16 de maio de 2016

UMA HISTÓRIA


me permitam uma história:           
                         
certa vez zé da farmácia
com sua frase atropelada
receitava a um reumático
uma nova injeção
que aplicada com jeitinho
impedia que o reumatismo
doesse mais que ela mesma.
e ainda gavava a ciência
que tinha feito a magia:
que enquanto doesse a dita
ninguém lembrava a doença.

outra vez a um neném
receitou supositório
supondo que a mãe zelosa
soubesse onde enfiá-lo.
como não tivesse resposta
disse: "introduza no ânus"
ao que a mãe caipira
informou-lhe que o neném
"bem nem tinha oito meis
que dirá já tê um ano",
e vendo que a nossa língua
nem sempre é a do ouvinte
repetiu-lhe outra vez
piscando os olhos nervosos
mas a mãe não entendeu
e ele não vendo jeito
disse sem mais um falsete:
"é pôr no cuzinho dele."

e quando o zé não curava
e se mandasse a doutor
podia o crente cuidoso
desconfiar de tal dor
pois se o zé tirava o corpo
era melhor que o doente
cuidasse bem do que tinha
para não virar defunto
e receber de presente
vela terço e ladainha.

mas houve um dia que o zé
enjoou com tudo isso
xarope chá de carqueja
elixir e vitaminas
tosse pereba caxumba
em mulher velha e menina
em homem brabo e criança
até injeção na bunda
e resolveu pôr um fim
comprando uma fazenda
onde aplicou sua renda
obtida na farmácia.
e o povo de liberdade
que já não tinha saúde
do zé e da sua ciência
acabou foi com saudade.

e dou a história por finda.


Antiga balança de farmácia (imagem em sp.olx.com.br).

---------- 
(Este poema foi composto em homenagem a José de Rezende Ferraz,
o saudoso Zé da Farmácia, "médico" de muitos de nós. Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.)
  

10 de maio de 2016

RECUERDOS DE YPACARAÍ*


1. Em Duque de Caxias, na década de 60, um engraçadinho resolveu fazer a rifa de um porco para o Natal. A extração ocorreria na semana anterior, o que daria tempo a que o vencedor preparasse o suíno, com a arte necessária, para a ceia natalina.
Vendeu todos os bilhetes antecipadamente, e, no dia da extração, apareceu à sua porta um grandalhão mal-encarado com o bilhete agraciado no primeiro prêmio, condição básica para levar o capado.
O homem pegou o bilhete, conferiu e foi até o interior da casa. De lá voltou com um porquinho de cerâmica, desses tipo cofre de moedas, e entregou ao feliz vencedor.
Foi morto com uma peixeira bem na altura do coração, que é para não tentar fazer mais ninguém de bobo.

2. No município ao lado, Nova Iguaçu, em terreiro concorrido, o pai de santo sempre incorporava um tal Caboclo Mamadô, nas sessões de sexta-feira à noite. Como só mamasse os seios novinhos da menina de quinze anos, filha de um nordestino arretado, foi sangrado como um porco magro, com caboclo incorporado e tudo, e lá ficou estrebuchando, enquanto o carregador da peixeira tentava fugir, embora tenha sido contido pelos demais devotos de tão espiritual homem.
Na delegacia, explicou ao delegado que havia reparado que o pai de santo só mamava nos seios da sua filhinha, enquanto as muxibas das velhas expostas ao sacrifício santo ficavam intactas.

3. Na minha Carabuçu dos anos 50-60, circulava um cidadão que se dizia índio puri, alcunha por que era identificado. Falava atropeladamente e vivia da caridade pública, ganhando um dinheirinho aqui e ali, fazendo favores a uns e outros. Se não me falha a memória, ele se apresentava assim: “Pedro Pereira Puri, nascido em Capiun, criado em Capiun”. Capiun era o jeito esquisito de pronunciar Itaperuna. Pelo que sei, já não havia mais índios puris por Itaperuna.
Um dos favores que, de vez em quando se prestava a fazer, era comer uma barata viva diante de algumas mulheres que conversassem distraidamente na calçada. Ele chegava com a barata na mão fechada, cumprimentava as mulheres, abria a bocarra, jogava a nojenta lá dentro e dava umas mastigadas de boca aberta – a barata sendo esmigalhada por seus dentes –, para que fosse visto. Não é preciso dizer que a debandada era geral, com gritos e xingamentos ao Puri.
Depois do serviço feito, dirigia-se até o contratante e recebia, invariavelmente, uma nota de cinco cruzeiros, daquelas antigas, com o Barão do Rio Branco estampado em uma das faces.

