16 de fevereiro de 2018

VIAGEM

Vou apontar meu barco para o ontem
Guiar meu leme em direção ao nascente
Lá onde num passado distante
O sol nascia brando sobre a terra
E as noites se enchiam de vaga-lumes estroboscópicos.
Vou encontrar os meus parceiros de outrora
Trocar dedos de prosa
Beber doses de pinga
Com tira-gosto de torresmo e saudade.
Vou encher meu tempo com o nada
E olhar as pessoas sobre as calçadas
Conversando sobre o onde o como e o porquê.
Vou assestar meu rifle contra os corações desavisados
E enchê-los com flores sempre-vivas
As mesmas flores simples que enfeitavam os caminhos
Por onde andava em menino
E vou dizer a todos que o tempo urge
O vento range as portas do nosso passado imortal
Construído sobre esta memória que não se cansa de lembrar.

Barco na Enseada de São Francisco, Niterói-RJ (foto do autor).


31 de janeiro de 2018

MORRA-SE COM UM BARULHO DESSES


Vou chamá-lo seu Gumercindo, para não criar melindres com seus familiares. E trocarei, também, os nomes de todos os demais. Só eu serei eu mesmo.
Pois seu Gumercindo, após o almoço de domingo, cercado pela família numerosa, sentiu uma pontada no peito e foi levado às carreiras para a emergência do Hospital do Andaraí, não muito distante de casa.
O médico de plantão percebeu que o quadro não era dos melhores e resolveu interná-lo imediatamente. Parte da família que o acompanhou ficou estacionada na sala de espera, aguardando por notícias vindas lá de dentro. Passado algum tempo, veio outro médico a procurar por familiares do senhor Gumercindo Nascimento, aos quais minuciou a gravidade do seu estado geral, motivo por que resolvera deixá-lo no centro de tratamento intensivo. A enfermeira que o acompanhava anotou os telefones do filho mais velho, para qualquer emergência, e disse que eles poderiam voltar para casa e só retornar no dia seguinte, pela manhã, para notícias atualizadas sobre as novidades do doente e uma possível visita a ele.
No dia seguinte, logo cedo, lá foram três de seus filhos. O mais velho, Roberto, foi autorizado a ver o pai. Ele se paramentou, higienizou as mãos e foi conduzido até o leito em que o pai estava. Chegou próximo a ele, que tinha os olhos fechados, e disse baixinho:
- Pai, é o Roberto. Está me ouvindo?
O velho abriu os olhos e respondeu que sim. Deu as informações ao filho de como passara a noite, pediu que rezassem por ele, sem desespero, e falou que precisava dizer-lhe algo importante, muito importante mesmo. Roberto dobrou-se um pouco sobre o leito, já um tanto apreensivo, a fim de ouvir o que o pai lhe tinha a dizer.
- Filho, quero que você vá até a agência do Banco do Brasil, na Rua Senador Dantas, e procure pelo gerente Ricardo. Acho que não escapo desta e preciso que você faça isso por mim.
- Sim, pai! Pode dizer.
- Procure por ele. Ele é seu irmão.
Roberto pensou não entender, pois a voz do pai não tinha a potência e a clareza costumeiras, e perguntou:
- Como é mesmo, pai?!
- Procure o Ricardo, gerente da agência. Ele é seu irmão, e é preciso acertar as coisas.
Seu Gumercindo e dona Sílvia já tinham ultrapassado as bodas de ouro como casados, tinham cinco filhos – três homens e duas mulheres – e vários netos. Desses, Roberta, filha do Roberto, era a mais velha e já cursava Arquitetura na PUC. Sua vida, a dele, sempre fora devotada à família, com quem gastava seu vasto salário de fiscal de rendas aposentado. Pudera, por isso mesmo, dar conforto material a todos, e sua presença era constante entre eles, apenas interrompida pelas viagens de fiscalização aos mais diversos pontos do estado, a que todo fiscal está sujeito.
Roberto como que não acreditou no que ouvira. E o pai moribundo teve de repetir o pedido:
- Procure o Ricardo, na agência da Rua Senador Dantas. Ele é seu irmão. Precisa acertar as coisas.
Pela cor com que Roberto saiu do centro de tratamento intensivo, seus outros dois irmãos, Regina e Ronaldo, sentiram que a situação devia ser de extrema gravidade.
- Falou com ele? Como ele está? O que você achou? Papai está bem, não está, Roberto? – uma sucessão de interrogações apreensivas.
Roberto não sabia como dizer o que ouvira, mas garantiu que o velho estava em recuperação, embora ainda um tanto debilitado e completamente ligado à parafernália hospitalar. Mas começou cuidadoso.
- Preciso dizer a vocês uma coisa grave. Não é quanto à saúde do papai, mas é capaz de causar um choque em vocês.
Os irmãos se entreolharam apreensivos com que estava por vir.
- Papai pediu que eu vá à agência do Banco do Brasil na Senador Dantas, para falar com um irmão nosso lá. Um tal de Ricardo.
- O quê?! – indagaram ambos com espanto.
E foi lá, no dia seguinte, o Roberto à procura do Ricardo.
De imediato, espantou-se com a fisionomia do irmão, que era da mesma forma de todos. Nem precisaria de teste de DNA. Estava na cara! E mais espantado ficou, ao saber que seu pai tinha outra família semelhante à sua, com outros três irmãos, sendo duas mulheres e o Ricardo, todos com a letra inicial R no nome: Roberta e Rosália. Todos mais ou menos com as mesmas idades, nascidos em anos subsequentes uns aos outros, e já com outros tantos filhos.
A filha mais velha do Ricardo, a Ricarda, era também estudante de Arquitetura da PUC, da mesma sala da Roberta, e sua melhor amiga.
Quando as duas jovens descobriram os laços que as unia, ficaram estremecidas uma com a outra, sem saber o que se dizerem, até que, à medida que os relacionamentos entre todos os familiares se foram estreitando, no período de recuperação do velho Gumercindo, voltaram ao mesmo convívio fraterno anterior.
Seu Gumercindo, ainda no leito do hospital - e antes que fizesse a passagem desta para a melhor -, foi perdoado por suas esposas, seus filhos e netos, motivo que o fez se recuperar por completo, ainda mais celeremente. Confortável com a situação, resolveu promover um almoço de congraçamento, com o beneplácito das mulheres, para que todo o estranhamento se dissipasse.
A festa rolou, todos se divertiram, se confraternizaram, com exceção das duas esposas, que apenas trocaram cumprimentos protocolares ao início da festa, restando cada uma no seu canto do salão, como a que demarcar ainda seus territórios.
Passados seis meses, o coração do velho deu-lhe novo tranco, agora com a potência redobrada, fazendo-o finado, num pequeno átimo de tempo, sem mais essa ou aquela.
O velório foi marcado para o Cemitério São Francisco de Paula, no Catumbi, num sábado à tarde, para onde acorreram todos os membros das duas famílias.
Tão logo o corpo de seu Gumercindo foi encaixado na gaveta que lhe cabia nesse epílogo da vida, dona Sílvia mandou chamar a segunda viúva, dona Otília, aqui nomeada apenas nos estertores do texto, para lhe dizer com todas as letras do alfabeto romano:
- Agora sumam da minha vida! Escafedam-se! Não quero mais saber de ninguém! Desatou-se o elo que nos atava. Está desfeito e acabado! Desapareçam!
Eu estava lá, mas não ouvi a fala desabrida de dona Sílvia. Um dos seus netos me contou depois.
E seu Gumercindo, com o corpo ainda nem de todo frio pelo bafo da morte, deve ter-se contorcido na gaveta apertada em que foi descansar em paz.

