30 de setembro de 2026

CENA DE SUPERMERCADO (II)

A bengala dela 
É amarela 
A dele 
É bem vermelha 
A dele e a dela 
Se combinadas 
Dão laranja 
A cor das frutas que pegam 
Na mesma banca
Do supermercado 
Mas não se notam 
Por distraídos 
Ao fim da compra 
Claudicam juntos 
Ao mesmo caixa 
E se dão conta 
Que a parceria 
Daquele instante 
Bem poderia 
Ser mais constante 
E espremeriam 
O mesmo suco 
Por muitos anos.

Imagem colhida em pt.wikipedia.org.


24 de agosto de 2026

GEOGRAFIA

Eu conheci 
Os espaços mapeáveis 
Do teu corpo 
Centímetro a centímetro 
Os vales tépidos 
Os cumes vulcânicos 
As fendas fundas 
E a extensão macia 
Das costas oceânicas 
Onde soçobrava 
Meu barco embevecido 
Eu conheci os descaminhos 
Dos teus planos 
A geografia errônea 
Dos teus sonhos 
E os abismos abissais 
Dos teus pélagos mortais.

Imagem em pt.pinterest.com.


6 de agosto de 2026

LÍNGUA (II)

Queda-se em mim 
Silente e crua 
A portuguesa língua 
De Quintana 
De Drummond 
De Coralina. 
Dela tiro o alimento que me sustenta 
A cama de sons em que me deito 
E tudo que não quero dizer 
Enquanto minto. 
Porque dizer somente 
O que sinto 
Pode parecer imprudente. 
E me ponho mudo 
No aguardo de que as palavras 
Ora adormecidas ora despertas 
Verbalizem na precisa hora 
O que brota 
Do meu ser oculto.


Imagem colhida em ung.br.


21 de julho de 2026

EXPECTATIVA

Morro um pouco 
A cada dia 
Sem sofrer. 
No horizonte 
O sol se põe 
Irisado 
Eternamente 
Reinando sobre nós todos 
Enquanto eu 
Procuro um jeito 
Bem humano 
De viver 
Esquecido 
Da finitude 
Do ser.

Pôr do sol em Icaraí (foto do autor).


1 de julho de 2026

GOL DE PORCO

(Em comemoração à Copa do Mundo da FIFA, compartilho aqui este conto esportivo, publicado originariamente em Gritos&Bochichos.)


O campo do Fluminensinho margeava bem junto do Rio Itabapoana, do lado do Estado do Rio, próximo à charqueada.

Era meramente um espaço demarcado num gramado um pouco mais amplo, decorado com duas balizas de madeira simples e escassa marcação das linhas regulares dos gramados oficiais. E tinha dimensões acanhadas para os padrões atuais.

O Fluminensinho mesmo não fazia parte da chamada elite do futebol bonjesuense e disputava seus esporádicos jogos, quase sem plateia, lá uma vez e outra. Torcida mesmo, acho que também não tinha. Assim como sede, ou uniforme completo. Seus jogadores não jogavam em nenhum dos dois clubes importantes das duas Bom Jesus, o Olímpico, do lado fluminense, e o Ordem e Progresso, do lado capixaba. E seus abnegados atletas de ocasião se cotizavam sempre que surgia despesa com bola, rede, cal, pinga, carne para churrasco e cerveja.

No entanto o Fluminensinho disputava partidas, com todas as consequências inerentes a este antigo e viril esporte bretão.

Num desses jogos, contra um certo time Tupi, de plagas adjacentes a Bom Jesus, a disputa seguia ferrenha, mas sem que nenhuma das equipes tivesse ainda furado as redes do adversário. No Fluminensinho, dois jogadores se destacavam. Nem tanto por suas habilidades com a redonda, mas antes por sua compleição física, digamos, um tanto avantajada.

