30 de setembro de 2026
CENA DE SUPERMERCADO (II)
24 de agosto de 2026
GEOGRAFIA
6 de agosto de 2026
LÍNGUA (II)
21 de julho de 2026
EXPECTATIVA
1 de julho de 2026
GOL DE PORCO
(Em comemoração à Copa do Mundo da FIFA, compartilho aqui este conto esportivo, publicado originariamente em Gritos&Bochichos.)
O campo do Fluminensinho margeava bem junto do Rio Itabapoana, do lado do Estado do Rio, próximo à charqueada.
Era meramente um espaço demarcado num gramado um pouco mais amplo, decorado com duas balizas de madeira simples e escassa marcação das linhas regulares dos gramados oficiais. E tinha dimensões acanhadas para os padrões atuais.
O Fluminensinho mesmo não fazia parte da chamada elite do futebol bonjesuense e disputava seus esporádicos jogos, quase sem plateia, lá uma vez e outra. Torcida mesmo, acho que também não tinha. Assim como sede, ou uniforme completo. Seus jogadores não jogavam em nenhum dos dois clubes importantes das duas Bom Jesus, o Olímpico, do lado fluminense, e o Ordem e Progresso, do lado capixaba. E seus abnegados atletas de ocasião se cotizavam sempre que surgia despesa com bola, rede, cal, pinga, carne para churrasco e cerveja.
No entanto o Fluminensinho disputava partidas, com todas as consequências inerentes a este antigo e viril esporte bretão.
Num desses jogos, contra um certo time Tupi, de plagas adjacentes a Bom Jesus, a disputa seguia ferrenha, mas sem que nenhuma das equipes tivesse ainda furado as redes do adversário. No Fluminensinho, dois jogadores se destacavam. Nem tanto por suas habilidades com a redonda, mas antes por sua compleição física, digamos, um tanto avantajada.
Um era o Absoluto, negro alto, dobrado da cintura para cima, que trabalhava como carregador e descarregador de caminhões, para o comércio local. Dizia sua mitologia da época que ele era capaz de transportar quatro sacos de sessenta quilos de uma só vez: um na cabeça, um sob cada braço e o quarto nos dentes. Tirante isso, era um homem cordial, de muito bom humor e prestativo para quem dele necessitasse. Também com aquela massa muscular, não havia ninguém que tirasse farinha com ele!
O outro era o Nivaldo. Mulato também dobrado, entregador de banda de boi do matadouro da cidade, a qual ele carregava nas costas com uma facilidade tão grande, que parecia transportar fardo de algodão. Nivaldo tinha um bigodinho estreito a fazer comichão na platibanda do beiço, o que lhe dava aspecto de cantor de boleros e sambas-canções na guaxa localizada um pouco mais acima do mesmo rio. Mas também ninguém tinha coragem de dizer isso em público ou em privado.
Os dois, Absoluto e Nivaldo, compunham a dupla de ataque do Fluminensinho, de modo que todo e qualquer adversário já entrava em campo com metade da razão perdida, na discussão de possíveis erros e acertos de arbitragem. Mas eles não entravam para brigar, e sim para jogar sua bolinha descompromissada dos fins de semana.
Pois ia lá o jogo empatado até quase o final da partida, quando um meio-campista lança a bola na direita, para a entrada em profundidade do Absoluto, que disparou no espaço aberto. Quando ele lá chegou, em sincronia com a pelota, inadvertidamente adentrou o gramado do Fluminensinho distraído leitão, proveniente dos lados da charqueada, fugindo da corrida de um cachorro vira-lata. O pobrezinho coitado, na inocência dos seus seis quilos e pouco, entrou no ângulo da linha da bola e do pé do Absoluto, naquela confluência em que, se atingida, dela não se escapa, e foi pego no vazio pelo pontapé potente do atacante tricolor. E voou ele, na mesma curva que faria a redonda se lá estivesse, em direção à área, para onde, também como um corisco, se precipitava Nivaldo e toda a sua pessoa dobrada. Nivaldo chegou no exato instante de meter a cabeça no mamífero artiodáctilo doméstico, da família dos Suídeos, e mandá-lo ao fundo das redes e assim assinalar o primeiro e único gol suíno de que tenho notícia, em setenta e poucos anos de causos e histórias.
