30 de março de 2015

ENREDO


Não quero ser enredo de escola de samba,
daqui a cinquenta/cem anos.

É comum aos que escrevem versos à revelia
serem incensados algum dia,
depois que tiverem os ossos carcomidos pelos vermes.

Eu não vou querer virar enredo de escola de samba,
se tal me acontecer.

Vamos supor que meus tetranetos,
descendentes diretos desta minha utopia humana,
aceitem que eu saia em forma de alegoria
nas peças da bateria como saiu Che Guevara.
Não vou querer tal homenagem.

Nunca gostei de carnaval
e acho um desperdício
gastarem adereços e carros alegóricos,
fantasias e sambas de enredo
com cadáver mais que morto.

Se reproduzirem minha cara
no carro abre-alas,
estarei disposto,
diretamente do meu túmulo,
curtindo o meu luto,
a rebaixar a escola de grupo.



Imagem em la-razon.com.

 

14 de março de 2015

UM DIA...


Um dia, você acorda com dores pelo corpo. Hoje dói o cotovelo esquerdo, ao rotacionar o braço. Outro dia, se esquece de pingar o colírio que controla a pressão ocular. Outro dia, é a vez de deixar de tomar o remédio para manter o colesterol baixo. Ou aquele da glicose. Um dia, deixa de pagar a conta, porque ficou o tempo inteiro à mercê do nada e simplesmente se esqueceu. Outro dia, pega seu neto no colo, ajuda-o a comer, dá-lhe banho, sai com ele a passear no calçadão da praia. Um dia, amanhece torto, porque o travesseiro antigo está deformado e lhe produziu um torcicolo, ou é a dor ciática que relampeia da popa à batata da perna. Uma tarde, você vai ao cinema, na hora em que a maioria da população está no trampo. E, ainda por cima, paga meia entrada. E fica no ar condicionado gelado, enquanto lá fora um bando sua em bicas, à cata dos afazeres. Na outra tarde, embora não pague a passagem do ônibus, tem dificuldades de subir os degraus – os joelhos já assolados por artroses. Noutra tem de ouvir reclamação inconveniente do jovem na fila, só porque exerce seu direito à preferência. Mas tem todo o direito de olhar a mesma menina bonita que passa de roupa de praia diante do bar onde ambos – você e o jovem – bebem cerveja e falam de futebol descompromissadamente. Um dia, você acorda nostálgico e lembra da infância perdida pelos 50, do carro de boi de sabugo de milho, da siliprina com os outros moleques, dos banhos de chuva nos verões perdidos no tempo. Outro dia, enfrenta a fila para tirar o sangue e conferir os dados do organismo que já não funciona mais com a desenvoltura de menino. Uma noite perde o sono por nada, a troco de nada, despreocupado de tudo, os filhos e netos bem encaminhados na vida, e toma um sonífero, porque os carneirinhos não pulam mais sobre a cerca da madrugada. Numa manhã, acorda serelepe como há muito não fazia, como se o tempo ainda não tivesse sido debulhado em sua folhinha. Numa outra, pega o carro com a mulher e sai a passear numa terça-feira qualquer, atrás dos caminhos que levam a um lugar qualquer, não importa onde seja, basta apenas chegar. Noutra, tem de tomar um digestivo, porque aquele leitão à pururuca que sempre fizera muito bem à saúde desta vez não caiu bem. Noutra, vai encontrar os amigos para um, dois cafezinhos na galeria refrigerada, jogando conversa fora ou tentando consertar o mundo antes do final dos tempos. Um dia, olha com admiração a juventude que passa feliz à sua frente e sente que também já foi assim. Noutro, repara a falta de compromisso dos jovens com os destinos do país e imagina que tudo estará perdido daqui mais cem anos, quando nem mais será lembrança. Um dia, prepara aquela feijoada que só você sabe fazer e reparte com os amigos o paladar exclusivo da amizade, e bebe pinga, tira gosto com linguiça, torresmo e chouriço, e não sente nenhum incômodo no dia seguinte. Um dia, percebe que aquilo que hoje se estuda em história era notícia para você, que estava mesmo no meio dos acontecimentos. Um dia, enfim, fecha os olhos para dormir e não acorda em lugar nenhum, e seu nome passa a ser apenas uma referência efêmera entre os que permanecerem acordados por mais outros tantos dias e tardes e noites, e assim por diante.

