28 de junho de 2023
O TREM DO VAIVÉM
16 de junho de 2023
A LUA
7 de junho de 2023
MUDANÇA
Toleba acabou de ajeitar as cangas, atou as brochas sob o pescoço dos bois e os chamou à lida. Com o garruchão comprido, de chocalho de anéis na ponteira, atingia desde a primeira junta até a terceira, a mais forte, que se prendia ao cabeçalho, junto à mesa.
Todos os bois tinham seus próprios nomes, por que eram chamados e pelos quais atendiam ao comando do carreiro. Na primeira junta, Dengoso e Bendito; na segunda, Fumaça e Malhado; na terceira, Maciste e Noturno, estes chamados bois de coice, os que sustentam o carro no nível e dão o primeiro arranque no momento da partida.
Toleba nunca entendera direito, por que o dono pusera esse nome esquisito no Maciste. Mesmo o seu apelido, Toleba, que ganhou na adolescência, ele entendia, já que era um homem atarracado, forte, massudo. Mas depois descobriu que fora por causa de um filme a que o patrão assistira no cinema do Zezete, quando menino, sobre um homem muito forte, capaz de mover com a força dos braços coisas descomunais, que dera o nome ao boi. Maciste, na verdade, era um boi dobrado, desses que metem medo por seu tamanho e musculatura, não fosse ele um animal manso e dolente, que não parecia em nada, no seu proceder, com o nome que o patrão lhe dera. Todos os outros nomes estavam completamente adaptados a cada animal. Era só vê-los e com eles conviver, para perceber que eram nomes justos. Por exemplo, o Noturno, de porte semelhante ao Maciste, era mais escuro que o Fumaça, que tinha o pelo cinza escuro, enquanto ele era de um pelo preto brilhante e bonito. Até o do Maciste, depois da explicação do patrão, passou a fazer sentido.
Nesse dia, Toleba ia fazer o carreto dos teréns do Manuel Firmino, que estava de mudança da Fazenda da Forquilha para a Fazenda da Boa Esperança, um pouco mais acima na serra do mesmo nome. É que o patrão tinha acabado de comprar esta última e resolveu deslocar o empregado para lá, onde ele assumiria a função de capataz. Manuel Firmino ia se mudar, coisa que não apreciava por ser um homem apegado a suas rotinas, mas ia com alegria, porque fora promovido, como recompensa por tantos anos de trabalho.
O carreiro, cheio de disposição, chegou cedo à casa do companheiro e tratou logo de carregar o carro com os pertences da família do Manuel Firmino que levaria para a Boa Esperança. Antes de começar, porém, verificou se os fueiros estavam ajustados e firmes na mesa e se a esteira estava bem amarrada aos fueiros, para que nada caísse durante a viagem serra acima. Era preciso que tudo chegasse direitinho ao seu destino.
Manuel Firmino, a mulher e os filhos, ainda pequenos, ajudaram a transportar os trecos até o carro de boi estacionado no terreiro. Toleba, sobre a mesa do carro, recebia de Manuel Firmino cada peça, que ia acomodando da melhor maneira possível, para que tudo coubesse em uma só viagem. É que gente da roça nunca tem muitas coisas a carregar, quando muda de pouso. Fogão, por exemplo, não se carrega, já que é uma peça moldada em tijolo e barro, fixado num canto da cozinha. A casa nova certamente teria também o seu. As camas são desmontáveis. Só um e outro móvel segue inteiro, sem partes, alojados com maestria na mesa do carro, de modo a caber tudo o que nele se transporta. A mesa da cozinha, por exemplo, foi colocada de pernas para cima, com os dois bancos acomodados entre elas. Por fim, sobre os poucos móveis rígidos, as roupas da família e os colchões, enchidos com capim e bem leves de levar. Por riba de tudo já arrumado, Toleba joga uma lona cáqui, já com algum puído na trama, amarrada bem firme com uma corda de juta, a fim de proteger a carga de poeira e chuva. As criações de terreiro – galinhas e patos - iam em gaiolas feitas de bambu e dependuradas nos fueiros laterais. Os dois capados roliços, cevados para o Natal daquele ano, foram colocados, sob protestos veementes, como é costume desses bichos, num espaço na traseira do carro, numa espécie de cercado improvisado, com piso de folhas de bananeira, para que não sujassem por demais o restante da carga. Mas o coleirinho do brejo cantador, bichinho da mais alta estima, era o próprio Manuel Firmino quem levava na mão desocupada da rédea, com todo o cuidado possível.
