19 de fevereiro de 2026

"TAL VAI O MEU AMIGO..."

(Para Jane, Eduardo e Guilherme Padilha.)

Lá se foi mais um grande amigo: José Luiz Padilha Martins.

Aliás o ser vivo tem a péssima mania de morrer. Digo isso em tom de humor, para amenizar um pouco a dor da perda desse amigo de infância, de juventude, de idade adulta e de velhice. Não vou aqui contemporizar com expressões como terceira idade, melhor idade, ou coisa que o valha. Da minha idade (Na verdade ele é seis meses mais velho que deu.), começamos nossa relação de toda uma vida nas ruas de Carabuçu, nos espaços do Grupo Escolar Marcílio Dias, nas reuniões do Friend’s Clube, lá nos idos de 60 do século passado, criado por iniciativa do Celinho (Célio Domingues Machado), meu primo, que conseguiu com isso, ainda mais, estreitar os laços entre nós. E, sobretudo, na paixão pelas mesmas meninas bonitas da vila, pela música brasileira, pela novidade do tal de roquenrol e da Bossa Nova, que surgiu como um respiro de renovação na até então música brasileira. Ficamos fãs de Elvis Presley e João Gilberto; de Little Richard e Tom Jobim. Assim bem misturados, sem fronteiras que pudessem barrar nosso desejo de novidade e arte, ainda que estivéssemos numa pequena vila do interior do antigo Estado do Rio de Janeiro.

Quando, aos quinze anos, fui aprender o ofício de barbeiro com o Moreninho, por instrução do meu pai, o amigo Zé Luiz era um dos que se dispunham a enfrentar minhas primeiras tesouradas nas cabeleiras dos clientes. E jamais pôs um reparo, ou reclamou de caminhos de rato que pudesse ter feito em seu cabelo.

E foi numa dessas oportunidades que trocamos ideias a respeito do sucesso que o show de Bossa Nova, levado por artistas brasileiros ao Carnegie Hall, fez em Nova Iorque e, a partir daí, em boa parte do planeta. Lá, em Carabuçu, Zé Luiz e eu estávamos orgulhosos da repercussão da nossa música em terra de gringo.

Alguns anos depois, vim para Niterói, atrás do meu curso superior. Zé Luiz ficou por lá, estudou, se aprimorou, inteligente e interessado que sempre foi, tornou-se um professor amado por seus alunos e personagem crucial para a Educação no nosso município.

Por esse tempo, aproveitou para conhecer e se apaixonar por sua Jane, de cuja relação vieram Dudu e Guilherme, que anos depois lhe deram netos.

Mas antes que seus netos surgissem e, já aposentado do magistério, veio para Niterói, onde pudemos retomar a convivência que tivéramos na infância e na juventude. E foram diversas oportunidades em que viajamos por aí, nos encontramos em torno de uma cerveja no Mondial de la Bière, por exemplo, de um vinho, de uma feijoada, de uma confraternização, de um papo descontraído, sempre regado a inteligência e bom humor, como ele sabia conduzir.

E continuamos amantes da música, já de gostos um pouco diferentes. Ele, que ficara por mais tempo na terra natal, desenvolveu a paixão pelo jazz. Eu, que vim ainda jovem para a cidade grande, me agarrei aos sons tradicionais da música brasileira. Nenhum de nós – nem ele, nem eu –, porém, abriu mão da boa música, não importasse o estilo.

Agora, esse amigo de sempre partiu na Quarta-feira de Cinzas de um Carnaval que ele sempre amou.

Sua Jane ainda me disse que, na Terça-feira Gorda, como dizíamos, ao ver o desfile das escolas de samba, ele lamentou, por problemas de saúde, não mais poder estar lá. E disse, contrariado, para ela: se eu não posso ir lá, é melhor ir embora.

Naquela mesma noite, após passar mal e ser levado para o hospital, meu amigo Zé Luiz nos deixou. E como disse nosso outro amigo, Eduardo Campos, “partiu nas cinzas do Carnaval”.

Eu teria aqui muitas outras histórias, depois de tanto tempo de convivência, contudo fica este registro como uma oração fúnebre para este amigo querido.

Árvore ao pôr do sol em Bom Jesus do Norte (foto do autor).

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* Verso inicial de uma cantiga de amigo medieval de Pero Meogo. É bem verdade que amigo por aquele tempo significava namorado. Usei-o aqui com o sentido moderno da palavra e para expressar o quão antiga é essa nossa amizade.

