14 de fevereiro de 2015

À PROCURA DA MÃE

(Em memória de meu pai, Argemiro.)
Lá por seus noventa e dois anos, meu pai começou a apresentar os primeiros sintomas de demência senil, expressão que mamãe odeia, sobretudo com episódios noturnos. Embora o tratamento a que se submetera tenha dado resultados que impressionaram seu médico, o quadro era de progressão do mal. Ele apresentava algumas calcificações no lobo frontal, o que lhe causava as perturbações comuns à doença.
Aos poucos, contudo, foi entrando num processo de perda progressiva do senso da realidade. Ou pelo menos daquilo que nos parecia a realidade palpável do cotidiano. Até que chegou ao fim de sua existência, aos noventa e cinco anos, já sem reconhecer os filhos e netos, sem falar, sem andar, sem se alimentar normalmente. Talvez só reconhecesse minha mãe, sua mulher de muitos e muitos janeiros. Isto é, ao meu juízo, um tipo de ingratidão que a natureza nos proporciona: permite que o corpo sobreviva, sem qualidade de vida, embora a mente já há muito tenha procurado outros voos, outras paragens.
Um dos episódios que me marcaram – e que estou aqui trazendo aos meus caros leitores – foi o de seu desejo de reencontrar a mãe.
Por essa época, ele ainda andava, tinha certos momentos de lucidez, e foi tomado pela vontade infantil de rever a mãe. Queria de todas as formas que ela o viesse visitar. Pediu-me, inclusive, para que eu telefonasse para ela – um telefone inexistente, para uma pessoa já inexistente –, porque precisava muito dela. E me disse com jeito de menino chorão:
- Meu filho, eu sem ela não sou nada! Mas não lhe diga que estou neste estado.
Sua mãe tinha falecido tragicamente há uns sessenta anos. Desgraçadamente ele a viu em sua cena de morte, enforcada no baldrame do curral da propriedade do meu avô, acometida que fora por uma depressão violenta, depois que tivera a notícia de que estaria com câncer. Tal imagem, tenho certeza, jamais lhe saiu da memória. E, por isso mesmo, em nossa casa, era tabu tocar no nome da vovó Benedita, para que não se reabrissem velhas feridas incuráveis.
Como eu dissesse que não sabia o telefone dela, ele exigiu que o levássemos a Carabuçu, vilazinha onde nascemos todos, e quarto distrito de Bom Jesus do Itabapoana. Sem ter como lhe negar isto, mas sabendo que seria missão impossível encontrá-la, combinei com minha irmã Verônica e minha sobrinha Fernanda que sairíamos, tal exército Brancaleone, à procura do seu graal perdido.
Pegamos a estrada do lado capixaba, margeando o Rio Itabapoana, num dos caminhos para chegar até a vila, o qual atravessa a cidade de Apiacá, antes de se voltar ao lado fluminense. E fomos comentando durante o trajeto que as coisas estavam muito mudadas, que Carabuçu já não era mais a mesma vila que ele deixara, que talvez fosse difícil encontrar a casa da vovó Benedita, localizada na rua da farmácia do Antônio Miranda, como ele informara com veemência para nós.
Entrando em Apiacá, começamos a nos admirar como as coisas estavam mudadas, de quase se não as reconhecerem, com casas novas, asfalto nas ruas, tentando fingir que ali era Carabuçu. Na praça principal da cidade, bem em frente à igreja, parei o carro, desci e fui até um banca de revistas fingir que tomaria informações acerca da localização da casa da dona Benedita, mulher do seu Chico Albino, que ficava na rua da farmácia do Antônio Miranda.
Voltei algum tempo depois, dizendo que não havia obtido a informação, que as pessoas não sabiam, que talvez ela se tivesse mudado para Duque de Caxias há muito, quando a filha – e irmã do meu pai –, Filhota, para lá também se fora, após o fim do casamento, e levando uma fieira de seus tantos filhos, desde adultos até meninos imberbes.
Retomei a marcha do carro, atravessamos a ponte sobre o Itabapoana, pegamos o asfalto de volta para Bom Jesus, lamentado a frustração de não encontrar vovó Benedita.
Alterando um pouco a voz, homem sempre equilibrado que era, mostrou seu descontentamento conosco:
- Vocês não servem nem para encontrar a casa da mamãe!
E acabamos a viagem com um nó na garganta, os olhos marejados de lágrimas, porque não conseguimos atender ao singelo desejo de o filho encontrar sua mãe.
Tenho a impressão de que já contei essa mesma história, em outro texto, mas o estou fazendo novamente, com minhas desculpas. É que, às vezes, não consigo tirar esse nó da minha vida também.
Perdão, amigos!

Ilustração para o filme L'armata Brancaleone, de Mario Monicelli (em insiemiperpieve.it).