Cemitério, Carabuçu-RJ (foto do autor).


21 de janeiro de 2018

BOIADEIROS

Chovia forte, quando os boiadeiros entraram na vila em seus cavalos, após deixar o gado na fazenda do João Monteiro, um pouco antes do Morro do Marta. Vinham pela rua principal, depois de passar pela pracinha em frente à capela de Santo Antônio e se dirigiam à cocheira do Jair Passarelo.
Embora com os semblantes cansados, os cavalos já um tanto alquebrados pela lida, ainda assim, tinham um ar solene. Todos trajavam capa gaúcha e portavam chapéu de feltro de aba larga, barbicacho ajustado na altura do queixo. Eram seis, destacando-se à frente o líder do grupo, cujo cavalo parecia maior que os demais. A chuva forte compunha o quadro que o menino admirava. O líder à frente, e os demais distribuídos pelos lados, um pouco atrás. A água escorria de seus chapéus e de suas capas. As ferraduras produziam um som que se misturava ao tamborilar das gotas grossas a cair sobre o calçamento de paralelepípedo. A não ser por isso e mais um ou outro bufo dos animais, não havia outro som no ar. Eles não se falavam. Vinham em silêncio. Era como se uma procissão equestre, muda, acompanhasse algum falecido ilustre, a merecer quietude respeitosa, naquele fim de tarde escurecida pelo aguaceiro de verão que se precipitava do céu.
O menino estava extasiado diante da cena. Em sua fértil imaginação infantil, aqueles homens pareciam mensageiros de notícias graves. Talvez fossem os Cavaleiros do Apocalipse, de que tanto ouvia falar nas pregações do pároco nas missas mensais na capelinha. Ainda que um frio lhe corresse pela pele, não podia deixar de admirar a solenidade da cena. Alguns anos depois é que a viu reproduzida, de forma bem parecida, em um filme norte-americano sobre o velho oeste.
Aos poucos, a tropa em marcha passou lentamente diante da porta da venda em que ele se encontrava. Seus olhos acompanharam o movimento dos animais levando seus condutores até o pouso final. Um a um, deixaram a rua e entraram na cocheira.
As nuvens do temporal anteciparam a obscuridade da noite – lâmpadas ainda não acesas – e produziram o efeito cinematográfico de fade out em cada cavaleiro a entrar naquele espaço.
E o menino sonhou um dia ter uma capa gaúcha como aquelas, para assumir a solenidade da postura observada em cada um dos cavaleiros que desfilaram à sua frente.
Hoje o menino é um homem idoso. Vivenciou dezenas de anos de sucessivos fotogramas guardados em seu cérebro. Percorreu caminhos diversos, cheios de peripécias e sobressaltos. Andou por montanhas e planícies. Viu povos e costumes exóticos. Encantou-se com cada coisa que descobriu ao longo da caminhada. Mas aquela imagem ficou definitivamente gravada em sua memória, de onde, vez e outra, assoma à realidade do seu quotidiano e o leva de imediato àquele mesmo espaço da infância, àquela mesma cena mágica, cheia de mistérios e magia, diante da porta da venda de seu pai.
Aquele menino sou eu.

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Imagem em selariagauchauberaba.com.br.

