4 de setembro de 2018

O CAPITÃO E SEUS MARES BRAVIOS

(À memória de meu pai.)

Viajar
Romper estradas
Varar mares e oceanos
Desfraldar velas
Desbravar continentes
Do quarto à sala
Da sala à cozinha
Da cozinha ao quintal
Onde à tardinha sentar-se à cadeira
O tronco desnudo
A bermuda folgada
Os chinelos velhos
E sentir a brisa da tarde
O voo das aves em busca do pouso noturno
Assuntar o tempo prever a chuva
Pelo movimento das nuvens no alto do céu
Ou estar à varanda perscrutando o bulício da rua
O vaivém de gente bicho e viatura
Adentrar a casa
Sorver o café com leite bem açucarado
Tomar a solda
Tornar à sala
Ir para o quarto
E assim viajar por todo o lado
Da casa simples que habita

Eis meu pai ainda em vida
Toda ela passada por um fio
O capitão e seus mares bravios.

Veleiro na Baía de Guanabara (foto do autor).


24 de julho de 2018

ENQUANTO OUÇO AS NOTÍCIAS


Jane está lá dentro
Vasculhando o computador.
Na sala
Acompanho o noticiário na tevê
Enquanto bebo conhaque para espantar o frio.
Ou antes
Bebo conhaque
Enquanto assisto ao noticiário na tevê
Recheado de péssimas notícias.
Dedilho este texto
Ao mesmo tempo em que tudo acontece no mundo
- Apesar de nós
Malgrado nossas expectativas –
A uma velocidade estonteante
Como na canção do Caetano.
Não tenho planos para amanhã
Muito menos para o futuro.
Apenas espero que a estupidez humana
Produza tão boas notícias
Quanto o conhaque que bebo
E sóbrio
Eu possa ter a certeza de que no mais
Não destruiremos a vida em nome de bobagens ilusórias.

Samuel e Thales combinando brincadeiras (foto do autor).





5 de julho de 2018

PRERROGATIVAS DO UMBIGO AO BALCÃO


Não há nada tão democrático e interativo, quanto encostar o umbigo a um balcão de bar.
Ontem, por exemplo, fui encomendar sanduíches no Ponto Jovem e, enquanto aguardava sua feitura, resolvi beber um chope no Botequim Chalé, exatamente ao lado, já que a lanchonete não vende bebida alcoólica.
Ao entrar, entre pessoas e barris, o garçom que conversava com os outros clientes que já lá estavam abriu espaço no balcão, para que eu também ali encostasse meu umbigo. Era o justo instante em que ele perguntava ao português ao lado se havia bares desse tipo na Terrinha.
Já de posse da minha tulipa sob pressão, de farto colarinho cremoso, servida pelo João e espécie de alvará para me meter em conversas alheias, entrei no papo que se desenvolvia àquela altura.
Daquele lado do balcão do botequim, que fornece um dos melhores chopes de Niterói, tornamo-nos quatro com a minha chegada. Eu e o outro à direita passamos a explicar ao português, que desde 2008 vem uma vez ao ano a trabalho ao Brasil, como se dá o funcionamento das relações num balcão de bar aqui abaixo da linha do equador. Expliquei para ele, com a autoridade de várias décadas naquele ambiente, que é do estatuto dos bares e botequins nacionais, que não se pode beber sem puxar conversa com o vizinho. Garanti-lhe que em todos esses anos jamais bebi um chope ali, sem que puxasse conversa, ou me metesse em conversas já entabuladas. E ninguém jamais estranhou isso, ou fez cara feia em sinal de desaprovação. Ao contrário, todo conversador de balcão de bar é sempre muito bem-vindo a qualquer papo.
É que, em princípio, ninguém está ali debulhando problemas estritamente pessoais, coisas de foro íntimo, confissões inconfessáveis. Os assuntos são sempre de âmbito macro, como na economia que rege o país, e quase nunca chegam ao varejo das lamentações privadas. A não ser que se tenha teor alcoólico muito elevado, capaz de tirar o lacre da discrição e da língua. Por isso é que todos podem meter sua colher de pau nas conversas de balcão de botequim, sem causar constrangimentos, pois elas não têm dono, pertencem ao fundo coletivo das preocupações humanas presentes nesses ambientes. Aliás, bem ao contrário, são públicas e notórias.
Na segunda tulipa do líquido dourado, eu e o lusitano já éramos quase amigos de infância, embora ele seja bem mais novo do que eu. E contei-lhe da minha única visita ao seu país e da minha próxima viagem para lá agora em agosto. Ele disse morar em Alenquer, ao me ouvir dizer que conheci Torres Vedras, onde comemos – Jane e eu – o melhor polvo de grelha, expressão que ele me ensinou, com batatas ao murro que um vivente pode experimentar.
Daí a instantes o jovem que estava à minha esquerda, sumido por alguns minutos, voltou com churrasquinhos no espeto e farofa, que fez questão de compartilhar com todos, inclusive com os garçons que simpaticamente nos atendiam.
O português, ao pegar seu pedaço, que fez rolar generosamente na farofa, reclamou que na sua terra não existe essa iguaria tão brasileira, que minha mãe fazia questão de dizer, para nos incentivar a comê-la, em criança, ser um produto da incomparável cozinha francesa.
Resolvi fechar a conta e pegar os sanduíches na lanchonete. Contudo o lusitano, em prol da amizade lusófona, cavalheirescamente pagou outra rodada de chope para nós, que, antes de levantar o brinde, nos apresentamos, a fim de que ninguém saísse incógnito daquele prazeroso encontro: Mário, o português; eu, papa-goiaba do norte do estado; Fernando, niteroiense; e Marcos, o rapaz do churrasquinho, goiano da capital, com seus erres característicos e uma simpatia quase mineira.
Nó último instante, ao cumprimentar o Mário, assim que saía do bar, ainda recebi uma recomendação veemente:
- Não deixes de tomar um Cartuxa.  É de facto excecional! – com aquele jeito tão lusitano de tirar o P onde o mantemos e de colocar o C de onde o tiramos.