9 de fevereiro de 2015

COISAS EM QUE NÃO ACREDITO, MAS QUE ACONTECERAM


Embora tenha sido extremamente religioso boa parte da infância e juventude – era católico – e vivesse, por esse tempo, no interior, onde as crendices e superstições têm, ou tinham, uma papel importante na vida diária, nunca fui chegado a acreditar em boa parte daquelas coisas. Tenho a impressão de que o germe da incredulidade já se esboçava lá dentro da minha cabeça.
Alguns desses tabus eu mesmo procurava quebrar; para outros, tinha alguma reserva. O medo, às vezes, me fazia prudente em não cruzar certas fronteiras.
Havia, por exemplo, coisas assim: não se pode tomar banho depois de almoçar ou jantar, porque dá congestão; não se bebe leite e se come manga, porque é um veneno mortal. O mesmo valia para beber cachaça e comer manga. Quando chovia com raios e relâmpagos, as pessoas cobriam os espelhos com um lençol, para evitar atrair o raio. Não se devia apontar o dedo para a lua, pois nasciam verrugas. As figueiras, árvores de grande porte, eram comumente mal-assombradas, sobretudo nas noites de lua cheia. Nos ermos escuros da noite, havia sacis. Mulas-sem-cabeça se manifestavam em filhos de padre e outros tipos de amaldiçoados pela sorte. Para alguns males, havia sempre uma reza, uma benzedura: espinhela caída, pescoço-duro, vento-virado, panarício, descadeiramento. Punham-se e tiravam-se quebrantos das pessoas. Havia o olho gordo, ruim de matar passarinho, fazer murchar as plantas do jardim e da horta. Fora a imensidade de simpatias e garrafadas para várias ziquiziras que assolavam as pessoas. Tínhamos na vila algumas pessoas especializadas nesses assuntos. Seu Gregório e seu filho, o Filhinho Gregório, faziam garrafadas famosas, capazes de resolver muitos incômodos. Uns eram benzedores: benziam gente e bicho achacados por alguma macacoa.
Uma delas, por exemplo, Sá Luzia, certa vez foi chamada lá em casa. Eu havia voltado do campo do glorioso Liberdade Esporte Clube, onde fora brincar de bola com meus amigos. Ao final da pelada, pulei para pegar a camisa que tinha pendurado no travessão do gol. Mal bati o pé no chão, camisa segura na mão, notei que meu pescoço tinha ficado duro. Por esse tempo, chamávamos torcicolo de pescoço-duro. Já cheguei em casa mal aprumado, pescoço de revesguete. Mamãe não conhecia melhor remédio que a reza de Sá Luzia. Quando a velha mulher chegou e disse o que tinha de fazer, fiquei cabreiro, pois ela pediu à minha mãe agulha e linha, para costurar meu pescoço. Deitei desconfiado sobre sua perna, e ela passou a costurar, sem linha, o pequeno pedaço de pano, que colocara sobre o lado do pescoço acometido pelo torcicolo. E debulhava baixinho uma reza que eu não compreendia. Daí a alguns minutos, levantei dali sem mais sentir nada.
Pouco tempo depois, apareceu-me na parte interna do dedo anelar esquerdo – o seu-vizinho – uma verruga. Quando meu pai viu aquilo, falou com seu Nico Fragoso, tabelião da vila, ateu e comunista, o qual tinha uma simpatia infalível para verrugas e outros problemas de pele. Lembro-me de que meu pai escreveu num papel, a pedido dele, meu nome completo e a data e hora do meu nascimento, pois ele iria fazer a simpatia, sem tocar em mim. Alguns dias depois a verruga desapareceu misteriosamente. E nunca mais voltou.

Aí o leitor amigo vai me perguntar se eu acreditava ou acredito nisso. E vou dizer que, desde então, até hoje, nunca acreditei nesse tipo de procedimento, mas que aconteceu comigo, ah!, isso aconteceu.

Helena Coelho, A benzedeira, 2002 (em pinturasnaifdehelenacoelho.blogspot.com).

5 de fevereiro de 2015

POEMA DURO

Léon Cogniet, Tintoretto pintando sua filha morta (em parashutov.livejournal.com).


Nossos velhos moribundos espreitam a morte
Como se fosse uma namorada misteriosa.
Produzem tosse
Fazem escaras
Golfam uma longa baba amarelada
Pela boca tristemente entreaberta.
Se abrem os olhos
Veem o vácuo
Veem nada
(A parede é uma janela incerta).
Cochilam se acordados
Dormem como que abismados de escuridão
E são cuidados tais bebês sem esperança.
Nós
Hieráticos empertigados
Do alto da nossa ilusória segurança
Aguardamos receosos contando longos segundos
A vez de nos tornarmos
Definitivamente velhos moribundos.



28 de janeiro de 2015

SEM TEMPO


Se houver tempo
Te ligo
Te telefono
Ou mando um recado eletrônico
Agora estou ocupado com o que me consome

Aqui mesmo em frente
Como há bilhões de anos
O oceano bate insone
Me convidando para um banho reconfortante
Mas o ignoro

Tenho vivido sem planos
O mais que tenho são sonhos
Que ficam pendentes
E se desfazem tão logo acordo
Como agora

Apenas ponho o ponto final neste poema
E pego o ônibus para ir-me embora

Atracadouro em Jurujuba (foto do autor).

