28 de outubro de 2026

HISTÓRIAS DE RÁDIO

 Resolvi juntar neste breve texto algumas histórias de rádio que me ficaram na memória. O rádio a que me refiro é o aparelho de escuta, não a estação, fonte das ondas sonoras que tanto nos agradam. É o prosaico aparelhinho falador, que já fez enorme sucesso, quando sua versão à pilha chegou ao mercado.

O RÁDIO CHEGA A CARABUÇU

Minha vila de Carabuçu, que à época da história se chamava Liberdade, tão logo as ondas sonoras do rádio se espalharam por vastos quilômetros além de seu ponto de produção, teve seu primeiro aparelho, adquirido por um fazendeiro progressista, cujo nome já não me ocorre. Por sua iniciativa pioneira, ganhou ainda mais prestígio entre nossa gente, que acorria até sua casa para escutar rádio, como se dizia então. Uma dessas pessoas era o jovem Alcebíades, que anos mais tarde se tornaria meu querido tio, porque se casaria com a irmã de minha mãe.

Alcebíades trabalhava na propriedade de seu pai, vizinha à do proprietário da novidade tecnológica movida a válvulas, que recebeu o nome de rabo-quente, já que necessitava de um certo tempo, até que esquentasse, entre ser ligado e começar a falar.

Sem conhecer bem aquela nova traquitana, meu futuro tio chegou até a casa do fazendeiro e, esperançoso de que se surpreenderia com a novidade, pediu:

- Põe na Moda a mula preta.*

A vitrola seria inventada um pouco depois.

RÁDIO DE PILHA I

Por volta dos anos 50 foi lançado o rádio de pilha, que oferecia o conforto de ser levado para todos os lugares. Em Carabuçu, já com este nome novo, o morador Elói adquiriu um poderoso e reluzente rádio Transglobe da Philco, movido a diversas pilhas grandes. Era um tipo de aparelho corpulento, que o Elói, para não perder o jogo do seu Vasco da Gama, carregava no ombro, quando se dirigia ao salão do Liberdade Esporte Clube, para assistir a uma sessão de cinema.

Era também hábito entre alguns moradores levar sua cadeira, a fim de não correr o risco de ficar sem lugar para sentar, já que a disponibilidade de assentos não era lá essas coisas.

E lá ia o Elói, pela Rua Coronel Alfredo Portugal, levando sua cadeira em uma das mãos e o rádio no ombro.

Entrava na sala de projeção, alojava-se numa posição ao fundo sala, ligava seu rádio, que encostava ao ouvido, em volume baixo para que não atrapalhasse os demais espectadores, e assistia simultaneamente ao filme e à transmissão da partida do Gigante da Colina, por essa época um poderoso time de futebol.

Lá pelas tantas, o time fazia um gol. Elói não se continha e gritava durante a sessão de cinema:

- Gooooool!

O restante da plateia reagia, gritando de volta:

- Cala a boca, Elói!

RÁDIO DE PILHA II

Essa também é de um Transglobe da Philco.

José Maria era meu colega de pensão, assim que cheguei a Niterói no fim dos anos sessenta do século passado, e foi quem me contou a história.

Um seu amigo da cidade de Paulo de Frontin, que os moradores teimavam em chamar pelo nome antigo de Rodeio, resolveu comprar o famoso aparelho da norte-americana Philco, para com ele ter momentos sonorosos de lazer.

E aproveitou o fim de semana seguinte para levá-lo à praia em Itaguaí, conforme combinou com o grupo de amigos que sempre estavam juntos.

E lá foram eles até Itaguaí, distante de Paulo de Frontin cerca de sessenta quilômetros.

José Maria contou que, depois de dar uns mergulhos no mar, o parceiro de excursão resolveu pegar uma cor numa das pedras da praia. Ali se deitou, ligou o rádio, sintonizado na Rádio Globo, fechou os olhos para se proteger do sol e ficou usufruindo do programa, ao tempo em que se bronzeava. Após alguns instantes, terminada uma das músicas, ele ouviu uma voz de locutor que informava:

- A Rádio Globo faz uma breve pausa, para troca de transmissores. Voltamos em um minuto.

Passado mais de um minuto sem que a rádio voltasse a sussurrar nos seus ouvidos, o amigo, incomodado, abriu os olhos para ver o que acontecia e constatou que um espertalhão lhe roubara o Transglobe de que ele pagara apenas a primeira prestação.

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*Caso queira conhecer a música, é só clicar sobre o título, que o levará à gravação de Luiz Gonzaga.


Rádio Transglobe Philco antigo (em mercadolivre.com).

20 de outubro de 2026

LÍNGUA ESTROPIADA

 Começa que depauperado não é o cara que fez cirurgia de fimose.

