28 de janeiro de 2015

SEM TEMPO


Se houver tempo
Te ligo
Te telefono
Ou mando um recado eletrônico
Agora estou ocupado com o que me consome

Aqui mesmo em frente
Como há bilhões de anos
O oceano bate insone
Me convidando para um banho reconfortante
Mas o ignoro

Tenho vivido sem planos
O mais que tenho são sonhos
Que ficam pendentes
E se desfazem tão logo acordo
Como agora

Apenas ponho o ponto final neste poema
E pego o ônibus para ir-me embora

Atracadouro em Jurujuba (foto do autor).

20 de janeiro de 2015

A CAPELA MORTUÁRIA


Carabuçu carecia de uma capela mortuária, a fim de que o igualitarismo chegasse à morte. Por diversas vezes, houve problemas no velório de um e outro falecido, em virtude de sua crença religiosa – ou seu ateísmo – e a disponibilidade nas igrejas locais, normalmente cenário desse tipo de cerimônia. É bem verdade que, na vila, era muito comum que se velassem os mortos em suas próprias casas, já que quase todos os habitantes se conhecem e são camaradas. Isto também facilitava à família do defunto o preparo dos quitutes apropriados para a ocasião, pois o fogão estava logo ali na cozinha, contígua à sala onde o morto descansava sobreterrestremente pela derradeira vez.
Um dos fatos que determinou meu primo Délbio Azevedo a encabeçar movimento reivindicatório foi o velório de nosso tio José Catarina, o Cate, que não encontrou abrigo na antiga capela local e foi acolhido na Igreja Presbiteriana, que ele jamais frequentou em vida. Como aliás todas as demais da vila, do Rio de Janeiro, onde morou por décadas, e do Brasil, de onde também nunca se ausentou por qualquer motivo.
Depois de alguma gestão junto à prefeitura, o chefe do executivo de Bom Jesus do Itabapoana na ocasião, nosso conterrâneo e amigo de infância Paulo Portugal, atendeu os reclamos da população e mandou construir à entrada do pequeno cemitério local a sonhada capela mortuária. Para tanto, incumbiu Délbio de gerenciar a obra, zelando para que o dinheiro público fosse usado da melhor forma possível.
Ao final de algum tempo, lá estava a capela estalando de nova. Délbio, o maior festeiro que conheço, resolveu, então, bancar uma festa de inauguração antecipada apenas para os operários que trabalharam na obra. Para tanto, instalou a parafernália sonora de que dispõe para fazer todos os tipos de comemorações da vila, comprou do próprio bolso material para fazer cachorro-quente e bebidas – cachaça e cerveja –, a fim de mostrar seu reconhecimento àqueles homens simples, que o atenderam com paciência durante os trabalhos.
A festa rolava solta, com alguns jogos que ele criou – comprou um troféu também para agraciar o primeiro colocado –, o som animado, a rapaziada se divertindo a valer. Nesse instante, para diante daquela nova construção, localizada na Rua Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo, o nosso bisavô, um jovem homem com seu carro reluzente, placa de Apiacá, cidade próxima, já no estado do Espírito Santo. Muito surpreso, quis saber o rapaz o que estava ocorrendo. Délbio explicou que era uma festa reservada apenas para os operários da obra, mas que o local seria oficialmente inaugurado no próximo sábado.
Animado com a perspectiva de uma nova casa de diversão – bar ou coisa assemelhada –, o jovem se mostrou interessado e disse que certamente voltaria. No entanto, para garantir, perguntou:
- Vai ser um bar?
Délbio, que não fica triste nem em velório, disse cheio de dentes:
- Não, amigo! Aqui vai ser a nova capela mortuária de Carabuçu.
O apiacaense, apavorado, engatou a primeira marcha do carro e disse, com cara de acompanhar defunto:
- É ruim de eu aparecer aqui!
E de nada adiantou Délbio tentar dar um panorama da cerimônia: discursos, coquetel, canapés e música sacra e erudita, inclusive a Marcha Fúnebre, de Chopin.
O motorista só não fez o possante cantar pneu, porque em Carabuçu isso não é de bom tom.

