25 de setembro de 2014

SUSTO FATÍDICO


Marido de mulher feia se assusta até com espirro. Pelo menos é esse um dos princípios filosóficos mais banais dos bares e biroscas da vila. E Décio sabia dele, comungava com ele. Por isso fugia de mulher feia como o diabo da cruz. Mas, como não era lá também essa mimosura de pessoa, não podia estar exigindo além da conta. Convencido por esse contra-argumento, tomou a firme decisão de encarar a Carlinda, sobretudo pela sua viuvez espalhada por fazenda de tantos alqueires, montada em lombo de não sei quantas vacas leiteiras e fundada em saldo de vários contos de réis, no Banco de Crédito Rural.

A corte, se é que se pode chamar assim àquela coisa meio desenxabida que ele principiou na festa de Santo Antônio, despertou a atenção de várias futriqueiras. Conversa vai, conversa vem, combinaram um encontro mais engatilhado para outra ocasião, fora dos olhos e dos ouvidos dos curiosos.

E não é que, após as chuvas torrenciais daquele verão, choveu na hora do Décio? O casamento, bem no mês das noivas, teve pompa e circunstância, de acordo com a viuvez da fazendeira.

Antes, porém da lua de mel, no meio da festança, Décio recebe notícia da morte de um irmão, em terras do norte de Minas, para os lados de Pedra Azul. Lá se foi, deixando a fuzarca dos lençóis para daí a dias.
Quatro dias levou até voltar para casa.

Melhor, no entanto, não voltasse àquela hora. Chegando pela madrugadinha, antes da claridade do sol, assustou-se de tal forma com a figura da mulher espalhada na cama, que sofreu uma brochura fulminante.

Hoje, passado algum tempo do consórcio nupcial, está ele em tratamento com doutor de cabeça, para ver se consegue botar as duas para funcionarem ao mesmo tempo.



Imagem em mentesdecontacto.blogspot.com.

18 de setembro de 2014

CONCRETUDE


amar mita
amar gosa
amar gura
amar ume
amar ela
e só a ela
fria e pobre
como ele
quando a come
a boca mole
e segue a fome…



Imagem em comunistas.spruz.com.

10 de setembro de 2014

QUINTA-FEIRA EM ROMA

(Para Jane, Rosa e Rogério.)