Imagem em class.posot.com.br

4. Jacy sumiu de Carabuçu. Ele lá recebera o desonroso apelido de Vorta Égua. Na época, não se podia assim chamá-lo, sem que briga certa fosse armada. Contudo, pelas costas, era desta forma que era identificado, já que havia outros Jacys pela vila: Jacy Vorta Égua.
E a razão do apelido é ainda mais melancólica. Como na vila não houvesse a tal zona do meretrício – vila pequena, de gente recatada –, com certa frequência uns e outros lançavam mão da velha zoofilia, para atender “seus baixos instintos”, na fala do nosso capelão.
Certa noite, Jacy se dirige ao pasto próximo, pega aquela égua sua velha conhecida, leva-a até o barranco mais próximo e, quando está em ponto de bala para consumar o coito, a ingênua equina se afasta candidamente do local, o que motiva o desesperado Jacy a gritar no vão da noite estrelada de Carabuçu:
- Vorta, égua! Vorta, égua!
Dezenas de anos depois, vi-o a tomar cafezinho no extinto Monterey, na Rua Dom Manuel, próximo ao meu trabalho, e não lhe dirigi a palavra, porque ele falava mal de Leonel Brizola, político da minha admiração.

---------- 
* "Canción guarania con letra de Zulema de Mirkin y música de Demetrio Ortiz," (es.wikipedia.org)

27 de abril de 2016

MINHA MÃE FAZ NOVENTA ANOS

(Para minha mãe, Zezé, por seu aniversário.)

Neste fim de semana e fim de mês, minha mãe faz noventa anos. Os desavisados podem pensar que iremos comemorar o aniversário de uma senhorinha idosa, já alquebrada pelo tempo. Ledo engano, como diriam os antigos! Minha mãe, aliás, nossa mãe – ela tem cinco filhos e uma fieira de netos e bisnetos – ainda está lúcida, ativa e divertida como tem sido nesses últimos sessenta e nove anos e alguns meses. Isto só da parte que me cabe testemunhar, como filho mais velho.
Particularmente, posso dizer que aprendi muita coisa com ela, além da visão otimista e descontraída da vida. Por exemplo, o gosto pela poesia, pela literatura. Ela sempre foi uma leitora interessada. E tanto os livros de fundo religioso, quanto os da literatura dita profana, estiveram sob seu olhar atento. Eu, ainda mal alfabetizado, li pela primeira vez alguma coisa de Casimiro de Abreu que ela tinha em casa: Canção do exílio e outras poesias. Li também ainda miúdo seu livro de Raimundo Correia, o famoso poeta das pombas (“Vai-se a primeira pomba despertada...”). E nunca mais parei com esta mania de ler.
Tenho a impressão, quase certeza, de que esta busca pela literatura era uma maneira de dar vazão ao seu espírito aventureiro, que nunca pôde ser exercido, dadas as condições de vida a que estava ligada: casada, mãe de filhos, e todos os demais compromissos disto decorrentes.
A par disso, ou talvez embalada por isso, ela levou a vida pobre e humilde de uma mulher do interior com estoicismo e dedicação. Criou seus filhos, juntamente com o nosso pai, com rígidos princípios de ética e correção no trato com o semelhante. E os encaminhou à religião, de que até hoje é segura devota. Se, por acaso, algum de nós errou, culpa não lhe cabe. E isto também posso testemunhar a seu favor.
No final da vida de meu pai, cujo falecimento tem três anos, ela se dedicou a ele integralmente, sem abrir mão de um momento sequer do seu cuidado. Tomou para si, com o auxílio de minhas irmãs, o zelo pelos últimos dias do chefe da família que, aos poucos, foi tendo a saúde deteriorada. E, quando ele deu seu último suspiro, lá estava ela ao lado, como a ampará-lo no derradeiro instante. Chorou, como era de se esperar. Mas não se desesperou, porque deposita sua esperança numa vida melhor, tão logo desembarquemos desta experiência terrestre.
Depois deste momento difícil, às vezes tem a emoção aguçada por certas lembranças, mas seu coração está em calma, pois cumpriu o que a consciência sempre lhe ditou, com todas as letras e entonações. Por isso, nunca fugiu àquilo que os cristãos como ela identificam como a cruz que se tem a carregar, como Cristo. E, mesmo se pesada, diz que a sua cruz é leve, seu fardo é suave, porque crê e tem esperança.
Os seus noventa anos nem parecem tantos assim, pois ainda está ativa, trabalhando, lendo seus livros, interessando-se por política, por notícias e novidades que enchem os meios de comunicação. E praticando a vida religiosa de que tanto gosta.
Como há algum tempo perdi a fé, ela se põe a pedir dobrado por mim, porque diz que tenho um compromisso com ela, assim que este jogo for terminado, e passemos a outro plano. Não sei se vou conseguir cumprir, embora, abstraída a descrença, continue praticando todos os ensinamentos de solidariedade, respeito ao próximo e despojamento e modéstia, com que criou todos nós.
Nestes noventa anos, minha mãe pode orgulhar-se de cada gesto seu, por menorzinho que tenha sido, porque olha em volta – aliás, olha para frente – e vê sua existência multiplicada por filhos, netos e bisnetos, todos também orgulhosos dela.
Parabéns, dona Zezé! Parabéns, mamãe!