- Tudo certo, compadre Firmino? – pergunta o carreiro.
Manuel Firmino confirma que tudo está nos conformes e se prepara para deixar a casinha humilde onde morou até então com a mulher e os quatro filhos, dois meninos e duas meninas. Ainda ao sair, num gesto de agradecimento, como reverência, levantou o chapéu de palha em direção à casa que serviu de lar para eles durante tantos anos.
Um pouco mais cedo, ele já arriara os dois cavalos de que dispunha. Logo ajuda a mulher a montar no malhado e instala uma das filhas na garupa. Monta no piquira e puxa a outra filha para sua garupa, enquanto Toleba coloca os dois meninos menores sobre o assento frontal à mesa do carro. O carreiro mesmo vai a pé, candiando os bois morro acima. Os trechos planos são bem curtos. O mais que se faz é subir, e isso requer perícia e arte no conduzir os animais e a carga.
Atendendo seus aboios iniciais, os bois se põem em movimento, e começa a viagem.
- Vem, Dengoso! Vem, Bendito! Vamos, Maciste! Força, Noturno!
Ao mesmo tempo em que chama pelos bois, vibra o garruchão, que tine as argolas do chocalho. Era o sinal para começar a marcha.
Os dois meninos repetem os gritos do Toleba, no chamado dos bois, já transformando a mudança numa divertida aventura.
Aos primeiros metros percorridos, o carro começa a emitir o som choroso característico, produzido pelo atrito das peças de madeira com o eixo, que vai azeitado, de modo a produzir a melodia que o carreiro mais estima e que o identifica dentre os demais carros de boi que circulam pelas estradas de chão do interior. A dolência do canto estimula a marcha, abranda a dureza da lida, embala as pessoas que vão junto à comitiva em busca de novos desafios.
Daí a duas horas, a família já estará na outra casa, na outra fazenda, retomando a labuta de um ponto além do que deixara para trás. Tudo dentro dos planos da vida que se toca serenamente, feito marcha de carro de boi candiado com perícia e refinamento.

Imagem colhida na Internet (coisasdaroca.com).
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.
16 de maio de 2023
INFÂNCIA
28 de abril de 2023
BICHO
4 de março de 2023
PALAVRA
10 de fevereiro de 2023
LET DIE, por Pedro Neiva de Mello
Hoje trago aqui este conto escrito por meu filho Pedro Neiva de Mello, publicitário de profissão e danado para escrever bonito.
Aí está!
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LET DIE
Pedro Neiva de Mello
- Parei com o rock, bicho! Saco! Não tem mais rock bom
agora. Se é novo e é bom, é porque é de um disco novo de artista velho e, ainda
assim, é difícil pra cacete de encontrar. Senão é rock ruim!
Esse é o Carlão. Um camarada que fiz estes dias aqui. Carlão
faz aquele estilo coroa gatão. Grisalho, forte e falastrão. Deve ter aí seus
58, 59 anos.
- Quantos anos você tem, Carlão? – pergunto.
- Cinquentinha!
Porra!... Carlão tá meio acabado. Não é tão coroa e,
logo, não é tão gatão. Mas tá lá ele com suas tatuagens no braço direito. Uma
tribal e uma guitarra com uma flâmula escrita “Live and Let Die”. Tá lá ele
revirando a memória pra lembrar do último rock novo e bom de que se lembra,
enquanto reclama da vida.