Ando pelas ruas de Roma à procura de personagens e cenários de Roma de Felini, de 1972, magistral filme do não menos magistral diretor Federico Fellini.
Aqui cabe uma digressão sexagenária. Tenho como grandes do cinema os diretores italianos: além de Felinni, Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti e Vittorio de Sica. Todos os demais hão de me perdoar.
Mas, como dizia, procurava sobretudo certo largo da cidade, em frente a uma igreja de estilo romano, em que se comemorou com uma lauta macarronada o dia de San Genaro.
Claro que não achei. Nem a igreja de San Genaro, nem o Largo de San Genaro, nem aquele italiano gordo que levou a gigante panela de pasta para o deleite da pequena multidão aglomerada no enquadramento da câmara comandada por Giuseppe Rotunno. Seria impossível achá-los. Mas a cena se estabeleceu em minha memória de forma definitiva. Lembro-me, mesmo, de que saí da sessão no extinto Cinema Icaraí e fui direto para a Gruta di Capri, ainda hoje no mesmo endereço da Rua Miguel de Frias, saciar o desejo por um suculento espaguete.
Mas nem toda a procura se revelou vã.
Na quinta-feira (4/9) à noite, fomos até a margem do Rio Tibre, para comes e bebes. O local, que os romanos chamam de Lungotevere e tem por acréscimo a região onde está, lembra um pouco as margens do Sena, em Paris, onde, durante o verão as pessoas vão para comer, beber; divertir-se, enfim. Tínhamos a indicação de um amigo da Rosa, nossa parceira de viagem, com o Rogério.
O taxista que nos conduziu nos deixou além do rio, no Trastevere, pela ponte Garibaldi, no trecho conhecido como Lungotevere della Anguillara onde estavam armadas várias tendas de comidas, bebidas e badulaques em geral. Durante três meses por ano, naqueles menos frios, isto é uma espécie de diversão dos moradores da cidade.
Descemos pela escadaria ao lado da ponte, até a margem do rio, cujas águas não me pareceram totalmente limpas. Ali, porém, não encontramos nada de interessante, e sobrelevava no ar um cheiro enjoado de fritura de camarão vinda de uma das barracas. Para não passar de todo em branco nossa ida ao local, Jane comprou algumas lembrancinhas. Embora o local fosse agradável, e a temperatura da noite convidativa, retornamos pela ponte e seguimos pela Via Arenula, à procura de um bom lugar para comer. Até que vimos uma ruazinha estreita e simpática – Via de Santa Maria del Pianto –, em que avistamos pessoas sentadas a mesas de bares.
Passamos por uma espécie de tronqueira moderna, que impede a passagem de autos e motos, e, num pequeno largo encontramos alguns restaurantes, um deles, inclusive, com cerca de duas dezenas de crianças que pareciam comemorar o aniversário de uma delas. Curiosamente, ao passarmos, ouvimos um dos pequenos dizer “É tudo brasileiro!”, assim mesmo, na língua de Camões e Tom Zé.
Percebemos que esta é uma área de restaurantes judaicos, pois todos ofereciam comida kosher. Um, contudo, nos chamou a atenção pelo ambiente: o Beppe e i suoi formaggi, cujo nome faz uma evidente alusão ao filme Rocco e i suoi fratelli, famoso drama de 1960 de Luchino Visconti.
Depois de alguma troca de ideias, optamos pelo Beppe e qual não foi nossa agradável surpresa. Estávamos numa casa – como o nome indica – especializada em queijos. Ao abrir a porta, fomos atacados pelo sensacional cheiro dos queijos dispostos dentro de um comprido balcão de vidro. Se o odor sugeria, a visão convidava.
Tivemos sorte de, não tendo feito reservas, encontrar mesa vaga.
O serviço é gentil, atencioso, porém vagaroso, como aliás está assinalado em cada página do cardápio. A pressa ali não tem vez. E foi preciso que recalibrássemos nossas expectativas para aquilo que agora chamam slow food.
Jane e Rosa optaram pela mesma salada verde, com pequenos pedaços de tomates, queijos, nozes e croûtons. Rogério e eu nos deliciamos com uma tábua com oito queijos diversos, produzidos com leite de vaca, de cabra e de ovelha, cada um deles explicado, e colocados na ordem da degustação. Acompanhavam os queijos um pouco de geleia, uma espécie de gelatina de mel e condimentos secos espalhados no centro da tábua, que na verdade era uma folha de metal escuro, com caroços de romã, que deram um toque todo especial aos queijos. Para o toque de harmonia, um vinho branco Elena Walch Pinot Grigio, Alto Adige DOC, pois a noite não estava muito fresca. Ao deixarmos o local, sentado ao lado do balcão dos queijos, um italiano nos saudou com um Viva!, erguendo sua taça.
Saímos dali praticamente purificados. E, para completar o fascínio da experiência, após alguns instantes esperando um táxi que nos reconduzisse ao hotel, fomos surpreendidos por uma bela e jovem taxista italiana, a fazer sua última corrida da noite.
Não se gastou nenhum euro em vão!

Tábua de queijos do Beppe e i suoi formaggi (foto do autor).

5 de setembro de 2014

TIPO ASSIM


Uma época, tipo assim mil quinhentos e alguma coisa, inventaram um país, tipo assim cheio de florestas e flores, de índios, de bichos e de mar muito bonito, tipo assim azul.
Aí trouxeram mais gente, tipo assim da Europa e da África, tipo assim brancos senhores e negros escravos, e começaram a explorar todas as riquezas desse tal país, tipo assim madeira, ouro, diamantes.
Depois de muito tempo, tipo assim quinhentos anos, esse país ficou tipo assim cheio de problemas, de gente, de estradas esburacadas, favelas, pobreza, tipo assim come hoje e não come amanhã, tipo assim fome braba mermo, mermão!
Aí, durante as eleições, o povo, tipo assim os eleitores, deram de eleger gente tipo assim calhorda, canalha, larápia, esculachada, tipo assim despreparada e mal-intencionada, e o país ficou tipo assim uma merda, tipo assim uma bosta mermo, brô!
E o povo, tipo assim todo mundo, não só os eleitores, ficou tipo assim, tipo assado e mal pago. Sacou? É mais ou menos por aí, tipo assim!
Charge de Novaes (em novacharges.wordpress.com).

30 de agosto de 2014

AMARRANDO OS SAPATOS

Van Gogh, O par de sapatos (em pensaacabeca.blogspot.com).

Vivia na guaxa, na zona do meretrício, na margem direita do rio. Tinha até amante. Toda noite passava por lá para molhar o ganso. A mulher mesmo, a esposa de papel passado, mãe dos filhos, já não prestava para nada: gorda como porca cevada. Servia, isso sim, para brigar com ele, aporrinhar seu juízo e, vez ou outra, descer-lhe aquele braço balofo no meio da cara.