Um era o Absoluto, negro alto, dobrado da cintura para cima, que trabalhava como carregador e descarregador de caminhões, para o comércio local. Dizia sua mitologia da época que ele era capaz de transportar quatro sacos de sessenta quilos de uma só vez: um na cabeça, um sob cada braço e o quarto nos dentes. Tirante isso, era um homem cordial, de muito bom humor e prestativo para quem dele necessitasse. Também com aquela massa muscular, não havia ninguém que tirasse farinha com ele!

O outro era o Nivaldo. Mulato também dobrado, entregador de banda de boi do matadouro da cidade, a qual ele carregava nas costas com uma facilidade tão grande, que parecia transportar fardo de algodão. Nivaldo tinha um bigodinho estreito a fazer comichão na platibanda do beiço, o que lhe dava aspecto de cantor de boleros e sambas-canções na guaxa localizada um pouco mais acima do mesmo rio. Mas também ninguém tinha coragem de dizer isso em público ou em privado.

Os dois, Absoluto e Nivaldo, compunham a dupla de ataque do Fluminensinho, de modo que todo e qualquer adversário já entrava em campo com metade da razão perdida, na discussão de possíveis erros e acertos de arbitragem. Mas eles não entravam para brigar, e sim para jogar sua bolinha descompromissada dos fins de semana.

Pois ia lá o jogo empatado até quase o final da partida, quando um meio-campista lança a bola na direita, para a entrada em profundidade do Absoluto, que disparou no espaço aberto. Quando ele lá chegou, em sincronia com a pelota, inadvertidamente adentrou o gramado do Fluminensinho distraído leitão, proveniente dos lados da charqueada, fugindo da corrida de um cachorro vira-lata. O pobrezinho coitado, na inocência dos seus seis quilos e pouco, entrou no ângulo da linha da bola e do pé do Absoluto, naquela confluência em que, se atingida, dela não se escapa, e foi pego no vazio pelo pontapé potente do atacante tricolor. E voou ele, na mesma curva que faria a redonda se lá estivesse, em direção à área, para onde, também como um corisco, se precipitava Nivaldo e toda a sua pessoa dobrada. Nivaldo chegou no exato instante de meter a cabeça no mamífero artiodáctilo doméstico, da família dos Suídeos, e mandá-lo ao fundo das redes e assim assinalar o primeiro e único gol suíno de que tenho notícia, em setenta e poucos anos de causos e histórias.

E o Fluminensinho venceu mais uma emocionante contenda. Só o artilheiro não conseguiu ir até o fundo das redes pegar a bola e beijá-la, porque àquela altura o porquinho fugia grunhindo, em desabalada carreira na direção do vira-lata.



    Imagem obtida na Internet.

    12 de junho de 2026

    HUMANOS

    Rotas intransitáveis 
    Sonhos inacessíveis 
    Desejos insondáveis 
    Planos impossíveis 
    Dados inaceitáveis 
    Metas inatingíveis 
    Desculpas imperdoáveis 
    Gênios incompatíveis 
    Verdades impublicáveis 
    Erros irrecorríveis
    Propostas irrecusáveis
    Humanos incorrigíveis.

    Foto do autor.


    31 de março de 2026

    EU TE AMAREI

     (Para minha netinha Maria, autora do autorretrato que ilustra o poema. )


    Eu te amarei
    Até que a luz se apague
    No quarto 
    Na festa
    Na cidade
    No universo. 
    Eu te amarei
    Em palavra
    Prosa e verso
    Em verbo e carne
    Enquanto a minha carne
    Sustentar os sonhos
    Que sonho por ti.
    Eu te amarei
    Por todo o tempo
    Antes
    Durante
    E depois
    Do que já foi e será
    Um dia
    E até o fim, 
    Maria.

     


    Maria Linhares, Autorretrato, 2026.

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    PS: Quando enviou seu autorretrato, Maria passou as mensagens abaixo:
    [21:20, 30/03/2026] Vovô eu dei o meu melhor ok
    [21:21, 30/03/2026] Mas acho que podia ter caprichado mais quem sabe eu faço outro ,um beijo te amo tchau
    [21:22, 30/03/2026] A e vovô vc gostou da minha assinatura????????

