5 de junho de 2018
ASFALTO & MATO AGORA É TAMBÉM LIVRO
Incentivado e quase exigido pelos amigos Eduardo Pachedo de Campos e Rogério Andrade Barbosa, resolvi juntar alguns contos que posto aqui no blog e publicá-los. Orientado pelo também amigo Hilário Francisconi, trago agora publicamente, pela editora Clube de Autores, ASFALTO & MATO, em formato impresso e em e-book.
Os leitores que tiverem interesse em adquiri-lo é só se dirigirem ao endereço abaixo.
Espero que gostem.
https://www.clubedeautores.com.br/book/257005--ASFALTO_E_MATO#.WxbgxUgvyUk
24 de maio de 2018
POEMA SEM FACES
Nas noites de frio
Haja ou não lua no céu
Tomo um cálice de conhaque
Para ver se comovido
Bebo os versos do poeta.
E me distancio sempre
À medida que sorvo os goles.
Não vejo a face da poesia.
Apenas tento compor alguma
coisa em desalento
E para isto me bastam
A vontade e o tempo.
Se é poesia o que nasce
Nesses momentos
Bem não sei.
Talvez apenas e tão-somente
Um poema sem faces.
| Patos (foto do autor). |
17 de maio de 2018
SINGING IN THE BATHROOM
Às
vezes, canto no banheiro. E até gosto do que ouço, no pequeno ambiente com
acústica favorável. Parece que minha voz de pato esganado melhora um pouco, com
o amortecimento da chuva que cai do chuveiro e com a fofura das toalhas de
banho.
E,
quando canto, não canto nada além dos meus trinta anos. Se tanto! O que minha
memória reteve de letras de música são, principalmente, os versos das canções
que ouvia em menino. Talvez até Geraldo Azevedo e Alceu Valença, em seus
primeiros discos. Ou mesmo Caetano, Chico, Gil, Paulinho, também só no início. Um
tanto de Belchior, Fagner e Ednardo, em
seus começos. Depois nada mais retive. Não sei cantar nenhuma canção dos Titãs,
por exemplo. Ou da linda Tiê, de que tanto gosto. Nem da Vanessa da Mata, outra
minha paixão musical. Ou mesmo da Roberta Sá. Oh, céus!
Por
isso é que canto coisas antigas, até mesmo canções de que nunca gostei, mas que
ouvia em criança, em Carabuçu, espalhadas aos quatro ventos pelo alto-falante
do Narck Pontes. Ou as canções de serestas, que odeio, mas ouvia o Darcizinho
cantar pelas ruas e praça da minha vila natal. E também jamais gostei daquele
canto empolado, de timbre potente, voz de tenor ou barítono, que nossos
cantores populares à época faziam, com raríssimas exceções.
Assim,
quando surgiu João Gilberto, com sua voz de pavio de lamparina, achei mesmo que
poderia – eu também – me tornar um cantor famoso. Até que ouvi minha voz
gravada e não a reconheci. “Esse não sou eu falando!”, disse para o amigo
Dalmar, que fizera a gravação num poderoso gravador de rolo de fita recém
importado, à venda na Ótica Avenida, onde trabalhávamos. “É exatamente a sua voz!”,
informou ele, para a minha total decepção, mas para garantir a qualidade do
produto. Não, eu não ganharia a vida cantando, pois aquele não era um gravador
qualquer!
Mas,
a despeito de todas as provas em contrário, continuei cantando no banheiro até
semana passada. E, nessas oportunidades, me vêm à memória canções que ficaram
no limbo de nossa música popular, porque, segundo me parece, estiveram entre a
velha canção brasileira, cujos últimos intérpretes foram Nelson Gonçalves e
Orlando Silva, e a revolução trazida pela Bossa Nova e, logo depois, pela hoje
identificada MPB, com expoentes como Gil, Caetano, Chico, dentre os mais
badalados. Porém, naquele vácuo lá pelos idos de 50/60, já se prenunciava que a
estética da música popular brasileira estava a mudar de cara. Ou melhor, de
poesia, de letra. Até então o que se tinha de maior veiculação nas rádios era
uma música com temática de cais do porto, de bordel, de paixões por mulheres de
vida airosa, para ficar num eufemismo, em que o autor chorava dores de cotovelo
irremediáveis.
Tais
músicas fizeram a transição entre aquela estética antiga – e de mau gosto, para
os meus ouvidos – e a nova MPB. Traziam uma linguagem mais moderna, com novas
metáforas, e um ritmo que prenunciava a bossa-nova. E tenho quase certeza de que a
maioria de meus leitores nunca as ouviu. Menina
moça, Mulher de trinta, E daí, Carinho e Amor, Bolinha de sabão, Balanço Zona
Sul, Lembranças, Cara de palhaço, dentre
outras, e que podem soar velhas para as novas gerações.
Por
isso é que continuo singing in the bathroom
tais músicas, já que não consegui gravar nenhuma letra das que vieram depois
que meu disco rígido natural já estava sem muito espaço livre.