Também pudera: ele pequeno, magrelo, minguado e, sobretudo, homem de muita paz, diga-se de passagem! A não ser que tivesse de dar, salvo melhor juízo, data venia, um tiro nela. Isto, nem pensar! Assim, era melhor mesmo, de vez em quando, levar uns cacetes. Tinha lá também suas compensações.

Por causa desta vida de zona, com amante e tudo, fora exonerado do cargo de promotor de justiça ad hoc da comarca. Muito desclassificante tal comportamento em comarca do interior norte do estado. Está bem, conformou-se! Sua banca de advogado dava para o sustento da casa e da vida desregrada, o que era coisa passada em julgado.

A esposa, no entanto, nem sonhava com suas peripécias. Por isso é que, numa manhãzinha de segunda-feira, após uma noitada de esbórnia, estava ele chegando a casa com todo o cuidado para não acordá-la. Sutil como gato, sentou-se na cama, com o indefectível terno, e começou a desamarrar os sapatos.

Um movimento um tanto mais brusco, no entanto, acordou a mulher, que de imediato queria saber o que estava acontecendo. Ele, para não começar a semana levando safanões e contravapores, voltou a amarrar os sapatos, dizendo que tinha assunto urgente para tratar com cliente no Arraial dos Cabritos, no Arrebenta Rabicho, em Sacramento, sei lá.

Ajeitou o nó da gravata, passou a mão no paletó tresnoitado e saiu pela Praça Governador Portela, passo apressado, os olhos ardendo como brasa, sem direito de tirar um ronquinho em sua própria cama, em sua própria casa. E ia ter de tomar o café da manhã no bar do Salim, seu patrício.

Que ele podia ser tudo na vida, menos bobo!


26 de agosto de 2014

SEMPRE UMA NOVIDADE


Seu Fulano estava de saída para a banca de jornal, quando a mulher lhe pede que compre o remédio para o exame que iria fazer.
Quando se chega à idade dos estragos, há um sem número de exames a se fazerem. Aquele, especificamente, era do tipo desastroso: colonoscopia. O leitor mais jovem, com toda a certeza, nunca ouviu falar disso. O que é até razoável. Mas, depois que o Cabo da Boa Esperança é ultrapassado, as invasões corpóreas se dão de norte a sul: examina-se o estômago, por cima; e os intestinos, por baixo. Este é a colonoscopia. A palavra, se meu caro leitor tiver passado por aulas de etimologia, há de ser conhecida. Se não, não me custa dizer: visão do cólon. Quer dizer, é coisa de se introduzir um tipo de mangueira, com uma câmara na extremidade, naquilo que Mussum outrora chamava de forévis, para a prospecção do pré-sal, se é que me entendem. Só de pensar, é de dar arrepios a frade de pedra, aquele lá do Espírito Santo.
Por isso é que, para que a visão intestina não tenha atrapalhos, se faz necessário limpar as tripas de todo tipo de detrito. Então, a recomendação dela para que Seu Fulano trouxesse o laxante, o destranca tripa. Leu ele lá no papel com as indicações do laboratório e verificou: Ducolax ou Lacto-Purga.
- Querida, vou trazer Lacto-Purga.
- Ah, não! Traga outro! Esse, não!
- Por que não esse que já conhecemos?
- É que quero variar um pouco. Não gosto de ficar repetindo coisas.
Ah! a mulher e sua incontrolável mania de novidades!
O marido achou estranho. Que ela quisesse um novo sapato, uma bolsa diferente, um vestido de corte moderno, tudo bem! São novidades previstas no cardápio do estilo feminino de ser. Mas, diabos, querer novidades em laxante intestinal aí já chega às raias da insensatez.
E tentou ponderar com ela que nem sempre é preciso estar inovando, procurando ser diferente. Ela não iria a um desfile de cagonas, onde certamente diria dos benefícios de um novo remédio, da dinâmica da sua ação e das consequências daí advindas. Iria, bolas, apenas desobstruir os intestinos, para que o médico pudesse verificar se não haveria novidades indesejadas lá dentro. Nada além disso, pombas! Até lhe falou, todo cheio de dedos – há sempre de se ter muito tato com o espírito feminino –, do acerto dessa preocupação dela em estar sempre descobrindo coisas novas, para apresentar nas conversas com as amigas. Mas, para tudo, há um limite. Não seria necessário que um simples remédio para provocar caganeira fosse motivo para seu desejo novidadeiro.
Depois de alguns minutos de idas e vindas de argumentos, a mulher cedeu, sob certos protestos, mas resolveu não inovar no remédio desta vez. Ele havia ganhado a batalha do piriri programado. Foi à farmácia e voltou com o bendito Lacto-Purga.

