9 de junho de 2017

BRASILEIRO CORDIAL


O brasileiro é um ser cordial. Apesar de não termos muita educação em público, pois sujamos as ruas, avançamos os sinais, dirigimos no acostamento, não cedemos o lugar para o menos apto, não cumprimentamos ao chegar, não agradecemos costumeiramente, apesar de tudo isso e de outras coisas mais, somos um ser cordial. Às vezes xingamos o outro no trânsito, ou viramos a cara para não falar com o vizinho do prédio, ou empurramos o outro à entrada do transporte público, mas, no fundo, no fundo, somos cordiais. Até mesmo roubamos seus pertences, invadimos sua privacidade, nos apossamos de seus dados bancários, clonamos seus cartões, utilizamos seus dados para nosso próprio benefício, mandamos vírus eletrônicos, trucidamos uns aos outros por qualquer bicicleta ou celular, mas somos cordiais.

Alguns de nós, no entanto, não são assim tão cordiais e manifestam isto em letra de forma.

Há algum tempo vi num botequim mais que pé-sujo, no trevo de subida para Itaipuaçu, onde parei para comprar água, um cartaz feito à mão, colado na ensebada estufa de salgadinhos, em que o microempresário manifestava seu descontentamento com certos clientes folgados, que querem aquilo por que não pagaram. Dizia ele lá, em letra de caneta pilot:
VÁ ACENDER SEU CIGARRO ONDE O COMPROU.
AQUI SE VENDE ISQUEIRO E FÓSFORO.
Assim, simplesinho, e com todo o jeito carinhoso que caracteriza nossa índole cordial. Sem ofender, nem nada. Só para o cliente amigo entender onde está se metendo.
Quando o vendeiro perguntou se a água era sem gás, concordei para não incomodar seu dia de labuta. Paguei a garrafa e fiquei receoso de pedir copo descartável. Achei melhor não importuná-lo ainda mais. Jane e eu beberíamos a água pelo gargalo mesmo. Liguei o carro e me escafedi do local rapidinho.
Mais recentemente, na última sexta-feira, desci do ônibus no Terminal João Goulart, no centro de Niterói. Ao chegar ao saguão da estação, vi no letreiro de uma loja de tabacos esta mimosura de cordialidade, agora dirigida aos “dimenor”:
SE VOCÊ AINDA NÃO TEM 18 ANOS. VÁ PARA
A LOJA DE DOCES QUE ESTÁ DO OUTRO LADO.

Achei tão simpática a mensagem, que a fotografei com o celular, bem verdade que um pouco à distância, para não ser brindado com observação, no mesmo tom, de algum funcionário do receptivo quiosque. Mas tive o cuidado de dar a volta, para ver se haveria algo do mesmo nível do lado oposto. E lá estava:

SE VOCÊ AINDA NÃO TEM 18 ANOS. VÁ PARA
A LOJA DE DOCES QUE ESTÁ ATRÁS DE VOCÊ.

E vi aquela imensa loja cheia de doces e biscoitos, naturalmente do mesmo dono do quiosque de tabaco. 

Somos ou não somos um povo cordial?

Quiosque de tabacos no Terminal João Goulart (foto do autor, via celular).
Quiosque no Terminal João Goulart (foto do autor).

23 de maio de 2017

SOBRAS E FALTAS


Quando no Brasil se faz uma canoa
Faltam paus e sobram buracos
Faltam carpinteiros e sobram projetistas
Faltam projetos e sobram lobistas
Para construir uma canoa
Que irá afundar no Amazonas
No Chuí
No São Francisco ou no Beberibe
Em alguma lagoa seca por aí

Quando no Brasil se faz um pagode
Sobram sambistas e falta samba
Sobram pandeiros e faltam bambas
Como dos tempos de Cartola
De Sinhô de Ataulfo
Adoniran

Quando no Brasil se fazem cenas
Sobram atores faltam textos
Sobram encenações falta o poema
Sobra o simulacro falta o enredo

Quando no Brasil se fazem os acertos
Sobram corruptos faltam corretos
Falta propina sobram dejetos
Quando se tenta apurar o que está debaixo
Do mesmo teto
Sobram ratos sobram gatos sobram raposas
Sobram larápios
Faltam honestos

Piet Mondrian, A árvore vermelha, 1908-1910, Gemeentemuseum, Haia (em pt.wikipedia.org).