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| Imagem em elo7.com.br. |
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7 de maio de 2018
ATÉ AS FARMÁCIAS!
Preferia a farmácia do Zé da
Farmácia, lá em Carabuçu, nos idos dos 60. Hoje, em Niterói (Não sei em outras
cidades.), ter necessidade de comprar um remédio é mais um motivo de estresse. É
até perigoso você ficar doente, só de tentar comprar um rolo de esparadrapo.
A maioria delas tem filas
para atendimento, filas para o pagamento e filas para torrar a paciência do
paciente, cliente, usuário, seja lá o que for. Mas paciente cai bem aqui. Você
tem de ser paciente, senão acaba se aporrinhando sério. E o que dizer dos
preços?
Na farmácia do Zé, por
exemplo, que eu frequentava diariamente à cata de gibis e de algum papo, não havia
filas. Havia falas, conversas, atendimento humanizado. Embora a injeção de
Gadusan na veia, para os males provocados pela gripe, fosse um petardo, o
restante eram amenidades.
As farmácias de grandes
cidades despertam suspeitas. A cada esquina é uma delas. Estão substituindo
bares, restaurantes, postos de gasolina e, pasmem, até lanchonete famosa. Posso
dizer que é o comércio mais prolífico das grandes cidades. As pessoas, a cada
novo estabelecimento, acendem o desconfiômetro sobre a motivação real que gera
tantas farmácias. O povo não está assim tão doente, que precise de tantas delas.
Tenho horror a farmácias!
Menos à do Zé da Farmácia, que existia lá na minha vilazinha no norte do
estado, onde eu lia gibis e conversava com o Ronaldo, lá uma vez ou outra com o
Zé, sempre ocupado com alguma coisa.
Essas daqui parecem dizer
que você não tem saída, a não ser que entre numa delas, para comprar aquele
medicamento que vai aliviá-lo dos males do corpo, da alma e de lá mais sei o quê.
A farmácia do Zé tinha o
cheirinho característico das farmácias pequenas do interior, com seus vapores
de manipulação e do esterilizador de seringas e agulhas.
As daqui cheiram
estranhamente, embora sejam quase assépticas, insossas e inodoras.
Tenho muito receio destas
farmácias!
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| Imagem em dargentleiloes.net.br |
19 de abril de 2018
ANOTAÇÕES DE CARABUÇU
![]() |
| Studbaker 51 (imagem em auto.howstuffworks.com). |
No final dos anos 50 do
século escorrido, aconteceu em Carabuçu um acidente que foi transformado em
anedota.
Ivo Basílio, dono da
minúscula empresa de ônibus da vila, ia para Bom Jesus do Itabapoana em seu
automóvel. Como iria sozinho, resolveu dar carona para Nico Dutra, fazendeiro
com propriedade na entrada da vila e seu vizinho, e também para seu xará, o
subdelegado conhecido pelo apelido de Ivo Saratonga.
O choffeur, como se dizia então, dono de uma visão estrambótica,
corrigida por grossas lentes, e reconhecidamente inábil na condução de veículos
com motor a explosão, perdeu o controle do seu Studebacker e o precipitou num
dos remansos do Rio Itabapoana, ao lado da estrada de terra, de onde o bólido derrapou.
Depois de salvos do
afogamento por pescadores ali perto, Nico Dutra entrou a reclamar a perda de
suas dentaduras duplas, feitas recentemente pelo Dirceu dentista; e o
subdelegado, dos seus óculos de grau.
Indagado pelos curiosos de
sempre, que se reuniam nos finais de tarde na esquina das ruas Coronel Alfredo
Portugal e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo, o Ivo motorista justificou a
barbeiragem por ter caído na gargalhada
com a pergunta estapafúrdia do seu xará:
- Vocês já orçalo o
Reportelesso hoje?
O Repórter Esso era o
noticiário de maior audiência e credibilidade da época.
-o-o-o-o-o-
Ferreirinha, da grande
família Monteiro, tinha propriedade na curva dos eucaliptos, à margem da
estrada que ia até a sede do município. Era produtor de leite e negociante nas
horas vagas, como boa parte dos homens da vila, os quais não podiam vislumbrar
um bom negócio em qualquer ocasião, sem que dele pudessem tirar proveito.
Ferreirinha, que à época
devia ter por volta de quarenta anos, era um homem divertido, cheio de causos a
contar, apenas com o intuito de ver seus parceiros gargalharem. Também criava
passarinhos, um dos entretenimentos mais difundidos naquela época, agora
transformado em crime ambiental, a depender das condições.
Na venda do meu pai, a que
sempre ia em busca de uma boa conversa, no meio de uma roda de amigos, tentava
fazer negócios com cavalos, bois e passarinhos.
Certa feita, voltando com
meus primos da casa de seu Isaque Mestre, que tinha um sítio pelos lados do
Elias Nunes, passamos dentro da propriedade do Ferreirinha. Era um caminho mais
alongado até a vila, mas nos dava a oportunidade de tomar banho no poço do
valão que banhava as terras dele.