11 de janeiro de 2018

ENQUANTO MINHA GUITARRA CHORA SUAVEMENTE

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 4/2/2013.)
Uma das minhas frustrações na vida é não ser guitarrista. Mas não um guitarrista qualquer. Queria ser um senhor guitarrista, como David Gilmour, para mim o maior de todos (Não me venham com razões técnicas, porque isto é coisa de sentimento, inexplicável.)
Quando jovem, tentei aprender a tocar violão. Eu e meu irmão Gutenberg compramos um, à prestação, na loja que era sua xará, Gráfica Gutenberg, em Bom Jesus, nos áureos anos 60.
Quando cheguei a Niterói, em 67, dedilhava alguma coisa despretensiosa e alguns dos antigos companheiros de pensão imaginam até hoje, como já me disseram, que eu soubesse tocar.
Meu irmão hoje, além de compor, toca bem. O pouco que eu sabia acabou. A única música de que ainda me lembro é The house of the rising sun, canção folclórica norte-americana também gravada pelos ingleses The Animals, de Eric Burdon, coqueluche à época: There is a house in New Orleans / They call the rising sun...
E música, como qualquer outra arte, funciona mais ou menos assim: ou você é chamado por ela, e desenvolve um caso sério, ou é meramente um espectador. Pois, quanto à música, sou um mero espectador, ou melhor, ouvinte. Talvez até um pouco mais atento. Mas parei por aí. Se não podia ser um David Gilmour, melhor seria não tentar. Preferi permanecer na plateia, deixando que ele e todos os grandes guitarristas façam isso por mim. Por nós!
E, como sempre ocorre, às vezes uns fazem e outros executam. Uns compõem, outros interpretam. Felizes os que compõem e interpretam ao mesmo tempo. Na Itália, pela década de sessenta, com o surgimento de diversos compositores que também cantavam suas músicas, criou-se a palavra cantautore, para distingui-los dos que eram apenas intérpretes.
Porém, este papo quase furado com que preambulo este texto é apenas para dizer para vocês que a célebre e magistral canção dos Beatles While my guitar gently weeps, de autoria do meu beatle preferido, George Harrison (Também não me perguntem por quê!), com diversas gravações espetaculares, recebeu de Peter Frampton talvez aquela mais bela, mais sensível a que seu título alude. Sua guitarra chora suavemente na gravação feita para seu álbum Now, de 2003. Tanto o riff inicial, quanto o solo no meio da canção são das coisas mais belas que a guitarra pôde fazer. Parece que, ali, Frampton entrou em estado de graça. Fez um pacto com o Cramulhão para executar como o fez.
E reparem que, além dos Beatles e de Frampton, há outras interpretações sensacionais, como de Eric Clapton e o próprio Harrison; de Tom Petty, coadjuvado por Prince, Jeff Lynne, Dhani Harrison e Steve Winwood, dentre outros, no tributo a Harrison no Royal Albert Hall; de Santana, com o vocal fantástico de Indie Arie e o violoncelo clássico de Yo-Yo Ma; de Jeff Healey e sua surpreendente guitarra tocada sobre o colo; da versão explosiva de Toto com a guitarra incendiária de Steve Lukather; da versão impressionante de Jake Shimabukuro no ukelelê, dentre outras que não repassei ou não conheço.
Para mim, no entanto, se sobressai a interpretação dada por Peter Frampton, hoje um senhor calvo, mas com a sensibilidade para fazer chorar sua guitarra de tal forma, que me leva ainda a pensar, como nos anos 60/70, que um dia a música possa nos salvar da estupidez da guerra e da violência.
É o que sinto.
E também não me perguntem por quê!

Capa do cd Now, de Peter Frampton, de 2003.


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Se quiser ouvir a gravação de Frampton, clique aqui.

22 de dezembro de 2017

BOM NATAL E FELIZ ANO NOVO

Em 2010 postei este poema de Natal. Em 2012, com preguiça e sem encontrar outras palavras, repeti-o. 2017 está um ano muito fraco para ideias novas, em vista de tantos problemas. E, acumulando-se a preguiça renitente, repito-o novamente.



Aos amigos
E aos parentes,
Aos crentes
E aos descrentes,
Aos que se bastam
E aos carentes,
Aos desestimulados
E aos renitentes,
A todos nós, enfim, gente,
Um NATAL cheio de alegrias
E um ANO NOVO
Com 365 dias!
E, se isso for pouco,
Que não haja sufoco,
Que não falte dinheiro,
Que tenhamos saúde,
Cada um a seu jeito,
E, se não for pedir muito,
Que a felicidade abunde!
Mas com todo o respeito.

Natal brasileiro, de Leo Macial (em arteblog.com.br).

7 de dezembro de 2017

BORBOTÕES DE LÁGRIMAS

Na praça
Cantam pássaros próximo de mim
A esta hora
Falta água na minha casa
E por ironia
Chove uma chuva fina sobre o chafariz

Dos meus olhos
Não brotam borbotões de lágrimas
Meus rios secaram no estio do último inverno
E só mesmo os temporais tardios
Para inundar seus tristes leitos vazios
Como previsto na última estação

Plantamos desertos pelos campos
Ateamos fogo à terra
Até que não haja mais nada a arder
A não ser os nossos olhos ressequidos
Feridos pela fuligem ácida que cairá do céu
Como uma chuva maldita


Foto do autor.