12 de fevereiro de 2026

PAI PARA TODA OBRA

Era pai para toda obra, pau puro, dos que não deixam pedra sobre pedra e sempre estão cavando um jeito de ajudar. Aliás, como seu pai também o fora.

Por isso não renegava as origens, afirmando que o cavaco não voa longe do pau.

Assim quebrava o galho de todo mundo, principalmente dos que faziam parte da sua árvore genealógica. Mas tinha, em contrapartida, comportamento reservado, desses de não meter a colher de pau em assunto alheio, a não ser que fosse instado a tanto. No restante, era madeira de dar em doido e não um pau-de-amarrar-égua que servisse de escárnio a toda gente.

Por mais de uma vez, quando necessário, o pau cantou com sua intervenção, como num baile a candeeiro, na casa de pau a pique do Noca Silvestre, em que um cara de pau de nome Zeca Pinheiro se engraçou com a filha mais nova do Antônio Madeira.

A notícia voou longe como cavaco de lenha, e as pessoas contavam que o pau comeu na casa do Noca, com tapas, bofetões e pauladas, com fueiro de carro de boi, no lombo do desaforado, que abriu nos paus, antes que vestisse paletó de madeira. É que juntou gente para meter a lenha nele, sem dó nem piedade.

Esse cara de pau teve até de se mudar da vila, porque todos metiam o pau no seu comportamento. Mas foi bom para que ele aprendesse com quantos paus se faz uma canoa e não se metesse mais em pau com formiga, de que fosse difícil se desembaraçar. E foi até ameaçado pelo subdelegado de que iria para o pau de arara, caso repetisse a afronta. Foi expulso da vila a poder de pau furado do Cabo Zico Figueira, a mando da autoridade superior.

A única oportunidade em que tal pai levou pau foi na subida do pau-de-sebo, na festa junina da vila, porque a disputa não foi pau a pau. Paulino Carvalho, dos Carvalhos de Conceição de Mato Dentro, tinha tarimba e era magrelo como um pau-de-virar-tripa. E acabou ganhando o prêmio de cinquenta paus, no envelope na ponta lá no alto.

E, no restante de sua vida, esse pai foi morar numa casa de troncos de árvores, embaixo de um pé de pau, ao lado do ribeirão Madeira. E, quando espichou as canelas, teve a bandeira a meio pau hasteada no mastro na pracinha da vila, com discurso do filho primogênito que, na homenagem, destacou que ele nunca fora um pau-mandado, um zé ruela, muito menos um pau de cabeleira, um alcoviteiro qualquer. Fora um pai para toda obra!


Foto do autor.



17 de janeiro de 2026

A FOLHA

Leve 
A folha velha 
Sob suave brisa 
Baila em zigue-zague 
Antes de cair solitária 
Sobre a lâmina d’água 
Que corre ínfima 
Ao lado da calçada. 
E vai assim extinta 
Do verde que exibia 
Envaidecida 
Há pouco ainda 
Na amendoeira frondosa 
Em frente à praia 
Até sumir na grelha 
Boca de lobo do esgoto 
Para o seu destino. 
Assim como nós outros.



Imagem colhida em pt.pngtree.com

15 de dezembro de 2025

PARA ADÉLIA*

deus existe

embora não exista.

tua poesia no entanto

prenhe de deus e seus mistérios

mais que humanos

nos salva a todos

perdidos que estamos

nessa nave de estética de ódio

e fome

de guerra e pânico.

por isso, adélia,

tua poesia é feito um prado de buganvílias

de cor amarelo-roxeado

de gosto travoso

tão saboroso

tão saboroso.

(*Sob a inspiração de Bagagem, de Adélia Prado.)

Em homenagem aos noventa anos desta grande poetisa brasileira. Publicado originariamente em Gritos&Bochichos, em 14/6/2010.

1 de dezembro de 2025

VALER A PENA

Ainda bem menino 
Dependurei meu sorriso 
No varal do paraíso 
Bem em frente ao infinito. 

E considerei que isso 
Fosse suficiente 
Tirante as dores pungentes 
Que por acaso sentisse 
Para me manter vivo. 

Hoje tenho certeza 
Depois do chão percorrido 
De que vale mais a pena 
Chorar embora sorrindo 
Que ter um riso sofrido.

Foto do autor.


29 de outubro de 2025

TIPO ASSIM (IX) - DALMAR SILVA

Cheguei a Niterói, vindo de Bom Jesus do Itabapoana, na bagagem dos meus vinte anos, em março de mil novecentos e sessenta e sete.