20140509
Cemitério de Carabuçua (foto do autor).

13 de janeiro de 2015

POEMA DE INVERNO


O frio entra pela greta da porta
(no meu idioleto fresta é palavra de poeta)
E traz o ar gelado lá de fora

Aqui dentro é hora de um conhaque potente
Para espantar o frio que está na alma
Enquanto tecemos conversas sem ponto

Pode ser que solucionemos nossas dores
Antes do fim do trago
Não importa

Por isso é que durante o frio
Se não saio para a rua
A experimentar o ar gelado que do mar aporta
É porque estou cogitando de coisas
Que no calor nunca me ocorrem

Mas não vedo a porta
É preciso estar assim disposto a tal incômodo
Que um gole de conhaque reconforta


Artland Glasbild, Cigar and cognac (em otto.de
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Nota: Este poema já estava pronto há alguns meses. Publico-o agora, em pleno verão, sem querer ser irônico, Quando lemos um livro, a datação da história não importa muito ao momento da leitura.



4 de janeiro de 2015

PRESENTE


Quando eu ficar velho (Ainda não estou?)
Não me deem meias
Não usarei mais sapatos fechados
E já estarei com a vista fraca para o que não for inteiro.
Me deem sonhos
Não os de padaria
Estarei com a glicose descontrolada
E talvez terei perdido a esperança no futuro.
Não me deem passagens para lugares distantes
Me deem livros
Que poderei viajar sem sobressaltos
Recostado no travesseiro no meu quarto.
Não me deem sustos
O coração poderá ter seus distúrbios
E não mais trabalhar direito.
Contudo
Poderão continuar a me dar música
Que prometo não ficar surdo. 

Imagem em minastenisclube.com.br.

31 de dezembro de 2014

FELIZ ANO NOVO!
Fim de tarde em Icaraí (foto do autor, 14/12/2014).

27 de dezembro de 2014

PREVISÕES IMPREVISÍVEIS DE PAI PRUDENÇO PARA 2015


NOTA PRÉVIA: Este espaço foi cedido “gentilmente” a Pai Prudenço, como sempre. Caso contrário, eu seria “presenteado” com algum olho gordo “ni minha pessoa”, como ele garantiu. Com Pai Prudenço, não brinco, não fresqueio. É mais voluntarioso que o Analista de Bagé.
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Zifios e zifias.
Suncêis pidiro e aqui tá as previsão para o ano que envém aí. Quero dizê a suncêis que demorei um poco mais, por causa de que tou assuntado cos pobrema da tar da Petrobras. É munta gente me pricurando pra resorvê pendença. Finarmente pude pará uns trinta minuto para mandá essas previsão pra suncêis.
Vô começá ca Petrobras meso. O trem lá vai continuá feio. Aquela tar de Venina vai butá mais veneno. Periga até contaminá as gasolina que suncêis usa nos carro e eis pará de andá. As ação da Petrobras vai pará no Pré-Sar. Cuidado!
Já a tar de Eletrobras vai dá um choque n’ocêis. Bem no borso, que é pr’ocêis largá mão de sê besta e pagá os prejuízo que dão tumando banho quente e uvindo musga sertaneja no rádio.
O dono aqui do espaço tumém me pediu pra oiá seu time de futebor. Ni que quano ele me falou que era o Botafogo, sortei uma gargaiada danada. É que num vi futebor no ano escorrido e num tou veno no ano que envém. Posso até fazê uns trabaio de encomenda, cum reza braba, pra vê se ele num trupica na segunda e desce pra tercera. Mas o trem tá feio. Iguar à Petrobras!