    21 de março de 2026

    O CURIÓ (Conto ligeiro)

    Numa manhã, encontrou o curió morto dentro da gaiola. Formigas o tinham aniquilado, sem respeito ao canto maravilhoso. Caiu, assim, na maior prostração.

    As manhãs de domingo seguintes pareciam o silêncio etéreo e o abandono trágico da criatura. Vagava por entre as alamedas do Campo de São Bento, olhando as gaiolas dos amigos. Todas lindas, deslumbrantes. Mais e mais humilhou-se. Sem o curió, o menor dos mortais. Sem o pássaro, nem os filhos, nem a mulher.

    Murchou tanto, definhou tanto, que perdeu suas próprias canções, seus íntimos gorjeios.

    Num dia de muda, o frio intenso da solidão, amanheceu morto sobre a cama do casal, a mulher chorando, a porta da gaiola aberta para o desconhecido.


    Curió (imagem colhida em https://play.google.com/)


    ---------- 

    PS: Este conto ligeiro, da década de 80, foi baseado em pássaro e formigas reais e pessoa e desfecho imaginários, de um tempo em que ter pássaros em gaiolas não se constituía em crime.

    14 de março de 2026

    CANTO DE GUERRA

    dilacerem-se
    estraçalhem-se
    devorem-se por lá
    ministros presidentes aiatolás
    mas me deixem por aqui
    tocando meu barco soprado a sonho
    e minha vida movida a desespero

    engulam-se
    destruam-se
    eliminem-se
    idiotas eternos da guerra
    chacais abjetos da violência
    mas evitem-me qualquer parcela em sua luta
    livrem minha cara de sua saliva irada
    meu sangue não tingirá suas mãos despóticas
    nem meus descompassos marcharão nos exércitos
    dos que destroem homens
    e continuam impunes

    morram todos vocês
    para que os povos enfim sobrevivam
    do que lhes sobrar desses tempos de estupidez

                                                            [e ódio


    ----------- 

    Nota: Este poema é do inícios dos anos 80 e está publicado em meu livro Ucronia, pelo Clube de Autores. Trago-o aqui por nunca ter deixado de expressar minha opinião sobre os que promovem guerras.


    19 de fevereiro de 2026

    "TAL VAI O MEU AMIGO..."

    (Para Jane, Eduardo e Guilherme Padilha.)

    Lá se foi mais um grande amigo: José Luiz Padilha Martins.

    Aliás o ser vivo tem a péssima mania de morrer. Digo isso em tom de humor, para amenizar um pouco a dor da perda desse amigo de infância, de juventude, de idade adulta e de velhice. Não vou aqui contemporizar com expressões como terceira idade, melhor idade, ou coisa que o valha. Da minha idade (Na verdade ele é seis meses mais velho que eu.), começamos nossa relação de toda uma vida nas ruas de Carabuçu, nos espaços do Grupo Escolar Marcílio Dias, nas reuniões do Friend’s Clube, lá nos idos de 60 do século passado, criado por iniciativa do Celinho (Célio Domingues Machado), meu primo, que conseguiu com isso, ainda mais, estreitar os laços entre nós. E, sobretudo, na paixão pelas mesmas meninas bonitas da vila, pela música brasileira, pela novidade do tal de roquenrol e da Bossa Nova, que surgiu como um respiro de renovação na até então música brasileira. Ficamos fãs de Elvis Presley e João Gilberto; de Little Richard e Tom Jobim. Assim bem misturados, sem fronteiras que pudessem barrar nosso desejo de novidade e arte, ainda que estivéssemos numa pequena vila do interior do antigo Estado do Rio de Janeiro.