Trazia, dentre as bugigangas corriqueiras, a determinação de fazer meu curso superior e a vaga de trabalho na Ótica Avenida, cujo sócio proprietário, Chico Borges, era irmão dos meus antigos patrões, Zé e Joãozinho Borges, em minha terra natal. Foram, inclusive, estes que conseguiram meu emprego com aquele. Tudo em família.

Era um domingo de manhãzinha, quando desci na rodoviária, acompanhado de meu amigo e colega de escola Antônio Carlos Lepre, e já na manhã de segunda-feira me apresentava para o emprego, com minha primeira e única carteira de trabalho, ainda virgem de anotações.

Por aquela ocasião, a Ótica tinha antigos e competentes empregados: Aro, Dalmar, Luís, na loja, e Roberto e Nelson, na oficina.

Dalmar me recebeu como um irmão mais novo, inexperiente em cidade grande, a quem deveria orientar. Já casado e sem filhos até então – pouco depois adotou um menino -, deveria estar por volta de seus quarenta anos.

E foi ele quem me iniciou em paladares distintos e inusitados para a minha vivência de rapaz do interior. A ele devo boa parte da minha experiência na gastronomia da cidade grande. Alguns pratos que desconhecia, experimentei-os em função de incentivo seu ou mesmo confraternizando com ele.

Certa vez, caminhando pela Rua Barão do Amazonas, quase chegando à esquina da Avenida Amaral Peixoto, vi na lousa exposta diante do Bar e Restaurante São Jorge, hoje inexistente, o anúncio em giz do prato do dia: entremeada no feijão. Cheguei daí a pouco ao trabalho e perguntei a ele que diabos significava aquele prato. Então ele me disse:

- Você vai saber daqui a pouco, na hora do almoço.

E fomos lá, por volta do meio-dia, almoçar no Bar e Restaurante São Jorge. Antes que viesse o prato – é bom que se diga que meu paladar é universal, por isso nunca tive receio de novidades -, ele me explicou: é o feijão cozido com cane-seca nem muito gordurosa, nem muito magra; quer dizer, com certo teor de gordura. E completou a informação de que era comum, nesse tipo de restaurante popular, encontrar as três opções: magra, entremeada e gorda no feijão.

Em outra ocasião, ele resolveu me apresentar à até então minha desconhecida Sopa Leão Veloso. Saímos do trabalho e atravessamos as barcas em direção ao Rio de Janeiro, para, na Praça Quinze, sorver aquela maravilha da culinária, versão carioca da famosa bouillabaisse francesa, no Restaurante Real Peixadas, oportunidade em que também fui apresentado à cachaça Azulzinha de Paraty, que desceu macia, em caracol, garganta abaixo. Devo confessar que, anos depois, já em 1998, por ocasião da Copa do Mundo da França, meu filho e eu, após o jogo da Seleção contra a Laranja Mecânica, em Marselha, fomos até um restaurante nas proximidades do porto, para conhecer a versão francesa. A nossa dá de goleada, pelo menos naquela que tomamos.

Com frequência, Dalmar e sua esposa preparavam, para o sábado após o expediente, grão-de-bico à moda portuguesa, que ele aprendera com a lusitana que o havia criado, após a morte da mãe. E era um repasto saboroso, pantagruélico, em torno da panela fervente daquela mistura olorosa do grão, com carnes salgadas e legumes, acompanhado apenas por pão francês, cachaça de alambique e cerveja gelada. Após o almoço, eu e outros convidados voltávamos para casa com o prazer estampado na cara.

Outro prato que também conheci por sua influência foi dobradinha à lombeira, que não conhecia em minha terra natal. Aliás, aprendi também, que o nome do prato varia em alguns lugares do país, até mesmo em Portugal, onde, na cidade do Porto, comi a versão original lusitana: tripas à moda.

Mesmo após ter saído do emprego na Ótica Avenida, onde Dalmar continuara, pois era um competente técnico em ótica, vez ou outra era convidado para novo tipo de experiência gastronômica com ele.

A ele devo esse aprendizado prazeroso que, embora seja volátil no paladar físico, marca profundamente a memória sensorial das coisas vividas e experimentadas.

Meu amigo e irmão mais velho Dalmar, já passado dos seus setenta anos, faleceu em Niterói.

Viva Dalmar!


Sopa de grão-de-bico (em arcadasportofado.pt).


27 de setembro de 2025

POÉTICA ESDRÚXULA

Lúgubre/tétrico

Lúbrico/tórrido

Lânguido/tépido

Lírico/tácito

Lívido/tísico

Límpido/típico

Lógico/tóxico

Lúdico/túmido

Lúcido/tímido

Lépido/trêfego


Pedra do Índio, Niterói (foto do autor).