31 de maio de 2013

INFESTAÇÃO (GENTE)



Do Oriente longínquo
Até o mais remoto Ocidente
Mora gente

No polo de cima
E no polo subjacente
Mora gente

No deserto mais árido
E no Fértil Crescente
Mora gente

De onde o sol nasce
Até seu poente
Mora gente

Lá nos cafundós do judas
Ou bem aqui em frente
Mora gente

Nas planícies sem fim
Nas matas fechadas
Em cavernas de pedra
Infestadas de bicho
De mosquito e serpente
Mora gente

Na ilha mais afastada
Na montanha mais pendente
Mora gente

Onde tremelica a terra
E o vulcão é bem potente
Mora gente

Em terras de gelo perene
Ou de um braseiro de quente
Mora gente

Sobre palafitas nos mangues
E em dunas semoventes
Mora gente

Onde há comida abundante
Onde a comida é carente
Mora gente

Sob a mais cruel ditadura
Ou a liberdade mais abrangente
Mora gente
Mora gente
Mora gente


Uma tenda mongol (em olivrodaareia.blogspot.com).
 

29 de maio de 2013

A TORCEDORA


Todo dia de jogo do time do falecido, a viúva chorava copiosamente. De remorso.

Em vida dele, vivia de implicância contra aquele seu gosto esquisito por futebol, e o ritual que ver uma partida do time de coração exigia. Em primeiro lugar, abria a bandeira no arremedo de varanda, muito mais um balcão sobre a rua movimentada, só para implicar com o vizinho de frente. Já paramentado com o uniforme completo do clube, exceção feita apenas à chuteira, pois usava tênis, sentava-se numa confortável cadeira, mesinha com a cerveja do lado direito, os tira-gostos num banquinho do lado esquerdo. Começado o jogo, só se levantava para ir ao banheiro no intervalo. E atendia apenas solicitação da mulher se se tratasse de incêndio incontrolável em algum cômodo do apartamento. Se fosse fogo menor, ela que jogasse um balde d’água em cima. Fora isso, não lhe dirigisse a palavra, sobretudo se seu time estivesse perdendo. E, pior, deveria servir-lhe nova cerveja, tão logo aquela acabasse.

A mulher tinha verdadeiro horror àquilo tudo. Não via hora de pôr um ponto final na extravagância do marido.

Até que um dia, aos quarenta e oito minutos do segundo tempo, na final do campeonato estadual, seu adorado time levou um gol em impedimento, que Sua Senhoria, aquele filho de uma que ronca e fuça, não marcou, e lá se foi a possiblidade de se tornar bicampeão e esfregar a faixa na cara do Marquinho Solidão, seu colega de repartição e odioso torcedor do inimigo. Aquilo foi tanto para seu coração, que ele empacotou ali mesmo, com estardalhaço, grunhindo como um porco ferido por potente peixeira. E esparramou seu cadáver defunto diante da tevê, a mulher gritando lá da cozinha para que ele parasse de fricote e se comportasse como um ser civilizado e não como um viquingue invadindo a costa da Islândia.

Ao chegar à sala, para inteirar-se da situação e tentar pôr ordem na casa, encontrou o marido em estado de passado desta para a melhor, em passivo baixado do rol dos viventes, dívida extinta.

Ela se desesperou.

Gritou pelos céus que lhe salvassem o marido. Deu-lhe socos no coração de partir costelas, fez respiração boca a boca, como se beijasse um leitão estertorando, mas não houve solução para a morte. O marido tinha sucumbido à roubalheira daquele juizinho safado. Os impropérios contra a genitora do árbitro foram as derradeiras palavras do homem. E nada mais de inconveniente saiu daquela boca cheia de dentes, emoldurada por bigodinho de cantor de seresta.

No velório, a viúva não se cansava de explicar a todos que a vinham cumprimentar como se dera o passamento daquela alma agora cândida e perfumada. Só lhe tinha palavras elogiosas. Todos os aborrecimentos que tivera com ele, sobretudo os relativos à sua paixão esportiva, desapareceram milagrosamente. Inclusive fez questão de que ele fosse enterrado completamente uniformizado e com a bandeira do clube sobre o caixão.

Depois que, pela capela mortuária, passaram todos os religiosos – das mais diversas religiões – encomendadores de almas, pediu encarecidamente aos presentes entoarem o hino do clube, o que causou certo constrangimento aos amigos torcedores de times rivais, como o Marquinho Solidão, que se fez de surdo-mudo naquele momento de solenidade funérea.

Enterrado o defunto, rezada a missa de sétimo dia, como purgação a viúva passou a assistir religiosamente a todos os jogos do time dele, mantido o mesmo ritual, embora não bebesse cerveja, e chorando copiosamente, nas derrotas, nos empates e nas vitórias, não distinguindo mesmo para que lado torcer, tão logo Sua Senhoria, aquele maldito vestido de papa-defunto que lhe matara o marido, desse início à partida.
Imagem em trivela.uol.com.br.