29 de novembro de 2017

CERTOS PREGÕES

Meu netinho é encantado com o pregão da caminhonete que passa pelas ruas do bairro à cata de velharias:
- Panela velha, máquina de lavar velha, geladeira velha!
A emissão que se espalha no ar vem metalizada pela baixa qualidade do sistema de som do carro. Talvez seja isso o mais interessante para ele. A voz do locutor sai espremida, rascante, metálica:
- Ventilador velho, liquidificador velho, geladeira velha!
Certo dia, rindo, ele emendou:
- Vovô velho!
Mas ficou chateado quando eu disse “Francisco velho!”.
Os pregões são formas orais tradicionais usadas por ambulantes para anunciar a mercadoria à venda. Vem desde que o homem saiu com os produtos de sua colheita ao encontro de possíveis compradores, pelas ruas das vilas e das cidades. Era preciso anunciar.
No caso específico da caminhonete do ferro-velho, o que se anuncia é o que se compra, diferentemente dos pregões tradicionais.
Normalmente os pregões se resumem a enunciar o nome da mercadoria ou do seu vendedor:
- Olha a banana! Olha o bananeiro!
- Olha o peixeiro!
- Olha a laranja! Olha o laranjeiro!
Um ou outro tinham formas mais elaboradas, como versinhos rústicos, como do vendedor de pirulitos:
- Olha o pirulito americano: bota na boca e sai “chupano”!
Uns usavam o humor para chamar a atenção:
- Moça bonita não paga. Mas também não leva!
Escuto pregões desde que me entendo por gente. Lá na minha Carabuçu natal eles existiam. Eu mesmo já os produzi, em moleque. Saía à venda das laranjas da minha avó. Confesso, no entanto, que tinha certa vergonha de sair gritando pelas ruas miúdas da vila.
Quando cheguei a Niterói, em 1967, deparei com o centro da cidade coalhada de camelôs, uns mais histriônicos que outros, mas todos com seus pregões reconhecidos, à cata de clientes.
Havia um que sempre se postava na esquina da Avenida Amaral Peixoto com a Rua Visconde do Uruguai e anunciava, com sua voz espremida e ligeiramente gutural, um pregão bem diferente, só decodificado ao se ver o ele que vendia:
- Quem tem criança na escola! Quem tem criança na escola!
O /s/ de escola saía bastante chiado, como é comum ao carioca. Assim era a forma de tentar vender seus cadernos.
Outro, que vendia traquitanas para a cozinha, nas imediações, dizia uma frase também bem estranha, enquanto manipulava o objeto:
- Não resta prática, nem tampouco habilidade!
E eu ficava intrigado com aquele verbo restar na frase. Até que meu amigo Valter Bretas esclareceu que o camelô deveria querer dizer “não requer prática”. Era realmente isso: o treco era de fácil manejo.
Tempos depois tive minha atenção despertada pelos camelôs de La Paz, na Bolívia. Observei que seus pregões tinham uma estrutura fixa, na maior parte das vezes: o nome da mercadoria era enunciado duas vez na forma normal e uma terceira vez, na forma diminutiva.
- Pañuelos! Pañuelos! Pañuelitos!
- Chompas! Chompas! Chompitas!
- Ponchos! Ponchos! Ponchitos!
Ainda que o terceiro termo não estivesse no diminutivo, a forma tríplice era uma constante:
- Chicha blanca! Chica blanca! Chicha blanca!
Outro camelô, este já no Rio de Janeiro, no calçadão da Rua São José, lá pelos anos 70/80, era uma figura e tanto. Estava sempre de paletó e gravata, óculos escuros, cabelos cortados rentes. Vendia baralhos, que expunha sobre sua pequena banca, e pomada japonesa, que ficava escondida sob ela. Os baralhos eram anunciados aos brados; a pomada japonesa, contudo, era apregoada em um tom bem baixo.
- BARALHOS DE NYLON! BARALHOS DE PLÁSTICO! Pomada japonesa!
Cada um encontra o tom certo, o ritmo adequado, a fórmula capaz de encantar o possível comprador. Outros, contudo, por certas limitações, acabam criando quase um pânico nos ouvintes. Era o caso do Zé do Ovo, já citado aqui em outra postagem.
Zé do Ovo era um pobre coitado, deserdado da vida e do juízo perfeito, que minha sogra como que adotou ainda adolescente. Por vezes ele passava uma temporada em sua casa e era tratado com um filho a mais. Mas sempre apresentou algum transtorno e era tido como meio lelé da cuca. Quando eu o conheci, ele já era um homem feito e sempre estava por lá. Em alguns momentos, colhia folhas de couve da horta da dona Judith, colocava numa cesta e saía a apregoar pelas ruas de Miracema:
- Olha o “coveiro”! Olha o “coveiro”!
Mas, normalmente, voltava para casa todo feliz, com seu sorriso banguela, a cesta vazia e o dinheirinho miúdo no bolso.

Imagem relacionada
Jean Baptiste Debret, Negras quitandeiras, séc. 19 (em pinterest.com)..

