21 de março de 2026

O CURIÓ (Conto ligeiro)

Numa manhã, encontrou o curió morto dentro da gaiola. Formigas o tinham aniquilado, sem respeito ao canto maravilhoso. Caiu, assim, na maior prostração.

As manhãs de domingo seguintes pareciam o silêncio etéreo e o abandono trágico da criatura. Vagava por entre as alamedas do Campo de São Bento, olhando as gaiolas dos amigos. Todas lindas, deslumbrantes. Mais e mais humilhou-se. Sem o curió, o menor dos mortais. Sem o pássaro, nem os filhos, nem a mulher.

Murchou tanto, definhou tanto, que perdeu suas próprias canções, seus íntimos gorjeios.

Num dia de muda, o frio intenso da solidão, amanheceu morto sobre a cama do casal, a mulher chorando, a porta da gaiola aberta para o desconhecido.


Curió (imagem colhida em https://play.google.com/)


---------- 

PS: Este conto ligeiro, da década de 80, foi baseado em pássaro e formigas reais e pessoa e desfecho imaginários, de um tempo em que ter pássaros em gaiolas não se constituía em crime.

Nenhum comentário:

Postar um comentário