    Quando, aos quinze anos, fui aprender o ofício de barbeiro com o Moreninho, por instrução do meu pai, o amigo Zé Luiz era um dos que se dispunham a enfrentar minhas primeiras tesouradas nas cabeleiras dos clientes. E jamais pôs um reparo, ou reclamou de caminhos de rato que pudesse ter feito em seu cabelo.

    E foi numa dessas oportunidades que trocamos ideias a respeito do sucesso que o show de Bossa Nova, levado por artistas brasileiros ao Carnegie Hall, fez em Nova Iorque e, a partir daí, em boa parte do planeta. Lá, em Carabuçu, Zé Luiz e eu estávamos orgulhosos da repercussão da nossa música em terra de gringo.

    Alguns anos depois, vim para Niterói, atrás do meu curso superior. Zé Luiz ficou por lá, estudou, se aprimorou, inteligente e interessado que sempre foi, tornou-se um professor amado por seus alunos e personagem crucial para a Educação no nosso município.

    Por esse tempo, aproveitou para conhecer e se apaixonar por sua Jane, de cuja relação vieram Dudu e Guilherme, que anos depois lhe deram netos.

    Mas antes que seus netos surgissem e, já aposentado do magistério, veio para Niterói, onde pudemos retomar a convivência que tivéramos na infância e na juventude. E foram diversas oportunidades em que viajamos por aí, nos encontramos em torno de uma cerveja no Mondial de la Bière, por exemplo, de um vinho, de uma feijoada, de uma confraternização, de um papo descontraído, sempre regado a inteligência e bom humor, como ele sabia conduzir.

    E continuamos amantes da música, já de gostos um pouco diferentes. Ele, que ficara por mais tempo na terra natal, desenvolveu a paixão pelo jazz. Eu, que vim ainda jovem para a cidade grande, me agarrei aos sons tradicionais da música brasileira. Nenhum de nós – nem ele, nem eu –, porém, abriu mão da boa música, não importasse o estilo.

    Agora, esse amigo de sempre partiu na Quarta-feira de Cinzas de um Carnaval que ele sempre amou.

    Sua Jane ainda me disse que, na Terça-feira Gorda, como dizíamos, ao ver o desfile das escolas de samba, ele lamentou, por problemas de saúde, não mais poder estar lá. E disse, contrariado, para ela: se eu não posso ir lá, é melhor ir embora.

    Naquela mesma noite, após passar mal e ser levado para o hospital, meu amigo Zé Luiz nos deixou. E como disse nosso outro amigo, Eduardo Campos, “partiu nas cinzas do Carnaval”.

    Eu teria aqui muitas outras histórias, depois de tanto tempo de convivência, contudo fica este registro como uma oração fúnebre para este amigo querido.

    Árvore ao pôr do sol em Bom Jesus do Norte (foto do autor).

    ———-

    * Verso inicial de uma cantiga de amigo medieval de Pero Meogo. É bem verdade que amigo por aquele tempo significava namorado. Usei-o aqui com o sentido moderno da palavra e para expressar o quão antiga é essa nossa amizade.

    12 de fevereiro de 2026

    PAI PARA TODA OBRA

    Era pai para toda obra, pau puro, dos que não deixam pedra sobre pedra e sempre estão cavando um jeito de ajudar. Aliás, como seu pai também o fora.

    Por isso não renegava as origens, afirmando que o cavaco não voa longe do pau.

    Assim quebrava o galho de todo mundo, principalmente dos que faziam parte da sua árvore genealógica. Mas tinha, em contrapartida, comportamento reservado, desses de não meter a colher de pau em assunto alheio, a não ser que fosse instado a tanto. No restante, era madeira de dar em doido e não um pau-de-amarrar-égua que servisse de escárnio a toda gente.

    Por mais de uma vez, quando necessário, o pau cantou com sua intervenção, como num baile a candeeiro, na casa de pau a pique do Noca Silvestre, em que um cara de pau de nome Zeca Pinheiro se engraçou com a filha mais nova do Antônio Madeira.