20 de novembro de 2017

DEU CAVALO DE AÇO NA CABEÇA

Esta última semana, a da comemoração da Proclamação da Infeliz República do Brasil, também foi, não sei por que cargas d’água ou conjunção astral, a semana do sapato Cavalo de Aço. Pelo menos comigo e meus circunstantes.
Estava bebendo uma cerveja com uns amigos e um deles, metido a me conhecer profundamente, se saiu com essa, depois que alguém lembrou os tempos daquele fatídico sapato:
- Aposto que o Saint-Clair nunca usou o Cavalo de Aço!
Como dizia o Jaguar, falei, para certo pasmo de alguns:
- Ledo engano Ivo seu! Eu também já tive esse maldito sapato lá pelo início dos anos 70.
Jovem, então, e um pouco suscetível aos movimentos da moda, fui levado de roldão pela onda do Cavalo de Aço e comprei um par para mim.
O tal sapato tinha como diferencial um solado tipo plataforma, que elevava seu usuário a cerca de três ou quatro centímetros acima do rés do chão. E tinha um visual abrutalhado. Não era um sapato fru-fru. Era coisa para destacar a possível masculinidade do seu dono.
O meu, além da tal altitude elevada, era feito de um couro imitando jacaré e tinha uma fivelona nas laterais. Bico fino, como convinha, e na cor marrom escuro. Era uma visão!
Quando o levei para a pensão da Dona Dinorah, onde morava por essa ocasião, na Rua Pereira da Silva, causei espanto. Fiquei soberbo diante dos meus colegas. Era um sábado, pela hora do almoço. Naquele dia, haveria a estreia do Cavalo de Aço.
Não sei se todos sabem, mas também houve uma novela com o mesmo nome, que, tenho a impressão, veio na onda do modelo do sapato. Embora eu não acompanhasse novela, tenho a memória de que uma das personagens masculinas ostentava em seus pés aquele troço.
Pois muito bem.
No dia seguinte a esse encontro com os amigos – este último sábado – na casa da minha mãe, mais uma vez surgiu a referência ao tal sapato. Nem me lembro de quem puxou o assunto. Até mesmo meu primo José Manuel, mais novo do que eu dezessete anos, lembrou a chamada da novela e algumas coisas que a identificavam.
Estranhei o assunto voltar à tona. É que isso é coisa de somenos importância. Talvez seja porque estejamos de saco cheio do noticiário político, então tentamos desanuviar as conversas lembrando de coisas assim.
Agora, de volta à pensão da Dona Dinorah, naquele sábado de estreia dos anos 70, me vejo outra vez descendo a escada de madeira do andar superior, onde os rapazes se hospedavam, e o térreo da velha casa geminada, hoje inexistente. O barulho produzido pelo salto volumoso nas tábuas já chamava a atenção. Era o Saint-Clair estreando o Cavalo de Aço!
Saí pela noite de Niterói e, ao voltar, já passada a meia-noite, tive o cuidado de remover dos pés aquelas ferraduras duplas de couro maciço, a fim de não acordar os moradores do andar de baixo.
Foi um alívio! Pois, além de tudo, comprimia os pés com uma sem-cerimônia infernal!
No dia seguinte, domingo, voltei a usar – tinha-me custado caro –, e agora pela última vez, aquela espécie de tanque de guerra minúsculo, adaptado – mal, diga-se de passagem – ao pé humano.
Alguns sábados depois, estamos Michel e eu sentados no parapeito da varanda, numa tarde fresca, jogando conversa fora e vendo a vida passar em forma de moças bonitas, quando chegou um senhor, vestido humildemente, de chapéu à cabeça e bigode quadrado sobre a platibanda do beiço, a nos solicitar ajuda:
- Será que os meninos não têm uma muda de roupa e um par de sapatos fora de uso para me dar?
Michel, também meu conterrâneo de Bom Jesus do Itabapoana, disse que tinha uma calça e uma camisa que já não usava. Eu então me lembrei do maldito Cavalo de Aço e disse ao homem que tinha o tal par de sapatos.
- Que número o senhor calça?
- Quarenta.
Era o meu número! Pedimos que aguardasse e subimos para pegar as doações. De volta, entregamos a muda de roupa e o par de sapatos, todos ainda muito bem conservados, sobretudo o sapato, usado apenas duas vezes.
O homem ficou tão feliz, que quis saber nossos nomes.
- Qual o seu nome? – dirigindo-se ao Michel.
- Michel.
- Muito obrigado, seu Michel! Gostei muito! E o seu? – agora dirigindo-se a mim.
- Saint-Clair.
- Checré?! Que nome esquisito, sô!
- Me devolve o sapato agora! – disse em tom de falsa ameaça – O senhor me pede um par de sapato, pergunta meu nome e diz que ele é esquisito! Pode me devolver!
- Desculpe, seu Checré! É que é muito difice falar ele!
O homem saiu levando seus presentes, e eu e Michel demos boas gargalhadas com a história.
Agora estou eu aqui compondo este texto, motivado pelo sapato Cavalo de Aço. É ou não é um conluio astral para nos levar a até fazer uma fezinha no bicho?
- Põe dez mangos aí no cavalo!
Vai que dê cavalo na cabeça!

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Imagem em allexpress.com.

29 de outubro de 2017

CAÇOADA E CAÇOADORES

Um dos divertimentos preferidos da minha Carabuçu da infância e da adolescência era a caçoada. Havia na vila um bom número de moradores cujo entretenimento predileto era caçoar dos outros.

Talvez aqui algum leitor citadino, sem a experiência das coisas do interior, não atine bem para o que seja este tipo de divertimento ou esporte, sei lá.

É que, por aquela altura, a vila não oferecia muitas opções de lazer. A folhinha marcava os anos cinquenta e sessenta do século passado. Então algumas pessoas se divertiam em caçoar dos outros.

Mas você, leitor amigo, não sabe o que é caçoar? Vou esclarecer, transcrevendo as definições do dicionário Michaelis, a fim de que você entenda como isso poderia funcionar.

No Dicionário Michaelis (michaelis.uol.com.br/moderno-portugues) estão registradas as seguintes acepções da palavra: “1 Dizer ou fazer algo para causar riso ou chacota; fazer troça a, zombar de; cachetar, ridicularizar, zoar: Caçoava os adversários políticos. Não caçoo de ninguém. Você caçoa, sim.
2 Mentir de brincadeira: Vai caçoar pra lá; matou nada!
3 COLOQ Desacreditar; não dar importância, duvidar: Não podia acreditar; afinal, a vida toda caçoara de histórias de fantasmas.
4 Fazer caçoadas com a intenção de provocar alguém ou apenas para brincar; atiçar, implicar, instigar: Caçoa do apelido do irmão até provocá-lo para briga.”

Alguns carabucenses (cuidado com a palavra) se destacavam.

Niltinho Pontes, por exemplo. Bancário do extinto BERJ – Banco do Estado do Rio de Janeiro, que tinha um posto na vila, Niltinho era uma pessoa culta, para a média da população local, o que lhe permitia caçoadas inteligentes. Ou Paulinho Sucanga, meu tio, e um dos maiores jogadores de futebol que já vi atuar, com seu jeito moleque de encarar a vida. Havia o Elias Pelanquinha também. Meu primo de terceiro grau, meio-campista do Liberdade Esporte Clube, e grande carnavalesco. Gostava de sair, durante a folia momesca, fantasiado de bebê, com um fraldão, chupeta pendurada ao pescoço, levando na mão um penico com cerveja e algumas salsichas boiando, numa sugestão nojenta para olhos mais sensíveis. Ele tirava a salsicha do líquido amarelo e a comia na frente de mulheres envergonhadas. Os irmãos Renato e Antônio Milton, irmãos do meu amigo Cabeção, grandes jogadores de sinuca, que debochavam sempre dos parceiros mais fracos. O Coberta Velha, que se destacava pela risada escandalosa, motivo do apelido, logo após suas caçoadas. Parecia uma coberta velha sendo dilacerada à força. O Elias Penudo era outro caçoador emérito. Com uma cara de sujeito sem graça, o andar meio desengonçado de marreco, vivia de caçoar o que estivesse mais próximo. Outro era o Dadá Machado, também meu primo, e cheio de deboches e brincadeiras com seus fregueses do bar. Mas do Dadá era de se esperar isso. Sua cara já o denunciava de antemão. O Moreninho barbeiro era outro brincalhão. Muito falante, como é comum aos barbeiros, cinéfilo de carteirinha, Moreninho fazia do seu salão o ponto de encontro para uma conversa descontraída e cheia de humor. Durante dois anos, fui aprendiz do ofício que ele exercia com extrema maestria e pude desfrutar daquele ambiente de saudável descontração, embora fosse um ambiente de trabalho como outro qualquer. O China alfaiate talvez fosse o maior deles. É impossível lembrar do China, hoje residente em Bom Jesus do Itabapoana, sem que venha à memória as brincadeiras que aprontava com todos. Do seu ateliê saíam tanto roupas muito bem cortadas, quanto caçoadas afiadíssimas. Aliás, China me disse há algum tempo que foi meu pai quem lhe deu o apelido, que lhe substituiu completamente o nome, Otoniel. E meu pai era um homem sisudo, de poucas palavras e ainda menos sorrisos. Mas um apelidador de marca maior.