8 de maio de 2017

BEIÇUDO


(Para o amigo Marcelino Medeiros, dono da história.) 
A coisa se dá mais ou menos assim.
Você viveu a infância toda como um bicho solto nas ruas da vila, algumas de paralelepípedo, outras de chão batido. Fazia corriola com o irmão e os amigos. Reinava absoluto num tempo em que até as chuvas torrenciais dos verões eram matéria lúdica. Correu pelos pastos, varou cercas de arame farpado atrás de frutas em quintais alheios, soltou pipa, brincou de siliprina e pique-esconde, andou em lombo de burro e levou corrida de cachorro bravo. Mas aí tem de sair de lá. Tem de acompanhar os pais, que procuram melhor sustento para a família. E não lhe resta nada, a não ser ir quietinho, chorando por dentro, a fim de não levar um pito daqueles, quando não um cascudo, para deixar de ser banana.
E, com o passar dos anos, cresce, vira adolescente, namora, mas ainda lá por dentro, lá no imo, como dizem os textos românticos, aquele jeito de mato permanece, recalcitrante que só ele, a manter acesos certos desejos, certos sonhos.
Um deles, por exemplo, é ter um cavalo.
Resolve, então, passados uns anos, a trocar a velha bicicleta de quadro duplo, pneu balão, campainha descascada, por um equino do vizinho do fim da rua. Você está em Nova Iguaçu e tem dezesseis anos, nesta altura. Ali você passou a morar com seus pais e irmãos. O quintal espaçoso, com algumas árvores frutíferas, pode acomodar bem o animal. Você toma coragem e vai até o vizinho e propõe a troca:
- Dou a bicicleta pelo cavalo.
Naquele tempo ainda não se tratava por magrela a duas rodas. Era bicicleta mesmo. O outro negociante, mais ou menos da sua idade, resolveu pensar no assunto. E pediu para examinar o veículo que conhecia de o ver rodando por ali.
Entrou com seu olhar minucioso, viu o estado da pintura, a sobrevida provável dos pneus, o selim com o escudo do Vasco da Gama, que ele iria tirar, com certeza, e pediu cem cruzeiros novos de volta. Não era um mau negócio para nenhum dos dois. E você ainda lhe daria a bomba manual de encher pneus.
- Por acaso esse cavalo tem nome? – você perguntou, a fim de não trocar o nome do bicho.
- Beiçudo! – disse o vizinho, sem muito entusiasmo.
E você entendeu. Beiçudo, pela aparência, já era entrado em anos. Tinha umas costelas salientes, sinal de penúria alimentar, um pelo baio desigual, a crina toda embaraçada por falta de cuidado.
Você leva o Beiçudo pela rédea. A sela não veio, por muito velha e deteriorada.
- Não tem problema, amigo, eu compro uma nova. Vou pedir ao meu pai para ajudar.
E o Beiçudo o acompanhou a passos lentos, do fim da rua até sua casa. Você entrou solene pelo portão e o deixou no quintal, amarrado a uma árvore, para que não saísse devastando o canteiro de hortaliças verdinhas da mãe. Não queria trazer problemas para casa. Apenas realizar aquele velho sonho de infância que ficou no fundo da memória, desde Carabuçu.
Providenciou ração e foi-se aconselhar com quem tinha mais experiência no cuidado com bicho de casco.
Começou a dar um trato no Beiçudo, para que ele perdesse aquele ar dolente, aquele olhar de peixe morto, que não fica bem num cavalo, num ginete fogoso. E se lembrou dos gibis de Roy Rogers, Gene Autry, Cavaleiro Negro, Zorro, Hopalong Cassidy, Durango Kid, Fantasma, que lia na farmácia do Zé. Seu cavalo ia ficar tão bonito como aqueles: Trigger, Campeão, Satan, Silver, Topper, Corisco e Herói.
Mas a vida não é uma história em quadrinhos, que sempre termina com a vitória do mocinho sobre o bandido e as forças do mal. E o Beiçudo, nem de longe, lembrava nenhum daqueles belos espécimes da família dos equídeos, desenhados à perfeição nas páginas dos gibis. Nascido e criado quase ao Deus dará pelas ruas de um bairro de Nova Iguaçu, amanheceu inapelavelmente morto, numa manhã fria de agosto, a carcaça já quase rígida, quando você foi procurá-lo com o balde de ração na mão.
Diante da fatalidade, não lhe restava alternativa a não ser rebocar dali o corpo defunto do Beiçudo, antes que seus pais encrencassem com aquele estorvo. Em vez de contratar alguém para resolver seu problema, você mesmo tenta. Sempre pôde tudo até ali em sua vida, e não seria isto a não ser resolvido.
Amarrou o corpo do Beiçudo, na altura do vazio, como se dizia em Carabuçu, com uma corda grossa, que foi atada com todos aqueles nós que aprendera no manual do escoteiro mirim ao para-choques traseiro do velho jipe Willys do pai.
Abriu o portão, deu a partida no veículo e saiu bem devagarinho, para não dar um estacão e ali mesmo pocar a corda. Aí saiu puxando o cadáver do Beiçudo, rua afora. Saiu da rua, entrou noutra e mais noutra. Chegou até a pracinha do bairro. Quando ia dobrar à direita para ganhar a direção do aterro em que deixaria seu efêmero amigo, a corda se rompeu, pelo desgaste com o asfalto irregular.
Parou o velho jipe. Olhou a situação. Viu que não podia fazer mais nada e resolveu abandoná-lo ali mesmo, pois sabia que a prefeitura daria um jeito de levar o Beiçudo à sua morada final, antes mesmo que também ele pocasse de inchado: o bico dos urubus voantes do aterro de Gramacho.
Voltou ao jipe, que acelerou com mais vigor, para voltar a casa, resmungando feito pobre pela manta que levara. Ao chegar ao portão ainda aberto, viu pelo retrovisor o parceiro de negócio passar na sua antiga bicicleta feito um corisco. E falou entredentes, dando uma sacudidela de ombros, como que para fechar a história:
-Vai-se a bicicreta e o Beiçudo. Me espere, papudo, que vou te fazer comer poeira como meu novo sonho: uma Lambretta vermelha e branca 1967.
Antes tivesse ficado com a magrela!

Imagem em depositphotos.com.

3 de maio de 2017

CONFISSÃO


Assumo que resumo o que eu fiz
Em quase nada.
Quase tudo foi fortuito
Um outro tanto gratuito.
Planejados
Somente os armários do quarto
E as aulas que ministrava aos quatro ventos
Para alguns tantos alunos atentos
Porque os outros oh! os outros
Nem queriam saber do que tratava a gramática
Apenas o resultado do jogo do Flamengo
Como aquele aluno ao lado da janela
Fone aos ouvidos
A se preocupar com os lances do primeiro tempo
Enquanto a prova pedia sua atenção.

Tudo mais
Ou quase tudo
Inclusive a preocupação de criar os filhos
Foi como um experimento
A tentativa de que tudo desse certo
Embora sem a mínima noção do correto
De que um dia eles estivessem cobrando
A correção daqueles momentos
Para saber se tudo não teria sido em vão.

Música na praia (foto do autor).