20 de janeiro de 2015

A CAPELA MORTUÁRIA


Carabuçu carecia de uma capela mortuária, a fim de que o igualitarismo chegasse à morte. Por diversas vezes, houve problemas no velório de um e outro falecido, em virtude de sua crença religiosa – ou seu ateísmo – e a disponibilidade nas igrejas locais, normalmente cenário desse tipo de cerimônia. É bem verdade que, na vila, era muito comum que se velassem os mortos em suas próprias casas, já que quase todos os habitantes se conhecem e são camaradas. Isto também facilitava à família do defunto o preparo dos quitutes apropriados para a ocasião, pois o fogão estava logo ali na cozinha, contígua à sala onde o morto descansava sobreterrestremente pela derradeira vez.
Um dos fatos que determinou meu primo Délbio Azevedo a encabeçar movimento reivindicatório foi o velório de nosso tio José Catarina, o Cate, que não encontrou abrigo na antiga capela local e foi acolhido na Igreja Presbiteriana, que ele jamais frequentou em vida. Como aliás todas as demais da vila, do Rio de Janeiro, onde morou por décadas, e do Brasil, de onde também nunca se ausentou por qualquer motivo.
Depois de alguma gestão junto à prefeitura, o chefe do executivo de Bom Jesus do Itabapoana na ocasião, nosso conterrâneo e amigo de infância Paulo Portugal, atendeu os reclamos da população e mandou construir à entrada do pequeno cemitério local a sonhada capela mortuária. Para tanto, incumbiu Délbio de gerenciar a obra, zelando para que o dinheiro público fosse usado da melhor forma possível.
Ao final de algum tempo, lá estava a capela estalando de nova. Délbio, o maior festeiro que conheço, resolveu, então, bancar uma festa de inauguração antecipada apenas para os operários que trabalharam na obra. Para tanto, instalou a parafernália sonora de que dispõe para fazer todos os tipos de comemorações da vila, comprou do próprio bolso material para fazer cachorro-quente e bebidas – cachaça e cerveja –, a fim de mostrar seu reconhecimento àqueles homens simples, que o atenderam com paciência durante os trabalhos.
A festa rolava solta, com alguns jogos que ele criou – comprou um troféu também para agraciar o primeiro colocado –, o som animado, a rapaziada se divertindo a valer. Nesse instante, para diante daquela nova construção, localizada na Rua Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo, o nosso bisavô, um jovem homem com seu carro reluzente, placa de Apiacá, cidade próxima, já no estado do Espírito Santo. Muito surpreso, quis saber o rapaz o que estava ocorrendo. Délbio explicou que era uma festa reservada apenas para os operários da obra, mas que o local seria oficialmente inaugurado no próximo sábado.
Animado com a perspectiva de uma nova casa de diversão – bar ou coisa assemelhada –, o jovem se mostrou interessado e disse que certamente voltaria. No entanto, para garantir, perguntou:
- Vai ser um bar?
Délbio, que não fica triste nem em velório, disse cheio de dentes:
- Não, amigo! Aqui vai ser a nova capela mortuária de Carabuçu.
O apiacaense, apavorado, engatou a primeira marcha do carro e disse, com cara de acompanhar defunto:
- É ruim de eu aparecer aqui!
E de nada adiantou Délbio tentar dar um panorama da cerimônia: discursos, coquetel, canapés e música sacra e erudita, inclusive a Marcha Fúnebre, de Chopin.
O motorista só não fez o possante cantar pneu, porque em Carabuçu isso não é de bom tom.

20140509
Cemitério de Carabuçua (foto do autor).

13 de janeiro de 2015

POEMA DE INVERNO


O frio entra pela greta da porta
(no meu idioleto fresta é palavra de poeta)
E traz o ar gelado lá de fora

Aqui dentro é hora de um conhaque potente
Para espantar o frio que está na alma
Enquanto tecemos conversas sem ponto

Pode ser que solucionemos nossas dores
Antes do fim do trago
Não importa

Por isso é que durante o frio
Se não saio para a rua
A experimentar o ar gelado que do mar aporta
É porque estou cogitando de coisas
Que no calor nunca me ocorrem

Mas não vedo a porta
É preciso estar assim disposto a tal incômodo
Que um gole de conhaque reconforta


Artland Glasbild, Cigar and cognac (em otto.de
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Nota: Este poema já estava pronto há alguns meses. Publico-o agora, em pleno verão, sem querer ser irônico, Quando lemos um livro, a datação da história não importa muito ao momento da leitura.



4 de janeiro de 2015

PRESENTE


Quando eu ficar velho (Ainda não estou?)
Não me deem meias
Não usarei mais sapatos fechados
E já estarei com a vista fraca para o que não for inteiro.
Me deem sonhos
Não os de padaria
Estarei com a glicose descontrolada
E talvez terei perdido a esperança no futuro.
Não me deem passagens para lugares distantes
Me deem livros
Que poderei viajar sem sobressaltos
Recostado no travesseiro no meu quarto.
Não me deem sustos
O coração poderá ter seus distúrbios
E não mais trabalhar direito.
Contudo
Poderão continuar a me dar música
Que prometo não ficar surdo. 

Imagem em minastenisclube.com.br.