O futebor como um todo tá mais pior do que em 2014, que já num foi bão. Suncêis vão vê cada joguinho ruim da peste, que vai dá mais saudade do Garrincha e do Pelé. Acho mió comprá uma prancha e um pé de pato e caçá onda nesse marzão de Deus.
As economia do Brasi, sem aquele tar de Mantega, vai continuá escorregano no quiabo. Conseio quem quisé sergurá o seu que vorte a butá dentro do corchão, que nem antigamente.
A violença vai continuá violenta. Os ladrão vão continuá robano. Tanto o seu cascaio, quanto o cascaio do Brasi. A Puliça Federá vai tê um trabaio danado, mas no fim os devogado vão enrolá as lei e sortá quaje todos ele.
De bão meso é que as muié vão continuá mais bonita que já são. De modo que é bão apurá os óio, trocá as lente dos oclo que é pra mode oiá bem. Já os homi permanece tudo feio cumé que sempre foro. Cruzcredo!
No campo do amô, vai tá tudo certo. Com arguns chifre espaiado por riba da testa de uns e otro. Que é pra num perdê o custume. O qué que se vai fazê, né meso? Ah! E num mexa caquela vizinha gostosa que vive espicaçano suncê, que o marido dela comprô um trabuco na fêra de Caxia.
No campo do jogo, aqueles que fô infeliz no amô tumém vão se dá munto mar. Vão perdê dinhero no bicho, na loteria e nas megasena. Conseio desviá dinheiro pra pinga, que vai dá mais prazê a suncêis.
As viage que suncêis pranejaro pra 2015 só vai ocorrê em 2016. 2015 vai tá de teto baxo o ano intero e ninguém vai pudê levantá voo, nem arribá a bunda do sofá. Conseio comprá revista de turismo que vai sê mió.
No que se refere às otoridade, tudo vai continuá do jeitinho que envém dês que nós nascemo. Vai tê juiz achano que é Orixá e vai tê gente meteno a mão na nossa grana. Dispois, nas inleição, nós vota tudo neles traveiz.
Nas arte e nas saliença, vai tê munto caipira sertanejo ganhano dinheiro às custa dos bobo, tar como uns pagodeiro mixuruca. Conseio suncêis a fugi dessa gente. Eu posso sê até um homi simpres, mas num sô bobo não. E os baile da tercera idade já vai chegá na quarta. É munto véio saliente, sô!
Na tar pulítica internacionar, os arábio e os judeu vão continuá a metê ferro uns nos otro. Nem Oxalá consegue dá jeito nisso. É pió que briga de marido e muié. Se ocê ficá preocupado, vai acabá doente. Conseio largá mão disso tumém. Num são eis que qué briga? Já os tar de Talibã, nem o diabo pode cum eis. Aquele minino roliço da Coreia vai continuá brincano de War, aquele joguim que suncêis dão pros fio de suncêis. E cortano o cabelo daquele jeito ridico, que só ele. Putin vai continuá putim da silva. Ô homim inquiziado! E o Papa Paco vai cansá de puxá as oreia da Cúria Romana e eis vão continuá a fazê ovido moco.
Pessoarmente acho que suncê vai se ferrá em 2015, mas eu vô baxá umas obrigação aqui no meu roncó, pra vê se tiro essa carga pesada da sua cacunda.
Se Pai Prudenço fala, Pai Prudenço cumpre. Bom Ano Novo procêis tudo! Se é que é possive!

