levaria a me lixar para a opinião alheia e me permitiria, inclusive, mandar os prováveis detratores à merda. E eu seria feliz e realizado. Bem simples, não é?

Aliás as redes sociais estão cheias desse tipo de boa vontade para comigo. A quantidade de pessoas altruístas na www é muito grande. Chega a ser comovente. A vida real está uma guerra, mas a virtual está repleta de bons propósitos, bem parecida com o inferno, cheio de boas intenções.  Todo mundo se sente no direito e na obrigação de me orientar pelos tortuosos caminhos da existência, dada minha fragilidade psicológica. Ainda que não me conheçam bem, nem saibam meu endereço e minhas condições de saúde.

Sinto-me muito agradecido, mas também fico um tanto cabreiro, desconfioso.

É que sou um mentiroso contumaz, um presepeiro de marca maior, um contador de vantagens mirabolantes, um arranjador de desculpas esfarrapadas para encobrir minhas faltas e omissões. Enfim, uma pessoa de baixa credibilidade no varejo e no atacado. Eu me conheço!

Assim não sei se devo acreditar em mim mesmo. Tenho sérias desconfianças a respeito.

A última vez em que acreditei em mim, por seguir tais orientações, entrei numa saia justa, numa fria. Prefiro nem comentar aqui, para que meus leitores não tenham frouxos de risos ou riam às bandeiras despregadas, como os leitores de Machado de Assis.

Aliás, não sei se já lhes disse, mas sou descendente do Bruxo do Cosme Velho – do que muito me orgulho –, em linha direta de minha mãe, pelo lado do Machado, e do meu pai pelo lado do Assis, embora o Machado tenha cortado o Assis do meu sobrenome. Não sei se o Bruxo, lá no Além, desconfia disso, mas não me faz a menor diferença sua indiferença.

Contudo eu também não creio muito nisso.

E, assim, de autodescrença (creio que esta palavra não exista) em autodescrença, vou tendo meu sucesso naquilo que não faço e me realizando pessoalmente, no meu imobilismo. No que, pessoalmente, não creio.

Sou um cidadão avesso a conselhos não solicitados. Deste modo, recalcitrante como sou, vou continuar a minha vida como sempre fiz até aqui: desacreditando mais que acreditando.

Agradecido!



Imagem em br.pinterest.com.

8 de julho de 2024

AMAR O MAR

Amar o mar 
No que ele tem 
De profundo e plano 
De manso lago e proceloso oceano 
De vida amena e destruição insana 
E reconhecer a pequenez 
Definitiva 
Da nossa mísera condição humana.

                                                           Itaipu, Niterói (foto do autor).

10 de junho de 2024

IMPONDERÁVEL

Ponho os olhos na paisagem

Que vejo e que não vejo

E sinto um desejo irrefreável

De torná-la eterna

Pelas lentes das câmaras

Que franqueiam

A  possibilidade do  belo. 

Se é possível

Isto é incerto

Porque há certo nível

De imponderável

Naquilo que é eterno. 

Pôr do sol em Itaipu (foto do autor).



3 de junho de 2024

VELHA FOTO

Foto em br.pinterest.com.

 

Olho a fotografia antiga
Com o olho do tempo 
Que carrego comigo 
Como se o tempo 
Não tivesse escorrido 
No contratempo da vida. 
A fotografia esmaecida 
No papel amarelado 
Vai-se apagando 
Aos poucos 
Enquanto minha memória 
Em preto e branco 
Restaura em cores vivas 
A imagem quase perdida 
De uma velha foto esmaecida.

6 de maio de 2024

À BEIRA DO NADA

O discurso sucinto
Palavras a menos
O que se diria 
Não se diz.
A boca calada 
O coração desalinhado
E o que está próximo
Se afasta.
A boca permanece calada
E nada mais se diz.
Olhos baços.
Fazem-se passos
Sobre a calçada 
Até desaparecerem
No nada. 

Imagem em istockphoto.com/br.


12 de abril de 2024

CARGA

Numa estrada comprida
Empoeirada ou com barro 
Cruza a tropa de burro 
Com um carreiro e seu carro 

Uma vai 
O outro volta 
Uma volta 
O outro vai 
Na faina de todo dia 
Cumprindo a sina pesada 
De levar pela estrada 
O que se acumula na vida 

Pode ser que não se toquem 
O carro de boi e a tropa 
Apenas cruzem silentes 
Com a carga que lhes cabe 
Com sujeição sempre em frente 

E chegam ao termo da lida 
O carro e a tropa cansada 
Despejam a carga no chão 
E já não sentem mais nada.

Imagem colhida em minasgerais.com.br.