5 de novembro de 2013

À BOCA DA NOITE

É tão tarde. Pela noite
Que a tudo escurece
Sem brilho sem luz sem vela
Segue a caminho da morte
Aquele que se revela
A cada passo que dá
Aquele a quem não se olha
Distante seu caminhar
Como quem parte escondido
De todos os semelhantes
Que dessemelhantemente
O desconhecem de fato.
E seguem aquele que mudo
A palavra em rasa boca
Molhada pela saliva
Se cala na viva voz
Aquele que nunca ouve
A boca porta fechada
Ouvidos ávidos fartos
Dos sons dos outros que falam.
E segue à morte anunciada
O que não diz e só ouve
Como se a fala lhe fosse
Pesado fardo a levar.
E bem tivesse palavra
O que escorre da boca
Num borbotão do pensar
Mas cala como se fosse
O som daquilo que fala
Mesmo sentido que tosse
Mais profundo que a bala
Que lhe atravessou a boca.

Noite sobre a Praia dos Ossos (foto do autor em flickr.com/photos/saint-clairmello).


2 de novembro de 2013

SARITA MONTIEL DE ARAQUE

Chamava-se Marilu, mas queria mesmo era se chamar Sarita Montiel e estufar os seios fartos em decotes generosos, a boca breada de batom vermelho. Encasquetou-se com isso, logo depois de assistir ao filme La violetera, com a então famosa e encantadora atriz e cantora espanhola.

Decisão tomada, comunicou às amigas que, a partir daquele instante,  queria ser  chamada de Sarita, e disso não abriria mão.

Os mais novos, que não viram o filme, não sabem do que estou falando, não aquilatam a relevância do assunto. A figura de Sarita Montiel ocupava desde o cartaz do filme afixado à parede do majestoso Cine Monte Líbano, até a tela, a sala de projeção, bem como os sonhos dos jovens e a inveja das mulheres. Era coisa de cinema! Uma visão portentosa!

Deste modo, Marilu, aliás Sarita doravante, mudou todo o seu guarda-roupa, renovou a maquiagem e providenciou penteado compatível, a fim de evidenciar, ainda mais, a possível semelhança que vislumbrava ter com a espanhola famosa.

E foi assim, emperiquitada de Sarita, que adentrou o salão de bailes do seleto e refinado Aero Clube de Bom Jesus, quando a Orquestra Românticos de Cuba executava Besame mucho

Foi uma devastação o que ali se produziu. Não houve cabeça que não se virasse em direção àquela manifestação de fama, beleza e glória. Mais de um rapaz, inclusive, chegou a engolir o cigarro mal acabado de ser aceso. Uma e outra despeitada, ao retocar o batom, teve um siricotico de fazer risca vermelha em queixo caído. O tocador de pistom, esse então, não conseguiu segurar a nota longa da canção e teve de ser socorrido com falta de ar. O baile só não parou porque o presidente do clube, Taumaturgo Tavares, chegado um pouco antes, exigiu compostura dos membros da orquestra e dos dançarinos.

Sarita dirigiu-se à mesa reservada, através de um corredor aberto na diagonal do salão, soberana e envaidecida. Nunca ninguém, em tempo algum, até aquele exato momento, tinha causado tanto reboliço nas dependências do Aero Clube. Nem na eleição da rainha da Festa de Agosto de 1960, quando duas belas candidatas, disputaram voto a voto o escrutínio, com suas torcidas entusiasmadas.

O problema, no entanto, surgiu no dia seguinte, na ressaca do baile, como se diz. Bom Jesus passou a não ter mais rapaz algum que, de longe, se arvorasse em candidato ao coração de Marilu, ou melhor, Sarita. Isso, no entanto, ela só percebeu com o passar dos dias, das semanas e dos meses. Até que resolveu perguntar à sua amiga mais chegada o motivo de já não receber galanteios. Maria Célia foi sincera, foi taxativa:

- Sarita, com a ostentação que a sua pessoa adquiriu, ninguém tem peito nem pra chegar perto de você. Nossa cidade ficou pequena para o seu esplendor. Aqui você vai acabar sozinha, igual à Mona Lisa: admirada, mas intocada.

