14 de abril de 2016

NO TEMPO DE GARRINCHA



no domingo à tarde meu pai ouvia futebol
pelas condas curtas da rádio nacional
no velho rádio lancaster
e eu ficava ao lado torcendo pelo botafogo
- tarefa mais que simplória
na época.
hoje a televisão mostra a cores
o logotipo da camisa
as placas de publicidade em torno do gramado
o placar eletrônico
o salário dos jogadores
a empáfia dos cartolas
e um bando de pernas-de-pau
tentando brincar de arte.
naquela época
a fantasia corria atrás da bola
com as pernas tortas.


Imagem em globoesporte.globo.com.

1 de abril de 2016

QUE BARCA?



que barca leva ao outro lado da baía
a sorte de uns e o desespero de outros?
que barca trará de volta os sonhos
e a recompensa pelo trabalho estafante?
que barca conduz pela madrugada insone
a alegria e a ressaca dos noctâmbulos?
que barca amontoa em seu espaço interior
o frio e o calor dos corpos nos fins de tarde?
não é com certeza a da frota carioca
muito menos a barca da cantareira do stbg
nem a prosaica barca da conerj de nome estranho
menos ainda essa moderna da barcas s/a
senão aquela que atravessa os anos
os mares bravios os largos oceanos
varando procelas e cabelos brancos
do primeiro ao último passageiro
como se o tempo fosse um lago azul
manso e suave de poluição inexistente
onde a memória possa passear de hoje para ontem
de ontem para o futuro e assim por diante.



Barca atravessando a baía (foto do autor).

20 de março de 2016

MARCHA LENTA


No devagar, quase parando, tinha construído toda a sua vida. Nascera de dez meses, com a ameaça médica de uma ação de despejo na forma de cesariana. Menino, os dentes lhe custaram a brotar. Aprendeu a andar depois de um ano. A fala só lhe veio aos quatro, e ainda hoje fala de modo tão manso, que dá sono no ouvinte. Ficou adolescente às portas da idade adulta. Embora com trinta anos agora, com cara de garoto. Talvez um privilégio.

Essa vagareza toda reflete-se em sua vida por completo, o que justifica os apelidos de Moleza, Marcha Lenta, Pressão Baixa, Freio de Mão Puxado.

Ainda nem pensa em casar-se, e filhos são preocupação que não lhe ocorre. Dia desses, pela primeira vez, aproximou-se de uma moça com segundas e terceiras intenções. Demorou tanto a entabular conversa, que o ônibus chegou e ela foi embora, sem saber o desfecho da cantilena. Qualquer dia, voltará ao assunto, com toda a calma do mundo.

Por ironia, trabalha nos Correios, no setor de correspondência expressa, tendo já passado pelo de entrega rápida. Até sua promoção é mais demorada que a dos colegas. Principalmente se for por tempo de serviço: o seu é mais dilatado.

Para comer ovos com arroz, leva o mesmo tempo que uma pessoa normal para comer peixe espinhento.

Sua única e exclusiva vantagem sobre os demais mortais é também uma faca de dois gumes: quando consegue chegar ao orgasmo, nele permanece por quatro minutos. Em compensação, tem de ser socorrido com algodão com amônia e oxigênio. Ao voltar a si, sorriso amarelo, diz coisas tipo o apressado come cru, devagar se vai ao longe, de grão em grão a galinha enche o papo, a pressa é inimiga da perfeição.

Ao morrer, será seguramente o último a chegar ao enterro, os amigos já voltando, o seu carrinho funerário dolentemente, vagarosamente, pacientemente, pachorrentamente subindo, subindo, subindo o morrinho do cemitério sem a mínima pressa.