E o Fluminensinho venceu mais uma emocionante contenda. Só o artilheiro não conseguiu ir até o fundo das redes pegar a bola e beijá-la, porque àquela altura o porquinho fugia grunhindo, em desabalada carreira na direção do vira-lata.
12 de junho de 2026
HUMANOS
31 de março de 2026
EU TE AMAREI
(Para minha netinha Maria, autora do autorretrato que ilustra o poema. )
Até que a luz se apague
No quarto
Na festa
Na cidade
No universo.
Eu te amarei
Em palavra
Prosa e verso
Em verbo e carne
Enquanto a minha carne
Sustentar os sonhos
Que sonho por ti.
Eu te amarei
Por todo o tempo
Antes
Durante
E depois
Do que já foi e será
Um dia
E até o fim,
Maria.
![]() |
| Maria Linhares, Autorretrato, 2026. |
21 de março de 2026
O CURIÓ (Conto ligeiro)
Numa manhã, encontrou o curió morto dentro da gaiola. Formigas o tinham aniquilado, sem respeito ao canto maravilhoso. Caiu, assim, na maior prostração.
As manhãs de
domingo seguintes pareciam o silêncio etéreo e o abandono trágico da criatura.
Vagava por entre as alamedas do Campo de São Bento, olhando as gaiolas dos
amigos. Todas lindas, deslumbrantes. Mais e mais humilhou-se. Sem o curió, o
menor dos mortais. Sem o pássaro, nem os filhos, nem a mulher.
Murchou
tanto, definhou tanto, que perdeu suas próprias canções, seus íntimos gorjeios.
Num dia de
muda, o frio intenso da solidão, amanheceu morto sobre a cama do casal, a
mulher chorando, a porta da gaiola aberta para o desconhecido.
Curió (imagem colhida em https://play.google.com/)
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PS: Este conto ligeiro, da década de 80, foi baseado em pássaro e formigas reais e pessoa e desfecho imaginários, de um tempo em que ter pássaros em gaiolas não se constituía em crime.
14 de março de 2026
CANTO DE GUERRA
dilacerem-se
estraçalhem-se
devorem-se por lá
ministros presidentes aiatolás
mas me deixem por aqui
tocando meu barco soprado a sonho
e minha vida movida a desespero
engulam-se
destruam-se
eliminem-se
idiotas eternos da guerra
chacais abjetos da violência
mas evitem-me qualquer parcela em sua luta
livrem minha cara de sua saliva irada
meu sangue não tingirá suas mãos despóticas
nem meus descompassos marcharão nos exércitos
dos que destroem homens
e continuam impunes
morram todos vocês
para que os povos enfim sobrevivam
do que lhes sobrar desses tempos de estupidez
[e ódio
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Nota: Este poema é do inícios dos anos 80 e está publicado em meu livro Ucronia, pelo Clube de Autores. Trago-o aqui por nunca ter deixado de expressar minha opinião sobre os que promovem guerras.
19 de fevereiro de 2026
"TAL VAI O MEU AMIGO..."
(Para Jane, Eduardo e Guilherme Padilha.)
Lá se foi mais um grande amigo: José Luiz Padilha Martins.
Aliás o ser vivo tem a péssima mania de morrer. Digo isso em tom de humor, para amenizar um pouco a dor da perda desse amigo de infância, de juventude, de idade adulta e de velhice. Não vou aqui contemporizar com expressões como terceira idade, melhor idade, ou coisa que o valha. Da minha idade (Na verdade ele é seis meses mais velho que eu.), começamos nossa relação de toda uma vida nas ruas de Carabuçu, nos espaços do Grupo Escolar Marcílio Dias, nas reuniões do Friend’s Clube, lá nos idos de 60 do século passado, criado por iniciativa do Celinho (Célio Domingues Machado), meu primo, que conseguiu com isso, ainda mais, estreitar os laços entre nós. E, sobretudo, na paixão pelas mesmas meninas bonitas da vila, pela música brasileira, pela novidade do tal de roquenrol e da Bossa Nova, que surgiu como um respiro de renovação na até então música brasileira. Ficamos fãs de Elvis Presley e João Gilberto; de Little Richard e Tom Jobim. Assim bem misturados, sem fronteiras que pudessem barrar nosso desejo de novidade e arte, ainda que estivéssemos numa pequena vila do interior do antigo Estado do Rio de Janeiro.
