16 de janeiro de 2012

PROFÉTICO

vou contornar o teu sorriso lírico
com um lápis preto
e o teu olhar empírico
com alguns borrões de dedo
tua cabeça múltipla
com um espaço exótico
o teu corpinho cálido
com um abraço sólido
para que este tempo gélido
se torne mais erótico
quando num futuro pretérito
eu estiver somente histórico.
Vermeer, Alegoria da Arte, 1666
(em artemazeh.blogspot.com)

14 de janeiro de 2012

JOÃO SEM VOTO

Quando o TRE divulgou o resultado final das eleições, foi como se João Lemgruber, o Alemão, tivesse levado um balde de água gelada pelas platibandas de sua pessoa avermelhada e presunçosa. Tivera tão somente dezesseis votos para a vaga de vereador, num pleito conturbado e cheio de acusações entre os candidatos, em que, para pretender uma cadeira à câmara, precisaria de quinhentos votos, em contas econômicas.
Tão logo teve conhecimento da sua inexpressiva votação, pegou a falar mal dos eleitores, para ele, agora, um bando de gente sem consciência política, muito mais interessada em ganhar agrados dos candidatos, do que em construir um futuro melhor para a comunidade. Deslembrado ficou de todas as pequenas promessas feitas a quem pedira voto.
E desandou em sua peroração por todos os lugares que comumente frequentava: o salão de barbeiro; o bar da sinuca; a roda de cafezinho do bar do Salim, na rua do homem em pé; o posto de gasolina no Bairro Novo; as filas de banco; em volta da carrocinha de angu à baiana do Pelega, nos confins da madrugada, deteriorando o paladar daquele saboroso prato fumegante, movido a pinga e pimenta, com suas observações ressentidas.
Nessas oportunidades, todos que o ouviam garantiam ter digitado seu número na urna eletrônica. Seria bom que ele verificasse isto muito bem, porque esse tal de computador, há alguns anos, tinha armado uma trairagem das grossas para cima do Brizola. Pusesse o Alemão isso na sua conta de desconfiança, como alertou Moreninho, ao lhe fazer a barba. E, justo no momento em que passava a navalha na altura da jugular, ainda lhe perguntou:
- Alemão, você duvida do meu voto? E, depois, Alemão, só de parentes seus há pra mais de cinquenta! Como é que você vai ter só dezesseis votos, cara?! Se fosse eu, pedia recontagem.
Com a navalha rondando espaço tão desacautelado de sua pessoa, Alemão concordou e encheu sua cabeça de nove horas e minhocuçus desconfiados.
No diretório do partido, aonde chegou cheirando a Aqua Velva, com muita má vontade do secretário, conseguiu que o ajudassem a requerer a tal recontagem.
Melhor não tivesse feito!
Imagem em routenews.com.br.

