Hoje, durante o almoço, uma cena me levou ao passado.
Já lá por volta do fim dos anos 60, certo colega de faculdade
entrara na onda da alimentação saudável.
Eu tinha vinte e poucos anos e chegara há pouco do interior, onde
comia praticamente tudo que se movesse, nadasse, voasse, arrastasse ou ficasse
parado por tempo suficiente a que fosse capturado. Fora as plantinhas
alvissareiras e os grãozinhos de ocasião. Tudo, evidentemente, assessorado por
diversos temperos e movido a pimenta malagueta. Por isso é que me parecia muito
esquisita aquela, digamos, comida desprovida de cores, odores e temperos, que
deveria ser mastigada quarenta vezes a cada bocado, a fim de que produzisse
seus benéficos efeitos, que se constituíam, pelo que se via nele, em pele
amarelo-esverdeada, olhos macilentos, movimentos gerais do corpo na velocidade
da preguiça e frases cujo ritmo dava sono ao ouvinte.
Era a tal da alimentação macrobiótica, que se expandiu, angariou
adeptos e perdurou por umas duas dezenas de anos, sendo substituída
posteriormente por novas tendências.
Até mesmo, algum tempo depois, quando participávamos da correção
de redações, então incluídas no exame vestibular, enquanto íamos, no intervalo
da tarefa, almoçar a comida farta e sofisticada oferecida pela Fundação
Cesgranrio, a responsável pela organização do certame, ele abria a marmitinha
trazida de casa, composta por reduzido grupo esquisitos alimentos inodoros,
insossos e incolores, e a confrontava com soberba contra nossos pratos perfumados,
fumegantes e deliciosos, mas incorretos do seu ponto de vista alimentar.
Pois estávamos Jane e eu hoje ao almoço, em restaurante de comida
típica mineira, no sistema coma o que puder, quando reparei no prato arrumado
com vontade por um jovem adulto magro e já com alguns fiapos brancos de cabelo
a lhe colorir a cabeça: tinha enchido, além da faixa azul que delimita o fundo
do prato, como marcando o espaço em que arrumar o alimento, com uma profusão de
legumes e verduras. Eu, que não sou dado a esse tipo de observação, tive minha
atenção chamada pelo volume do prato e comentei com a Jane sobre o desperdício
de se vir a um restaurante desse tipo e comer tantos legumes e verduras,
enquanto a feijoada, o leitão à pururuca, a vaca atolada, o feijão tropeiro, a galinha
ao molho pardo, o lombinho estufado, a costelinha com mandioca, a dobradinha à
lombeira, o mocotó com feijão manteiga, o tutu à mineira, a farofa de ovos e o
sarapatel estavam ali gritando por socorro.
Jane então observou que não era a primeira vez que o vira rondando
os balcões de comida, a arrumar seu prato, no exato instante em que notei que
ele, antes de sair daquele espaço, encastoou em estratégico espaço deixado de
propósito ao lado de uns galhos de brócolis americano uma bela sobrecoxa de galinha
crocantemente assada.
Sua reputação estava salva.
Ah! e quanto ao meu companheiro macrobiótico de bancos escolares,
o que tenho a informar ao distinto leitor é que não sei se ainda sobrevive
àquela alimentação, por ter perdido o contato com ele. Até hoje, contudo,
recalcitrante quanto à alimentação e mesmo com as artérias em estado de atenção
em face do colesterol, vou vivendo com algum bom humor e certas ameaças veladas
de entupimentos coronarianos. Sem nunca ter aberto mão de comer o que a cultura
culinária do meu país me proporciona de prazer gastronômico. Eu sou um bicho da
terra!
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