Quando, aos quinze anos, fui aprender o ofício de barbeiro com o Moreninho, por instrução do meu pai, o amigo Zé Luiz era um dos que se dispunham a enfrentar minhas primeiras tesouradas nas cabeleiras dos clientes. E jamais pôs um reparo, ou reclamou de caminhos de rato que pudesse ter feito em seu cabelo.
E foi numa dessas oportunidades que trocamos ideias a respeito do sucesso que o show de Bossa Nova, levado por artistas brasileiros ao Carnegie Hall, fez em Nova Iorque e, a partir daí, em boa parte do planeta. Lá, em Carabuçu, Zé Luiz e eu estávamos orgulhosos da repercussão da nossa música em terra de gringo.
Alguns anos depois, vim para Niterói, atrás do meu curso superior. Zé Luiz ficou por lá, estudou, se aprimorou, inteligente e interessado que sempre foi, tornou-se um professor amado por seus alunos e personagem crucial para a Educação no nosso município.
Por esse tempo, aproveitou para conhecer e se apaixonar por sua Jane, de cuja relação vieram Dudu e Guilherme, que anos depois lhe deram netos.
Mas antes que seus netos surgissem e, já aposentado do magistério, veio para Niterói, onde pudemos retomar a convivência que tivéramos na infância e na juventude. E foram diversas oportunidades em que viajamos por aí, nos encontramos em torno de uma cerveja no Mondial de la Bière, por exemplo, de um vinho, de uma feijoada, de uma confraternização, de um papo descontraído, sempre regado a inteligência e bom humor, como ele sabia conduzir.
E continuamos amantes da música, já de gostos um pouco diferentes. Ele, que ficara por mais tempo na terra natal, desenvolveu a paixão pelo jazz. Eu, que vim ainda jovem para a cidade grande, me agarrei aos sons tradicionais da música brasileira. Nenhum de nós – nem ele, nem eu –, porém, abriu mão da boa música, não importasse o estilo.
Agora, esse amigo de sempre partiu na Quarta-feira de Cinzas de um Carnaval que ele sempre amou.
Sua Jane ainda me disse que, na Terça-feira Gorda, como dizíamos, ao ver o desfile das escolas de samba, ele lamentou, por problemas de saúde, não mais poder estar lá. E disse, contrariado, para ela: se eu não posso ir lá, é melhor ir embora.
Naquela mesma noite, após passar mal e ser levado para o hospital, meu amigo Zé Luiz nos deixou. E como disse nosso outro amigo, Eduardo Campos, “partiu nas cinzas do Carnaval”.
Eu teria aqui muitas outras histórias, depois de tanto tempo de convivência, contudo fica este registro como uma oração fúnebre para este amigo querido.
———-
* Verso inicial de uma cantiga de amigo medieval de Pero Meogo. É bem verdade que amigo por aquele tempo significava namorado. Usei-o aqui com o sentido moderno da palavra e para expressar o quão antiga é essa nossa amizade.
12 de fevereiro de 2026
PAI PARA TODA OBRA
Era pai para toda obra, pau puro, dos que não deixam pedra sobre pedra e sempre estão cavando um jeito de ajudar. Aliás, como seu pai também o fora.
Por isso não renegava as origens, afirmando que o cavaco não voa longe do pau.
Assim quebrava o galho de todo mundo, principalmente dos que faziam parte da sua árvore genealógica. Mas tinha, em contrapartida, comportamento reservado, desses de não meter a colher de pau em assunto alheio, a não ser que fosse instado a tanto. No restante, era madeira de dar em doido e não um pau-de-amarrar-égua que servisse de escárnio a toda gente.
Por mais de uma vez, quando necessário, o pau cantou com sua intervenção, como num baile a candeeiro, na casa de pau a pique do Noca Silvestre, em que um cara de pau de nome Zeca Pinheiro se engraçou com a filha mais nova do Antônio Madeira.
A notícia voou longe como cavaco de lenha, e as pessoas contavam que o pau comeu na casa do Noca, com tapas, bofetões e pauladas, com fueiro de carro de boi, no lombo do desaforado, que abriu nos paus, antes que vestisse paletó de madeira. É que juntou gente para meter a lenha nele, sem dó nem piedade.