    A notícia voou longe como cavaco de lenha, e as pessoas contavam que o pau comeu na casa do Noca, com tapas, bofetões e pauladas, com fueiro de carro de boi, no lombo do desaforado, que abriu nos paus, antes que vestisse paletó de madeira. É que juntou gente para meter a lenha nele, sem dó nem piedade.

    Esse cara de pau teve até de se mudar da vila, porque todos metiam o pau no seu comportamento. Mas foi bom para que ele aprendesse com quantos paus se faz uma canoa e não se metesse mais em pau com formiga, de que fosse difícil se desembaraçar. E foi até ameaçado pelo subdelegado de que iria para o pau de arara, caso repetisse a afronta. Foi expulso da vila a poder de pau furado do Cabo Zico Figueira, a mando da autoridade superior.

    A única oportunidade em que tal pai levou pau foi na subida do pau-de-sebo, na festa junina da vila, porque a disputa não foi pau a pau. Paulino Carvalho, dos Carvalhos de Conceição de Mato Dentro, tinha tarimba e era magrelo como um pau-de-virar-tripa. E acabou ganhando o prêmio de cinquenta paus, no envelope na ponta lá no alto.

    E, no restante de sua vida, esse pai foi morar numa casa de troncos de árvores, embaixo de um pé de pau, ao lado do ribeirão Madeira. E, quando espichou as canelas, teve a bandeira a meio pau hasteada no mastro na pracinha da vila, com discurso do filho primogênito que, na homenagem, destacou que ele nunca fora um pau-mandado, um zé ruela, muito menos um pau de cabeleira, um alcoviteiro qualquer. Fora um pai para toda obra!


    Foto do autor.



    17 de janeiro de 2026

    A FOLHA

    Leve 
    A folha velha 
    Sob suave brisa 
    Baila em zigue-zague 
    Antes de cair solitária 
    Sobre a lâmina d’água 
    Que corre ínfima 
    Ao lado da calçada. 
    E vai assim extinta 
    Do verde que exibia 
    Envaidecida 
    Há pouco ainda 
    Na amendoeira frondosa 
    Em frente à praia 
    Até sumir na grelha 
    Boca de lobo do esgoto 
    Para o seu destino. 
    Assim como nós outros.



    Imagem colhida em pt.pngtree.com

    15 de dezembro de 2025

    PARA ADÉLIA*

    deus existe

    embora não exista.

    tua poesia no entanto

    prenhe de deus e seus mistérios

    mais que humanos

    nos salva a todos

    perdidos que estamos

    nessa nave de estética de ódio

    e fome

    de guerra e pânico.

    por isso, adélia,

    tua poesia é feito um prado de buganvílias

    de cor amarelo-roxeado

    de gosto travoso

    tão saboroso

    tão saboroso.

    (*Sob a inspiração de Bagagem, de Adélia Prado.)

    Em homenagem aos noventa anos desta grande poetisa brasileira. Publicado originariamente em Gritos&Bochichos, em 14/6/2010.

    1 de dezembro de 2025

    VALER A PENA

    Ainda bem menino 
    Dependurei meu sorriso 
    No varal do paraíso 
    Bem em frente ao infinito. 

    E considerei que isso 
    Fosse suficiente 
    Tirante as dores pungentes 
    Que por acaso sentisse 
    Para me manter vivo. 

    Hoje tenho certeza 
    Depois do chão percorrido 
    De que vale mais a pena 
    Chorar embora sorrindo 
    Que ter um riso sofrido.

    Foto do autor.


    29 de outubro de 2025

    TIPO ASSIM (IX) - DALMAR SILVA

    Cheguei a Niterói, vindo de Bom Jesus do Itabapoana, na bagagem dos meus vinte anos, em março de mil novecentos e sessenta e sete.

    Trazia, dentre as bugigangas corriqueiras, a determinação de fazer meu curso superior e a vaga de trabalho na Ótica Avenida, cujo sócio proprietário, Chico Borges, era irmão dos meus antigos patrões, Zé e Joãozinho Borges, em minha terra natal. Foram, inclusive, estes que conseguiram meu emprego com aquele. Tudo em família.