Pôr do sol em Itaipu (foto do autor).

9 de março de 2015

FRAGMENTOS POÉTICOS


ida
orte
mor
dio
lor
or
xão
sejos
xo
nhos
entura
macerados no cadinho do poeta
até a amálgama fatal


Imagem em colegioweb.com.br.

4 de março de 2015

ÀS VEZES, DÁ GOSTO VIVER!

Dia desses, andando pela praça de Miracema, vi uma carrocinha de pipoca adormecendo pela manhã, abandonada.

Naturalmente deve ter tido muito trabalho na noite anterior e teria outro tanto mais tarde. Porém, naquele instante, ela estava melancolicamente encostada a uma árvore, com corrente de proteção fechada a cadeado. Até mesmo em Miracema, não se pode deixar um bem assim dando sopa.

E, ainda que ela não exalasse aquele típico cheiro de pipoca quentinha, minha memória tratou logo de reproduzi-lo e, num passe de mágica, voltei à infância e às coisas que me davam prazer.

De repente, descobri, como num filme projetado aceleradamente, que, durante toda a nossa vida, temos esses dados gustativos a nos marcar de uma forma indelével.

Por vezes é mais fácil lembrar-se de um prazer do paladar do que de outro sentido. A visão, tenho a impressão, é um pouco mais efêmera que o paladar. O olfato, ainda mais que esses dois; e deve estar ao par com a audição. E o tato, coitado, praticamente não tem memória.

E consegui construir um catálogo rápido, na memória, durante a travessia da praça, das coisas que me marcaram pela boca, desde a infância na vilazinha natal.

Então comecei pela mironga da dona Mocinha, da padaria do seu Chico Furtado, já referida por mim na crônica Vou comprar uma mironga na padaria do Chico Furtado. E emendei com o pé de moleque de açúcar batido que minha mãe fazia, para reforçar o faturamento da pequena venda de meu pai. Em seguida, veio-me certo bife acebolado com molho ferrugem, que minha tia Alda fez numa tarde, para lancharmos na Vala, antes de voltar a Carabuçu. Eu e Zé Fábio, filho dela. É só me concentrar um pouquinho, para sentir novamente aquele sabor.

E um prato das artes de minha outra tia, a Toninha, hoje conhecido como bolo de batata com carne moída, mas que, na época, ela chamou de cuscuz – não sei por quê. Era outra delícia, que sempre pedíamos repetir.

Um tempo depois, da dureza do primeiro ano ginasial em regime de internato, no Colégio Bittencourt, em Campos, ficou o ajantarado de domingo, refeição com certo gosto de pompa, oferecida pela escola como a única do dia. Havia um arroz de forno inesquecível. E nem devia ser tão bom assim. Afinal, era comida de escola! Mas vai explicar isso para o apetite de um menino de treze anos, com a voracidade dos nascidos logo após a Segunda Guerra.

Por essa época, também, houve o robalo recheado preparado na casa do primo Edalmo, que morava em Campos, em comemoração ao batizado de seu filho Carlos Augusto. Jamais comi um peixe assado, recheado, como aquele.

Já um pouco mais galalau, de volta a Bom Jesus, vez em quando filava a sopa pedaçuda que tia Colola fazia para o jantar, na época de frio. Era tão saborosa quanto quente, e tínhamos tanta pressa de ir para o curso noturno, que eu e Zé Fábio colocávamos duas pedras de gelo no meio do prato. Tal técnica garantia não chegarmos atrasados ao Colégio Coronel Antônio Honório.

Já morando em Niterói, numa viagem a Minas, paramos em Sete Lagoas para almoçar em restaurante localizado à beira de um lago – era 1974. Após feijão tropeiro, lombo e carré de porco, torresmo, linguiça assada, couve à mineira, tutu, arroz molhadinho, fomos até à cozinha dar um abraço na cozinheira, que ficou toda vaidosa por ter agradado aqueles “cariocas” com sua comida tradicional.

Já casado, na volta da viagem de lua de mel meio alternativa, pelos países do Cone Sul – denominação que ainda não existia –, em 1976, depois de trinta dias sem a culinária brasileira, adiamos a viagem de volta em Foz do Iguaçu só para comer arroz com feijão. E foi uma experiência restauradora das nossas raízes. Como o feijão nos fizera falta!