O interessante desse tipo de brincadeira é a de que era inconsequente. Não produzia nenhum malefício ao outro, que, no fim, também acabava caindo na gargalhada – ou, como se diz lá ainda hoje, pocando de rir – e se divertindo. Era um jeito lúdico e descontraído de se estreitarem relações sociais numa vila tão pequena, em que todos se conheciam e se estimavam. Claro que havia escaramuças raras, mas, no geral, na normalidade, todos viviam em paz, no sossego das casas e das ruas. E cuidando para não cair na próxima caçoada de um desses conhecidos gozadores.


Resultado de imagem para pintura naif vilarejo
Militão dos Santos Lima, Paisagem rural (em pinterest.com).


20 de outubro de 2017

COISAS DO INTERIOR

Na minha vila de Carabuçu, lá pelos fins de 50, princípios de 60 do século passado, Narck Pontes tinha um serviço de alto-falantes de quatro bocas, montado sobre o prédio comercial do tio Nalim, na esquina das ruas Coronel Alfredo Portugal e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo.
O prédio era – e ainda é – o maior da vila. Tem dois andares. E sobre a cobertura instalaram-se aquelas quatro bocas metálicas que, duas vezes por dia, faziam a trilha sonora de nossas vidas simples de gente do interior.
Nos finais de semana, o proprietário, dublê de locutor, apresentava um programa de “oferendas musicais”, assim mesmo nomeado. As pessoas escolhiam uma música para dedicar a alguém. Pagava-se, então, a módica quantia de dois cruzeiros, o preço de um picolé do Barrosinho ou do tio Tônio, por cada oferenda, e transformava seus devaneios românticos em acordes musicais.
Enquanto passeávamos na pracinha, que ficava a duas quadras da esquina do tio Nalim, ouvíamos prazerosos o som espargido das quatro bocas do sistema de som do Narck Pontes, que caprichava na locução. Algumas dedicatórias eram praticamente criptografadas:
- Alguém oferece a alguém, e esse alguém sabe quem, o samba-canção Meu vício é você, de Adelino Moreira, na voz inconfundível de Nelson Gonçalves!
E, sem o chiado comum aos toca-discos de então, o som da música enchia o ar da vila. Meu amigo José Luiz Padilha, no entanto, que morava numa vasta chácara à meia distância, sempre dizia que a continuidade das ondas sonoras dependia da direção do vento. E suas audições eram entrecortadas por instantes de silêncio e instantes de som. Mais ou menos como Lulu Santos pontua na música Certas coisas.
Certo sábado de verão, noite cálida, passeando pela Pracinha do Sabiá, ouço espantado a dedicatória que o Pedro Nunes fez para minha prima Bibinha: Boneca cobiçada.
Devo esclarecer aos mais novos que, por essa época, ainda não havia a famosa MPB – Música Popular Brasileira, como nosso cancioneiro popular viria a ser conhecido a partir do final dos anos 60, com a revolução estética trazida pela Bossa Nova, ainda incipiente, e a Tropicália, ainda em gestação. Nossas canções mais difundidas eram sambas-canções e boleros, este de origem cubana, em que a temática amorosa falava de amores quase impossíveis entre o “poeta” e sua musa, a maior parte das vezes, uma personagem de vida airosa, como no caso de Boneca cobiçada.
Minha prima Bibinha era uma jovem tímida, simples, recatada, estudiosa, que morava em outro lugar e estava passando férias em Carabuçu. Como fosse uma moça muito bonita, certamente que despertou o interesse do Pedro Nunes. E ele não pestanejou: ofereceu a música, no meu julgamento de garoto atento, errada. E Narck Pontes propagou em ondas sonoras:
- Pedro Nunes oferece à senhorita Alba – Esse é o nome da minha prima. –, como prova de muita admiração e carinho, o bolero Boneca cobiçada, de Biá e Bolinha, na interpretação de Carlos Galhardo.
E Carlos Galhardo soltou a voz, amplificada pela aparelhagem sonora, cantando os versos a seguir:

                        Quando eu te conheci
Do amor desiludida
Fiz tudo e consegui
Dar vida à tua vida

Dois meses de aventura
O nosso amor viveu
Dois meses com ternura
Beijei os lábios teus

Porém eu já sabia
Que perto estava o fim
Pois tu não conseguias
Viver só para mim

Eu poderei morrer
Mas os meus versos não
Minha voz hás de ouvir
Ferindo o coração

Boneca cobiçada
Nas noites de sereno
Teu corpo não tem dono
Teus lábios têm veneno

Se queres que eu sofra
É grande o teu engano
Pois olha nos meus olhos
Vê que não estou chorando.              


Naquela noite, percebi que nem sempre se acerta ao tentar conquistar o coração de uma mulher. No meu entender, Pedro escolheu a música imprópria. Nem sei como minha prima reagiu a isso. Lembro-me, contudo, que não ouvi nenhuma dedicatória de volta. Na minha percepção, fez-se o tal silêncio que Lulu Santos viria a cantar décadas depois. E sem sinfonia nenhuma!