C. Portinari, "Enterro", 1959, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco.


7 de março de 2016

OS GÊMEOS


Eram cerca de cinco e meia da manhã de uma segunda-feira, quando cheguei à estação rodoviária de Itapuranga, a fim de pegar o primeiro ônibus para Goiânia, distante cerca de duzentos e poucos quilômetros a sul. Ainda estava escuro, mas já havia razoável movimento de passageiros. Comprei a passagem e fui tomar café num bar defronte, já aberto àquela hora. Depois voltei e me sentei num banco à espera de embarcar. À minha frente, em outro banco, foi sentar-se uma família, formada por jovem casal de pais e um casal de filhos, de cerca de oito a dez anos. Criancas moreninhas, bonitas, do mesmo tamanho e bastante parecidas. Logo a seguir, sentou-se ao meu lado, um goiano com seu sotaque típico do interior.Também moreno, magro, cabelos escuros, vestido com modéstia, mas dignamente, aparentava seus trinta e tantos anos. Depois de algum tempo em silêncio, virou-se para mim e falou baixinho, referindo-se às crianças:
- Será que são geminhos?
À minha resposta negativa, emendou a conversa:
- Mas parece, né? Acho que são gêmeos mesmo. Ser gêmeo é um problena sério. Sempre acaba com alguma desgraça. Eu acho que aqueles dois são gêmeos. Um é igualinho ao outro. Quando eu vejo gêmeos fico preocupado, porque nunca dá certo. Lá perto da propriedade do meu pai, há uns tempos, nasceram duas meninas gêmeas. Elas foram crescendo e, quando uma foi casar, caiu da pinguela e morreu afogada no ribeirão. Nem chegou a casar, coitada! Dizem que era porque era gêmea. Sempre vem uma desgraça com um deles. Nunca dá certo esse negócio de ser gêmeo.
E ele alongou a conversa com outras histórias sobre outros tantos gêmeos, sempre com uma desgraça com um deles, quando não com os dois.
Daí a pouco, a família resolve também ir ao bar, naturalmente para comer alguma coisa, antes de pegar viagem. Os quatro atravessam a rua, chegam à padaria, e o caboclo ao meu lado continua com suas considerações acerca deste fenômeno agourento.
De repente, vira-se novamente para mim e diz resoluto:
- Não aguento! Se não souber se eles são gêmeos, não vou ficar sossegado!
E sai a passo apressado em direção à padaria. Vejo que lá chega, rodeia os pais das crianças, que estão iniciando o seu lanche matinal. Percebo que ele se dirige ao homem, diz alguma coisa, ouve a resposta e volta célere para o banco em que estou.
- Não falei, não falei? São gêmeos! Eu sabia! Vai acontecer uma desgraça na vida de um deles. Que dó!
Meu ônibus encostou na plataforma, embarquei e, de dentro, fiquei observando aquele caboclo preocupado com o destino trágico previamente anunciado para aquelas crianças gêmeas. Um dia, ele cria piamente nisso, iria ocorrer uma desgraça com algum deles. Senão com os dois.
Não sei se ele teve um bom dia, com tanta preocupação. Daí umas três-quatro horas, eu estava chegando a Goiânia, onde tomaria o avião de regresso ao Rio de Janeiro, com mais essa história no meu repertório de crendices do povo do interior.

Os gêmeos, por Os Gêmeos (em quasedelicadaa.blogspot.com).

17 de fevereiro de 2016

SE ME LIGAREM


Se me ligarem
Diga que não estou
Diga que sai sem rumo a procurar os descaminhos
Por onde não andei
Tenho certa nostalgia dos pecados que não cometi em moço
Porque temia demais o fogo do inferno
E as indulgências que me seriam negadas pelo padre
Já quis muito ser santo e me esforcei bastante
Mas isto deu em nada
E agora acho mesmo que a vida eterna seja um engodo
Embora sem muita certeza
Por isso é que
Se me ligarem
Diga que fui atrás de uns pecados tolos
Que deixei perdidos na juventude há anos
Em troca dos quais ofereço minha alma nula
E uma incerteza débil sobre o futuro

Ricardo Ferrari, Brincadeira de criança, s/d (em peregricultural.wordpress.com).