21 de dezembro de 2014

HISTÓRIA DE UMA SEPARAÇÃO ANUNCIADA


Ontem passei uma mensagem, via Whatsapp, para meu filho Pedro, que está morando em Vitória, para lhe pedir que me traga o novo CD do Silva, talentoso jovem músico capixaba. Em novembro, quando lá estive, o disco estava em falta na loja próximo ao prédio onde ele mora. Após o OK, vem o pedido dele: "Ah, faça um kit vinil pra mim tb. Que contenha Allman". Ao ler, comecei a temer pelo desenrolar da história. Tanto que lhe mandei um torpedo de volta: Vinis novos, ou dos meus/seus?
Aqui tenho que explicar ao leitor amigo o porquê do meu temor.
Tudo começou há quase trinta e oito anos. Eram os primeiros dias de fevereiro de 1977. Pedro, nascido em 31 de janeiro, adentrou solene no seu novo lar. Primogênito, o pai, muito emocionado, não se conteve e lhe doou sua até então mediana coleção de discos de vinil:
- Meu filho, tudo isso é seu. - falei solene.
À época deveriam ser cerca de oitocentos elepês de várias tendências musicais.
Eu não sabia, então, da gravidade do meu gesto. O menino foi crescendo, assim como a coleção (Hoje são cerca de três mil.). Até que chegou o tempo de lhe comprar também os seus discos: Família Barbapapa, a trilha sonora de Flash Gordon do Queen, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, o próprio Queen, Nirvana, Pearl Jam e por aí afora. Depois vieram os CDs, e pai e filho continuaram a adquirir música na nova mídia, sempre com o desembolso monetário deste que lhe escreve, leitor.  Deste modo começou a se formar uma outra coleção, só dele, exclusiva. E o menino continuou a crescer, formou-se, arranjou trabalho, saiu de casa, namorou, casou, e não se esqueceu dessa promessa, que nunca me neguei a lhe dizer.
Agora recentemente, sua esposa lhe traz de presente, de uma viagem ao exterior, um belo toca-discos, daqueles capazes de reproduzir vinis.
O leitor está acompanhando minha exposição e poderá ver que meu temor tem fundamento. Pois a resposta dele àquela última indagação acerca de que vinis dizia foi: "Os velhos. Meus e meus. Olha a herança!!!". E cravou três pontos de exclamação, para que não restassem dúvidas. Tentou abrandar: "Brincadeira. Depois devolvo. Faz uma seleção. Uns 10.". Na sequência, disse que eu poderia escolher as bolachas e que poderiam ser mais de dez. Resolvi selecionar quinze, para, então, chegar aos vinte.
Veja, leitor condoído da minha situação, a que extremo chega um pai que, num arroubo de sentimentalismo da juventude, promete mundos e fundos ao filho amado. Não sei se, no Livro Sagrado, há história semelhante. Pois esta mereceria estar lá.
Então separei os vinte elepês e lhe explico - e também a ele - os motivos que me levaram a escolher esses e não outros.
De sua coleção – dele mesmo, entenda bem! –, vão os seguintes, que peguei aleatoriamente: Titãs (Go back 1988), Os Paralamas do Sucesso (D, 1987), Legião Urbana (Dois, 1986), Faith No More (The real thing, 1990) e Nirvana (Nevermind, 1991).
Da sua coleção – minha, que lhe passei naquele arroubo –, vão os seguintes, com minha justificativa:
Dentre os nacionais: Alceu Valença (Molhado de suor, 1974), Geraldo Azevedo (Geraldo Azevedo, 1977) Belchior (Todo sujo de batom,1974), por serem os primeiros discos individuais desses artistas, Gilberto Gil (Refavela, 1977) e Novos Baianos (Novos Baianos F. C., 1973). De todos eles, Pedro, em criança, cantava várias músicas, com sua linguagem ainda incompleta, e deles certamente se lembra perfeitamente, já que eles estavam sempre rodando em casa.
Dos internacionais: Atendendo seu pedido, The Allman Brothers Band (Eat a peach, 1972), disco duplo que traz talvez a mais longa música popular que já ouvi: os lados 2 e 4 contêm a execução ao vivo de Mountain jam. Além disso, tem clássicos como Blue sky, com um dos mais belos solos de guitarra de todo o rock, Little Martha, Trouble no more e Melissa. The Beatles (Oldies - A collection of Beatles. 1987), disco que mal ouvi e deve estar novinho ainda. Deep Purple (Machine head, 1972), um clássico do grupo, cheio de grandes rocks, como Smoke on the water e Pictures of home. Focus (3, 1973), o primeiro disco do interessante grupo progressivo holandês lançado no Brasil, que teve um sucesso marcante, Sylvia. Foghat (Foghat, 1972), grupo de hard rock inglês, com acentuada pegada bluseira, tinha duas guitarras que tocavam em uníssono. Genesis (Foxtrot, 1973), disco superlativo, que tem em Supper’s ready uma das mais belas peças que o rock progressivo já produziu. Neil Young (Harvest, 1972) produziu, segundo minha opinião, sua melhor obra com este álbum. O solo de guitarra que ele faz em Words (Between the lines of age) é lancinante. Rush (Power windows, 1985), grupo canadense que é mais cultuado pelos da geração de meu filho do que por mim mesmo. Este disco ainda está novinho. The Who (Quadrophenia, 1973) produziu a sua obra mais brilhante com este álbum duplo. Na verdade, é tudo de Pete Townshend. Por fim, Ken Hensley (Proud words on a dusty shelf, 1973), líder do grupo inglês Uriah Heep, produziu uma pérola. Multi-instrumentista, tocou quase todos os instrumentos das faixas. Destaque para a música título, para Rain, também gravada por seu grupo, e a fabulosa When evening comes
Espero que meu filho goste muito e possa resgatar sons que devem estar em sua memória musical. Quanto a mim, neste exato instante, penso naquele famoso soneto As pombas, de Raimundo Correa, ao ver esses meus/deles primeiros vinis voando da minha discoteca:

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

Imagem em ultradownloads.com.br.