Esse cara de pau teve até de se mudar da vila, porque todos metiam o pau no seu comportamento. Mas foi bom para que ele aprendesse com quantos paus se faz uma canoa e não se metesse mais em pau com formiga, de que fosse difícil se desembaraçar. E foi até ameaçado pelo subdelegado de que iria para o pau de arara, caso repetisse a afronta. Foi expulso da vila a poder de pau furado do Cabo Zico Figueira, a mando da autoridade superior.
A única oportunidade em que tal pai levou pau foi na subida do pau-de-sebo, na festa junina da vila, porque a disputa não foi pau a pau. Paulino Carvalho, dos Carvalhos de Conceição de Mato Dentro, tinha tarimba e era magrelo como um pau-de-virar-tripa. E acabou ganhando o prêmio de cinquenta paus, no envelope na ponta lá no alto.
E, no restante de sua vida, esse pai foi morar numa casa de troncos de árvores, embaixo de um pé de pau, ao lado do ribeirão Madeira. E, quando espichou as canelas, teve a bandeira a meio pau hasteada no mastro na pracinha da vila, com discurso do filho primogênito que, na homenagem, destacou que ele nunca fora um pau-mandado, um zé ruela, muito menos um pau de cabeleira, um alcoviteiro qualquer. Fora um pai para toda obra!
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| Foto do autor. |
17 de janeiro de 2026
A FOLHA
15 de dezembro de 2025
PARA ADÉLIA*
deus existe
embora não exista.
tua poesia no entanto
prenhe de deus e seus mistérios
mais que humanos
nos salva a todos
perdidos que estamos
nessa nave de estética de ódio
e fome
de guerra e pânico.
por isso, adélia,
tua poesia é feito um prado de buganvílias
de cor amarelo-roxeado
de gosto travoso
tão saboroso
tão saboroso.
(*Sob a inspiração de Bagagem, de Adélia Prado.)
Em homenagem aos noventa anos desta grande poetisa brasileira. Publicado originariamente em Gritos&Bochichos, em 14/6/2010.
1 de dezembro de 2025
VALER A PENA
29 de outubro de 2025
TIPO ASSIM (IX) - DALMAR SILVA
Cheguei a Niterói, vindo de Bom Jesus do Itabapoana, na bagagem dos meus vinte anos, em março de mil novecentos e sessenta e sete.
Trazia, dentre as bugigangas corriqueiras, a determinação
de fazer meu curso superior e a vaga de trabalho na Ótica Avenida, cujo sócio
proprietário, Chico Borges, era irmão dos meus antigos patrões, Zé e Joãozinho
Borges, em minha terra natal. Foram, inclusive, estes que conseguiram meu
emprego com aquele. Tudo em família.
Era um domingo de manhãzinha, quando desci na rodoviária,
acompanhado de meu amigo e colega de escola Antônio Carlos Lepre, e já na manhã
de segunda-feira me apresentava para o emprego, com minha primeira e única
carteira de trabalho, ainda virgem de anotações.
Por aquela ocasião, a Ótica tinha antigos e competentes
empregados: Aro, Dalmar, Luís, na loja, e Roberto e Nelson, na oficina.
Dalmar me recebeu como um irmão mais novo, inexperiente
em cidade grande, a quem deveria orientar. Já casado e sem filhos até então –
pouco depois adotou um menino -, deveria estar por volta de seus quarenta anos.
E foi ele quem me iniciou em paladares distintos e
inusitados para a minha vivência de rapaz do interior. A ele devo boa parte da
minha experiência na gastronomia da cidade grande. Alguns pratos que
desconhecia, experimentei-os em função de incentivo seu ou mesmo
confraternizando com ele.
Certa vez, caminhando pela Rua Barão do Amazonas, quase
chegando à esquina da Avenida Amaral Peixoto, vi na lousa exposta diante do Bar
e Restaurante São Jorge, hoje inexistente, o anúncio em giz do prato do dia:
entremeada no feijão. Cheguei daí a pouco ao trabalho e perguntei a ele que
diabos significava aquele prato. Então ele me disse:
- Você vai saber daqui a pouco, na hora do almoço.
E fomos lá, por volta do meio-dia, almoçar no Bar e
Restaurante São Jorge. Antes que viesse o prato – é bom que se diga que meu
paladar é universal, por isso nunca tive receio de novidades -, ele me
explicou: é o feijão cozido com cane-seca nem muito gordurosa, nem muito magra;
quer dizer, com certo teor de gordura. E completou a informação de que era
comum, nesse tipo de restaurante popular, encontrar as três opções: magra,
entremeada e gorda no feijão.