Conheço o Carlão há seis dias. Quando cheguei aqui, ele
já estava ali no mesmo lugar de agora. Reclamando. Acho que a falta de rock fez
muito mal a ele. Parece ansioso e, à noite, grita umas palavras soltas assim do
nada! Na primeira noite, eu tomei um susto e quase caí daqui. Ele gritou “Boa
noite, Circo Voador!”. Eu estava meio dormindo e meio acordado. Daquele jeito
que os remédios deixam a gente, sabe? Porra!... foi um susto danado. Olhei pra
esquerda, e estava lá ele com seu braço direito tatuado socando o ar e
dormindo. Depois parou e dormiu. No dia seguinte contei a ele o que tinha
acontecido.
- Tá de sacanagem... Isso aí é coisa de maluco, bicho. – rebateu
o Carlão, muito convicto e com um certo ar de deboche pra mim.
Achei até que era eu quem estava vendo coisas, até porque
a gente não está aqui à toa. Ou ele ou eu podíamos ser o louco da conversa.
Na segunda noite, acordei novamente de supetão, porque o
Carlão fazia muito barulho. Olhei pro lado esquerdo do quarto, em direção à sua
maca. Só havia nós dois naquele quarto. Então toda a minha distração vinha
dele. Não podíamos ver tevê, celular, ouvir música e nem nada naquela fase do
tratamento.
- O que tá rolando, cara? – perguntei.
Ele se surpreendeu que eu estivesse acordado. Olhou pra
mim com os olhos arregalados, se virou. Fez uma enorme força com os braços pra
se sentar, mesmo sem permissão. Conseguiu e sentou-se do lado direito de sua
maca. Ainda tinha o ar de surpresa intacto na sua cara. Nessa hora eu reparei
que Carlão tinha uma secreção saindo da boca. Sem parar. Uma baba espessa.
- Que foi, cara? Quer que eu chame alguém? O que você
precisa? – perguntei pra ele - O que você quer?
- Eu queria ter uma bomba. Um flit paralisante qualquer
pra poder me livrar do prático efeito. - respondeu com os olhos dentro dos meus
e com a voz áspera citando Cazuza e se debatendo sentado do lado da cama.
Foi quando o Gérson entrou correndo no quarto, sem seu
uniforme, desesperado. Trazia com ele um segurança da clínica. Os dois
seguraram aquele homem forte de volta na maca. O Carlão seguia gritando, quando
Gérson aplicou algo no braço tatuado dele e o acalmou.
- Acho que desta vez o Carlos Roberto não sai mais
daqui... - refletiu o Gérson, depois que o Carlão finalmente dormiu e o quarto
se acalmou.
Carlão era um frequentador assíduo. Ia a voltava de
tempos em tempos. Aquela era sua quinta passagem por ali nos últimos quatro
anos. A cada retorno parecia mais fraco e solitário. Era filho de um casal de
músicos setentões. Viveu a vida na estrada com os pais e se apaixonou pelo rock
desde moleque. Uma paixão que virou patológica, com o passar do tempo e com o
passar das fraquezas do corpo e da mente. Fraquezas iguais às minhas. Fraquezas
que justificavam a nossa vizinhança naquele quarto.
Acostumado, na noite passada eu nem levei susto. Já
esperava a resenha da madrugada acordado. Pedi ao Gérson para reduzir a minha
dosagem naquela noite. Ele concordou. Disse que eu estava fazendo progresso, e
que o Carlos, em todas as suas idas e vindas, nunca tinha interagido com outro
parceiro como desta vez. E concluiu com um sorriso e com o sinal de metal na
mão direita – Rock and roll!!
Carlão começou a falar lá pelas 3h20. Calmo e de olhos
fechados, seguiu deitado. Parecia consciente desta vez. Não estava agitado como
na segunda noite ou incompreensível como na primeira. Não estava raivoso como
na quinta noite e nem grogue como na terceira e na quarta. Estava sereno.
- Quem é ele, esse tal de rock and roll? – ele disse.
- O rock errou. Errou comigo. – ele disse.
- O rock acabou, cara. – ele disse - Acabou!
Van Gogh. O quarto em Arles (1889; imagem colhida na Internet).