10 de fevereiro de 2016

CASO MÉDICO: HOMEM É MULHER!


Passeava há pouco com meu netinho e, na volta para casa, dei uma olhada rápida nos jornais expostos na banca em frente ao banco. Lá estava estampada uma tragédia pessoal: um homem de 66 anos – um só ano mais novo do que eu – pela primeira vez foi a um médico, o que em si não é propriamente uma tragédia, e descobriu que é mulher.
Ora, como pode ser uma coisa dessas? Confesso que não li a notícia, mas o direito inalienável ao pitaco não exige conhecimento prévio de qualquer natureza, para que se saia por aí falando sobre tudo e todos. Então vou exercê-lo soberanamente aqui.
Voltemos, então, à pergunta: como é que pode uma pessoa passar sessenta e seis anos da vida pensando que é homem, e um médico qualquer, despreparado, formado não se sabe onde, jogar na cara dele que ele é mulher?
- Seu Jeroboão, infelizmente tenho de lhe informar que o senhor não é homem, seu Jeroboão! O senhor é mulher, pelo que pude examinar.
- Mas, doutor, e esse troço pendurado aqui no meio das minhas pernas?
- Isso, seu Jeroboão, é o que a ciência chama de hipertrofia do clitóris. Isso não é um pênis, seu Jeroboão, é um clitóris. E só mulher tem clitóris. E pelo que vejo é uma hipertrofia e tanto. Valha-me Deus! Confesso ao senhor que nunca vi uma hipertrofia deste tamanho neste órgão.
- Mas, doutor, o senhor há de me desculpar a ignorância: e essas bolotas penduradas logo embaixo?
- Outra aberração da natureza, seu Jeroboão. Pelo que a ciência informa, elas não poderiam estar aí, já que tecnicamente o senhor é mulher.
- E o bigodão? E a barba que tenho de fazer sempre?
- Conheço muita mulher barbada, seu Jeroboão. O senhor nunca foi a circo que tem mulher barbada? Pois é! É a mesma coisa. Na minha família, seu Jeroboão, tinha uma tia por parte de pai, uma tia avó, que tinha barba e falava grosso como o senhor. Infelizmente já faleceu, que Deus a tenha!
- Sei não, doutor, acho que o senhor está enganado. Eu nunca fiquei incomodado. Mulher não fica incomodada todo mês?
- Também a ciência explica o seu caso: quando há hipertrofia do clitóris e essas bolotas se desenvolvem desembestadamente, as regras não vêm. Ficam inibidas pelo resto da vida. E de regras passam a exceção, seu Jeroboão!
- Tá na ciência isso, doutor?
- Claro que está, seu Jeroboão! Ou o senhor está achando que sou um charlatão! Passei anos da minha vida estudando o assunto e posso garantir, sem erro, que tudo isto está na ciência.
- E como é que vou explicar à Dulcina, minha mulher, com quem tenho sete filhas, mais os netos que vieram, que eu sou mulher nessa altura da vida, doutor?
- Ai, seu Jeroboão, o problema é seu! É bom o senhor mandar investigar, porque é muito esquisito. Nunca soube que mulher transando com mulher desse em procriação. O senhor, por acaso, não tem um vizinho muito chegado, muito amigo? É bom averiguar, seu Jeroboão, porque aí tem truta.
Jeroboão estava transtornado com a notícia do médico. Pensou que talvez tivesse sido melhor nunca procurar um doutor formado. Lá no seu sitiozinho perdido no alto da serra, vivia muito bem, tratando-se com ervas e plantas.
E agora o que faria? Como falar com Dulcina, mulher de sérios princípios religiosos, que ela esteve casada com outra mulher por mais de quarenta anos. E, pior, que a sua parceira – ele – nunca tinha negado fogo. E também ia tirar umas suspeitas com o compadre Tonhão Campista, vizinho de propriedade e muito chegado à família. Tanto que é padrinho das sete filhas dele. Miserável do compadre Tonhão Campista, pensou Jeroboão lá com seus botões.
Pagou a consulta ao médico, que lhe deu o receituário com reguladores de menopausa e a seguinte recomendação, assim que saía do consultório:
- Seu Jeroboão, e trate também de ir a um cartório trocar esse nome. Que não pega bem uma mulher como o senhor com esse nome de macho.