Embora fôssemos um grupo de
crianças, ele nos recebeu com toda simpatia, nos levou até sua cozinha,
ofereceu café com broa e aproveitou para contar casos. Pouco depois, ao
sairmos, vi na cocheira um de seus cavalos, que achei meio debilitado, tipo
pangaré, e perguntei a ele como estava o animal. Marotamente, nos disse:
- Aqui para nós, está
perrengue, meio capenga. Mas, se for para negociar, é o melhor cavalo do mundo!
E deu uma boa gargalhada.
-o-o-o-o-o-
Meu pai tinha um grupo de
amigos que saíam à pesca com ele no Rio Itabapoana. O trajeto, de cerca de seis
quilômetros, era vencido de bicicleta. Todos tinham a sua magrela.
Normalmente seguiam com ele
o Domingos Peçanha, o João Coleto, o João Dutra e o Alcino, dentre outros. Às
vezes saíam de madrugadinha, o dia ainda escuro. Acendiam os faróis e pedalavam
em meio à neblina, que chamávamos cerração, que, de tão densa, não permitia que
se avistasse longe.
Numa dessas vezes, vinham em
sentido contrário dois fracos faróis de seis volts tentando romper aquela massa
turva. Alcino, sempre muito divertido e gaiato, produziu uma de suas imitações
mais fidedignas: a sirene de uma ambulância. E era tão alto o som produzido,
que o motorista do veículo jogou o carro para os lados da estrada de chão, a
fim de permitir a passagem do comboio que vinha logo atrás da “ambulância”.
E o Alcino, depois, contou
essa peripécia às gargalhadas, entre um e outro pé de moleque que comia na
venda do meu pai.
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5 de abril de 2018
MALDITO PEDESTRE
O
governo autorizou, através do DETRAN, a multa a pedestres que atravessarem fora
da faixa, já a partir deste ano.
Não
quero nem saber como é nos países ditos civilizados. Não me interessa! Estive na
Suécia há menos de quatro anos e não vi nada disso lá. Vivo aqui nessa mixórdia
chamada Brasil e sou visceralmente contra tal tipo de multa.
Que
diabos afinal quer o governo, a não ser arrecadar mais dinheiro do já combalido
contribuinte?
O
pedestre, dizia Darcy Ribeiro, é o dono da rua, que a cedeu para o trânsito de
veículos. A preferência é sempre do cidadão.
É
bem verdade que o pedestre deve ter a consciência de atravessar em segurança. E
ele sabe discernir o que lhe é favorável, a não ser que seja um suicida. E onde
haverá faixas suficientes e próximas ao ponto de interesse para o cruzamento de
uma rua?
Se
eu sou capaz de escolher o presidente da república, por que não posso escolher
onde atravessar a via pública? Não quero que os veículos parem, assim que ponho
meu pé na sarjeta, embora exija que eles assim o façam quando eu pisar na faixa.
E isto nem sempre acontece. Tenho, às vezes, que forçar a barra para que o
motorista freie seu carro um pouco antes da faixa. No meio da rua, contudo, não
sou maluco de desafiá-lo. Sei das minhas fraquezas e limitações. Contudo sempre
sou responsável por minha integridade física. Tenho meu juízo, assim como todos
os demais pedestres. Pelo menos, é isso que imagino.
Agora
vem o governo com esta medida odiosa, que visa tão-somente a arrecadação de
multas. Então passamos a ser mais uma fonte de renda para um governo voraz, que
não se cansa de inventar meios de, cada vez mais, fazer com que trabalhemos em
benefício da máquina administrativa, que não oferece o devido retorno em
serviços que dela se espera.
Somos
acossados por bicicletas transitando sobre as calçadas e até mesmo por veículos
nelas estacionados, em total desrespeito ao transeunte.
Não
bastou que, há poucos anos, o motorista tenha sido transformado em criminoso, assim
que ingira um copo de cerveja e mantenha a direção do veículo. Certo motorista
de táxi, inclusive, comentou comigo, durante uma viagem, tal situação, dizendo
que o rigor é maior nesses casos, do que no atropelamento de uma pessoa em via
pública. Atropelou, mas não bebeu, não é crime. Bebeu um copo de cerveja, não
atropelou ninguém, mas foi pego no bafômetro, é criminoso. Alguma coisa está
fora da ordem.
Aliás
não é só nisso que nosso país prima pelo inusitado.
Maldito
pedestre!

Rua Miguel de Frias (foto do autor).
18 de março de 2018
TIRANTE
Tirante o mato crescido
Por baixo já não há erva
Tirante o peso dos ombros
A vida segue de quebra
Tirante o gosto de fel
A língua bem se machuca
Tirante o caos nacional
A política vai turva
Tirante a faca no peito
A vida supre a miséria
Tirante a borra do vinho
O espírito reverbera
Tirante o caco de vidro
Por sob os pés é só pedra
Tirante o que já não presta
É desespero o que resta.
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| Gustave Doré, A queda dos Titãs, 1866 (em wikiart.org). |
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