Dona Zezé, com a imagem de um de seus santos de devoção, na comemoração
junina da família,  em 2015, "O arraiá da Bizezé" (foto do autor).



14 de abril de 2016

NO TEMPO DE GARRINCHA



no domingo à tarde meu pai ouvia futebol
pelas condas curtas da rádio nacional
no velho rádio lancaster
e eu ficava ao lado torcendo pelo botafogo
- tarefa mais que simplória
na época.
hoje a televisão mostra a cores
o logotipo da camisa
as placas de publicidade em torno do gramado
o placar eletrônico
o salário dos jogadores
a empáfia dos cartolas
e um bando de pernas-de-pau
tentando brincar de arte.
naquela época
a fantasia corria atrás da bola
com as pernas tortas.


Imagem em globoesporte.globo.com.

1 de abril de 2016

QUE BARCA?



que barca leva ao outro lado da baía
a sorte de uns e o desespero de outros?
que barca trará de volta os sonhos
e a recompensa pelo trabalho estafante?
que barca conduz pela madrugada insone
a alegria e a ressaca dos noctâmbulos?
que barca amontoa em seu espaço interior
o frio e o calor dos corpos nos fins de tarde?
não é com certeza a da frota carioca
muito menos a barca da cantareira do stbg
nem a prosaica barca da conerj de nome estranho
menos ainda essa moderna da barcas s/a
senão aquela que atravessa os anos
os mares bravios os largos oceanos
varando procelas e cabelos brancos
do primeiro ao último passageiro
como se o tempo fosse um lago azul
manso e suave de poluição inexistente
onde a memória possa passear de hoje para ontem
de ontem para o futuro e assim por diante.



Barca atravessando a baía (foto do autor).

20 de março de 2016

MARCHA LENTA


No devagar, quase parando, tinha construído toda a sua vida. Nascera de dez meses, com a ameaça médica de uma ação de despejo na forma de cesariana. Menino, os dentes lhe custaram a brotar. Aprendeu a andar depois de um ano. A fala só lhe veio aos quatro, e ainda hoje fala de modo tão manso, que dá sono no ouvinte. Ficou adolescente às portas da idade adulta. Embora com trinta anos agora, com cara de garoto. Talvez um privilégio.

Essa vagareza toda reflete-se em sua vida por completo, o que justifica os apelidos de Moleza, Marcha Lenta, Pressão Baixa, Freio de Mão Puxado.

Ainda nem pensa em casar-se, e filhos são preocupação que não lhe ocorre. Dia desses, pela primeira vez, aproximou-se de uma moça com segundas e terceiras intenções. Demorou tanto a entabular conversa, que o ônibus chegou e ela foi embora, sem saber o desfecho da cantilena. Qualquer dia, voltará ao assunto, com toda a calma do mundo.

Por ironia, trabalha nos Correios, no setor de correspondência expressa, tendo já passado pelo de entrega rápida. Até sua promoção é mais demorada que a dos colegas. Principalmente se for por tempo de serviço: o seu é mais dilatado.

