17 de julho de 2013

SOGRA NA CABEÇA

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos em 30/3/2010.)
Sonhou com a sogra e quis jogar no bicho. Como não há piranha, cravou na vaca. Faturou uma nota razoável. Espalhou para todo mundo. A sogra ficou sabendo. E, se já tinha uma birra danada do genro, um pau-mandado sem a menor compostura, um zé-ninguém, aí é que ficou queimada. Mandou dizer ao desfibrado que não lhe cruzasse o caminho, não pisasse sua casa, nem em caso de morte ou de diarreia prolongada, que ela não responderia por si mesma, pelos seus atos. A filha, a desinfeliz que foi casar-se com uma besta daquela, não se metesse. Ficasse lá com aquele monte de merda, que ela não precisava de filha que deu tão péssimo passo na vida.
Quando soube da reação da sogra, foi beber cerveja no bar de tão alegre. Gostava de ver a velha caninana soltando fogo pelas ventas, cuspindo marimbondos.
Tornou a sonhar com a sogra e, novamente, quis jogar no bicho. Como não há égua, jogou no burro e na cobra. Ganhou no primeiro e no segundo prêmios. Faturou uma nota de respeito, maior que a anterior. Tornou a contar para todo mundo. A mulher pediu-lhe discrição, deixasse de implicância com a mãe, ela, coitada, viúva tresnoitada e carente.
Mas, não se sabe por que portas travessas, a sogra ficou sabendo de tudo com detalhes, até do riso escrachado dele quando viu o resultado da extração das quatorze horas. Sem pestanejar, municiou o trinta-e-oito do falecido, pegou a bolsa e tomou o Praça XV-Maria da Graça para achar o canalha.
Imagem em expressodooriente.com.
Em casa não estava, a filha desesperada, mãe não faça besteira. A sogra foi até o bar, onde o pulha costumava tomar alguns pileques. Lá estava ele, no meio de uma roda de desocupados das tardes de terça-feira, arrotando vantagens, vomitando superioridades. Sem com-licenças boas-tardes, a coroa entrou no bar vendendo azeite, cheirando a chifre queimado, catingando chamusco, espumando pela boca. Meteu a mão na bolsa, tirou o tresoitão municiado e remuniciado, tambor abarrotado de balas, e mirou nas ventas do filho-de-uma-égua.
Ele, dona Doquinha pra lá, dona Doquinha pra cá, minha sogra o que é isso, tenha juízo, tome tenência, cuidado que isso dispara, pelo amor dos seus netos.
Ela, seu cachorro bernento, seu miserável, postema infectado, pau-de-amarrar-égua, meto-lhe um tiro na caixa-de-catarro se você não se ajoelhar aos meus pés e me pedir perdão, se você não beijar o chão e não lamber a sola do meu sapato, se não disser pra essa cambada de frouxos que você é um frouxo também, um mariquinhas, um joão-ninguém imprestável, e pode começar senão a máquina-de-fazer-viúva começa a pipocar.
Foi só acabar de dizer isso tudo e sapecou logo um tiro na aba da orelha do paroleiro, a fim de mostrar que não estava para conversa fiada.
Orelha chamuscada, o capacho começou a pedir perdão minha sogrinha, não faça besteira, que eu gosto muito da senhora. E beija o pé, e beija o chão, e lambe a sola do sapato da destemperada, além de se mijar todo feito criança de urina solta.
A sogra, trepada nas tamancas, por cima da carne-seca, ainda deu-lhe um chute nos bagos, de ofender a masculinidade, e pipocou mais uns dois tiros no bar, para arrematar tudo bem dentro dos conformes. E saiu feito um marechal-de-campo após a batalha vencida.
O desqualificado ainda teve de passar um pano de chão na vergonhosa poça de mijo no salão do bar.


14 de julho de 2013

ENQUANTO CUIDO DO MEU NETO


(Para meu pai Argemiro, in memoriam, e meu neto Francisco.)