27 de maio de 2013

OS EFLÚVIOS DO VINHO


Às vezes me move o vinho. Não que me embriague, mas que me inebrie com seus eflúvios alcoólicos e me faça ver a vida com mais complacência. O vinho benfazejo, o vinho repartido – com a mulher, com os amigos – torna a vida mais branda, mais palatável.

Sempre fico esperando que a temperatura baixe, ou pelo menos amenize, ocasião própria a que se tome vinho.

Todos têm seus nós pelas costas, como dizia meu querido pai. Também tenho os meus, bem que pequenos e nem tantos assim. Um deles é a predileção quase religiosa pelo vinho tinto, tânico, potente. Mas bebo todos sem preconceito, porque, inclusive, não está na moda ter preconceitos de nenhuma espécie. Assim, segundo a ocasião, aceito os brancos, os rosados, os espumantes, os fortificados, os licorosos, os destilados de vinho.

Porém, dos tintos, começo por beber os portugueses, de minha preferência. E sigo com os italianos, os espanhóis, os franceses, os nacionais, os sul-americanos de modo geral. Mas prefiro aqueles que têm uma longa história por trás e, sobretudo, os que não sejam varietais. Prefiro os misturados, vinhos de corte, os produzidos por diversas uvas.

Até já estive pensando por que, diabos, gosto mais dos vinhos portugueses. É que sempre tive uma queda por nosso país irmão. Em princípio, pelo amor desesperado pela língua que nos legaram. Depois por toda a cultura de que somos continuadores.

Muitos hão de dizer que também os portugueses nos legaram alguns problemas. E que colonizador não deixou problemas? Entretanto, lembro-me de José Saramago, em entrevista a Jô Soares, dizendo não ser compreensível que, depois de tanto tempo, ainda não pudéssemos viver pelas próprias pernas e assumir a parcela que nos cabe em nossas próprias vicissitudes, ficando a repetir, a repisar a mesma e velha história da herança portuguesa.

Mas isto não vem ao caso agora. Estou falando de vinhos.

O romano já dizia que a verdade está no vinho – In vino veritas – e, de fato, não conheço bebida melhor para soltar a língua, para liberar qualquer tipo de timidez com as palavras como o vinho. É certo, todavia, que os romanos o usavam para arrancar dos prisioneiros o que queriam saber. E os empanturravam de vinho, a fim de que dessem com a língua nos dentes e revelassem bem guardados segredos militares de seus inimigos.

Os gregos antigos cultuavam o vinho através de Dioniso (o Baco, dos romanos) e se imaginavam em ligação com o deus, quando o calibre do álcool atingia o equilíbrio do corpo e a sensatez da razão. A palavra simpósio, por exemplo, que nos veio do grego, significa literalmente “beber junto, em companhia”. Era a festa para beber vinho, promovida pelo grego para seus amigos. Seu sentido primordial era mais gostoso do que o de hoje. Às vezes, há simpósios maçantes e insuportáveis!

Ambos, romanos e gregos, faziam assim das libações com vinho um momento de confraternização e, às vezes, de orgia (as bacanais e as dionisíacas), bem verdade. Hoje não chegamos a tanto. Contentamo-nos com juntar os amigos, as pessoas queridas, para esses momentos de descontração e fruição que só um bom vinho é capaz de proporcionar.

E tocamos a falar com pelos cotovelos, com alegria e prazer.

Evoé, Baco!
 
Ficheiro:William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) - The Youth of Bacchus (1884).jpg
William-Adolphe Bouguereau, O jovem Baco, 1884 (em pt.wikipedia.org).
 