Imagem em agenciailumina.spaceblog.com.br.

21 de agosto de 2014

PEDALANDO POR UM REFRIGERANTE

(Para meu irmão Gutenberg.)


Estamos pedalando pela estrada de chão batido, seco de um verão medonho, e pensando no refrigerante que iremos beber, assim que estivermos de volta.

Às vezes, meu pai nos mandava ir a Apiacá, no Espírito Santo, para comprar peças para suas bicicletas, que ele mesmo gostava de consertar, reconsertar, arrumar, rearrumar, como um exercício monástico para sobreviver na pachorra da nossa vila. Não havia muita coisa que fazer lá. Ele tinha uma pequena venda de secos-e-molhados, como se dizia, na esquina da rua principal, e passava boa parte do tempo, atrás do balcão, olhando a falta de movimento que era o mote comum da vida. Também gostava de pescar no Rio Itabapoana, divisa natural entre o Rio de Janeiro e o território capixaba. E se utilizava sempre da bicicleta inglesa Humber, seu xodó maior, para chegar até seus pesqueiros prediletos.

E nos mandava – a mim e a meu irmão mais novo, Gute – à vila do outro lado do rio, para comprar a relação de peças, escrita num papelucho qualquer: cônicos, esferas, lonas para o freio, raios das rodas, câmaras de ar.

Gostávamos da aventura que demandava pedaladas vigorosas pelos quase dez quilômetros de poeira, numa estrada quase sem veículos motorizados. Era frequente não encontrar com nenhum automóvel durante o trajeto. E o único obstáculo que se apresentava, logo à saída de Carabuçu, abstraído o sol escaldante, era o Morro do Marta, com seu chão de saibro e seu aclive acentuado, que não nos permitia vencê-lo sem que nos desapeássemos das magrelas, então empurradas morro acima.

Contudo, sempre que papai nos dava tal missão, a exigência que fazíamos – se é que se pudesse chamar exigência a um pedido candente – era que nos desse dinheiro para um Crush ou um Grapette na venda do seu Jáder, ainda do lado fluminense, quase na boca da ponte, antes da travessia do rio por uma aparentemente comprida ponte de madeira. Anos depois, passando de automóvel sobre ela, é que descobri que nem tão comprida assim é ela.

Posso dizer mesmo que a maior recompensa pelo serviço, a que não podíamos fugir, era aquele momento de frescor que nos descia garganta abaixo, em generosos goles, sob a árvore gigantesca que sombreava quase toda a encruzilhada e boa parte da venda. Talvez eu nunca tenha provado um sabor tão inesquecível.

Por isso é que, mais esta vez, meu irmão e eu estivéssemos ansiosos por cumprir logo a missão dada: chegar rápido a Apiacá, comprar a encomenda e voltar de carreira até a venda do seu Jáder. O roteiro era meu pai quem traçava, e dele não escapávamos. No entanto, só nós desfrutávamos deste prazer.

Seu Jáder era um homem alto, magro, óculos de aro redondo, sempre de suspensório, que me parecia muito elegante e educado. Morava por ali mesmo, numa casa alta, com alpendre na frente. A venda, imóvel apartado da casa, era uma construção baixa, de fachada larga, como as boas vendas de beira de estrada do interior, com seu sortimento de tudo de que o povo das redondezas necessitava. Sob a sombra da árvore, ela se mantinha fresca para o verão que abrasava lá fora. Seu Jáder tinha refrigerador largo, daqueles bem antigos, para suas bebidas. Com frequência, contudo, por essa época, os comerciantes que vendiam bebidas usavam colocá-las num buraco na terra, que enchiam com sal grosso e serragem. Aí parecia que ficavam geladas. Pelo mesmo, era a sensação que tínhamos. E o Crush e o Grapette geladinhos do seu Jáder eram um alívio para nossa sede.

Por isso é que eu e meu irmão gostávamos tanto deste momento. Como meninos pobres, não tínhamos o hábito de tomar refrigerantes. E aquela viagem era a oportunidade para que saciássemos uma vontade infantil tão barata e corriqueira, mas que impregnou na nossa memória como uma placa de gelo eterno. 

Antiga garrafa de Crush (imagem em produto.mercadolivre.com.br).