Em 2003, numa viagem com o casal de amigos Rogério Fernandes e Laura Dutra, restou inesquecível o prazer do polvo grelhado com batatas ao murro, durante o jantar no Restaurante Adega do Morgadito, em Torres Vedras, Portugal. Convocamos o cozinheiro ao salão, para agradecer-lhe pelo prato.

Restaurante Adega do Morgadito (em onossoutroprazer.blogspot.com).

Há poucos anos, a quitanda metida a besta Hortifruti andou promovendo degustações harmonizadas de comidas típicas e vinhos de países produtores. E não me esqueço jamais do gosto maravilhoso do toucinho do céu – doce português de nome esquisito – com vinho do Porto. Até hoje, foi o doce mais saboroso que já comi.

Mais recentemente – e com certa frequência –, reúno-me com os amigos Rogério Barbosa e Eduardo Campos para degustar o maravilhoso bacalhau à lagareiro do Restaurante Alentejano, na Rua São José, no Centro do Rio de Janeiro.

E ainda há a cabritada à napolitana de minha irmã Elizabeth; a inusitada salada quente com batatas cozidas, tomate, ovo cozido, alface e molho refogado de cebola de minha mãe; o refogado de jiló com quiabo de minha sogra; o arroz com frutos do mar de minha mulher e a poderosa feijoada que eu mesmo faço, sem a mínima falsa modéstia.

O mal não é o que entra na boca do homem. É aquele maldito dente que dói só à noite e nos fins de semana.

Até a próxima.
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Publicada originalmente em Gritos&Bochichos.