Em outra ocasião, ele resolveu me apresentar à até então
minha desconhecida Sopa Leão Veloso. Saímos do trabalho e atravessamos as
barcas em direção ao Rio de Janeiro, para, na Praça Quinze, sorver aquela
maravilha da culinária, versão carioca da famosa bouillabaisse francesa, no
Restaurante Real Peixadas, oportunidade em que também fui apresentado à cachaça
Azulzinha de Paraty, que desceu macia, em caracol, garganta abaixo. Devo
confessar que, anos depois, já em 1998, por ocasião da Copa do Mundo da França,
meu filho e eu, após o jogo da Seleção contra a Laranja Mecânica, em Marselha,
fomos até um restaurante nas proximidades do porto, para conhecer a versão
francesa. A nossa dá de goleada, pelo menos naquela que tomamos.
Com frequência, Dalmar e sua esposa preparavam, para o
sábado após o expediente, grão-de-bico à moda portuguesa, que ele aprendera com
a lusitana que o havia criado, após a morte da mãe. E era um repasto saboroso,
pantagruélico, em torno da panela fervente daquela mistura olorosa do grão, com
carnes salgadas e legumes, acompanhado apenas por pão francês, cachaça de alambique
e cerveja gelada. Após o almoço, eu e outros convidados voltávamos para casa
com o prazer estampado na cara.
Outro prato que também conheci por sua influência foi
dobradinha à lombeira, que não conhecia em minha terra natal. Aliás, aprendi
também, que o nome do prato varia em alguns lugares do país, até mesmo em Portugal,
onde, na cidade do Porto, comi a versão original lusitana: tripas à moda.
Mesmo após ter saído do emprego na Ótica Avenida, onde
Dalmar continuara, pois era um competente técnico em ótica, vez ou outra era
convidado para novo tipo de experiência gastronômica com ele.
A ele devo esse aprendizado prazeroso que, embora seja
volátil no paladar físico, marca profundamente a memória sensorial das coisas
vividas e experimentadas.
Meu amigo e irmão mais velho Dalmar, já passado dos seus
setenta anos, faleceu em Niterói.
Viva Dalmar!
![]() |
| Sopa de grão-de-bico (em arcadasportofado.pt). |
27 de setembro de 2025
POÉTICA ESDRÚXULA
Lúgubre/tétrico
Lúbrico/tórrido
Lânguido/tépido
Lírico/tácito
Lívido/tísico
Límpido/típico
Lógico/tóxico
Lúdico/túmido
Lúcido/tímido
Lépido/trêfego
10 de setembro de 2025
O DIA EM QUE MORRI E NÃO SABIA
Corria o último dia vinte e dois agosto um tanto sorumbático.
Estava eu em
Nova Friburgo, acompanhado da Jane, para o velório do irmão de um grande amigo.
Eram exatamente 12h40, quando o celular, em modo mudo, pois já estávamos na
cerimônia, vibrou anunciando mensagem do Whatsapp. Era o amigo José Antônio
Lahud, diretamente da capital federal, em mensagem de voz – voz tentando
disfarçar preocupação –, a me indagar:
-
Saint-Clair, está tudo bem com você?
Ora, uma
pergunta dessas, de um amigo distante com quem falo frequentemente, a fingir
tranquilidade na voz, só pode ser sinal de alguma coisa errada. Respondi que
sim, embora estivesse num velório. E quis saber dele o motivo da indagação:
- Está tudo
bem comigo, tudo certinho. O que é que houve? Ouviu falar mal de mim, que eu
morri, que eu bati as botas?
Ele então
esclareceu que houve um ruído de comunicação, desde Bom Jesus do Itabapoana,
minha terra natal, porque o amigo comum Luís Maiato entrara em contado com a
notícia do meu passamento, desencarne, sublimação, ou o que quer que seja que
indica que eu tivesse abotoado o paletó. Embora estivesse num velório, estava
como amigo do morto, e não como morto, e gozando de plena saúde (Ou nem tanto.
Alguém já beirando os oitenta não pode ficar ostentando plena saúde, porque até
pega mal para uns e outros aí com azia e má digestão. Fora umas taxas suspeitas
e uma artrose no joelho a aporrinhar a marcha.)