Enquanto cuido do meu neto

Vem-me à memória

Com forte odor afetivo de muitos anos

As maçãs que meu pai trouxe na mala

Ao voltar do Rio de Janeiro

Num dia qualquer da minha infância


O cheiro doce das maçãs

Recendia no quarto único

Da casa pobre do interior

E me fazia viajar por lugares

A que nunca havia ido – nem jamais fui –

Nem mesmo desconfiava que existissem

Mas que supunha estarem muito longe da vila

Lugares destinados apenas a produzir maçãs

Olorosas que  elas

A ficarem definitivamente em minha memória olfetiva

Esse misto inseparável de nariz e lembrança

Que o tempo constrói dentro da gente

Indelevelmente


Meu neto está aqui ao lado

Miúdo indefeso inocente

E nem desconfia de que quem cuida dele

Neste exato momento

É apenas um menino perdido num tempo ausente


Paul Cézanne, Natureza morta com maçãs, 1890 (em ruadireita.com).

12 de julho de 2013

NÃO SE META COM CAMPISTA

 (Publicado originalmente em Gritos&Bochichos em 15/10/2010.)
Na venda do Alcides, em Cacimbas, quase tudo acontecia. Nesse dia, Marino e Mariano se engalfinharam por uma ninharia: saber qual dos dois conseguiria, em menor tempo, o amor de Mariana, donzela bonita e prendada, sonhada por todos.

Claro estava que nenhum dos dois conseguiria. Onde já se viu ficar discutindo isso em venda de beira de rua, movidos a doses de genebra e conhaque de alcatrão?

Mas, enfim, estavam os dois ali agora atracados um ao outro, rolando no chão do armazém, com uma chusma de beberrões em volta, atiçando ainda mais a fúria dos desafetos. Se não fosse a disposição do dono do estabelecimento, o campista dobrado de nome Alcides Oliveira, que pulou o balcão com um chicote na mão e entrou de lambadas na cacunda deles, os dois talvez estivessem brigando até hoje.

Nessa época, São Francisco do Itabapoana atendia pelo nome de Cacimbas e tinha duas ruas em forma da letra T: uma chegava e não saía e a outra ia e não voltava. No chão, em lugar de pedra, asfalto ou barro, era areia o que se via, por muito próxima da praia de Guaxindiba.

Vez e outra, Alcides tinha de tomar atitudes para pôr ordem na casa. Morava atrás, com a família numerosa, cheia de meninos e meninas, uns já mais crescidinhos, e não podia tolerar qualquer balbúrdia em seu estabelecimento comercial.

Quando, enfim, conseguiu agarrar Marino e Mariano pelo colarinho, levou-os até a porta, aos safanões, ordenando que só voltassem depois de curada a carraspana. Também não podia ser radical para não perder a rala freguesia de uma vila quase sem ninguém.

Num senão as coisas voltaram aos conformes.

Passou-se uma semana e lá estão os dois de volta, sóbrios, conversando pela rua. Alcides os avista de dentro da venda e se previne: põe o chicote ao alcance da mão.

Os dois entraram com a cara mais deslavada do mundo, cheios de boas-tardes seu Alcides, como tem passado. Para não parecer mais turrão do que de fato era, Alcides respondeu. Mas foi só o primeiro pedir uma dose de genebra, para advertir que não queria confusão, discussão e briga, por causa de mulher. Os dois disseram para não se preocupar, que aquilo tinha sido um destempero que não voltaria a acontecer, as pazes já tinham sido refeitas, eles amigos de infância. Toda essa ponderação liberou Alcides para servir a dose de bebida.

Conversa vai, conversa vem, bebericam daqui, bebericam de lá, comem um naco de salame, uma fatia de charque do Rio Grande, a temperatura começa a esquentar. Agora não mais sobre Mariana, mas sobre Goitacás e Americano. O meu time é melhor, o seu não tem tradição, lembra da goleada de domingo passado, isso foi um acaso. O Alcides só de olho!  Num vintém de tempo, sem que o cuspe chegasse ao chão, a turma presente na venda se dividiu na discussão sobre os dois times, até que o caldo entornou. Saiu sopapo para todos os lados, de ninguém se entender. Todo mundo batia e apanhava, indistintamente.

Alcides, vendo que o chicote era pouco para a gravidade da ocasião, correu lá dentro do quarto, de onde já veio com a garrucha engatilhada. O tiro ribombou por cima do topete dos briguentos, com os chumbos se aninhando no alto do forro da venda, de pé direito avantajado. Foi um deus-nos-acuda! Mais de dez saíram espremidos pelas duas portas da venda, na velocidade do ciscar de uma galinha, como se os corpos todos fossem apenas fantasmas apavorados.