21 de abril de 2017

CHAPÉUS


Tenho tido chapéus e boinas há algumas décadas. Não sou uma pessoa antiga, nem saudosista, embora já entrado em anos, para usar uma expressão eufemística que me alivie a proximidade dos setenta, mas que gosta deste complemento do traje masculino, caído em desgraça, pelo menos, desde a década de 50 do século XX.
Durante bom tempo fazia uso esporádico ou recreativo desses apetrechos, em determinadas circunstâncias. Contudo há cerca de uns cinco anos, comecei a usar chapéu cotidianamente, a fim de tentar fugir das recomendações da minha dermatologista, que me exigiu filtro solar, até sob céu nublado anunciador de chuva. Na oportunidade em que ela me receitou o creme, manifestei meu desagrado em seu uso dada a oleosidade da minha pele. Ela, então, para me deixar sob sua tutela permanente – não poderia jamais em minha vida de branco azedo prescindir dessa proteção – me ofereceu amostra grátis de um apropriado, que só usei no primeiro dia. Assim optei pelo chapéu. É mais elegante – posso até pretender ficar mais bonito, coisa, aliás, difícil de conseguir – e não emplastra o rosto com aquela película gosmenta.
Entretanto devo dizer que fico parecendo um estranho no ninho. A devastadora maioria da população masculina prefere até mesmo uma calva reluzente – ainda não atingi este nível – a um disfarce de tal arquitetura. É verdade que, ao me olhar no espelho, no quesito beleza, não vejo diferença alguma nessa minha estampa que, à medida que o tempo escoa no calendário, vai ficando mais decadente. Porém o que se há de fazer? É isto ou morrer subitamente. Prefiro envelhecer.
Assim, a cada dia, ao sair, encastoo no alto da cabeça um dos meus vários chapéus de panamá comprados por aí. E ponho na cabeça – então lá dentro – que estou protegido de todas as gamas de raios emitidos pelo Astro Rei, de modo a evitar um possível câncer de pele, vez que nasci branquelo num país tropical, abençoado por Deus, e o resto o prezado leitor sabe.
Caso contrário, se é noite, ponho uma boina, um boné de aba curta, um chapéu de feltro – tenho mesmo um argentino próprio para dançarino de tango, apesar de não dar um passinho que seja nem de bolero – e saio para o encontro com amigos, a tomar um vinho, numa noite amena, o que tem sido cada vez mais difícil na cidade grande.
Algumas vezes, no entanto, tenho de dar explicações sobre a excrecência que levo alguns centímetros acima de minha pessoa e, para não dizer que pretendo ficar mais bonito, ou simplesmente que é um gosto maior que três vinténs, dou a desculpa de que estou seguindo recomendação médica, para me proteger das emissões de raios ultravioletas e quejandos. A explicação é aceita de muito bom grado. Todos morrem de medo de câncer.
Relativamente ao uso desse acessório, minha dermatologista me disse certa vez, quando a informei desta minha opção, que, num país ensolarado como o nosso, ele jamais deveria ter sido deixado de lado.
E isto me remete a certas fotos que tenho na memória sobre acontecimentos públicos nas grandes cidades do mundo, nas quais todos os homens, quase sem exceção, estão de chapéu. Mesmo na minha infância e juventude em Carabuçu, do final dos anos 40 até meados dos 60, era comum que vários homens ainda o usassem: os que trabalhavam na roça, sempre; os da vila, já nem tanto. Há uma fotografia na família em que está registrado o valoroso esquadrão do Liberdade Esporte Clube, da época em que meu pai brilhava na extinta ponta-esquerda. Lá está todo o time em pose da época e, atrás, de pé, os dirigentes do clube, todos indefectivelmente de chapéu, inclusive meu avô Chico Albino, numa elegância inusual atualmente.
Assim, mesmo não me considerando saudosista ou antigo – tenho na minha cabeça de que o gosto pelo rock me salva desta pecha –, uso chapéu como um exemplar saído das fotografias de antigamente, seguindo uma tradição que não mais existe nos dias de hoje.

Chapéus (foto do autor).
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 17/6/2015.

11 de abril de 2017

ADEGA PÉROLA

(Para Roberto Assis, primo.)
Meu primo Bedu (Roberto Assis) e eu, lá pelo início dos anos 70, resolvemos ver o show que Rita Lee faria no Teatro Tereza Rachel (hoje Net Rio), num sábado de tempo agradável. Por aquela altura, éramos solteiros e abandonados.
O teatro fica na sobreloja de um shopping na Rua Siqueira Campos. Ao chegar lá, para a compra dos ingressos, encontramos uma verdadeira muvuca, que não nos permitia saber onde começava ou terminava a fila. Gal Costa desfilava sua vasta cabeleira, seu largo sorriso e suas saias rodadas no meio do povaréu.
Entramos naquilo que seria uma fila. Depois de certo tempo, combinei com o Bedu que iria dar uma volta pelas imediações, para conhecer, e depois eu ficaria na fila, para que ele também saísse na prospecção da área. Desci as escadas e saí pela entrada principal, na Siqueira Campos. Do lado oposto da rua, me chamou a atenção o movimento de pessoas num bar. Li o letreiro – Adega Pérola – e resolvi fazer uma incursão de reconhecimento. Já na entrada, fiquei maravilhado com o balcão de bons metros de comprimento, todo envidraçado e repleto de um número impensável de variados tira-gostos.
As pessoas sentavam-se em barris de vinho, em que também depositavam seus copos e os pratos com petiscos, à esquerda de quem entrava no estabelecimento. Ao fundo havia umas poucas mesas, todas já ocupadas. Da parede, pendia um aviso proibindo tocar instrumentos e fazer cantoria.
Voltei imediatamente ao furdunço da fila do teatro e disse para o Bedu abandonar a missão, porque outro valor mais alto se alevantava lá fora, a exigir nossa presença.
- Você precisa conhecer a tal Adega Pérola aqui em frente.
Descemos as escadas e, em menos de cinco minuto, já estávamos com o umbigo encostado ao balcão, com uma caneca de vinho nacional de barrica – por essa época bebíamos o que se apresentasse plausível aos nossos parcos poderes econômicos – e atrapalhados na escolha de um dos muitos tira-gostos para acompanhar.
A partir de então voltei à Adega Pérola muitas vezes. Saía de Icaraí, normalmente acompanhado de amigos – o Bedu mesmo foi em várias ocasiões comigo – e, posteriormente, da Jane, para passar uma noite de delícias gastronômicas populares do cardápio lusitano e brasileiro, regados ao tal vinho ou a chope, a depender das condições climáticas.
Assim que nos nasceu o primeiro filho, a vida mudou, como é comum. E fiquei anos sem lá voltar. Até que há cerca de oito anos, ao levar minha filha e a Jane a Copacabana, nas imediações do local, decidi, enquanto as esperava, tornar ao bar. Lá encontrei o último proprietário remanescente daqueles tempos, em que religiosamente a polícia fazia uma vistoria de olhos ditatoriais sobre os presentes.
O ambiente tinha passado por uma reforma que inverteu a posição da prateleira e do balcão. Agora eles ficam à esquerda, e as mesinhas de seis bancos fixos ficam à direita. Falei para ele sobre minha história com a casa, os bons momentos ali passados. Seus olhos brilharam, e ele abandonou a caixa registradora e veio sentar-se comigo. Disse da perda dos irmãos que eram seus sócios no empreendimento. Contou que dois antigos fregueses, na iminência do fechamento da adega, entraram na sociedade, injetando capital e propiciando a reforma que eu estava vendo. E reclamou que o Chico Buarque, que sempre ia lá para tomar sua cachacinha, não mais aparecia.
Jane chegou daí a pouco, e ele ficou tão feliz que a presenteou com uma embalagem de chocolate. Algum tempo depois, tivemos a notícia de sua morte. E temi pelo destino da casa.
Neste último sábado retornamos a ela, agora com meu cunhado Jorge e sua mulher. Ele que várias vezes fora conosco nos áureos tempos em que podíamos sair de Niterói e voltar tarde da noite, de ônibus e barca, sem o mínimo problema de segurança. Chegamos de táxi, vindos do Teatro Casa Grande, onde vimos Ubu Rei, e saímos de uber.
E o balcão gigante continua lá, bonito como só, um convite irresistível a qualquer tipo de paladar, repleto dos mais diversos tira-gostos: azeitonas variadas, quase todos os frutos do mar ao molho vinagrete, diversos peixes à escabeche, favas, ovos de codorna, alho assado, muitos embutidos, boa quantidade de queijos, sardinhas fritas, bolinhos de bacalhau, frango a passarinho e outros tantos que a cozinha providencia para chegarem quentinhos à mesa, bem ao gosto do freguês.
Desta vez, foi tudo bem planejado, para que não perdêssemos nada. Saímos com a alma e a memória revigoradas por doses de boas lembranças e sabores que ultrapassam o tempo.