Dois dias
após, ligo para minha irmã Elizabeth, a fim de confirmar dados de um passeio a
Belo Horizonte, marcado para 21 de novembro próximo. Veja que tenho expectativa
de vida até o final de novembro. Não posso fazer o falsete de sucumbir, já que
as despesas estão todas programadas no cartão de crédito até quase o ano que
vem. Depois do assunto principal, ela resolveu tocar no tema da minha presunta
morte (para usar um adjetivo espanhol que se adequa à situação), dizendo que
nosso amigo Pitota Silveira queria esclarecer a confusão em torno do meu
passamento, uma vez que ele, em conversa com ela, percebera sua tranquilidade.
Ora, a Beth saberia antes de mim, se o irmão tivesse falecido, foi o que acertadamente
pensou o Pitota.
Em 29 de
agosto, Pitota me solicita o número do celular, para esclarecer que correra em
Bom Jesus a notícia da morte de um meu xará fonético, mas não ortográfico, Sancler
Gomes, e isso acabou chegando aos ouvidos de queridos amigos que, muito
simpaticamente, ficaram preocupados com minha saúde.
Ri da
história e já havia até esquecido que morrera por pouco tempo, quando, nesta
semana, encontro a amiga Ana Elisa Figueiredo, conterrânea e contemporânea de
bancos escolares no Colégio Coronel Antônio Honório, em Bom Jesus do Norte,
cidade-irmã de Bom Jesus do Itabapoana.
Ela também tivera
notícia do meu desviver pela Marleide Silveira, também nossa antiga colega de
escola e irmã do Pitota. Ana Elisa, inclusive, recebeu mensagem com a
comunicação do velório e tentou tranquilizar a Leda, como a chamávamos à época,
dizendo que não era eu, que meu nome era Saint-Clair Machado, ao que a amiga
retrucou que eu poderia também ter Gomes no sobrenome. Ana Elisa não se
lembrava de meu último sobrenome, mas tinha certeza de que não era Gomes. E,
para deixar claro que não era eu o defunto, afirmou:
- O
Saint-Clair tem o nome chique, em francês. E, além disso, está muito bem,
porque me encontro sempre com ele aqui em Niterói.
Contudo,
penso eu, para morrer basta estar vivo. E para meu conforto e sorte, Ana Elisa
foi muito otimista com a minha pessoa física e fiscal. Vai que eu tivesse de
fato morrido? É que, embora não tenha Gomes como sobrenome, sou parte desta
família. Minha avó era Julinda Gomes Machado, assim como minha mãe, até se
casar com meu pai: Maria José Gomes Machado.
Como vê o
prezado leitor, estive morto para alguns amigos por um breve instante, mas fui
resgatado das garras da Indesejada das Gentes, na dicção poética de Manuel
Bandeira, por investigação eficiente nas modernas redes de comunicação de que
dispomos. E também, por que não dizer, com um bom disse-me-disse! Se fosse no
“tempo do cagar de coque”, como se falava outrora na minha terra, só depois do
trânsito de cartas e telegramas, é que recuperaria meu CPF e minha frequência
cardíaca costumeira: devagar, quase parando.
Foto do autor do autor.
8 de setembro de 2025
NOVO LIVRO NA PRAÇA
Amigos leitores, acabo de publicar este novo livro de contos pelo Clube de Autores. Nestes primeiros 30 dias, em pré-lançamento, a editora oferece um desconto sobre o preço de capa.
Neste livro reuni diversos contos postados em meus blogs Asfalto&Mato e Gritos&Bochichos. Uns bem próximos da realidade; outros nem tanto. Como sempre, porém, todos com certo bom humor na temática e na forma.Para os que se dispuserem a me honrar com a aquisição, que agradeço antecipadamente, aí vai o link do Clube do Livro:
15 de agosto de 2025
AONDE VAIS, LINDA GABI?
29 de julho de 2025
VINDIMA
Ter as mãos prontas para as bagas
e usá-las com carinho
sobre os seios
cujo sumo alimentará os sonhos.
A verdade estará
a partir daí
no líquido encorpado
que se há de produzir e guardar
em tonéis envelhecendo…
Nossas línguas se soltarão
ao sabor do vento sobre a videira
e nossos corpos experimentarão
o agridoce sopro
desta vindima farta.
| Vindima, por Francesco Gioli (1846-1922), colhida em meisterdruck.pt. |