    Era um domingo de manhãzinha, quando desci na rodoviária, acompanhado de meu amigo e colega de escola Antônio Carlos Lepre, e já na manhã de segunda-feira me apresentava para o emprego, com minha primeira e única carteira de trabalho, ainda virgem de anotações.

    Por aquela ocasião, a Ótica tinha antigos e competentes empregados: Aro, Dalmar, Luís, na loja, e Roberto e Nelson, na oficina.

    Dalmar me recebeu como um irmão mais novo, inexperiente em cidade grande, a quem deveria orientar. Já casado e sem filhos até então – pouco depois adotou um menino -, deveria estar por volta de seus quarenta anos.

    E foi ele quem me iniciou em paladares distintos e inusitados para a minha vivência de rapaz do interior. A ele devo boa parte da minha experiência na gastronomia da cidade grande. Alguns pratos que desconhecia, experimentei-os em função de incentivo seu ou mesmo confraternizando com ele.

    Certa vez, caminhando pela Rua Barão do Amazonas, quase chegando à esquina da Avenida Amaral Peixoto, vi na lousa exposta diante do Bar e Restaurante São Jorge, hoje inexistente, o anúncio em giz do prato do dia: entremeada no feijão. Cheguei daí a pouco ao trabalho e perguntei a ele que diabos significava aquele prato. Então ele me disse:

    - Você vai saber daqui a pouco, na hora do almoço.

    E fomos lá, por volta do meio-dia, almoçar no Bar e Restaurante São Jorge. Antes que viesse o prato – é bom que se diga que meu paladar é universal, por isso nunca tive receio de novidades -, ele me explicou: é o feijão cozido com cane-seca nem muito gordurosa, nem muito magra; quer dizer, com certo teor de gordura. E completou a informação de que era comum, nesse tipo de restaurante popular, encontrar as três opções: magra, entremeada e gorda no feijão.

    Em outra ocasião, ele resolveu me apresentar à até então minha desconhecida Sopa Leão Veloso. Saímos do trabalho e atravessamos as barcas em direção ao Rio de Janeiro, para, na Praça Quinze, sorver aquela maravilha da culinária, versão carioca da famosa bouillabaisse francesa, no Restaurante Real Peixadas, oportunidade em que também fui apresentado à cachaça Azulzinha de Paraty, que desceu macia, em caracol, garganta abaixo. Devo confessar que, anos depois, já em 1998, por ocasião da Copa do Mundo da França, meu filho e eu, após o jogo da Seleção contra a Laranja Mecânica, em Marselha, fomos até um restaurante nas proximidades do porto, para conhecer a versão francesa. A nossa dá de goleada, pelo menos naquela que tomamos.

    Com frequência, Dalmar e sua esposa preparavam, para o sábado após o expediente, grão-de-bico à moda portuguesa, que ele aprendera com a lusitana que o havia criado, após a morte da mãe. E era um repasto saboroso, pantagruélico, em torno da panela fervente daquela mistura olorosa do grão, com carnes salgadas e legumes, acompanhado apenas por pão francês, cachaça de alambique e cerveja gelada. Após o almoço, eu e outros convidados voltávamos para casa com o prazer estampado na cara.

    Outro prato que também conheci por sua influência foi dobradinha à lombeira, que não conhecia em minha terra natal. Aliás, aprendi também, que o nome do prato varia em alguns lugares do país, até mesmo em Portugal, onde, na cidade do Porto, comi a versão original lusitana: tripas à moda.

    Mesmo após ter saído do emprego na Ótica Avenida, onde Dalmar continuara, pois era um competente técnico em ótica, vez ou outra era convidado para novo tipo de experiência gastronômica com ele.

    A ele devo esse aprendizado prazeroso que, embora seja volátil no paladar físico, marca profundamente a memória sensorial das coisas vividas e experimentadas.