Imagem em letrasmusicadas.blogspot.com.
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.

4 de fevereiro de 2016

AMIZADE

(Aos meus amigos, particularmente a Romeu Pimentel.)

Tenho cultivado amizades, embora não saiba plantar nem um pé de couve. E nisto me sinto um latifundiário. Talvez meu campo seja extenso, porque não há resquício de inimigos a lhe oporem limites. A não ser quando criança, nunca entrei em confronto com o meu semelhante. Nunca cheguei às vias de fato, como os diários sensacionalistas costumam dizer, quando as pessoas saem no braço, dão-se sopapos. Ou, pelo menos, se ofendem verbalmente. Não nasci para isto.
Lembro-me de Ziraldo citando Otto Lara Resende, cujas palavras diziam mais ou menos o seguinte: A natureza não me proveu do sentimento do ódio. Por isso planto amigos a mancheias, para parafrasear o grande Castro Alves. Ainda que não sejam muitos, são intensos, são especiais, são daqueles de se guardarem debaixo de sete chaves, nas palavras de Fernando Brant musicadas por Milton Nascimento. Estou muito citador hoje!
E planto em todos os gêneros, sexos, cores e condições, embora perceba que amigos sãos os que mais próximos estão daquilo que sentimos. Não propriamente do que pensamos. O pensar é livre, cada um tem sua ideologia, sua filosofia. O sentir é mais ou menos semelhante entre os seres, pela própria condição física. Não há tanta diversidade no sentir, quanto no pensar. Por isso é que dou mais valor ao que é menor, para acabar por fazê-lo maior.
Por outro lado, a amizade que planto não é grama. Tem raízes profundas e dá sombras generosas, frutos saborosos, sucos capitosos. Meus amigos são meu orgulho. Quando falo de um amigo, fico até com receio de o outro sentir ciúmes. E aí tento falar sem ostentar as qualidades que vejo naquele, a fim de não melindrar esse. Mas todos estão em meu coração numa escala de entupir artérias.
Aliás a vida sem amigos deve ser – se existir! – uma coisa sem sabor. Ainda que, por momentos, possamos sofrer com o que sofre o amigo, ainda assim é tudo um grande prazer. Até mesmo nisso. Porque, se um amigo está em perigo, o perigo é meu também. Se ele chora, sou capaz de chorar junto. Mas, se ele resolve beber um vinho, aí me emborracho com ele. Um vinho com um amigo é de casta superior, só cultivada no campo da emoção.
Por vezes, fico sozinho em casa, diante do computador, ouvindo uma música, vendo um vídeo, lendo um livro, e sempre me vem à memória os amigos que tenho, alguns especificamente que talvez devessem também compartilhar daquele momento simples, mas cheio de prazer, que consigo tirar das coisas mais corriqueiras. E, nessas ocasiões, fico feliz em saber deles, que andam por esse mundão afora, levando suas vidas, curtindo os seus, fazendo valer sua presença na existência, e isto me dá um conforto muito grande. Às vezes, até um orgulho infantil.
Os meus amigos são soberbos! Não que sejam orgulhosos, cheios de vaidade. Não que se sintam melhores que os outros. Superiores aos demais. Mas são os amigos que trago no meu mais profundo sentimento. Aqueles que estão soberanos na minha estima. E disso não abro mão, nem faço economia no adubo.
Salve o amigo! Viva meus amigos!

Árvore em Itaocara-RJ; 1/12/2013 (foto do autor).