O show da Rita Lee – aquele dos anos setenta – vimos tempos depois, no campo do Botafogo, em General Severiano.

Adega Pérola (imagem em Acervo O Globo).

6 de abril de 2017

NÃO HÁ


Não há sandália sem tira
Nem esteira sem embira
Comichão sem cafubira
Mentiroso sem mentira
Garrucha nova sem mira
Ou mesmo ódio sem ira
Velame sem macambira
Fogo sagrado sem pira
Cateretê sem catira
Amalucado sem gira
Viola sem caipira
Ou lusitano sem vira
Conjuração sem traíra
Azul real sem safira
Caxemir sem casimira
Mata virgem sem saíra
Caverna sem corruíra
Ou jugular sem vampira
Umbanda sem Pombagira
Retirante sem retira
Ubirajara sem Bira
Gado pastando sem xira
Floresta sem curupira
Ou curtume sem estira
Espiral sem a espira
Cachaçada sem ximbira
Inquietação sem cuíra
Má ordenha sem tibira
Terreiro sem pepuíra
Ou um poeta sem lira.

Imagem em efecade.com,.br.

23 de março de 2017

VIAGEM AO PASSADO

(Para os amigos Marina e Adilson Dutra.)
Fiz uma viagem ao passado no mês de dezembro. Aproveitei o convite dos amigos Marina e Adilson Dutra e voltei a Campos dos Goytacazes com a Jane, para rever velhos espaços de outrora, quando lá estudei no meu primeiro ano ginasial. Era 1960, por aquela época.
Adilson me fez a gentileza de agendar visita à minha antiga escola, o Colégio Bittencourt, situado na Rua Gil de Góis, próximo ao Jardim do Liceu.
Eu chegara ao colégio em março daquele ano, para iniciar o Curso Ginasial. Chovia fino e fazia um certo frio, mesmo para aquele mês. Por aquela altura, o calor não era tão intenso quanto hoje, ou, criança ainda, não me dava conta disso. Foram comigo os amigos e conterrâneos Augusto Pereira e Adilson Soares, este já falecido. Eles iriam para o terceiro ano e eram, portanto, velhos alunos do internato, que me guiariam e cuidariam de mim como irmãos mais velhos. Eu, apenas um calouro espantado com a novidade, sem, contudo, temer a experiência. Não havia trote. Os mais velhos recebiam os mais novos com a indiferença comum por então.
Lembro-me bem de que, após ter ido com minha mãe e nosso tio Nalim até as papelarias da cidade – À Normalista e Ao Livro Verde – comprar o material didático, entrei na posse do meu espaço no colégio. Fui conhecer o dormitório dos menores, a minha cama, as regras de conduta, os monitores de disciplina que velariam pela boa ordem no espaço interno, e as dependências do educandário.
E, no momento da despedida, quando vi minha mãe sair pelo portão principal, reunido com outros alunos sobre a laje de uma construção em frente à quadra, disse-me o Adilson:
- Pode chorar, Saint-Clair. Aqui todos choram nesta hora.
Aproveitei a chuva fina de março, para também derramar algumas lágrimas, que cessaram daí a pouco.
Pois agora, em dezembro do último ano, estava de volta e pude constatar que alguns desses espaços permaneciam os mesmos, como a antiga quadra de esportes, ainda descoberta, logo à direita de quem entra. Naqueles poucos degraus de uma arquibancada acanhada, nas tardes de sábado, lia para os colegas de internato. Manuel Joaquim, também mais velho do que eu, resolveu que eu era bom leitor, e um grupo ficava a ouvir a narrativa de textos condensados de Seleções do Reader’s Digest, cujo volume tomávamos emprestado à biblioteca do diretório acadêmico, localizado no prédio de dois andares, no fundo do terreno, ainda lá e próximo à casa em que morava o doutor José, um dos diretores da escola. Apesar da carranca de durão com as indisciplinas de uns e outros, ele permitia que os amantes de futebol vissem os jogos do campeonato carioca em seu novo televisor preto e branco. Por diversas vezes, estive sentado no chão da sala a acompanhar as partidas. 
Ainda está lá a velha sala de aula, com as carteiras na posição invertida. Parei um instante diante dela e troquei dois dedos de prosa com a professora que atendia um grupo de miúdos. Por todas as salas em que passei, algumas inexistentes à época, vi crianças ainda bem pequenas, na fase da pré-escola, a enfeitá-las com suas carinhas interessadas, seus brinquedos corporais, seus sorrisos receptivos. Numa delas, em que falei para os pequenos que eu também já havia sido aluno ali como eles, dois aluninhos arregalaram os olhos incrédulos. Devem ter pensado em como um velho como eu teria sido aluno dali. Inacreditável!