Quando saiu o resultado do recurso, trinta dias depois, viu que a votação diminuíra para apenas quinze votos. Foi como se Napoleão, seu ídolo, sofresse punhalada pelas costas de um de seus generais de confiança, em plena campanha da Rússia czarista.
Aí chamou a mulher às falas, no meio de chouriço com angu molinho pelo almoço e um mau humor a que nem chá de losna daria jeito. Pediu-lhe que convocasse a família – sobretudo a dela – no intuito de apurar as falsidades de costume. Durante a campanha, vinha a parentagem comer seus churrascos e suas feijoadas e arrotar que a eleição "já é nossa, Alemão", como falava aos brados o cunhado Militão, empanturrado de caipirinha e maminha de alcatra, coadjuvada por mandioca amarela no vapor.
Cunhado, quando tem alguma serventia, é para emprestar dinheiro a juro de poupança e oferecer cerveja gelada nas visitas contumazes que recebe. Militão nem para isto servia, pois era ele quem sempre vinha dar suas facadas no bolso do Alemão. Militão também iria ouvir poucas e boas, que ele, Alemão, não estava aí para encher barriga de gente folgada e traiçoeira.
Só não marcou uma cabritada, a que, com certeza, todos aqueles mortos de fome compareceriam, porque não havia motivos: estava era vendendo azeite. Mas procurou falar com um e outro parente, do mais chegado ao mais distante, e não houve um que, sob juramento de ver a mãe mortinha, mortinha, desgarantisse ter digitado o número do Alemão naquela televisãozinha miúda do TRE: o 666.
Jurandir, que vinha a ser seu contraparente, porque casado com a prima Lindaura, de um grau quase perdido na parentela e com quem ele, Alemão, tivera alguns entreveros amorosos às esconsas, levantou a hipótese de que o número não ajudava. Era o tal número da besta do “poscalipso”, como ele disse.
- Que “poscalipso”, que nada, Jurandir! Fui vítima é da trairagem de vocês! Na hora de comer da minha feijoada, de se fartar do meu churrasco, todo mundo estava lá, com a boca cheia de dentes, prometendo mundos e fundos. Até arroto espaventoso tive de aturar durante a campanha! Teve gente que até me pediu vaga de assessor, contando com o ovo no cu da perua. Agora você vem com esta história de “poscalipso”. Tenha dó, Jurandir! Foi trairagem das grossas! Militão é outro: veio com desculpa esfarrapada de que a vista turvou na hora agá e possa ser que o dedo tenha escorregado para outro número. Isso é desculpa, Jurandir?! Que possa ser, mané possa ser, Jurandir?! Vocês são é um bando de traíras! Parente é serpente, Jurandir! Quer saber? É isso que é: serpente! Pega no calcanhar da gente, quando estamos desprevenidos. O tal calcanhar de aquilo, como se diz. E tem outra, Jurandir, vou me mudar pra Barra de São Francisco, em terras do antigo Contestado do Espírito Santo, parede-meia com Minas Gerais. Dizem que lá é terra de gente braba, mas tudo de palavra. Se falar que é, é porque é! Se falar que não é, nem Santo Expedito muda a opinião deles! Vou é pra lá, Jurandir!
Jurandir não respondeu. E Alemão deu a volta sobre os calcanhares, tal qual recruta do tiro de guerra, em exercícios militares pesados, visando a possível guerra estrangeira.
Quinze dias depois, estava a mudança triste de Alemão e dona Carminha, sua mulher, no caminhão-baú do Candico, atravessando a ponte sobre o rio Itabapoana.
Era uma manhã comum de janeiro – o bico do maçarico solar já ligado – e o caminhão começou a subir a serra de São José do Calçado. Passou pela Volta Fria, mas não passou da curva de Palmital: o velho motor bateu biela, sem dó, nem piedade, e refugou continuar viagem.
Alemão teve de ir a pé até a sede do município requerer ajuda do amigo Tonico Lahud, que lhe enviou caminhão para rebocar a tralha toda de volta a casa, e decidiu enfrentar a situação como Napoleão no seu exílio da Ilha de Elba. Porém não saiu mais de casa, porque passou a ser conhecido por João Sem Voto. E não queria saber de intimidades com merda de rei inglês nenhum.
E humilhação maior na cidade só houve, quando seu time perdeu para o Ordem e Progresso Futebol Clube, da cidade vizinha, por placar que este narrador tem até vergonha de registrar aqui.

13 de janeiro de 2012

O QUE É AMAR-TE?

O que é amar-te?
Um estilo de vida?
Uma forma de arte?
Um acaso um delírio
Uma ferida ou um corte?

O que é amar-te?
É um porto seguro
Ou uma nave que parte
Num mar tenebroso
Que nos espera com a morte?

O que é amar-te?
É uma dor que aniquila
Ou um prazer que reparte
Uma parcela de sonho
Que a mim reconforte?

O que é amar-te?
É uma paz duradoura
Ou a vontade de Marte?
É um jogo fatal
Ou um mero esporte?

O que é amar-te
Senão querer-te
Caleidoscópico sorvete
Que a um toque derrete
Minha fraqueza tão forte
E se escorre em meu corpo
E se agiganta em teu porte
De mulher de donzela
De novíssima estrela
Que cintila na tela
Dos meus olhos cansados
De imagens tão velhas?

O que é amar-te?
Talvez um pouco de sorte.
Certamente um bocado de arte!

Eliseu Visconti, Moça no trigal, c. 1916 (em eliseuvisconti.com.br).

12 de janeiro de 2012

CONVITE

venha amiga
fique comigo nestes momentos tristes
construiremos um abrigo
contra o inimigo contra o frio
e toda sorte de conflito

venha amiga
repouse sua cabeça linda sobre meu ombro
e deixe que minhas histórias de perigo
encham seus ouvidos indormidos
até chegar o sono

venha amiga
sinta os mesmos gestos de um ritual antigo
que minhas mãos poderão desenhar sobre seu corpo
e não confunda ainda mais os meus enganos
é só amor transmudado em desejo
é só um jeito aflito de dizer te amo

Tela de Sergey Marshennikov, pintor russo, colhida em apm65.blogpot.com.