Já do lado de fora, alguns ainda pediram calma seu Alcides, será que a gente não pode nem discutir futebol mais aqui?

Por essas e outras é que Alcides vendeu o estabelecimento, incluída a casa, o quintal cheio de pé de fruta, galinheiro com galinhas, patos e marrecos, chiqueiro com cachaço, porcas e leitões, cacimba cheia, e foi se estabelecer na chegada da vila de Liberdade, na curva dos eucaliptos, em terras de Moacir Monteiro, na estrada que ia e voltava, para todo o sempre.



Imagem em areialvirtual.blogspot.com.

10 de julho de 2013

CORTEJO

(Publicado orginalmente em Gritos&Bochichos em 18/3/2010.) 
meio-dia, sol a pino.
há um enterro na vila.
rumo ao morro da coreia
segue o féretro cansado,
levando um morto estimado.
e é possível sofrer
com a morte, mesmo o calor
sendo mais forte, escaldante,
que a lágrima que brota
do rosto de cada um.
é que dos olhos escorre
um suor, tipo de sangue:
são nossos poros que choram,
quando já ao coração
é proibido chorar.
segue o féretro ritmado
ao cemitério do morro,
enquanto todas as lágrimas,
rolando, olhos e rosto,
como se fossem um riacho
cheio de pedras, de seixos,
fazem com que o coração
despenque de morro abaixo.
e dentro do ataúde
um pouco daquela gente.
Cândido Portinari, Enterro da rede, 1944 (em arte.seed.pr.gov.br).



8 de julho de 2013

O CANALHA


Alfredinho Pestana nasceu com vocação para a canalhice. Dona Benedita, a parteira que o trouxe ao mundo, nas imediações do Largo do Boticário, notou isso, quando puxou o moleque pelas pernas. Desde a idade mais miúda, começou a dar mostras do que seria no futuro.
E passou pela infância e adolescência exercendo esta virtude tão nobre ao espírito de certo tipo de gente.
Ao lhe chegarem os primeiros fiapos no buço, tratou de desenhar um bigode que só os canalhas usam. Desses que, ainda que o cidadão não o seja, ao fazer aquele desenhozinho sem-vergonha na aba do beiço, transformam o sujeito num canalha de imediato. Com reconhecimento por onde passe.
E, amparado nesse bigode, foi que um tio deputado estadual lhe arranjou emprego na companhia de águas e esgotos da cidade. Alfredinho Pestana, também Pestaninha para os da sua laia, entrou pela janela, como se dizia, e tratou de nunca dar expediente integral, nem quotidiano, a fim de que o chefe não se habituasse à sua impoluta presença na repartição. Mas sempre estava lá, no espaldar da cadeira, o paletó manjado a denunciar sua ausência do recinto.
Há canalhas que têm certo aplomb. Alfredinho era um desses. Quem o visse à distância, sem que lhe ouvisse as cascatas de canalhices a sair pela boca, poderia tomá-lo por lorde inglês decadente, ainda procurando manter certa pose. Era uma figura meramente figurativa, sem conteúdos humanísticos e intelectuais.
Na época em que reinou nas imediações da Rua do Mercado e adjacências, no início da segunda metade do século passado, dava-se ao desplante de sussurrar saliências nos ouvidos de moças que passassem ao seu derredor. Na esquina da Rua da Quitanda com Primeiro de Março, até conseguiu produzir uma depressão na calçada de pedras portuguesas, de tanto estacionar ali sua pessoa, na ânsia de conseguir que as canalhices que dizia às moças surtissem algum efeito. E, não raro, saía ele de compromisso apalavrado para o hotelzinho furreca que ficava na esquina de Rosário, o qual, muitos anos depois, desabaria de tanta vergonha cometida em horário de expediente laboral.
Alfredinho não tinha na cara nenhum lustre a perder e não se ofendia com as respostas malcriadas que recebia pelas platibandas da maioria das mulheres com quem se engraçava. Sabia que o princípio básico que rege a canalhice é a cara de pau. E se fiava na lei das probabilidades matemáticas, para produzir um sem-número de frases de duvidoso efeito a se lançar à cata de corações incautos. De dez, uma que caísse era, como se dizia, naquele tempo, macuco no embornal. E o resto, depois, era saçaricar na porta da Colombo, com seu costumeiro grupo de canalhas profissionais, que teimavam em fazer resistir uma tradição em vias de extinção.
Mas como, até para os canalhas, o mundo não é um mar de rosas, deu de cair em suas graças mulata bem apessoada, moradora das imediações da Gamboa, quase chegando ao Santo Cristo, que lhe rendeu aborrecimento de grande vulto.
Imagem em artedaqui.com.br.