25 de fevereiro de 2015

FACEBOOK AFFAIR


Viu o comentário de um desconhecido de nome estrangeiro na postagem da amada, e lhe bateu um ciúme desgraçado, feito de faíscas no olhar e azedume de baba de cachorro doido. O canalha dizia a ela "vontade de estar aí contigo", em língua gringa que ele mesmo mal aprendera no colégio, suficiente, contudo, para que lesse nas entrelinhas o caso não sabido, mas agora desconfiado. Eu mato esse filho da puta, pensou. E digitou logo abaixo "quem é esse mané?". Duas horas depois, vem a resposta "um amigo meu que você não conhece". "Como não conhece? Que papo é esse de que não conheço seus amigos?". Quatro horas depois de ele remoer rancores e roer as unhas, ela digita "esse você não conhece. Mora fora. Conheci na viagem a Orlando". Que merda é essa? – acrescentou interrogativamente ao que já havia pensado antes. E continuou: acho que levei um chapéu de touro, mas isso não ficará assim. "Quero o endereço desse babaca agora, que vou lá acertar umas pontas! Quem é esse merda desse Andrew?". Ela não respondeu naquela noite. Na manhã seguinte, pelas oito horas, postou "deixa de ser abestado. Não aconteceu nada. Tira isso da cabeça!". Sentiu ironia na última frase. Que merda é essa de tirar da cabeça? Tá a fim de gozar com a minha cara? Não era homem de levar desaforo para casa, quanto mais chifre pela cabeça. Mas amava aquela miserável, que fazia do seu coração avenida de carnaval, onde pregava os agulhões do salto fino. "Ele mora nos Estados Unidos, na Flórida". "Vou invadir aquela merda. Vou provocar tsunami. Vou explodir as Torres Gêmeas. Vou fazer o diabo, mas acabo com a empáfia daquele filho de uma puta. Você só conhece a metade de mim. Não me conhece todo.". Ela passou mais um bom tempo sem postar qualquer coisa. Ele ficou ainda mais furioso. “Onde você se meteu? Vai me deixar aqui falando à toa?”. Alguns amigos entraram com tentativas de baixar o ímpeto dele. As amigas dela – algumas – postavam comentários extremamente dúbios. Aliás, tudo que ele lia parecia suspeito. Só ele, o desgraçado, não estava sabendo de nada. Foi preciso um gringo filho da puta postar uma merda de uma frase em inglês, para que ele começasse a puxar o fio de um enredo sinistro. Ela fora a Orlando, levando a irmã adolescente para os parques e, lá, na terra de ninguém – Orlando, por acaso, é terra confiável? Cheia de gente do mundo todo, que chega sem a mínima preocupação na cabeça, só querendo diversão, está pronta a permitir tudo! – encontrou um babaca que lhe disse alguma besteira naquela língua de merda e ela caíra feito um patinho. Mas ele estava disposto a ir até lá e sangrar o homem. Já estava até pensando nas respostas que daria àquele papelucho ridículo que o viajante é obrigado a preencher, ainda no avião, quando vai aos Estados Unidos: estou disposto a cometer um crime de morte; estou levando arma; sou perigoso e o caralho a quatro. Vão pra puta que os pariu, cambada de cornos! Não, corno, não! O corno ali parecia ele. Puta que me pariu, logo eu a cair nessa! Aquela vadia sempre a dizer “meu amorzinho, meu isso, meu aquilo”, e ele agora com aquela maldita frase na cabeça “I wish I was there with you”. Gringo filho de uma puta! Vai ver deitou e rolou com ela naqueles hotéis e fez a festa. E a porra da irmã não viu nada, não disse nada? Também foi cúmplice dessa sacanagem comigo?
À noite ela postou nome e endereço completo do tal de Andrew, com o adendo “faça bom uso, idiota!’. E ele ficou com uma grande cara de babaca, sem ação, sem palavra. Pegou seu passaporte, examinou bem – ainda dentro da validade; era só pagar a taxa do visto –, jogou-o de volta dentro da gaveta e soltou um “puta que o pariu” como um urro. Não ia pegar um avião, viajar nove, dez horas, para dar um tiro nos cornos de um gringo de merda que lhe destroçara a confiança na namorada, que lhe amputara uma parte significativa da vida, que o jogara num beco sem saída. Ou deveria ir, pelo menos para cumprir o que postara na merda do Facebook e dar uma satisfação aos outros? Os amigos e os desafetos viram. Mas o que aproveita dar um tiro na cara de um cara que ele nem conhece, nem sabe quem é. Você é o Andrew? E pum! Aquela porra daquele país está cheio de Andrew. Deve ser o que mais tem lá é Andrew. E ele igual a um idiota a procurar pelo Andrew certo, aquele tal, aquele único e miserável Andrew. E como chegar até lá com o pouco conhecimento daquela língua do cão? Are you Andrew? Do you know any Andrew here? E não ia ter essa frescura de please e good morning. Era pimba e pum! I’m Andrew, and so what? E ele meteria um tiro na cara do filho da puta, a polícia o prenderia de imediato – que a polícia de lá é foda, pega o criminoso antes da próxima esquina -, e a sua vida que tinha virado um grande lixão ainda ficaria pior. Se é que pior poderia ficar! Melhor esquecer tudo. Mas como esquecer? Como é que você tira um troço desses da cabeça? Puta que me pariu, outra vez o troço na cabeça! Oh, desgraça! E você pensar que sua vida não pode dar uma guinada de cento e oitenta graus, meter os pés pelas mãos, e você despencar do alto de seu rochedo de areia!
Andou pela casa feito um touro acuado. Outra vez esse ideia de touro, que merda! Feito um cão acuado fica melhor. Andou pela casa feito um cão acuado, foi até a estante, escolheu um disco de blues e pôs no som. Aumentou o volume, pegou a garrafa de um bourbon do Tennessee, sorveu uma talagada e se jogou no sofá. Toca essa porra aí que eu não tenho mais nada a perder! Buddy Guy não se fez de rogado e rasgou a sala com sua guitarra visceral: rolou Baby, please don’tleave me*.

Imagem em showmetech.band.uol.com.br.
 * Clique no título, se quiser ouvir a música.

20 de fevereiro de 2015

ISAÍAS BONGA MORREU!