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Imagem colhida em amlece.blogspot.com.br.

4 de outubro de 2017

A PRIMEIRA VEZ QUE VI OURO PRETO

(Para Eduardo Campos e Rogério Barbosa, amigos.)
Já disse por aí – ou alhures, para enobrecer o texto – que devo ter alma mineira, ainda que me considere um animal sem alma. A não ser que se entenda alma como alguma coisa interior que nos individualize, nos torne particulares no meio da multidão: esse jeito próprio de ver o mundo e nele se inserir de forma única.
Pois muito bem! Esta minha alma mineira, sobretudo barroca, chegada a um queijo e a uma pinga de alambique, foi definitivamente estabelecida em meu ser na primeira vez que vi Ouro Preto. E o encantamento pelo colonial, pelo barroco, consolidou-se com a argamassa dos prazeres gustativos que as terras das Gerais têm a capacidade de despertar em qualquer ser humano que esteja aberto a novas experiências.
E, como toda primeira vez, a minha também foi inesquecível, marcada por momentos que permanecem ainda hoje na minha memória afetiva.
Era a época do então famoso Festival de Inverno de Ouro Preto, um acontecimento organizado pelos alunos da Universidade Federal de Ouro Preto, como um contraponto de liberdade, naquilo que era possível à época, ao regime militar. Ele já acontecia há uns três ou quatro anos, quando os amigos Eduardo Campos e Rogério Barbosa propuseram a viagem, em julho de 1974.
Em um bar da Miguel de Frias, encostados ao balcão e alimentados por cervejas, planejamos a viagem, enquanto a capanga do Duda, com todos os seus documentos, era roubada do seu Fusca Acidentes do Parto, estacionado bem na frente do estabelecimento. Por essa época, não tínhamos ainda o hábito de trancar tudo, com medo de ladrões. Talvez tenha começado aí com este episódio a via crucis, que só vem agravando, por que passamos atualmente.
Tivemos – Rogério e eu – de vencer a contrariedade do Eduardo, para que a viagem não se frustrasse. Na sexta-feira seguinte, à tardinha, saímos de Niterói. A Jane ia conosco. Ainda éramos apenas namorados. E, dos quatro, apenas eu não conhecia a cidade.
Como era nosso hábito então, ficamos acampados um pouco antes da entrada da cidade. Chegamos ao camping, armamos nossas barracas, tomamos o banho e partimos para a zona urbana. Os amigos e a Jane prepararam o encontro entre mim e a cidade: a partir de determinado ponto, eu deveria fechar os olhos e só abri-los assim que fosse autorizado. Rodamos alguns quilômetros – não muitos –, até que descemos do Acidentes do Parto. De olhos fechados, saí do carro guiado pela Jane e sob o comando dos três. Assim que fiquei sobre uma calçada, tive a permissão de ver. E o que vi foi de uma beleza estonteante.
Devia ser lá pelas oito ou nove horas da noite. Em pleno quadrilátero da Praça Tiradentes, bem na esquina com a Rua Cláudio Manuel, lentamente fui abrindo os olhos e o espetáculo urbano que se descortinou aos poucos foi inesquecível: a cidade estava tomada por uma névoa baixa, que encobria os telhados dos casarões, e se inundava com a luz dos lampiões. Aos poucos, fui girando o corpo, conduzindo o olhar pela praça, até dar com o Museu da Inconfidência, que ficara às minhas costas. Completara, assim, o primeiro impacto em trezentos e sessenta graus com a cidade.
Fui tomado de uma emoção incomum, até então não sentida diante das coisas feitas pelo homem. A cidade não poderia ter-se preparado de melhor forma, para que o barroco e o colonial se instalassem entre minhas preferências estéticas.
Entretanto, para não dizer que tudo fosse perfeito, observamos no centro da praça, junto à estátua de Tiradentes, um veículo estranho, carrancudo, de cor preta, antena parabólica sobre sua carroceria blindada, com letras brancas a indicar que não estávamos liberados para tudo: DOPS, a famigerada polícia política do regime militar, ali a postos para as ações de praxe.
Passados esses dois sustos, carro estacionado, ainda muito poucas pessoas nas ruas, saímos para o conhecimento do que ocorria. Subindo e descendo ladeiras, ladeadas por casarões preservados, procuramos por gente, por música, por bebida e comida. Alguns porões abrigavam bares e restaurantes, onde os jovens se reuniam para confraternizar. Num desses, fomos apresentados a certa iguaria da mais tradicional cozinha mineira: o bambá de couve. Também conhecido como mambá de couve, o prato é um tipo de mingau de fubá, acrescido de pedaços de carne de porco e tiras finas de couve. É um prato de sustança, que acompanhado por vinho em caneca, desses que hoje não mais temos coragem de beber, esquentava o peito, o estômago, as canelas e a alma. E deu a energia necessária a que percorrêssemos outras tantas ladeiras, parássemos em rodas de violão a céu aberto, confraternizássemos com grupos que passavam, até voltarmos ao camping, já entrada a madrugada, para a primeira noite de sono sob o manto colonial da lua de Ouro Preto.

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Alberto da Veiga Guignard, Paisagem de Ouro Preto, 1950 (em criticadeartebh.com).