No meio do pátio, soberba de muitos anos, está a mesma mangueira, cujos frutos não chegavam a amadurecer à época, pois os devorávamos antes, ainda verdes, com sal, à espera do almoço de sábado, chamado ajantarado, por sair um pouco mais tarde. O paladar azedo e salgado da manga agravava o apetite daquele bando de adolescentes vorazes.
E não pude deixar de lembrar de alguns dos meus contemporâneos de internato, dentre aqueles que a memória guardou com maior precisão, além de Augusto e Adilson: Rubens e Roberto Neiva, Floriano, Fernando, Zé Pimentão, Nilson, Carlinhos Gordo, Gil, Laerte, Rubens Galaxe, Ari Tijolo, Chiquinho, Newton, Manuel Joaquim, Osni; os monitores Nei, Paulinho, Lúcio de Lauro, seu Alair, e o chefe de todos, o Badô, que era capaz de reunir em si qualidades aparentemente conflitantes: era, ao mesmo tempo, severo, justo e camarada conosco.
Após o percurso por vários desses espaços, alguns novos, outros do mesmo tempo em que lá estive, fomos recebidos pelo atual diretor, Guilherme, filho de dona Maria José, minha primeira professora de Latim, esposa do professor Delamar e irmã dos também professores Mário, José e Clóvis, da mesma família de educadores responsáveis por aquela escola centenária, fundada em 1914 pelo velho professor Mário Bittencourt.
Ao final do encontro, ganhei de recordação o opúsculo “O centenário do Colégio Bittencourt”, em que se registra a história da família, desde o mais remoto Bittencourt, na França, até os dias atuais.
Confesso que fiquei tão feliz, que nem deu tempo de minar água nos olhos, fato, aliás, muito comum nesta minha sentimental pessoa.



11 de março de 2017

BEBERAGENS E COMILANÇAS


A publicidade do produto que aparece na minha página de abertura da Internet informa que, "além da cafeína”, ele tem “Pods com camomila, eletrólitos e zinco".
Detesto beber ingredientes. Bebo o troço pronto, finalizado, sem saber o que leva na composição; restrição apenas para o açúcar, já que as taxas de glicose andam salientes. Mas não sou contra quem consome açúcar. Dia desses, por exemplo, na fila do caixa na padaria, uma jovem mulher estava esquecendo suas duas embalagens de doces. Ainda brinquei dizendo que não as levaria escondidas, porque não os comeria em casa. Ela, então, retrucou que não se perdoaria em deixá-los para trás. Os doces eram bonitos como a Gisele Bündchen! E ela, a dona das guloseimas, um tanto envergonhada, ainda comentou que o açúcar não serve para nada em nossa vida. Disse-lhe, ao contrário, que serve para nos dar felicidade, prazer. E isto já é muita coisa.
Mas, voltando, à história dos ingredientes, alguém, por acaso, sabe o que há na Coca-Cola? Ou no Campari? No Fogo Paulista? Ou no vinho quinado que o tio Aldany fazia para vender aos seus fregueses em Carabuçu lá pelos anos 60, e de cuja alquimia minha mãe, irmã dele, participava? Eu mesmo, depois de pronta a beberagem e antes que ela fosse engarrafada para ser deixada enterrada por alguns dias a fim de apurar o paladar, dava uma bicolada inocente e achava aquilo muito bom. Sinceramente!
Como chouriço de botequim. Sei o que ele contém, mas não penso nos ingredientes quando o saboreio. Seria um breque no paladar. Tripa de porco, sangue, redanha, como dizíamos na terrinha, e temperos muitos e variados, aí incluída a pimenta.
Bebo vinho porque gosto. Não estou preocupado com os efeitos benéficos do resveratrol para a saúde. Nem para os nocivos do álcool, se excessivo. Bebo para ser um pouco mais feliz do que já consigo ser.
Mas, em tudo, procuro sempre a temperança, resquício de minha formação religiosa, em todas as coisas do mundo. E também o prazer, agora em oposição à essa mesma formação religiosa. Creio que apenas o amor deve ser desmedido.
O resto a gente acomoda, quando se pode extrair um tanto de prazer da vida. Contudo prometo não experimentar aquele produto, só de implicância porque ele contém cafeína, Pods com camomila, eletrólitos e zinco. Vai que isso dê um revertério em minha pessoa, e eu desencarne antes do previsto na tabela de classificação periódica dos elementos!

Imagem em fisioterapiapersonalizada.wordpress.com.

24 de fevereiro de 2017

O VERBETE NÃO FOI ENCONTRADO


Dia desses, ao parar o carro numa vaga demarcada no estacionamento do shopping, soltei uma palavra muito usada em minha terrinha natal que não consta de nenhum dicionário. A vaga não era paralela às demais, mas em um ângulo diferente, oblíquo, por estar entre duas colunas. Então a Jane achou estranha a posição em que estacionara o veículo e me perguntou se estava correta. Eu disse que sim e acrescentei:
- A vaga é de vangüê! (Usei o banido e injustiçado trema, para que o leitor saiba exatamente a pronúncia do vocábulo.)
Perguntei a ela, então, se em Miracema, sua terra, também se usava isso.
É preciso informar aqui ao distinto leitor que Miracema e Bom Jesus do Itabapoana distam cerca de cem quilômetros entre si, o que pode determinar usos particulares de nossa mesma língua. Mas não era o caso. Lá também se usa tal palavra.
E veio, em seguida, pela força da memória que me resta, o seu sinônimo, também não dicionarizado: revesguete (com /e/ fechado em todas as sílabas e também com a pronúncia do /u/).
Veja, caro leitor, que para enviesado, quer dizer, de viés, usamos com frequência vanguê e revesguete. Desta forma, um olhar de soslaio é um olhar de vanguê ou de revesguete. Sair de fininho de uma situação embaraçosa também significa, por metáfora, sair de revesguete ou de vanguê. A bola que se chuta e sai pela tangente, não indo na direção pretendida pelo jogador, é uma bola de vanguê ou de revesguete. A peça mal encaixada num conjunto é porque entra de revesguete ou de vanguê.
Aí fico a me perguntar por que os dicionários, que sempre vivo consultando para encontrar esse tipo de registro, numa busca pela validação da linguagem que falamos, nunca deram muita confiança para nosso jeitão caipira de usar a bela língua de Camões, Vieira, Drummond, Bandeira, Torga, Leminski, Caetano, Chico, Eça, Machado e Abrunhosa.
E os exemplos não ficam só nesses.
O leitor haverá de saber, por acaso e sorte, o que é caracaxento? Ou calibrina? Camulaia? Briguelo? Cachimbau? Funicado? Miserento? Balango e balangar? Bitelo? Gibaita? Escabufado? Gafurinha? Esgulepar e esgulepado? Puaia? Istrudia? Mironga? Remandiar? Maxambomba? Marom? Preca? Cabrunco? Baleba? Lambreta? Pois essas são algumas das palavras que usamos com frequência para nomear, qualificar e representar as mais diversas coisas, qualidades e situações do dia a dia.
Alguns poucos desses vocábulos até aparecem em um ou outro dicionário; às vezes com a acepção diferente da que lhe é atribuída, como marom, por exemplo, que para nós é a saborosíssima cocada assada. Caracaxento é áspero. Já calibrina é sinônimo de aguardente, assim como camulaia. Briguelo nomeia o boneco do teatro de marionetes. Cachimbau é a outra denominação do peixe conhecido como cascudo. Funicado, corruptela de fornicado, significa “em maus lençóis”; talvez uma forma branda a evitar o uso do termo fodido. Miserento é miserável, no sentido moral da acepção e não no econômico. Balango e balangar são as formas usadas em lugar de balanço e balançar. Bitelo e gibaita significam muito grande, não apenas grande. Escabufado é mal-arranjado, desajeitado. Gafurinha nomeia o cabelo muito embaraçado, de difícil penetração de pente. Istrudia equivale a “em outro dia atrás” e deve ser corruptela da forma arcaica estoutro dia. Mironga nomeia uma espécie de pudim de pão, embora seja um pouco diferente deste. Remandiar também é forma paralela de remanchear, ou remanchar, com o mesmo sentido. Maxambomba é o nome que se dá ao carrossel de parque de diversões equipado com cadeirinhas. Preca e cabrunco são formas de xingamento, empregadas sobretudo diante de situação adversa ou de difícil transposição, e revelam profunda contrariedade do usuário. Baleba é a prosaica bola de gude. Lambreta é/era o nome que damos/dávamos para sandália de dedos. 
puaia merece um parágrafo à parte. O termo começou a ser usado em expressões como dar puaia ou comer puaia, lá por volta dos anos sessenta do século passado. Ele se presta a identificar situações em que o falante, por meio de palavras de falso elogio, pretende conseguir algo favorável do ouvinte. Nesta situação, ele dá puaia no outro. Se o ouvinte, sem perceber a intenção do falante, acredita naquelas palavras, ele come a puaia. Há alguns conhecidos vaidosos na comunidade local, muito sensíveis a aceitar esses falsos elogios: são os comedores de puaia.
Bom Jesus do Itabapoana, por essa expressão, é conhecida como a cidade da puaia. Houve um cidadão, aliás, com certos parafusos frouxos no juízo, que dizia que na cidade só o sino da igreja não comia puaia. Assim mesmo por estar com a boca para baixo.
Qualquer dia, para suprir a lacuna, ainda faço um glossário completo das palavras e expressões usuais na nossa terra. Só de birra, de pirraça!