Já lhes falei por aí do Isaías Bonga², negro retinto, carreiro dos bons da minha vilazinha de Carabuçu e ponta-esquerda rompedor do glorioso Liberdade Esporte Clube.
Era um homem atarracado, forte, mas afável no trato com as pessoas. Não tanto com a bola, com a qual a intimidade não chegava às raias de minha querida, meu amorzinho. Mas sabia dar suas carreiras pela esquerda, ir até o fundo e cruzar para o meio da área, onde certamente iria encontrar o Jair Bodinho, baixinho que só ele, contudo capaz de fazer gols incríveis na defesa adversária.
Isaías viveu sua vida de interiorano, pegando duro no trabalho e jogando seus joguinhos do Campeonato Bonjesuense de Futebol, em defesa das cores azul e branca do Liberdade. Tinha sido até bem tarde um solteirão reconhecido. Porém com a viuvez da Tonica, mulher do Cocote, o goleiro do time, Isaías resolveu juntar sua pobreza com a dela. E viviam na casinha dele, para os lados do Valão Liberdade, vizinhos do Juca Jacó.
O tempo ia passando e a relação dos dois piorando. Talvez nunca se tivessem dado muito bem mesmo, mas se conformaram em viver juntos, nessa necessidade danada de um homem ter uma mulher, de uma mulher ter um homem. Um aquecendo o outro nas noites frias da vila, servindo de companhia, para que a existência não fosse de tudo sem serventia.
E bebia, o Isaías!
Até que certo fim de dia de calor, estando ele sem camisa à janela da casa, de olho no pouco movimento da rua, caiu debruçado sobre a soleira, cabeça pendida para o lado de fora.
Pouco depois, volta Tonica da rua e vê seu homem naquela posição e logo pensou mal dele: Vai ver já bebeu todas e dormiu dependurado na janela igual a um fardo de carne-seca. Entrou em casa e foi acordá-lo. Contudo o seu era o sono eterno. Dele já não mais acordaria.
Tonica saiu para a rua novamente para dar a notícia da morte do marido. Os vizinhos foram os primeiros a chegar e a remover o corpo daquela posição incômoda – Lá isso é jeito de morrer!, disse um – e colocá-lo sobre a cama. Uns e outros começaram a indagar de Tonica como se dera aquilo, e Tonica não tinha muitas explicações, a não ser o fato de já o ter encontrado prostrado sobre a soleira da janela. Alguns mais maldosos logo desconfiaram da Tonica, em virtude dos últimos tempos de desentendimentos quase diários. Vai ver – suspeitaram outros – ela tenha posto formicida Tatu no feijão do pobre coitado, pois fora um pouco depois da janta que ele entregou a alma, partiu dessa para a pior, espichou as canelas, deu com os costados na cerca, ou lá o que o valha.
Quando ela soube que pairava forte desconfiança sobre sua pessoa, botou a boca no mundo a dizer que nunca faria uma coisa daquelas, que não era criminosa, que seu natural era de paz. E garantia a todos que o Isaías morrera, porque bebia muito.
Enquanto se providenciava o caixão e se decidia sobre em que tipo de cova sepultá-lo, colocaram o corpo do ex-ponta-esquerda sobre uma mesa comprida, coberto por um lençol branco da cabeça aos pés. Os vizinhos e amigos ficaram ali velando o morto. Umas senhoras piedosas puxavam alguma reza para encomendar a alma do coitado, enquanto Tonica passava café quente.
Lá pelas tantas observaram que o lençol começou a se movimentar justamente na altura do dedão do pé canhoto, o pé dos chutes potentes do time do Liberdade. Foi um Deus nos acuda. Saiu gente pela portinha da casa numa sofreguidão desesperada. Alguns até pularam a janela onde ele tinha morrido.
Nessas ocasiões, há sempre um mais corajoso, que resolveu voltar à sala, para verificar o que de fato estaria ocorrendo. Levantou, devagarinho e um tanto desconfiado, o lençol do dedão do pé do Isaias e lá estava um besouro de chifre prestando suas últimas homenagens ao ponta-esquerda do time local.
Dias depois da inumação do corpo, enterrado em cova rasa, fez-se a necropsia, que constatou que Isaías morrera de embolia pulmonar. Tonica estava inocente no caso.
Mas Isaías estava definitivamente fora do time dos vivos!

Imagem em ra-bugio.org.br.
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¹ Esta história me foi contada pelos amigos Jane e José Luiz Padilha. Eu já não morava mais na vila, quando ocorreu.