E aí as pessoas vão confundindo as coisas, usando as palavras de qualquer maneira, sem pensar um pouco. Esquecem-se de que o pensamento precede a expressão. Então é preciso refletir, antes de abrir a boca e deixar sair uma enxurrada de besteiras.

Tive uma colega de trabalho que fingia ter feito Direito – ou, de fato, teria feito, só que nas coxas – e se metia a falar difícil, a usar frases feitas, expressões consagradas, completamente deslocadas do contexto ou, simplesmente, misturadas. Nessas oportunidades, sempre que ia soltar uma pérola, ajeitava os óculos, como que a conferir autoridade no que diria. Ouvi-a, por exemplo, dizer que certo fato era “o inferno de Cervantes” e que uma atitude temerária de um colega, em prol da categoria, havia sido uma “atitude pixotesca”.

Há pessoas que ouvem o galo cantar, sem saber onde. Querem colher o ovo, antes que a galinha o ponha.

A língua deve servir como instrumento de comunicação. Já dizia Chacrinha, o grande filósofo da televisão brasileira (Hahaha!), que quem não se comunica se trumbica.

Há pessoas que falam, falam, falam, e, no final, você diz: Hã? E lá se foi todo aquele caudal verborrágico pelo ralo abaixo.

Por outro lado, a sabedoria popular diz que em boca fechada não entram moscas, num sério conselho a que nos mantenhamos calados. Ou, pelo menos, que falemos o menos possível. Como recomendado nos ônibus: só o indispensável.

Contudo falar só o indispensável pode ser muito pouco, muito lacônico, conciso.

Pode não parecer, mas eu sempre tive um grande pendor pela economia das palavras. Certa vez, a professora de Literatura Francesa, no Instituto de Letras da UFF, pediu que respondêssemos às questões da prova sobre determinada leitura de um livro, com concisão. Ao trazer a prova corrigida, verifiquei que ela me tirara dois pontos, embora minhas respostas tivessem tocado os pontos certos. Reclamei. Ela alegou que as respostas haviam sido muito curtas.

– Mas a Senhora pediu concisão!

– Nem tanto, nem tanto!

E perdi lá meus dois pontos. Foi o que me fez lutar um pouco contra essa tendência.

Também quem fala menos, menos estropia a língua. Menos tem oportunidade para errar.

Uma colega de trabalho, há algum tempo, me perguntou por que as pessoas no Rio de Janeiro dizem “soltar do ônibus”. Respondi que é porque falam errado. Deve ser “saltar do ônibus”. “Ah!”, disse ela, compreendendo a expressão.

Semelhantemente ocorreu comigo, logo que cheguei a Niterói. Havia um camelô na esquina da Avenida Amaral Peixoto com Visconde Uruguai, que vendia uma traquitana para picar temperos. Aos gritos e fazendo funcionar o aparelho, anunciava:

– Não resta prática, nem tampouco habilidade!

Comentei com meu amigo Walter Bretas, manifestando meu estranhamento no uso do verbo restar. Ele, que também é de Niterói, e conhecia o camelô, deslindou o mistério:

– Ele quer dizer: não requer prática.

– Ah! – fiz eu, entendendo a linguagem estropiada do camelô.

Coitada da língua!

Imagem em seriesfreaks.blogspot.com.

30 de setembro de 2026

CENA DE SUPERMERCADO (II)

A bengala dela 
É amarela 
A dele 
É bem vermelha 
A dele e a dela 
Se combinadas 
Dão laranja 
A cor das frutas que pegam 
Na mesma banca
Do supermercado 
Mas não se notam 
Por distraídos 
Ao fim da compra 
Claudicam juntos 
Ao mesmo caixa 
E se dão conta 
Que a parceria 
Daquele instante 
Bem poderia 
Ser mais constante 
E espremeriam 
O mesmo suco 
Por muitos anos.

Imagem colhida em pt.wikipedia.org.


24 de agosto de 2026

GEOGRAFIA

Eu conheci 
Os espaços mapeáveis 
Do teu corpo 
Centímetro a centímetro 
Os vales tépidos 
Os cumes vulcânicos 
As fendas fundas 
E a extensão macia 
Das costas oceânicas 
Onde soçobrava 
Meu barco embevecido 
Eu conheci os descaminhos 
Dos teus planos 
A geografia errônea 
Dos teus sonhos 
E os abismos abissais 
Dos teus pélagos mortais.

Imagem em pt.pinterest.com.


6 de agosto de 2026

LÍNGUA (II)

Queda-se em mim 
Silente e crua 
A portuguesa língua 
De Quintana 
De Drummond 
De Coralina. 
Dela tiro o alimento que me sustenta 
A cama de sons em que me deito 
E tudo que não quero dizer 
Enquanto minto. 
Porque dizer somente 
O que sinto 
Pode parecer imprudente. 
E me ponho mudo 
No aguardo de que as palavras 
Ora adormecidas ora despertas 
Verbalizem na precisa hora 
O que brota 
Do meu ser oculto.