Para comer ovos com arroz, leva o mesmo tempo que uma pessoa normal para comer peixe espinhento.

Sua única e exclusiva vantagem sobre os demais mortais é também uma faca de dois gumes: quando consegue chegar ao orgasmo, nele permanece por quatro minutos. Em compensação, tem de ser socorrido com algodão com amônia e oxigênio. Ao voltar a si, sorriso amarelo, diz coisas tipo o apressado come cru, devagar se vai ao longe, de grão em grão a galinha enche o papo, a pressa é inimiga da perfeição.

Ao morrer, será seguramente o último a chegar ao enterro, os amigos já voltando, o seu carrinho funerário dolentemente, vagarosamente, pacientemente, pachorrentamente subindo, subindo, subindo o morrinho do cemitério sem a mínima pressa.

C. Portinari, "Enterro", 1959, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco.


7 de março de 2016

OS GÊMEOS


Eram cerca de cinco e meia da manhã de uma segunda-feira, quando cheguei à estação rodoviária de Itapuranga, a fim de pegar o primeiro ônibus para Goiânia, distante cerca de duzentos e poucos quilômetros a sul. Ainda estava escuro, mas já havia razoável movimento de passageiros. Comprei a passagem e fui tomar café num bar defronte, já aberto àquela hora. Depois voltei e me sentei num banco à espera de embarcar. À minha frente, em outro banco, foi sentar-se uma família, formada por jovem casal de pais e um casal de filhos, de cerca de oito a dez anos. Criancas moreninhas, bonitas, do mesmo tamanho e bastante parecidas. Logo a seguir, sentou-se ao meu lado, um goiano com seu sotaque típico do interior.Também moreno, magro, cabelos escuros, vestido com modéstia, mas dignamente, aparentava seus trinta e tantos anos. Depois de algum tempo em silêncio, virou-se para mim e falou baixinho, referindo-se às crianças:
- Será que são geminhos?
À minha resposta negativa, emendou a conversa:
- Mas parece, né? Acho que são gêmeos mesmo. Ser gêmeo é um problena sério. Sempre acaba com alguma desgraça. Eu acho que aqueles dois são gêmeos. Um é igualinho ao outro. Quando eu vejo gêmeos fico preocupado, porque nunca dá certo. Lá perto da propriedade do meu pai, há uns tempos, nasceram duas meninas gêmeas. Elas foram crescendo e, quando uma foi casar, caiu da pinguela e morreu afogada no ribeirão. Nem chegou a casar, coitada! Dizem que era porque era gêmea. Sempre vem uma desgraça com um deles. Nunca dá certo esse negócio de ser gêmeo.
E ele alongou a conversa com outras histórias sobre outros tantos gêmeos, sempre com uma desgraça com um deles, quando não com os dois.
Daí a pouco, a família resolve também ir ao bar, naturalmente para comer alguma coisa, antes de pegar viagem. Os quatro atravessam a rua, chegam à padaria, e o caboclo ao meu lado continua com suas considerações acerca deste fenômeno agourento.
De repente, vira-se novamente para mim e diz resoluto:
- Não aguento! Se não souber se eles são gêmeos, não vou ficar sossegado!
E sai a passo apressado em direção à padaria. Vejo que lá chega, rodeia os pais das crianças, que estão iniciando o seu lanche matinal. Percebo que ele se dirige ao homem, diz alguma coisa, ouve a resposta e volta célere para o banco em que estou.
- Não falei, não falei? São gêmeos! Eu sabia! Vai acontecer uma desgraça na vida de um deles. Que dó!
Meu ônibus encostou na plataforma, embarquei e, de dentro, fiquei observando aquele caboclo preocupado com o destino trágico previamente anunciado para aquelas crianças gêmeas. Um dia, ele cria piamente nisso, iria ocorrer uma desgraça com algum deles. Senão com os dois.
Não sei se ele teve um bom dia, com tanta preocupação. Daí umas três-quatro horas, eu estava chegando a Goiânia, onde tomaria o avião de regresso ao Rio de Janeiro, com mais essa história no meu repertório de crendices do povo do interior.

Os gêmeos, por Os Gêmeos (em quasedelicadaa.blogspot.com).