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Bartolomeo Manfredi (1582-1622), Cena de taberna com um tocador de alaúde (wikipedia.org.).

24 de junho de 2018

NOITE ANTIGA

na noite antiga da venda de meu pai
em volta do vidro de pé de moleque
caçadores pescadores trabalhadores rurais
criadores de passarinhos
contam causos caçoam uns dos outros
conversam conversam conversam
o menino ali está bebendo cada anedota
surpreendendo-se a cada história
do domingos peçanha
do joão dutra
do azamor
do aristides lugão
do joão coleto
do antônio/pedro/tião romualdo
do alcino carroceiro
do china
do alcides almeida
do ferreirinha
do todinho
do aristóbulo
do zé carola
do dico hilário
e de tanta gente mais que não cabe
naquela pequena venda
senão na minha memória
na minha teimosa memória de bicho do mato






Casa em ruínas, em São Domingos, Niterói-RJ (foto do autor).

10 de junho de 2018

SAUDADES DO LEITE QUEIMADO


Não sou dado a saudades de coisas, lugares e épocas. Sou mais chegado a saudade de pessoas, de gente. Mas hoje amanheci com saudades de mim, em minha terrinha natal, nos meus verdes anos, como diria o poeta romântico. É que vi um programa de viagem gastronômica na tevê, e a linda apresentadora estava tomando leite queimado, num restaurante em Belo Horizonte.
A cena me deixou bem balançado. Só não chorei, porque ainda há um resquício de espírito machão lá no fundo dessa carcaça septuagenária a me mandar segurar certas emoções baratas. Mas que deu vontade verter umas lágrimas, isso deu! Tenho de ser sincero com vocês, pelo menos agora, em que resolvi abordar o assunto.
É que leite queimado, que os mineiros chamam de leite queimadinho, era uma das delícias da minha infância, sobretudo nos dias frios do inverno de Carabuçu. Era só a temperatura cair, para que pedíssemos à nossa mãe que nos fizesse aquela delícia, elaborada com açúcar, que se queimava na panela; o leite, que se lançava sobre o açúcar derretido; e a canela em pau, lançada em seguida. Então, eu e meus irmãos tomávamos com cuidado aquele líquido doce e quente, encorpado e cheio de sabor, para espantar um pouco o frio que entrava pelas gretas de portas e janelas e acabava por penetrar nos ossos e na pouca carne de nossos corpos miúdos.
Por essa época, o inverno em nossa vila costumava ser rigoroso. Já disse alhures que, certa vez, ouvi meu pai responder a uma pergunta sobre a temperatura e dizer que estava em oito graus. Lá fora, pela janela, era possível ver a cerração baixa sobre as casas e os paralelepípedos das ruas.
Hoje já não faz tanto frio. Os especialistas estão cansados de nos alertar sobre  o aumento gradual da temperatura do planeta.
Hoje também, já perdida a infância descompromissada do interior e as boas taxas da saúde geral, o leite queimado que me fazia tão bom gosto na vida é iguaria de que já não posso mais usufruir.
Por isso é que, ao ver a cena em que Mel Fronckowiak, a bela apresentadora do programa, provava maravilhada aquele gosto de infância, inverno e saudades provocou em mim um marejamento incômodo nos olhos. Bem que eu não queria, mas foi meio incontrolável, confesso.
Fui levado de supetão a uma infância que ficou perdida num tempo e num lugar mágico, que a memória, teimosa que só ela, ainda preserva. Para que a vida não pareça de todo sem sentido. E eu possa ter histórias a contar a meus netinhos.

Na casa da mãe (foto do autor).

5 de junho de 2018

ASFALTO & MATO AGORA É TAMBÉM LIVRO



Incentivado e quase exigido pelos amigos Eduardo Pachedo de Campos e Rogério Andrade Barbosa, resolvi juntar alguns contos que posto aqui no blog e publicá-los. Orientado pelo também amigo Hilário Francisconi, trago agora publicamente, pela editora Clube de Autores, ASFALTO & MATO, em formato impresso e em e-book. 
Os leitores que tiverem interesse em adquiri-lo é só se dirigirem ao endereço abaixo.
Espero que gostem.


https://www.clubedeautores.com.br/book/257005--ASFALTO_E_MATO#.WxbgxUgvyUk 

24 de maio de 2018

POEMA SEM FACES


Nas noites de frio
Haja ou não lua no céu
Tomo um cálice de conhaque
Para ver se comovido
Bebo os versos do poeta.
E me distancio sempre
À medida que sorvo os goles.
Não vejo a face da poesia.
Apenas tento compor alguma coisa em desalento
E para isto me bastam
A vontade e o tempo.
Se é poesia o que nasce
Nesses momentos
Bem não sei.
Talvez apenas e tão-somente
Um poema sem faces.

Patos (foto do autor).