Sarita tomou um susto, quase desfaleceu. Não investira tanto para ficar pra titia. O objetivo era, justamente, o contrário. Mas, percebendo que a amiga estava forrada de razões, na semana seguinte deliberou fazer as malas e se mudar em definitivo para Niterói, na certeza de que o campo era maior para esparramar sua formosura sem par.

Quando lá chegou, teve decepção ainda maior: os mancebos da terra de Arariboia, a antiga e leal Vila Real da Praia Grande, estavam todos apaixonados por Barbarela e Jane Fonda, ao mesmo tempo, e disso também não abriam mão!


A atriz espanhola Sarita Montiel, no auge da beleza (em ofalcaomaltes.com).

29 de outubro de 2013

LIBERDADE REVISITADA


deste morro tão baixo é que te vejo pequena
liberdade
e conto sem dificuldades tuas lâmpadas pelas ruas
pontilhando tua pouca iluminação
ainda agora ampliada pela do morro da caixa-d'água.
tudo em volta é o que sobra da escuridão dos pastos
e da pouca lavoura que restou para teus filhos
que não enchem mais tuas ruas acanhadas
nos finais de semana como outrora.
há noites e noites em tua história sem fulgor
ó liberdade
e os dias se sucedem mostrando o teu vazio de agora.
nem tua festa anual é tão cheia
quanto os corações encantados dos teus filhos.
nem tua preguiça rotineira é tão devagar
quanto o tempo que não corre em nossa memória.
tuas casas ainda continuam olhando os passantes
sem querer retê-los indefinidamente.
é que de teu calçamento sobreleva alguma pressa
trazida pela estrada de asfalto
a comprovar tua ligação com o mundo exterior.
mas fora de ti
doce liberdade
a vida é um compromisso feito apenas de frio e dor.

(PS: Liberdade era o antigo nome da vila onde nasci, Carabuçu.)

Van Gogh, detalhe de Noite estrelada (em viagem.uol.com.br).


25 de outubro de 2013

DE ESTUPIDEZ EM ESTUPIDEZ, CHEGAREMOS À SABEDORIA

Talvez um dos estágios mais chatos da inteligência humana seja a sabedoria.

Imaginem se todos os homens fossem dotados daquilo que se convencionou chamar de sabedoria. Ou, pelo menos, imaginem um homem sábio. Sábio vinte e quatro horas por dia. Haverá de ser uma chatura só!

O que nos move adiante, o que nos faz nunca parar, nunca desistir é insistir em fazer besteira, em pensar bobagens, em ser estúpidos.

Aí está a mola de todo o progresso: a estupidez humana. Pois o sábio, certamente, terá respostas para todas as questões; ou, se não as tiver, terá perguntas interessantíssimas a fazer. Há até propaganda neste sentido. Já os demais seres comuns vivem dando cabeçadas, procurando caminhos, no intuito de, um dia, também chegar à suprema sapiência.

No entanto, tem ocorrido com frequência que certas expressões de estupidez são estúpidas demais. Coisa de não se acreditar!


Advertência do site português megaphone.pt.

E olhem que não estou falando aqui dos que creem em milagres com hora marcada, em espertalhões de todos os credos que vivem de oferecer o paraíso por um precinho módico. Refiro, simplesmente,  coisas mais banais, corriqueiras.

Outro dia mesmo, ouvi um médico renomado dizer, em canal televisivo, que está quase chegando o momento de se pedir desculpas ao colesterol, pelo tanto de aleivosias que assacaram contra o pobre coitado, responsabilizado pela quase totalidade dos problemas cardíacos. Isto em função de a ciência (acho que é com letra minúscula mesmo) ter descoberto que o problema não é o colesterol. O problema do entupimento de vasos sanguíneos é de uma inflamação, que retém o colesterol. Este mesmo tem todo o direito de viajar pelo sistema de vasos do organismo. Agora, segundo ele, a Medicina tem de dar um jeito é nesta inflamação das artérias.

Ao ovo e à carne de porco, também já há pedidos formais de desculpas. Inclusive andam dizendo que a carne de galinha é pior para a saúde que a de porco. Eu, pelo menos, jamais deixei de comer qualquer delas e vou vivendo, mesmo aos trambolhões, mas com certo prazer.