Cabrunco!

14 de fevereiro de 2017

TPO ASSIM (VII) - DOUTOR LAMARTINE


Foi só pegar num velho cartão de visita, guardado de muitos amarelos, para voltar de imediato no tempo. É o cartão do doutor Lamartine Costa, cirurgião dentista de Corumbá. É tão antigo, que o número do telefone tem apenas quatro dígitos 2674. Os mais novos vão achar que é da época do tacape e da flecha, mas faz tão-somente uns poucos instantes. É só a memória funcionar!
Jane tinha-se disposto a casar comigo, por uma deferência toda especial da sua beleza mulata, em 20 de dezembro de 1975. Sacramentado o acordo em cartório e vencida a primeira tentativa frustrada de lua de mel em Teresópolis e na posse de um mês de férias no janeiro seguinte, resolvemos mudar os planos iniciais e armamos uma longa viagem pelo chamado Cone Sul da nossa América: Bolívia, Peru, Chile e Argentina. Acompanhavam-nos nesta nova lua de mel, de mochila às costas, os amigos e padrinhos Rogério Barbosa, Eduardo Campos e sua então namorada, cujo nome não citarei, mas que era uma loura tão bela, quanto complicada.
Os planos foram traçados no mapa, apenas com o dia da partida e o da chegada.
Saímos do Rio, a bordo do vagão de bagagem do antigo Trem de Prata, até a Estação da Luz em São Paulo, porque não havia mais passagens nas demais classes. De lá, tomamos o comboio a nos levar a Corumbá. O projeto era, de lá, pegar o famoso Trem da Morte, que ligava Corumbá a Santa Cruz de la Sierra, já nos contrafortes dos Andes. Chegamos ao fim da tarde do dia seguinte. Na outra manhã, Jane começou a sentir dor em um dos dentes. Naquela situação, resolvemos procurar auxílio de um profissional, e nos foi indicado o doutor Lamartine.
Em chegando ao consultório, explicamos a ele o que estava ocorrendo e nossa situação passageira pela cidade. Doutor Lamartine dispensou duas mocinhas que aguardavam seus serviços, dizendo a elas que aquilo era uma emergência, caso de dor, remarcou suas consultas e foi atender a Jane.
Era problema de canal! E canal quando apresenta problema não dá para esperar. Prontamente ele perfurou o dente, extraiu a raiz doente, fez o curativo e as recomendações necessárias. Poderíamos continuar a viagem, sem, contudo, pegar o Trem da Morte, e, ao chegar a Niterói, Jane deveria procurar seu dentista, explicar o que houve e providenciar o tratamento definitivo, já que o curativo que fizera não tinha tal caráter. Aconselhou-nos também a, no alto dos Andes, usar pastilhas de Coramina, para prevenir palpitação, comer e beber moderadamente e evitar fazer sexo nos primeiros dias, a fim de que Jane não voltasse viúva das grimpas da América do Sul. Se você, leitor, está lendo isto, é sinal de que estou vivo até hoje.
Ao final da consulta, perguntamos o valor do tratamento, e o doutor Lamartine se recusou a receber. Disse que iríamos precisar do dinheiro para a viagem, que não aceitaria pagamento naquela hora. Quando chegássemos de volta a casa, poderíamos fazer a transferência para sua conta bancária. Ainda insistimos em pagar, mas ele, definitivamente, não aceitou.
Ficamos emocionados com seu gesto. Então pedi o número de sua conta. Foi o momento em que ele me passou o seu cartão de visita, onde anotei com caneta esferográfica: Banco do Brasil, conta número tal.
Agradecemos grandemente ao doutor Lamartine, que talvez fosse menos de dez anos mais velho que nós, e nos dirigimos até os Correios, onde adquirimos um telegrama pré-pago, no qual pedi ao primo Zé Fábio, funcionário do Banco do Brasil com quem deixara alguns cheques assinados para emergências, que transferisse a quantia para o dentista.
Anos depois, tive uma colega no curso de mestrado na UFF, também de Corumbá, a quem contei toda a história. Para minha surpresa, ela me disse que o doutor Lamartine era velho amigo de sua família. Aproveitei uma de suas idas à terra natal para enviar minhas saudações a ele.
Agora o velho cartão de visita amarelado reaviva todas essas lembranças, calcadas numa emoção que só as grandes pessoas podem proporcionar.
Nunca mais tivemos notícias do doutor Lamartine Costa, cirurgião dentista de Corumbá.
Espero que ele continue do mesmo jeito que era, talvez apenas com alguns cabelos brancos.