14 de fevereiro de 2015

À PROCURA DA MÃE

(Em memória de meu pai, Argemiro.)
Lá por seus noventa e dois anos, meu pai começou a apresentar os primeiros sintomas de demência senil, expressão que mamãe odeia, sobretudo com episódios noturnos. Embora o tratamento a que se submetera tenha dado resultados que impressionaram seu médico, o quadro era de progressão do mal. Ele apresentava algumas calcificações no lobo frontal, o que lhe causava as perturbações comuns à doença.
Aos poucos, contudo, foi entrando num processo de perda progressiva do senso da realidade. Ou pelo menos daquilo que nos parecia a realidade palpável do cotidiano. Até que chegou ao fim de sua existência, aos noventa e cinco anos, já sem reconhecer os filhos e netos, sem falar, sem andar, sem se alimentar normalmente. Talvez só reconhecesse minha mãe, sua mulher de muitos e muitos janeiros. Isto é, ao meu juízo, um tipo de ingratidão que a natureza nos proporciona: permite que o corpo sobreviva, sem qualidade de vida, embora a mente já há muito tenha procurado outros voos, outras paragens.
Um dos episódios que me marcaram – e que estou aqui trazendo aos meus caros leitores – foi o de seu desejo de reencontrar a mãe.
Por essa época, ele ainda andava, tinha certos momentos de lucidez, e foi tomado pela vontade infantil de rever a mãe. Queria de todas as formas que ela o viesse visitar. Pediu-me, inclusive, para que eu telefonasse para ela – um telefone inexistente, para uma pessoa já inexistente –, porque precisava muito dela. E me disse com jeito de menino chorão:
- Meu filho, eu sem ela não sou nada! Mas não lhe diga que estou neste estado.
Sua mãe tinha falecido tragicamente há uns sessenta anos. Desgraçadamente ele a viu em sua cena de morte, enforcada no baldrame do curral da propriedade do meu avô, acometida que fora por uma depressão violenta, depois que tivera a notícia de que estaria com câncer. Tal imagem, tenho certeza, jamais lhe saiu da memória. E, por isso mesmo, em nossa casa, era tabu tocar no nome da vovó Benedita, para que não se reabrissem velhas feridas incuráveis.
Como eu dissesse que não sabia o telefone dela, ele exigiu que o levássemos a Carabuçu, vilazinha onde nascemos todos, e quarto distrito de Bom Jesus do Itabapoana. Sem ter como lhe negar isto, mas sabendo que seria missão impossível encontrá-la, combinei com minha irmã Verônica e minha sobrinha Fernanda que sairíamos, tal exército Brancaleone, à procura do seu graal perdido.
Pegamos a estrada do lado capixaba, margeando o Rio Itabapoana, num dos caminhos para chegar até a vila, o qual atravessa a cidade de Apiacá, antes de se voltar ao lado fluminense. E fomos comentando durante o trajeto que as coisas estavam muito mudadas, que Carabuçu já não era mais a mesma vila que ele deixara, que talvez fosse difícil encontrar a casa da vovó Benedita, localizada na rua da farmácia do Antônio Miranda, como ele informara com veemência para nós.
Entrando em Apiacá, começamos a nos admirar como as coisas estavam mudadas, de quase se não as reconhecerem, com casas novas, asfalto nas ruas, tentando fingir que ali era Carabuçu. Na praça principal da cidade, bem em frente à igreja, parei o carro, desci e fui até um banca de revistas fingir que tomaria informações acerca da localização da casa da dona Benedita, mulher do seu Chico Albino, que ficava na rua da farmácia do Antônio Miranda.
Voltei algum tempo depois, dizendo que não havia obtido a informação, que as pessoas não sabiam, que talvez ela se tivesse mudado para Duque de Caxias há muito, quando a filha – e irmã do meu pai –, Filhota, para lá também se fora, após o fim do casamento, e levando uma fieira de seus tantos filhos, desde adultos até meninos imberbes.
Retomei a marcha do carro, atravessamos a ponte sobre o Itabapoana, pegamos o asfalto de volta para Bom Jesus, lamentado a frustração de não encontrar vovó Benedita.
Alterando um pouco a voz, homem sempre equilibrado que era, mostrou seu descontentamento conosco:
- Vocês não servem nem para encontrar a casa da mamãe!
E acabamos a viagem com um nó na garganta, os olhos marejados de lágrimas, porque não conseguimos atender ao singelo desejo de o filho encontrar sua mãe.
Tenho a impressão de que já contei essa mesma história, em outro texto, mas o estou fazendo novamente, com minhas desculpas. É que, às vezes, não consigo tirar esse nó da minha vida também.
Perdão, amigos!

Ilustração para o filme L'armata Brancaleone, de Mario Monicelli (em insiemiperpieve.it).