25 de maio de 2013

TOBIAS BODE VELHO


Alzirinha pegou o marido Tobias masturbando-se, no fundo do quintal, sob uma mangueira frondosa, olhando a foto de uma cabrita que eles tiveram por alguns anos e que fora vendida para virar cabritada à napolitana, no casamento de um amigo do casal – a cabra Mimosa.
Ela, apoplética, só teve tempo de gritar, a plenos pulmões, antes de desmaiar:
- Tobias!
Hoje, passados quatro anos da separação litigiosa do casal – a fotografia serviu de prova contundente contra o marido -, o barulho do grito da mulher ainda reverbera nos tímpanos de Tobias.
Antes ele não tivesse cometido aquele ato, mas era praticamente impossível, diante de tanta mimosura caprina.
A mulher, havia alguns anos, negava fogo, sempre que ele chegava do jogo de sinuca, a cuca esquentada com incertos goles de conhaque de gengibre, a querer saliências com ela.
Alzirinha já havia aposentado suas partes, em pensamento, embora ainda se dispusesse a atender o marido nessas horas incômodas do dia. Ia, por ir, mas era como se não estivesse nem ali. Enquanto ele se esforçava, bufava, suava, ela ficava olhando o teto, pensando nas providências a tomar no dia seguinte: faria um angu com galinha ao molho pardo, ou uma carne-sequinha espelhada com aipim frito, ou mandaria a empregada vasculhar as teias de aranha do telhado?
Depois que Tobias se dava por satisfeito – por vezes, isso demorava um pouco, pois o desempenho não era mais essas coisas todas –, ela se levantava, ia até o banheiro para se lavar, “ariava os dentes”, como dizia, e ligava o rádio de cabeceira para saber das últimas catástrofes do noticiário. E, pensava, nenhuma era maior que a sua: ter de suportar com estoicismo um marido cheio de fogo àquela altura da vida e, pior, sempre com bafo de conhaque de terceira categoria.
Mas o que fazer? Era casada com comunhão de tudo, e tudo deveria suportar, em nome da estabilidade daquele arremedo de lar.
Contudo, a gota d’água que faltava para que seu pote de tolerância derramasse ocorreu exatamente naquela tarde de terça-feira, quando resolveu ir até o fundo do quintal colher cebolinha verde e salsa, para a canja do jantar. Pegou em flagrante delito de autossexo, se é que isso exista, o marido nojento e insuportável. E só teve tempo de gritar-lhe o nome odioso, antes que desfalecesse diante de tamanha ignomínia.
- Tobias!
No dia seguinte, refeita do piripaque, procurou o escritório do Doutor Florêncio, para exigir o fim do consórcio nupcial. Não poderia conviver com alguém que se satisfazia solitariamente e, ainda mais, tendo por inspiração a cabra de estimação da família por tantos anos.
E amaldiçoou o instante em que aceitara de seu próprio pai, como presente, aquele filhotinho inocente de um bicho que muita gente tem como parceiro do demo. A cabrita deveria ter lá seus encantos ou o marido era definitivamente um tarado de marca maior, era o que pensava. E ficou com a segunda hipótese, pois nem mesmo um cheirinho de leite de rosas a cabra possuía.
A princípio, ela quis a anulação do casamento, o que não foi possível. Conformou-se, então, com o desquite litigioso, de que fez questão, pois não queria ser conivente, em nenhuma hipótese, com a situação, nem mesmo fazer acordos com o amante da cabrita.
E, nas barras da justiça, Tobias viu seu pouco prestígio baixar à cova rasa do opróbio.
Agora, passados quatro anos, ele ainda ouve, nos momentos de silêncio em que a vila mergulha, depois da novela das nove, o grito lancinante da ex-mulher, a persegui-lo noite adentro, até que o sono tome conta de seu corpo.
- Tobias!
Até mesmo com os parceiros de sinuca perdeu a estima e só pode pegar no taco, quando aparece algum neófito na arte das encaçapadas. Os bons jogadores, esses que fazem o nome de qualquer mesa, não o desafiam mais para uma partida. O amor concupiscente pela cabra acabou por liquidá-lo.
E, ao passar pelas ruas, é identificado por todos como Tobias Bode Velho, viúvo da cabra Mimosa.

Imagem em rezboa.blogspot.com.

23 de maio de 2013

A MADRUGADA É INSONE


A madrugada é insone
Eu durmo bem
Ela bate à porta dos desesperados
Dos desiludidos
Eu ronco a sono solto

A minha cama é tépida
Meu colchão é duro
E não sinto frio com o ar da manhã

A madrugada ronda quem suspira
Pelos amores perdidos
Pelos desejos inconfessados

Eu durmo como uma pedra

O meu fardo vem carregado
Desde a mais tenra idade
E não acredito que possa sofrer
Além do que me foi prometido

A madrugada pode rondar a esmo
Ou escolher suas vítimas preferidas

No meu quarto
No segredo da noite
Não há medo
Apenas a certeza de que tudo
Está decidido

E eu me submeto a isto
 
Luz da noite (foto do autor, em flickr.com/fotos/saint-clairmello).
 

 

21 de maio de 2013

OS POEMAS QUE NÃO ESCREVO

Vem às vezes na calada da noite
Quando me deito
Um poema tosco
Insinuante
Mas que sucumbe ao sono.
Outro chega durante o banho
E escorre com a água
Em meus cabelos
Impossível mesmo detê-lo.
No meio da rua
No atropelo do trânsito
Algum se esboça
Forçando o espaço livre do texto
Da folha impressa
Ou seu virtual arremedo.
E nenhum deles se completa.
É o poema tenso que escapa
Quando seu alerta
Não corresponde
Aos cuidados de qualquer pretenso poeta.


