9 de junho de 2011

POR DETRÁS

por detrás daquela cama
há desejos insatisfeitos
desobrigações de sexo.
por detrás daquela casa
há impotências amorosas
desilusões domésticas.
por detrás desta cidade
há violências estáveis
regulamentos violados.
Parque de diversões em Chernobyl. Imagem em
ricardolombardi.ig.com.br
por detrás deste país
há engodos institucionais
desesperança concreta.
por detrás deste planeta
há ameaças atômicas
e o inútil vazio das galáxias.

8 de junho de 2011

PENITÊNCIA

(G. Moreau, Prometeu, séc. XIX)
vítima de abandono
venho de joelhos a vossa divina presença, amor
solicitar as penas a que faço jus:
não ter paciência diante das provações
não ter consolo durante as dores
não ter discernimento nas atribulações
não ter temperança na comida nem na bebida
não ter sossego na hora da morte
enfim
viver o que sobra de vida
apenas como sobrevida próxima ao vegetativo
ou nem isso
em estado de coma numa uti inútil
de um hospital geral da rede pública.

6 de junho de 2011

CASO MÉDICO: O REMÉDIO MILAGROSO

Achaque não é uma boa palavra para constar num caso médico. Fica bem em textos de humor duvidoso. E este não era o caso.
Embora fosse médico, Breno não estava compreendendo o funcionamento de sua mulher, mas percebia que alguma coisa não andava bem com ela. Sabia que não eram simplesmente achaques. Acreditava ser coisa de hormônios, aquilo que os mortais mais simples dizem serem os tais sumos internos, os lubrificantes que azeitam as peças, a fim de permitir o desempenho da máquina humana dentro do previsto. Se fossem problemas com vírus, bactérias e demais organismos microscópicos, aí sim ele se meteria, pois era de sua área, a Infectologia, assunto que dominava como poucos.
Por isso é que resolveu levar sua ainda jovem mulher, Sueli, mãe de seus quatro filhos, a especialista renomado no assunto, com consultório concorrido em Belo Horizonte.

Ela estava tendo certas variações de humor que não demonstrara até então. Os dois filhos adolescentes andavam sofrendo na relação com a mãe. Os dois menores pegavam as rebarbas de sua irritação frequente. Além do clima esquisito que andava reinando em casa, o marido começara a perceber alguma somatização desses problemas, altura em que julgou oportuno levá-la ao endocrinologista na capital do estado.

Já no consultório, para início de conversa, o especialista pergunta ao marido:

- Você, por acaso, observa se ela fica um pouco nervosa na época da menstruação:

- Na verdade, colega, não sei identificar o período da tensão pré-menstrual. É o mês inteiro!
Depois de escarafunchá-la de norte a sul, de leste a oeste, futucá-la de todas as maneiras, o especialista chegou à conclusão de que, se lhe aplicasse determinada droga, em injeção intramuscular, em pouco tempo o colega e marido da paciente teria praticamente uma nova esposa: mais calma, mais centrada, mais disposta, menos inflexível (Não quis usar o termo turrona, para não criar clima.) e, sobretudo, mais desfrutável do ponto de vista da sexualidade.
Breno, mesmo atualizado na profissão, quase não acreditou que a ciência médica, aliada à indústria farmacêutica, já tivesse encontrado essa droga milagrosa, capaz de operar maravilhas. Já tivera notícias de garrafadas vendidas no Mercado Ver-o-Peso de Belém do Pará com tais propriedades, coisa em que seus muitos anos de estudo e prática não permitiam acreditar. E satisfeito, do consultório mesmo do colega, ligou para o filho mais velho, às barbas dos dezessete anos, contando do que o tratamento faria na mãe dele, omitindo, é óbvio, a parte do lazer a ser desfrutado a dois. Disse-lhe, principalmente, dos benefícios a serem experimentados na relação mãe-filhos.
O jovem, todo feliz, não teve dúvidas e disse para ele:
- Pai, manda aplicar duas injeções na mãe! Sacrifico até parte da minha mesada, para apressar o tratamento e a felicidade voltar a reinar em casa.
De outro amigo médico, cirurgião, a quem narrou o encontro, com os pormenores e o jargão profissional cabíveis na situação, ouviu frase que não deixava margem a qualquer dúvida:
- Daqui a um mês, você me diz o resultado. Conforme for, levo a minha mulher lá e mando dar duas dessas também.
Como se diz lá, o trem ainda está no prazo. É só aguardar mais um pouco para ver se esse trem é mesmo bom demais da conta, como disse o médico da capital.

5 de junho de 2011

TEUS OLHOS

Teus olhos estão postos à janela de minhas tardes
De minhas noites sem solução
E das madrugadas de insônia.
Somente pela manhã de cada dia
O sol ilumina minhas retinas iludidas
Pela miragem que vem dos teus olhos.

Fecho meus olhos e a consistência dos sólidos
Se faz mais impalpável que todas as ilusões.

3 de junho de 2011

IRREMEDIAVELMENTE



(Em memória do amigo José Fernando.)