Vai chegar um tempo – e já disse isto alhures (ô, palavrinha mais antiga!) – que se comprovará que o colesterol bom faz mal e que o colesterol ruim é bom pra caramba. Não houve um tempo em que se receitava fumar cigarros para combater certos tipos de problemas, sobretudo os de fundo nervoso? O próprio planeta que habitamos já não foi o centro do Universo?

Estas são manifestações da estupidez com data marcada e prazo de validade. Somos expertos neste tipo de coisa. Posteriormente, vêm outros especialistas que desdizem o que os anteriores disseram e por aí vai.

Já ouvi, por exemplo, especialista dizer que o homem, erroneamente, é o único mamífero que bebe leite depois de desmamado. E disse isto com toda a certeza de que quem assim o faz está quase cometendo uma heresia alimentar. Ao desmamado não caberia o direito de tomar leite!
Que grande bobagem, que grande asneira! Este mamífero, primata, bípede, implume, metido a besta, também bebe cerveja, vinho, cachaça, água com gás, cuba libre, vodca, o diabo a quatro. E por que não pode beber leite? Só por que se desmamou?

Também disseram que temos de tomar, no mínimo, dois litros d’água por dia, sem o que comprometeremos nossa saúde. Uma médica inglesa, todavia, afirmou que não há nada de científico nisto, já que, quanto mais líquido você tomar, mais sobrecarregará seu rim. Segundo ela, o ser humano tem de beber a água de que necessite, quando está com sede. Esta segunda estupidez me parece mais sensata.

Há tempos, também na tevê – no programa Sem Censura –, uma “especialista” “descobriu” que, se tivermos problemas estomacais, devemos comer bucho de boi (dobradinha), porque há certas propriedades nele que se assemelham às de nosso estômago. Assim também, para os que tenham algum problema cardíaco, comer coração ajuda. Naquele instante, minha mulher, encantada com esta estupidez racionalizada, chamou minha atenção. Detonei o argumento, perguntando se teríamos de comer o cu do boi, se tivermos problemas de hemorroidas.

Eu tenho uma dificuldade terrível para acreditar no inacreditável. Por exemplo: simpatias, mandingas, horóscopo, quiromancia, cartomancia, piromancia, mapa astral, Tarô, vidente, baralho cigano, etc. Recentemente descobriram novo signo do zodíaco. E agora como é que ficam todas as previsões feitas com base apenas naqueles doze anteriores. Não muda nada? Ah, é! Então o troço não funciona! Então muda? E como ficam as previsões feitas sobre bases erradas?

O grande problema da estupidez é que, por vezes, ela se solidifica no seio da sociedade e passa a valer como verdade certa e insofismável. E atinge ares de sabedoria.

E é aí que estaremos todos lascados!


21 de outubro de 2013

POEMA GASTROERÓTICO

Eu quero o teu queijo voluptuoso
Incendiando meu nabo nacarado
Sentir os teus aspargos quentes
Em torno do meu porco aconchegado
E molhar com minha língua ao molho
O teu bolo em dois nacos afastados
Sorver o caldo dos teus melões rosados
Lamber os esconsos do teu coco
E penetrar-te a vagenzinha tépida
Com os meus picles loucos
Para que enfim um dia
Possamos realizar
Todos os nossos sonhos de padaria

Imagem em ahmanolo.blog.br.

18 de outubro de 2013

NEQUINHA CAPADOR

A fama de Nequinha Capador varava os limites do quarto distrito de Bom Jesus do Itabapoana, a vila de Liberdade. Vinha da Serra da Capetinga, cortava terras da Forquilha, do Jacó, passava pela Vala, pelo Coleto, adentrava as ruas da vila, daí partindo em direção às terras da Fazenda da Liberdade, da do Dr. César Ferolla, ou desviava para o Chico Anacleto, o Paulo Barroso. Adentrava depois o Mutum, subia até a Serrinha, rodeava a Sesmaria, variava para o Corgo Seco, e amenizava, na volta, já próximo ao Espírito Santo, nas imediações do Jáder Figueiredo. Como veem era uma fama descomunal, abusada, ostentatória. Por isso ninguém deixava de contratar os serviços técnicos de Nequinha Capador, quando o assunto era emascular qualquer bicho doméstico: boi, porco, bode, dentre outros.