Almeida Júnior, Moça com livro, s/d, Museu de Arte de SP (em pt.wikipedia.org.com).


18 de maio de 2013

A GATA


Tinha viajado e deixado minha gata com meu primo Olavinho.
Reconheço que Olavinho não seria a pessoa mais indicada para tomar conta da gata. Mas elaborei um manual de instruções completo, deixei as rações, os brinquedinhos dela, o número do telefone do veterinário, e resolvi ir passar uns dias em Canoa Quebrada, a fim de tirar das costas um ano de aporrinhações no trabalho.

E, mal desarrumei a mala, recebi a ligação do primo:
- Trajano, sua gata não está respirando.

- Como não está respirando, Olavinho? Que informação é essa?
- Pois é! Parou de respirar. Eu até chamei o veterinário.

- E o que ele disse disto, Olavinho? Não estou entendendo! Se parou de respirar, é porque não está mais viva. É isso, Olavinho?
- Pois é! É mais ou menos isso!

- Como mais ou menos, Olavinho?! A Penélope – este é o nome da minha gata –, afinal, está ou não está viva?
- Pois é!

- Porra, Olavinho, pare de falar pois é e diga logo o que aconteceu!
- Morreu, porra! Sua gata enjoada e cheia de chiliques parou de respirar, porque morreu, empacotou, passou desta para melhor! Entendeu, porra?! – disse Olavinho, com uma carrada de sinceridade que me espantou. E continuou. – Eu estou aqui, querendo te dar a notícia, com cuidado, para você também não ter um chilique, e você me apertando. Pois é isso mesmo: a Penélope mó... rreu!

O filho da puta do meu primo ainda imitou o Tiririca, para dizer que minha gata de estimação havia falecido.
Não se dá uma notícia assim desta forma.

- Porra, Olavinho, isso é jeito de dar essa notícia?!
- Você queria que eu começasse dizendo que ela subiu no telhado? Ah, Trajano! Isso é muita frescura para mim. Você e essa gata sua... Por que não arranja uma gata mulher para cuidar, Trajano? Aí duvido que você a deixasse comigo, ao viajar! Agora, esse bicho cheio de manias, esquisito à beça, que olha para gente com soberba, você empurra pra cima de mim.

- Tá bom, Olavinho! Tá bom! Depois a gente discute esse negócio de mulher. Mas me diga o que aconteceu e que providências você tomou.
- Não tomei providência nenhuma, a não ser chamar o veterinário, que constatou a morte. Ele disse que foi o coração dela, já muito velho, que parou de funcionar. Agora quero saber o que faço com esse cadáver aqui. Vou botar numa caixa de sapatos e enterrar no fundo do quintal.

- Pelo amor de Deus, Olavinho, você não vai fazer essa desfeita comigo: colocar a Penélope numa caixa de sapatos! Quero um enterro digno para ela, com caixãozinho de verdade.
- Acho que você está querendo muito, Trajano. É melhor resolver isso logo, antes que a gata comece a feder. Se duvidar, jogo a bicha no latão de lixo ali da pracinha.

- Se fizer isso, Olavinho, nunca mais falo contigo e você ainda vai ter de me pagar aquele empréstimo que te fiz o ano passado, assim que eu chegar aí. É guerra?!
- Tá bem, Trajano! E onde eu encontro essa porra de caixãozinho de gato? Em alguma petshop?

Dei as instruções de onde comprar o ataúde felino, recomendei, então, que ela fosse enterrada embaixo da jaqueira que tia Ponciana, mãe dele e irmã da minha mãe, havia plantado há tantos anos, e que ele, Olavinho, fizesse um túmulo com pedras roladas de vários tamanhos, que ele podia também comprar na petshop.
Depois de ouvir tudo e se submeter à minha vontade, a fim de abrandar meu coração de credor enfurecido, Olavinho resolveu fazer a última pergunta:

- Trajano, com quem você está aí em Canoa Quebrada? Não vá me dizer que viajou sozinho!
- Porra, Olavinho! Claro que não! Vim com a Maria Clara, aquela colega da empresa, do Recursos Humanos.

- Aquela gata gostosona, Trajano, que todo mundo fica de olho em cima?
- Ela mesma, primo!

- Sabe de uma coisa, primo: você pode até me cobrar o dinheiro, mas depois dessa vou é jogar a Penélope no latão do lixo. Vai te catar, Trajano! Com uma gata dessas embaixo da sua pessoa e choramingando por um bicho que nem cafuné te faz.
E desligou o telefone o miserável!

Vou cobrar o dinheiro assim que desembarcar no Tom Jobim. O filho da puta é que vai me esperar lá, com o meu carro, que deixei com ele para as esbórnias de fim de semana.
Imagem em gartic.uol.com.br.