Numa manhã, encontrou o curió morto dentro da gaiola. Formigas o tinham aniquilado, sem respeito ao canto maravilhoso. Caiu, assim, na maior prostração.
As manhãs de
domingo seguintes pareciam o silêncio etéreo e o abandono trágico da criatura.
Vagava por entre as alamedas do Campo de São Bento, olhando as gaiolas dos
amigos. Todas lindas, deslumbrantes. Mais e mais humilhou-se. Sem o curió, o
menor dos mortais. Sem o pássaro, nem os filhos, nem a mulher.
Murchou
tanto, definhou tanto, que perdeu suas próprias canções, seus íntimos gorjeios.
Num dia de
muda, o frio intenso da solidão, amanheceu morto sobre a cama do casal, a
mulher chorando, a porta da gaiola aberta para o desconhecido.
Curió (imagem colhida em https://play.google.com/)
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PS: Este conto ligeiro, da década de 80, foi baseado em pássaro e formigas reais e pessoa e desfecho imaginários, de um tempo em que ter pássaros em gaiolas não se constituía em crime.
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