Dentista, mestre Vitalino (em conradoleiloeiro.com.br).

4 de fevereiro de 2017

A GERAÇÃO DO CANIVETE

Meu pai era um homem da geração do canivete. Aliás todos os homens da geração dele e talvez de uma geração posterior certamente o fossem.
Eu fiz o maior esforço para não ser da geração canivete, estando dois degraus após na escala geracional.
Vou-lhe explicar, leitor amigo.
Algumas peças já fizeram parte do vestuário das pessoas, às quais peças o tempo se incumbiu de dar fim. Do homem, por exemplo, na primeira metade do século XX, eram o chapéu e a bengala, ainda que não se claudicasse, ou que não houvesse sol queimando a cabeça. Eram componentes da elegância masculina, sobretudo do habitante das cidades mais cosmopolitas. É comum verem-se em fotografias antigas, em que se juntam muitos, vários – ou todos eles – de chapéu, paletó e bengala.
No interior, até o momento em que lá estive, os homens – quase todos, sem exceção, repito – possuíam um canivete, que carregavam num bolso apropriado das calças, na algibeira. As calças eram projetadas com dois pequenos bolsos na altura da cintura. Um era feito exatamente com tal finalidade: acomodar o canivete. No outro, levava-se o relógio, obviamente de bolso. O relógio de pulso foi um avanço na tecnologia.
E para que servia o canivete? Ora, eram várias as suas utilidades: desde descascar uma fruta, picar o fumo para o cigarro, como cortar as unhas e executar pequenos trabalhos em madeira. Às vezes, em desavenças, ele poderia entrar como arma branca, sobretudo em briga de moleques. Mas isto era muito raro.
Os meninos, depois de certa idade, ganhavam um canivete de presente. Eu também tive o meu, que me servia para descascar as laranjas da chácara do tio Alcides Almeida, para onde eu ia, a seu convite, me sentar sob as árvores carregadas, com meu primo Carlinhos, filho dele, a me fartar daquelas frutas de um paladar inesquecível.
Minha primeira calça comprida, feita por minha mãe para os meus doze anos, tinha lá o bolsinho do canivete.
Depois que cresci mais um pouco, já em plena puberdade – a cara cheia de espinhas – resolvi não carregar mais aquele instrumento perfurocortante, embora o tivesse guardado em alguma gaveta de casa.
Ao terminar o Curso Científico, antigo Segundo Grau, decidi vir para Niterói, na intenção de fazer o meu sonhado Curso de Letras.
Ao arrumar a mala com alguns apetrechos de higiene pessoal e a pouca roupa que tinha, meu pai se lembrou de que eu deveria trazer o canivete. Naquele momento, eu rompi a corrente e lhe disse que não o queria trazer. Ele se admirou pela recusa e insistiu. Mas me mantive firme e rejeitei a oferta de um seu canivete bonito, lâmina inoxidável, ponta fina, cabo de chifre, corte afiado. Objeto de sua alta estima.
E ele me perguntou um tanto espantado, daquele jeito engraçado como costumava falar, quando houvesse possibilidade de algo dar errado, sempre introduzindo sua frase com a expressão que ainda hoje ouço no silêncio da minha memória:
- Deus tal não permita, e se você quiser chupar uma laranja na rua?
- Se não estiver descascada, eu não vou chupar, pai.
Um pouco decepcionado, guardou o canivete, que talvez para ele representasse um elo físico entre nós dois, na longa distância a se abrir entre Bom Jesus e Niterói. Não tive, então, a sensibilidade para perceber isto. Só muitos anos depois é que este fato, até hoje martelando na minha memória, produziu este sentido, este significado escondido: a quebra da ligação masculina entre pai e filho.
Me libertei do canivete, para não parecer um moço da roça a chegar na cidade grande – Niterói era, por essa época, a capital do estado. Bastariam, para que meus colegas de faculdade me identificassem, um certo jeito tímido e o sotaque, cujo erre amineirado não tinha essa aspiração do daqui, que mais parece a respiração ofegante de uma crise de asma, como posteriormente fui saber pelo olhar crítico dos goianos, para quem dei um curso nos idos de 80.
E nunca mais tive um canivete. E ele nunca me fez falta, como a bengala ou o relógio de bolso.
Meu filho, tenho a impressão, nem sabe o que é isto. Mas o meu primo Zé Fábio, apenas três meses mais velho do que eu, ainda carrega o seu, no bolso da bermuda.

Imagem em cutelariabianchi.com.br.

20 de janeiro de 2017

SOU


Sou um homem um tanto lógico
Cartesiano
Não tenho problemas psicológicos
Sou mediano
Medíocre no sentido básico do termo
De modo que ando a termo entre a lucidez e o sonho
Sem o sofrimento de muita gente bem
Vivo zen
Sem amealhar dinheiro
Mas com proventos que aproveito
Até o fim de cada mês do ano
E quando chega o fim de cada ano
Renovo todos os propósitos de não ter planos
De ir assim como um pequeno barco no oceano
Ao sabor das ondas
Que golpeiam o casco
Até chegar o dia incerto e não sabido
Mas bem previsto
De aportar em qualquer cais inominado
Pelo único fato de se estar vivo
E aí deixar de ser quem sou
Sem mais motivos

Barcos e velho ancoradouro, Jurujuba (foto do autor).

5 de janeiro de 2017

SOL LUA ESTRELAS


Quando o sol se levanta
Estou deitado
Quando ele se deita
Estou de pé
A lua
Esta tonta
Há tanto não me serve de ponto
Pois a cada dia está num canto qualquer
As estrelas
No entanto
Reles estrelas a coruscar num céu de espanto
Já não brilham por aqui
(Ainda que digam que a Via Láctea se expande)
Desde que assestei meus olhos
Nos céus de uma cidade grande

Lua crescente, com árvores, na Bicuda (foto do autor).

30 de dezembro de 2016

FELIZ ANO NOVO!


Desejo aos amigos leitores que 2017 não seja a catástrofe que se anuncia. Feliz Ano Novo!

Réveillon em Icaraí, Niterói (foto do autor).