A tal mulata, cujo nome de batismo era Gerusa, tinha portentosos talentos físicos a emoldurar sua pessoa, tanto que, ao passar, era como se um tufão varresse os pescoços masculinos para um só lado das calçadas do centro da cidade.
Como são inescrutáveis a lógica e a mente feminina, a mulata acreditou piamente em todas as mentiras deslavadas que Alfredinho lhe expôs e passou a enganar seu parceiro de longa data, um mulatão dobrado, que atendia pelo codinome de Absoluto e dava plantão como x-9 na delegacia da Praça Mauá, nas noites de fim de semana.
Absoluto não era – para não fazer um trocadilho infame – absolutamente uma pessoa sensível e de coração macio, de modo que, ao saber dos pulinhos de sua mulata, através de ligação anônima para um daqueles antigos telefones de repartição policial, tratou de dar um flagrante delito na sem-vergonhice dela.
E foi achar Alfredinho deitado na cama, em ceroulas brancas, meias até o meio da canela, piteira baforando fumaça pelo quarto do hotelzinho hoje inexistente. Gerusa, naquele exato instante, fazia a higiene parcial de sua mulatice, a fim de deixar a área de lazer mais limpa que corredor de berçário de recém-nascido.
Sem tempo de perceber o que acontecia, Pestaninha foi posto a pescoções escadinha abaixo, naquele trajezinho comprometedor, até a porta da rua, e entrou no primeiro lotação que passava pela Primeiro de Março, virando motivo de chacota para os passageiros das quinze horas.
Da mulata Gerusa ele nunca mais soube, nem notícias procurou, com medo de que Absoluto perdesse em definitivo as estribeiras e encomendasse sua alma às profundas do inferno.
No dia seguinte, a Luta Democrática, de Tenório Cavalcanti, informou o infortúnio de Pestaninha, em página interna, sem muito destaque, já que não havia corrido sangue, interesse primordial do diário, tendo-se constituído apenas em entrevero de somenos importância.
Como bom canalha que era, Alfredinho Pestana nunca tomou tenência na vida, mesmo depois do vexame por que passou. Apenas procurou, a partir de então, saber dos antecedentes amorosos de suas conquistas, de modo a não expor, em demasia, sua pele a desgastes irreparáveis.

6 de julho de 2013

A NOITE

Não há silêncio na noite que açambarca
O pouco da vida que alucina

A noite geme
A noite grita
E estraçalha

A solidão se espraia
No fundo da noite ingrata
Que deixa o coração dos homens enregelado

A noite opera seu milagre inverso
Transforma crise em verso
Verso em agonia
Agonia em sonolência

E sob o peso enfim de certa dormência
Que se vai aos poucos apoderando dos meus nervos
Sucumbo
E durmo
Aterrado por soturnos pesadelos
Que vão enfim anunciar o fim do mundo

Noite sobre a baía (foto do autor em flickr.com/photos/saint-clairmello).

4 de julho de 2013

A MÚSICA DO MEU TEMPO

(Publicada originalmente em Gritos&Bochichos em 24/3/2010.)

a música do meu tempo varou meu peito
atravessou meu coração
e plantou raízes desenterradas

a música do meu tempo soou nos tímpanos cansados
e reverberou na língua seca e áspera
as notas dissonantes do amor

a música do meu tempo invadiu meu quarto
e vibrou nas paredes e descompassou as cortinas
deixando o ambiente desarmônico

a música do meu tempo calou sua melodia
e o meu peito não mais chorou a dor de viver
apenas solfejou uma estranha canção de resistir
 
Imagem em sinfoni.com.br.