(Aos meus amigos, particularmente a Romeu Pimentel.)
Tenho cultivado amizades,
embora não saiba plantar nem um pé de couve. E nisto me sinto um latifundiário.
Talvez meu campo seja extenso, porque não há resquício de inimigos a lhe oporem limites. A não ser quando criança, nunca entrei em confronto com o meu
semelhante. Nunca cheguei às vias de fato, como os diários sensacionalistas
costumam dizer, quando as pessoas saem no braço, dão-se sopapos. Ou, pelo
menos, se ofendem verbalmente. Não nasci para isto.
Lembro-me de Ziraldo
citando Otto Lara Resende, cujas palavras diziam mais ou menos o seguinte: A
natureza não me proveu do sentimento do ódio. Por isso planto amigos a mancheias,
para parafrasear o grande Castro Alves. Ainda que não sejam muitos, são intensos,
são especiais, são daqueles de se guardarem debaixo de sete chaves, nas
palavras de Fernando Brant musicadas por Milton Nascimento. Estou muito citador
hoje!
E planto em todos os
gêneros, sexos, cores e condições, embora perceba que amigos sãos os que mais próximos
estão daquilo que sentimos. Não propriamente do que pensamos. O pensar é livre,
cada um tem sua ideologia, sua filosofia. O sentir é mais ou menos semelhante
entre os seres, pela própria condição física. Não há tanta diversidade no
sentir, quanto no pensar. Por isso é que dou mais valor ao que é menor, para
acabar por fazê-lo maior.
Por outro lado, a amizade
que planto não é grama. Tem raízes profundas e dá sombras generosas, frutos saborosos,
sucos capitosos. Meus amigos são meu orgulho. Quando falo de um amigo, fico até
com receio de o outro sentir ciúmes. E aí tento falar sem ostentar as
qualidades que vejo naquele, a fim de não melindrar esse. Mas todos estão em
meu coração numa escala de entupir artérias.
Aliás a vida sem amigos
deve ser – se existir! – uma coisa sem sabor. Ainda que, por momentos, possamos
sofrer com o que sofre o amigo, ainda assim é tudo um grande prazer. Até mesmo
nisso. Porque, se um amigo está em perigo, o perigo é meu também. Se ele chora,
sou capaz de chorar junto. Mas, se ele resolve beber um vinho, aí me emborracho
com ele. Um vinho com um amigo é de casta superior, só cultivada no campo da
emoção.
Por vezes, fico sozinho em
casa, diante do computador, ouvindo uma música, vendo um vídeo, lendo um livro,
e sempre me vem à memória os amigos que tenho, alguns especificamente que
talvez devessem também compartilhar daquele momento simples, mas cheio de
prazer, que consigo tirar das coisas mais corriqueiras. E, nessas ocasiões,
fico feliz em saber deles, que andam por esse mundão afora, levando suas vidas,
curtindo os seus, fazendo valer sua presença na existência, e isto me dá um
conforto muito grande. Às vezes, até um orgulho infantil.
Os meus amigos são
soberbos! Não que sejam orgulhosos, cheios de vaidade. Não que se sintam
melhores que os outros. Superiores aos demais. Mas são os amigos que trago no
meu mais profundo sentimento. Aqueles que estão soberanos na minha estima. E disso
não abro mão, nem faço economia no adubo.
Salve o amigo! Viva meus
amigos!
| Árvore em Itaocara-RJ; 1/12/2013 (foto do autor). |