(Tânato, colhido em wikipedia.com.br.)
a morte morde a tarraxa do ataúde
e lá se vai meu amigo
na inexorável necessidade que temos
de deixar parentes e amigos
perdidos

a morte desce lentamente
por um moderno sistema de roldanas
prorrogando indefinidamente
i  r  r  e  m  e  d  i  a  v  e  l  m  e  n  t  e
o desamparo dos que ficam

e todos silenciam
impotentes
sem possibilidade de pôr uma pá de cal sobre a vida

há a imperiosa necessidade de sobreviver
há a desumana imposição de prosseguir

2 de junho de 2011

TUA ESTRELA SOLITÁRIA NOS CONDUZ

Uma época, meu filho Pedro tinha lá seus seis/sete anos – hoje é um jovem senhor de trinta e quatro – e sofria uma pressão terrível de meu sogro Beethoven e seus dois tios, Teteca e Dodote, flamenguistas enjoados como é comum, para que bandeasse de camisa e calção para o lado do time da Gávea.
Estávamos em Miracema, eu lia jornal na sala, enquanto ele sofria lavagem cerebral e pressão para trocar de time, na copa.
Lá vem ele em minha direção, pedindo se poderia ser flamenguista. Perguntei-lhe, então, se ele iria deixar o pai sozinho torcendo pelo Botafogo, no meio daquele bando de flamenguistas, e fingi que ia chorar. Ele, condoído, resolveu ficar do meu lado.
Meu sogro, o que mais pressionava, acusou-me de estar fazendo chantagem emocional. Reconheci que estava mesmo – não sou um cretino! –, mas lhe disse que eu merecia essa deferência do meu filho, já que lha pagava todas as contas, cuidava de sua vida e, pelo que eu sabia, ser botafoguense estava no sangue da família, pelo menos desde meu avô paterno, que tinha nascido lá pelo século XIX, talvez antes mesmo de existir o Botafogo.
Voltamos para Niterói. Lá numa bela tarde de sexta-feira, ao descer do ônibus no centro da cidade, meu filho veio com a mesma cantilena ensaiada em Miracema:
- Pai, posso ser flamenguista? Só um pouquinho?
Cara, isso parece vírus de gripe ou coisa mais grave! Tentei argumentar, mas ele me disse que era porque o avô tinha pedido. Sabem como é neto com avô, mesmo sendo este flamenguista!
Relutei um pouco, mas cedi à pressão, para que ele não ficasse ainda mais atormentado. Porém estabeleci uma condição: assim que seu novo time perdesse, ele voltaria a ser botafoguense e nunca mais tocaria no assunto.
- Está combinado assim?
- Está, pai. Se o Flamengo perder, eu volto a ser Botafogo.
Como há coisas que só acontecem ao Botafogo e, por consequência, aos botafoguenses, no domingo seguinte, o depois de amanhã daquela sexta-feira miserenta, o time da Gávea levou uma surra exemplar, não me lembro de para que time, mas isso é o que menos importa para esta história.
Acabado o jogo, exigi dele que imediatamente voltasse ao ninho de onde nunca deveria ter saído.
Pedro nunca mais tocou no assunto e se tornou um dos botafoguenses mais desesperados que já vi torcer.
Hoje leva seus filhos, Gabriela, de seis anos, e Bruno, de dois, a jogos no Engenhão – como eu fazia com ele –, para ensinar também aos pequenos que há certos sofrimentos que dão um prazer danado, como o de torcer por um time que teve Garrincha, Nilton Santos, Didi, Amarildo, Jairzinho, Gérson, Quarentinha, Manga, Marinho Chagas, Paulo Valentim, Afonsinho, Josimar, Zagalo, Paulo César Caju, Roberto, Waltencir, Paulinho Criciúma, Túlio Maravilha, Nilson Dias, Mauro Galvão, Zequinha, Maurício, Donizete, dentre outros, e foi diretamente responsável pelos dois primeiros campeonatos mundiais de futebol da seleção brasileira, os de l958 e l962, pelos craques que forneceu.
Se agora nossa equipe é fraca, é justamente o momento de se fazer com os novos torcedores o que fiz com ele: mostrar-lhes que há certas paixões em nossa vida que nos pedem quase tudo e pouco retribuem. Porém, quando retribuem, o fazem de uma forma avassaladora. E são, certamente, as mais duradouras. Como se fossem nossos filhos, nossos netos!
(Após pedir autorização ao Pedro para postar este texto, ele me respondeu por e-mail: "Apesar de jurar até a morte q  a história é mentira, eu autorizo, paizão. Bjs")

1 de junho de 2011

NOITES DE JUNHO

O que faz junho no calendário?
Traz o falso inverno tropical
Que não esfria
Ou se acende nas fogueiras de São João?
Acaba o semestre mal começado
Com a velocidade destes tempos modernos
Ou nos precipita ao fim do ano?
O que faz junho no calendário
Que não esteja previsto
Na imprevisão meteorológica atual?
Esfria um pouco ou esquenta os corações?
O vinho desce generoso nas gargantas secas,
Molham-se os olhos com o sereno
Das noites enluaradas do mês de junho.
Somos todos caipiramente felizes
No mês de junho,
Que parece reafirmar nossa condição intrínseca
De carregar uma alma brasileira
Decorada com bandeirinhas coloridas de Volpi
E balões iluminados de Guignard
Nos céus estrelados de uma cidade do interior.

Alfredo Volpi, Bandeiras e mastro (déc. 50, séc. XX).