Alguém que se dispusesse a dividir a praça em negócio de castração de bicho estaria fadado ao fracasso. Como ocorreu com um brancarrão alto, bigode de ponta virada, que apareceu na vila pelos meados da década de cinquenta. Pois desistiu do serviço e passou a criar pato numa lagoa próxima à fazenda do Nilo Souza.

As mãos de Nequinha pareciam feitas para o serviço: suaves, quando precisavam ser suaves; vigorosas, quando o serviço assim o requeria.

E não cobrava barato o Nequinha. Serviço seu tinha o devido valor, a depender do tamanho, da raça e da brabeza do bicho a ser capado. Não fazia era distinção da extensão da propriedade do dono do bicho. Fosse ele enricado ou por enricar, o que botava preço no serviço era o bicho e suas artimanhas.

Sempre, na vida de qualquer vivente, há um porém, há um contratempo, um senão. E não podia deixar de ser diferente na de Nequinha.

Chamado a um serviço na Fazenda da Matinha, Nequinha foi devidamente avisado de que seu paciente era um garrote enquizilado, cheio de nó pelas costas. Ele, que nunca demonstrou medo de nada, disse para o emissário da fazenda:

- Deixa comigo, conheço meu ofício, sei o que fazer.

No dia marcado, chegou na sua mula baia garbosa e foi logo indagando do paciente, onde estava, como é que estava, coisas e loisas.

O bicho estava isolado em uma divisão do curral, previamente limpa e preparada para a castração. Parecia ter sido avisado pelos deuses dos animais do que lhe iria acontecer. Ou talvez, quem sabe, a fama exorbitante de Nequinha já tivesse chegado aos ouvidos do garrote?

Nequinha, para mostrar superioridades e segurança, olhou o bicho nos olhos, no que foi correspondido de forma ameaçadora e fuzilante. Nesse instante, a convicção de Nequinha experimentou uma friagem esquisita. Para espantar aquele mau-olhado, raspou a goela, pediu uma dose da afamada cachaça produzida na fazenda, pegou os instrumentos do ofício e entrou no cercado onde estava o futuro castrado.

Entrou jeitoso, cheio de disfarces, na tentativa de iludir o pobre animal. O bicho bufou, raspou o casco no chão, ao que Nequinha respondeu com aboios suaves para amansá-lo. O bicho negaceou, Nequinha negaceou, e ficaram os dois se estudando. Quando o castrador, com tapinhas leves na anca do garrote, resolveu dar a volta por trás, no intuito de verificar o tamanho do material a ser extirpado ou aniquilado, por incrível que possa parecer, levou um coice com tal peçonha em suas partes, que foi lançado contra a cerca do lado oposto. Com um grito lancinante, ficou estendido no chão, o bicho com os olhos fixos nele, bafo quente nas narinas, a baba escorrendo da boca.

O pessoal da fazenda puxou Nequinha por debaixo da tábua do curral, ele desfalecido pela dor, o corpo na consistência de maria-mole, e o depositou sobre a prateleira dos latões de leite. O fazendeiro mandou o filho correr a casa para pegar o álcool canforado, com o qual trouxe Nequinha de volta ao juízo normal. O homem gemia, que gemia, e ficou deitado ali por um bom tempo.

Por uma questão de bom senso, o fazendeiro hospedou Nequinha por aquela noite na fazenda e mandou seu filho, na manhã seguinte, levá-lo de caminhonete à cidade para consultar médico doutor de gente, porque estava com preocupações profundas acerca da saúde do profissional.

Examinado de norte a sul, de leste a oeste, pelo doutor Valdir, teve o pior diagnóstico que um capador poderia ter em toda a vida: o coice pestilento do garrote castrou Nequinha, deixando-o roncolho para o resto de seus dias, sem possibilidades de produzir novos capadores em terras de Liberdade.

O reino animal estava vingado!

14 de outubro de 2013

REBOCADORES

Rebocares na Baía de Guanabara (foto do autor)

Os rebocadores
- na baía -
Fundeados
Aguardam
- um dia - 
 As dores que rebocar.