    Meu amigo e irmão mais velho Dalmar, já passado dos seus setenta anos, faleceu em Niterói.

    Viva Dalmar!


    Sopa de grão-de-bico (em arcadasportofado.pt).


    27 de setembro de 2025

    POÉTICA ESDRÚXULA

    Lúgubre/tétrico

    Lúbrico/tórrido

    Lânguido/tépido

    Lírico/tácito

    Lívido/tísico

    Límpido/típico

    Lógico/tóxico

    Lúdico/túmido

    Lúcido/tímido

    Lépido/trêfego


    Pedra do Índio, Niterói (foto do autor).



    10 de setembro de 2025

    O DIA EM QUE MORRI E NÃO SABIA

    Corria o último dia vinte e dois agosto um tanto sorumbático.

    Estava eu em Nova Friburgo, acompanhado da Jane, para o velório do irmão de um grande amigo. Eram exatamente 12h40, quando o celular, em modo mudo, pois já estávamos na cerimônia, vibrou anunciando mensagem do Whatsapp. Era o amigo José Antônio Lahud, diretamente da capital federal, em mensagem de voz – voz tentando disfarçar preocupação –, a me indagar:

    - Saint-Clair, está tudo bem com você?

    Ora, uma pergunta dessas, de um amigo distante com quem falo frequentemente, a fingir tranquilidade na voz, só pode ser sinal de alguma coisa errada. Respondi que sim, embora estivesse num velório. E quis saber dele o motivo da indagação:

    - Está tudo bem comigo, tudo certinho. O que é que houve? Ouviu falar mal de mim, que eu morri, que eu bati as botas?

    Ele então esclareceu que houve um ruído de comunicação, desde Bom Jesus do Itabapoana, minha terra natal, porque o amigo comum Luís Maiato entrara em contado com a notícia do meu passamento, desencarne, sublimação, ou o que quer que seja que indica que eu tivesse abotoado o paletó. Embora estivesse num velório, estava como amigo do morto, e não como morto, e gozando de plena saúde (Ou nem tanto. Alguém já beirando os oitenta não pode ficar ostentando plena saúde, porque até pega mal para uns e outros aí com azia e má digestão. Fora umas taxas suspeitas e uma artrose no joelho a aporrinhar a marcha.)

    Dois dias após, ligo para minha irmã Elizabeth, a fim de confirmar dados de um passeio a Belo Horizonte, marcado para 21 de novembro próximo. Veja que tenho expectativa de vida até o final de novembro. Não posso fazer o falsete de sucumbir, já que as despesas estão todas programadas no cartão de crédito até quase o ano que vem. Depois do assunto principal, ela resolveu tocar no tema da minha presunta morte (para usar um adjetivo espanhol que se adequa à situação), dizendo que nosso amigo Pitota Silveira queria esclarecer a confusão em torno do meu passamento, uma vez que ele, em conversa com ela, percebera sua tranquilidade. Ora, a Beth saberia antes de mim, se o irmão tivesse falecido, foi o que acertadamente pensou o Pitota.

    Em 29 de agosto, Pitota me solicita o número do celular, para esclarecer que correra em Bom Jesus a notícia da morte de um meu xará fonético, mas não ortográfico, Sancler Gomes, e isso acabou chegando aos ouvidos de queridos amigos que, muito simpaticamente, ficaram preocupados com minha saúde.

    Ri da história e já havia até esquecido que morrera por pouco tempo, quando, nesta semana, encontro a amiga Ana Elisa Figueiredo, conterrânea e contemporânea de bancos escolares no Colégio Coronel Antônio Honório, em Bom Jesus do Norte, cidade-irmã de Bom Jesus do Itabapoana.