12 de dezembro de 2016

ILUSTRE PASSAGEIRO

(Para Flávio e Ronaldo Mello, primos.)

Veja, ilustre passageiro,
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem ao seu lado.
E, no entanto, acredite,
Quase morreu de bronquite:
Salvou-o o Rhum Creosotado.
Com quinze anos, viajei ao Rio de Janeiro pela primeira vez, na companhia do Pedro Nunes, amigo da família, a quem fui confiado.
Já lhes contei esta história possivelmente em algum texto por aí, mas as lembranças são como galinha ciscando no terreiro, bicando freneticamente o chão, à procura de bichinhos para comer.
Por isso, estou voltando à mesma cantilena de outrora, a fim de atender essa galinha bicante da memória.
Menino quase inocente do interior, que apenas conhecia como maior cidade Campos dos Goytacazes (Não concordo, absolutamente, com esta grafia esdrúxula!), cheguei ao Rio, entretanto, sem muitos deslumbres. Nunca fui de me assustar com as coisas do mundo, apesar da minha origem.
Por essa época, o Rio de Janeiro ainda era uma cidade quase cordial. Talvez o fosse, pois meus tios João e Juraci, em cuja casa me hospedei, me deixavam passear à vontade, dando-me, apenas, as orientações geográficas, para que não me perdesse no emaranhado da cidade grande. Jamais me alertaram para qualquer problema de segurança, violência ou esperteza dos cariocas.
Pude, assim, a bordo da minha pouca idade, andar de Botafogo, onde eles moravam à Rua da Passagem, para Copacabana, pelo Túnel Novo, caminhando, flanando, sem o menor assombro ou contratempo. Tanto na ida, quanto na volta.
Às vezes pegava ônibus, como quando fui conhecer o maior edifício da América do Sul à época, o Avenida Central, por recomendação de outro tio, o José Catarina, também morador de Botafogo, que gostaria de saber a minha reação – eu que sempre vivera ao nível da vargem e do tabual –, ao olhar pela vidraça do corredor do trigésimo sexto andar o burburinho lá embaixo. Embora não tivesse achado nada tão espantoso, para não o decepcionar, inventei vertigens e tonteiras que não tive. Ele ficou muito feliz em ter podido me proporcionar aquela experiência frenética e inusitada.
Mas o Rio de Janeiro certamente marca qualquer moleque que o vê pela primeira vez. No entanto, entre a aventura de ir ao Pão de Açúcar num final de tarde e o gosto da pizza da Pastitália, alimento que estava entrando em moda, confesso que me marcou mais o gosto da pizza: achei-o por demais ácido e vaticinei para os primos Apolônio, Flávio e Ronaldo, que me levaram a experimentá-la, que aquilo não daria certo. Talvez aí estivesse enterrada qualquer futura pretensão minha de me tornar profeta de alguma coisa.
Por vezes ia sozinho à praia de Botafogo, a pé e orientado por tia Juraci a não entrar n’água, já poluída àquela altura, só para me relembrar do mar, que conheci, ainda muito menino, em Guaxindiba, no extremo norte do estado. E não deixei de tomar banho na praia de Copacabana, desta vez acompanhado pelo Apolônio, que me apresentou ao “caixote”: fui lançado aos trambolhões de volta à areia, por uma onda mal-humorada. Naquele momento mesmo, decidi que havia total incompatibilidade minha com o mar, tanto que pouquíssimas vezes na vida me aventurei ao desconfortável banho de água salgada. Definitivamente, o mar não é minha praia.
Ao contrário, o cinema era a minha praia. Andei com os primos e, por vezes, sozinho a conhecer diversas salas de cinema, a grande diversão da época. Havia mesmo uma frase de propaganda que apregoava “Cinema é a maior diversão”. E eu acreditava nisso piamente. O Rio de Janeiro, por aquele tempo, tinha excelentes, maravilhosas salas cinematográficas: Roxy, Rian, São Luís, Azteca, dentre as melhores.
Ao Azteca, que ficava no Catete, fui certa noite com o Apolônio, para assistir ao clássico O homem que matou o facínora, com John Wayne, James Stewart, Lee Marvin e Vera Miles, nos papéis principais. Tomamos o bonde em Botafogo e descemos próximo ao cinema. Este bonde ainda trazia a velha propaganda do Rhum Creosotado com que iniciei este texto.
Ao entrar no cinema – filme com classificação para dezoito anos –, vestido com um paletó emprestado de um dos primos, para parecer mais velho, e com o respaldo de um buço que me começava a sujar a platibanda do beiço, tive de fazer cara feia, por recomendação do Apolônio, e aguentar calado que, à pergunta do bilheteiro por nossa idade, ele respondesse:
- Tenho dezoito anos, e meu primo também.
Fiz cara de poucos amigos, conforme previsto no manual do homem latino-americano, e adentrei a sala de projeção. Até hoje me lembro do filme. E nunca consegui entender por que motivo ele tinha a classificação de dezoito anos.
E vi muitas outras coisas naqueles meus quinze anos. Até na Rocinha fui parar, por equívoco da tia Juraci ao tomar o ônibus no Jardim Botânico, para voltar a Botafogo. Lá no fim da linha – a favela já tinha fama de perigosa -, descemos do ônibus que chegava e entramos de imediato no que partia.
Alguns dias após, voltei para casa em Carabuçu, numa viagem de aventura bolada pelo Apolônio: por via férrea. Fomos até a estação da Leopoldina comprar passagens para Santo Eduardo, vila próxima â minha. Todos os primos viajariam juntos. Era tempo de carnaval. No guichê, o bilheteiro disse que não havia mais passagens. Apolônio chamou o homem reservadamente e conseguiu os bilhetes. Teve de molhar a mão do corrupto que os escondia, para faturar um por-fora. Saímos à noite e chegamos ao destino pela manhã.
Desse tempo para cá, venho me sentido um passageiro ilustre da vida, com todos os percalços, apertos e afrontamentos comuns a quem vive. Nunca tive mau humor. Nem também fui um deslumbrado inconsequente. E procurei estar constantemente no limite daquilo que me pareceu sensato. E, apesar de ter vivido a época da porralouquice e do desbunde, ainda que parecesse um doidão, sempre viajei com passagem comprada, no banco da janela, para melhor poder apreciar a vista. Até hoje não sou o que bebe o Rhum Creosotado. Sou o passageiro ao lado. E tenho ido regularmente bem.

Cine Azteca, na Rua do Catete (imagem em pinterest.com).