25 de setembro de 2017

SERESTEIROS

Como nos faroestes clássicos, em que a cidadezinha era invadida periodicamente por um forasteiro mal-encarado, barba por fazer, banho por tomar, chapéu de aba larga quebrada sobre o cenho cerrado, cigarro mascado no canto da boca e duas pistolas Colt no coldre, assim também Carabuçu e Bom Jesus tinham seus invasores contumazes.
Por volta dos anos 50/60, vez e outra, apareciam forasteiros bem-falantes, comunicativos, simpatia incomodativa, barba escanhoada, brilhantina perfumada nos cabelos, beiço superior ornado por um bigode aparado a navalha Solingen e munidos de uma arma perigosa: o violão.
Chegavam chegando, sem muitas cerimônias, fazendo-se enturmados, dirigiam-se ao primeiro botequim mais bem frequentado, pediam um traçado, um rabo-de-galo, uma cerveja gelada, e puxavam conversa com o mais próximo.
Eram os tais seresteiros-viajantes. Nos moldes dos também antigos caixeiros-viajantes que saíam oferecendo suas bugigangas país afora, com suas malas recheadas de novidades, tais seresteiros iam derramar seus cantos por janelas diversas, na busca de conquistar corações desavisados de donzelas – ou nem tanto – sonhadoras.
Um desses chegou a Carabuçu, quando eu menino, e por lá ficou por certo tempo. Sacava seu violão na Pracinha do Sabiá, dedilhava seus bemóis e sustenidos e soltava sua voz tremente – o tal vibrato – em boleros e sambas-canções chorosos. Mostrou sua arte como compositor, apresentando uma canção de própria lavra, de que até poucos anos atrás eu sabia a melodia e a letra.
Até que resolveu soltar seus trinados sob o alpendre de mulher casada, tida por facilitadora de situações, e acabou levando uns contravapores da pior espécie do senhor marido da dita mulher, que o fizeram sair de Carabuçu com a cara toda amarfanhada e o violão estilhaçado em várias partes.
Dele nunca mais se soube.
Um outro, pelo mesmo tempo, e nem sei se seria o mesmo, invadiu a praça de Bom Jesus com as mesmas deletérias intenções.
Na verdade, quando se diz Bom Jesus, é preciso que se entenda como uma cidade dupla: uma no Rio de Janeiro – Bom Jesus do Itabapoana – e outra no Espírito Santo – Bom Jesus do Norte – apenas separadas pelo rio que dá o nome à primeira, mas unidas pela velha ponte de concreto.
Pois também aquele tal seresteiro ambulante, de conversa em botequim da guaxa, pediu informações sobre possíveis vítimas de seu canto de sereia. Indicaram-lhe a casa do senhor José Cordeiro, exatamente postada logo à saída da ponte, já no Espírito Santo. Seu Cordeiro morava num sobrado na diagonal da esquina em relação ao posto de gasolina de sua propriedade. Segundo o cantor de milongas apurou, seu Cordeiro era possuidor de três belas donzelas solteiras, moças discretas e de peregrinas virtudes, como assegurava A Voz do Povo, hebdomadário da outra Bom Jesus, sempre que se referia a qualquer senhora da sociedade local.

Naquela mesma noite, mal a lua cheia tomou o zênite no céu estrelado de Bom Jesus, o cantador começou a debulhar canções do repertório nacional. Começou com “oh! lua branca de fulgores e de encanto / se é verdade que ao amor tu dás abrigo”, (Lua branca), da maestrina Chiquinha Gonzaga; reforçou com “a lua vem surgindo cor de prata / lá no alto da montanha verdejante” (Malandrinha), gravada pelo mago Orlando Silva; e emendou, de enfiada, com “lá no alto a lua esquiva / está no céu tão pensativa” (Noite cheia de estrelas), do portentoso tenor Vicente Celestino.


Como nenhuma das donzelas se dispusesse a abrir a janela e se encantar com sua voz maviosa, o bardo notívago, revoltado com tanta indiferença, adaptou a letra da última canção às circunstâncias do momento e cravou, no meio da noite tranquila, “só tu dormes, não me escutas / filha-da-puta”, escandindo bem a última palavra em sílabas cristalinas. Foi o instante exato de receber pelas platibandas o jorro de mijo de três penicos cheios, lançados por Zé, Justino e Pedro Cordeiro, as supostas filhas de seu José Cordeiro, já chateados daquele cantorzinho meia-bomba a incomodar-lhes o sono tranquilo daquela noite fria de julho.

J. Emilio Rocha, Cantores seresteiros (em arterocha.blogspot.com.br).

15 de setembro de 2017

MUNDINHO


Cinco dias por semana, Mundinho trabalhava duro: caixa de banco. Dois dias consumia bebendo cachaça cerveja steinhaeger traçado de cinzano com conhaque de mel fogo paulista chope vinho tinto martini seco rabo-de-galo creme de ovos catuaba com jurubeba do norte genebra underberg com soda pau-pereira limãozinho bagaceira vodka com crush rum com coca-cola campari arak pisco aquavit saquê, dentre outras coisas. De tira-gosto: careta, cusparada, assopro, assovio, estralo de língua, estralo de dedo, rodopio de corpo, muxoxo de preto-velho hum! hum! mizifio!, grito de ajudante de bandido mexicano em películas da Pelmex iahuuuuuu! e um diabo de arroto nojento, puxado das tripas, que ninguém suportava. À distância recendia a alambique, tonel, chão de botequim. Não acendessem fósforo num raio de três metros, sob pena de explodir. Ainda assim, nem ficava bêbado.
Nos fins de semana, sempre pelas redondezas, entornando aqui e ali. Num domingo à noite, final de expediente etílico, caiu na besteira de desembaraçar um arroto caprichado, para arrematar tudo, na porta do bar do Jésus, um mosqueiro como tantos outros. O dito cujo arroto foi tão indecente, mas tão indecente, que Mundinho teve de sair correndo para não apanhar dos demais fregueses.
Chegando à antiga pensão onde morava, no vinte e nove da Pereira da Silva, a língua em forma de gravata colorida até o meio da barriga, só teve tempo de fechar a porta e deixar seus perseguidores do lado de fora.
Se o fígado tinha, até aquela altura, sustentado todas as suas estripulias, o medo foi tão grande que o transformou em abstêmio. Fundou até os A. A. em Bom Jesus do Itabapoana, entrou pros crentes e, hoje, o mais forte que bebe é café coado em coador de pano, bem temperadinho no açúcar mascavo.

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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.