    Ela também tivera notícia do meu desviver pela Marleide Silveira, também nossa antiga colega de escola e irmã do Pitota. Ana Elisa, inclusive, recebeu mensagem com a comunicação do velório e tentou tranquilizar a Leda, como a chamávamos à época, dizendo que não era eu, que meu nome era Saint-Clair Machado, ao que a amiga retrucou que eu poderia também ter Gomes no sobrenome. Ana Elisa não se lembrava de meu último sobrenome, mas tinha certeza de que não era Gomes. E, para deixar claro que não era eu o defunto, afirmou:

    - O Saint-Clair tem o nome chique, em francês. E, além disso, está muito bem, porque me encontro sempre com ele aqui em Niterói.

    Contudo, penso eu, para morrer basta estar vivo. E para meu conforto e sorte, Ana Elisa foi muito otimista com a minha pessoa física e fiscal. Vai que eu tivesse de fato morrido? É que, embora não tenha Gomes como sobrenome, sou parte desta família. Minha avó era Julinda Gomes Machado, assim como minha mãe, até se casar com meu pai: Maria José Gomes Machado.

    Como vê o prezado leitor, estive morto para alguns amigos por um breve instante, mas fui resgatado das garras da Indesejada das Gentes, na dicção poética de Manuel Bandeira, por investigação eficiente nas modernas redes de comunicação de que dispomos. E também, por que não dizer, com um bom disse-me-disse! Se fosse no “tempo do cagar de coque”, como se falava outrora na minha terra, só depois do trânsito de cartas e telegramas, é que recuperaria meu CPF e minha frequência cardíaca costumeira: devagar, quase parando.



                                                        Foto do autor do autor.


    8 de setembro de 2025

    NOVO LIVRO NA PRAÇA

     Amigos leitores, acabo de publicar este novo livro de contos pelo Clube de Autores. Nestes primeiros 30 dias, em pré-lançamento, a editora oferece um desconto sobre o preço de capa.

    Neste livro reuni diversos contos postados em meus blogs Asfalto&Mato e Gritos&Bochichos. Uns bem próximos da realidade; outros nem tanto. Como sempre, porém, todos com certo bom humor na temática e na forma.

    Para os que se dispuserem a me honrar com a aquisição, que agradeço antecipadamente, aí vai o link do Clube do Livro:


    15 de agosto de 2025

    AONDE VAIS, LINDA GABI?

    (Para minha neta, uma jovem incomum.) 

    Aonde vais, linda Gabi, 
    Com um sorriso no rosto? 
    - Ver as cores do sol posto. 

    Aonde vais, linda Gabi, 
    Com jeitinho de menina? 
    - Mostrar não ser mais franzina. 

    Aonde vais, linda Gabi, 
    Com o passo resoluto? 
    - Em busca do meu futuro. 

    Aonde vais, linda Gabi, 
    Com este aroma de flores? 
    - Encontrar os meus amores. 

    Aonde vais, linda Gabi, 
    Com os cabelos ao vento? 
    - Renovar meus sentimentos. 

    Aonde vais, linda Gabi, 
    Com este jeito de mulher? 
    - Enfrentar o que vier. 

    Aonde vais, linda Gabi, 
    Após a viagem de ida? 
    - Construir a minha vida. 

    Aonde vais, linda Gabi, 
    Por este mundo sem fim? 
    - Confirmar de onde eu vim!



    Foto do autor.

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    Poema escrito em 2023, quando Gabriela, aos dezoito anos, partiu para cursar Economia na Penn State University, nos EUA.

    29 de julho de 2025

    VINDIMA

    Ter as mãos prontas para as bagas

    e usá-las com carinho

    sobre os seios

    cujo sumo alimentará os sonhos.

    A verdade estará

    a partir daí

    no líquido encorpado

    que se há de produzir e guardar

    em tonéis envelhecendo…

    Nossas línguas se soltarão

    ao sabor do vento sobre a videira

    e nossos corpos experimentarão

    o agridoce sopro

    desta vindima farta.


    Vindima, por Francesco Gioli (1846-1922), colhida em meisterdruck.pt.