Imagem colhida em ung.br.


21 de julho de 2026

EXPECTATIVA

Morro um pouco 
A cada dia 
Sem sofrer. 
No horizonte 
O sol se põe 
Irisado 
Eternamente 
Reinando sobre nós todos 
Enquanto eu 
Procuro um jeito 
Bem humano 
De viver 
Esquecido 
Da finitude 
Do ser.

Pôr do sol em Icaraí (foto do autor).


1 de julho de 2026

GOL DE PORCO

(Em comemoração à Copa do Mundo da FIFA, compartilho aqui este conto esportivo, publicado originariamente em Gritos&Bochichos.)


O campo do Fluminensinho margeava bem junto do Rio Itabapoana, do lado do Estado do Rio, próximo à charqueada.

Era meramente um espaço demarcado num gramado um pouco mais amplo, decorado com duas balizas de madeira simples e escassa marcação das linhas regulares dos gramados oficiais. E tinha dimensões acanhadas para os padrões atuais.

O Fluminensinho mesmo não fazia parte da chamada elite do futebol bonjesuense e disputava seus esporádicos jogos, quase sem plateia, lá uma vez e outra. Torcida mesmo, acho que também não tinha. Assim como sede, ou uniforme completo. Seus jogadores não jogavam em nenhum dos dois clubes importantes das duas Bom Jesus, o Olímpico, do lado fluminense, e o Ordem e Progresso, do lado capixaba. E seus abnegados atletas de ocasião se cotizavam sempre que surgia despesa com bola, rede, cal, pinga, carne para churrasco e cerveja.

No entanto o Fluminensinho disputava partidas, com todas as consequências inerentes a este antigo e viril esporte bretão.

Num desses jogos, contra um certo time Tupi, de plagas adjacentes a Bom Jesus, a disputa seguia ferrenha, mas sem que nenhuma das equipes tivesse ainda furado as redes do adversário. No Fluminensinho, dois jogadores se destacavam. Nem tanto por suas habilidades com a redonda, mas antes por sua compleição física, digamos, um tanto avantajada.

Um era o Absoluto, negro alto, dobrado da cintura para cima, que trabalhava como carregador e descarregador de caminhões, para o comércio local. Dizia sua mitologia da época que ele era capaz de transportar quatro sacos de sessenta quilos de uma só vez: um na cabeça, um sob cada braço e o quarto nos dentes. Tirante isso, era um homem cordial, de muito bom humor e prestativo para quem dele necessitasse. Também com aquela massa muscular, não havia ninguém que tirasse farinha com ele!

O outro era o Nivaldo. Mulato também dobrado, entregador de banda de boi do matadouro da cidade, a qual ele carregava nas costas com uma facilidade tão grande, que parecia transportar fardo de algodão. Nivaldo tinha um bigodinho estreito a fazer comichão na platibanda do beiço, o que lhe dava aspecto de cantor de boleros e sambas-canções na guaxa localizada um pouco mais acima do mesmo rio. Mas também ninguém tinha coragem de dizer isso em público ou em privado.

Os dois, Absoluto e Nivaldo, compunham a dupla de ataque do Fluminensinho, de modo que todo e qualquer adversário já entrava em campo com metade da razão perdida, na discussão de possíveis erros e acertos de arbitragem. Mas eles não entravam para brigar, e sim para jogar sua bolinha descompromissada dos fins de semana.

Pois ia lá o jogo empatado até quase o final da partida, quando um meio-campista lança a bola na direita, para a entrada em profundidade do Absoluto, que disparou no espaço aberto. Quando ele lá chegou, em sincronia com a pelota, inadvertidamente adentrou o gramado do Fluminensinho distraído leitão, proveniente dos lados da charqueada, fugindo da corrida de um cachorro vira-lata. O pobrezinho coitado, na inocência dos seus seis quilos e pouco, entrou no ângulo da linha da bola e do pé do Absoluto, naquela confluência em que, se atingida, dela não se escapa, e foi pego no vazio pelo pontapé potente do atacante tricolor. E voou ele, na mesma curva que faria a redonda se lá estivesse, em direção à área, para onde, também como um corisco, se precipitava Nivaldo e toda a sua pessoa dobrada. Nivaldo chegou no exato instante de meter a cabeça no mamífero artiodáctilo doméstico, da família dos Suídeos, e mandá-lo ao fundo das redes e assim assinalar o primeiro e único gol suíno de que tenho notícia, em setenta e poucos anos de causos e histórias.

E o Fluminensinho venceu mais uma emocionante contenda. Só o artilheiro não conseguiu ir até o fundo das redes pegar a bola e beijá-la, porque àquela altura o porquinho fugia grunhindo, em desabalada carreira na direção do vira-lata.



    Imagem obtida na Internet.