11 de janeiro de 2012

UÉ, JÁ VORTÔ, ZIFIO?*


A foto mais recente de Pai Prudenço
(em talesvale.blogspot.com).

Ué, zifio, suncê já vortô? Nem bem passô três lua cheia da obrigação que suncê ia fazê e já tá aqui de vorta? Cumé que pode? Suncê num fez a obrigação? Ah, entonce fez? Mas suncê só devia vortá três mês despois do trabaio, zifio. Num foi isso que nós combinemo? O trabaio tem seus prazo, senão arenga de num dá certo, e aí é trabaio em riba de trabaio, pra desfazê o mar feito. Ah, entonce não é isso? Suncê fez tudo direitim, conforme minhas orientação? Entonce o que te aperreia, mizinfio? Que é que traz suncê em casa de Pai Prudenço traveiz? Desembucha, zifio, que Pai Prudenço tá aqui pra judá suncê! Pode abri o coração! O quê? O que é que suncê tá dizeno a Pai Prudenço? Encoieu tudo?! Mas eu disse que ia encoiê, num disse? Na água fria, as coisa encoie mesmo. Hehehe! Eu disse que era pra suncê num se preocupá que ia vortá tudo nos lugá, conforme a natureza fez! Uai, num vortô? Encoieu e ficô encoido? Num diz uma coisa dessa, zifio! Os trem entrô tudo e, nos conforme, ficô tudo embutido, lá pra riba? Os três? A linguicinha e os ovinho? Não, zifio, é só um modo de dizê. Num tô dizeno que suncê tinha só uma linguicinha. É que, se os trem encoieu e num vortô, de acordo com as previsão, é sinar de que tarveiz eis num fosse assim tão avantajado como suncê diz por aí. Oia que Pai Prudenço sabe de um tudo, no aquém e no além, por riba da terra e abaixo das nuve do céu! É só Pai Prudenço joga uns búzio aqui, mexê uns pauzinho ali, e vai sabê direitim cumé que era. Agora suncê qué que Pai Prudenço providencie a vorta dos trem nos lugá de conforme, nos calibre usuar? Ih, zifio, isso aí é trabaio que demanda munta concentração, munta obrigação. Mexe cum munta demanda espirituá. Periga sê mais difice que o outro que suncê foi fazê pra largá mão de sê zé ruela e andá aprontano ca muié dos otro. Premero de tudo, suncê num pode menti pra Pai Prudenço. Tem de dizê o tamanho direitim do trem que suncê diz que sumiu. O trabaio só vai recuperá o que era. Num vai armentá nada. Num pode vim cum enganação, que esse trem pode dá um reviravorta de até nascê uma cacimbinha no lugá que devia tê um toco. Oia bem! Quanto? Isso tudo? É verdade mesmo o que suncê diz? Oia lá, hem! Entonce suncê vai fazê o seguinte. Anota aí: cipó-mil-homi (pra tumá tenença), cipó cabeludo (pra reprantá os pelo), pau ferro (só a casca, pra dá sustança), pau santo (num pode fartá!), erva picão (essa é munto boa mermo!), catinga-de-mulata (pro trem lembrá das coisa antiga e saí da toca!), tinge-ovo (pras parte redonda). Anotô tudim? Suncê vai trazê isso tudo dentro dum saco branco, arvejado de pouco, lavado com capim santo e passado no ferro de engomá com brasa de pau-d’alho, na premera sexta-feira daqui pra diante. Chega aqui por vorta das cinco hora da tarde, pra mode começá com o trabaio. Aqui suncê vai tomá um banho de descarrego, com uma infusão de tudo isso. E vô chamá umas entidade que tão meio escondida e que há munto tempo num mexo cum elas. Traz tomém uma caixa de charuto da Bahia de São Salvador, um litro de marafa branca e sete vela vermeia, que é pra abri os trabaio. Se isso num bastá, aí, zifio, eu vô te dizê que a sua situação num é nada boa. Mas tem que tê fé. Munta fé, senão os trem num vorta nos conforme da natureza. E vô repeti: num vô botá nem um centímetro a mais na linguicinha! Vai vortá no que era. Vai na paz de Pai Prudenço, zifio! O quê? Ah, é mais miudim um poquim? Sabia, zifio, um trem desse tamanho num anda dando sopa por aí. Foi mió assim, sem mentira. Vai na paz, mizinfio!

(Para melhor compreensão da conversa de Pai Prudenço, é bom conhecer o início da história, clicando aqui.)

10 de janeiro de 2012

NO DIA INTERNACIONAL DA POESIA

no dia internacional da poesia
o poeta sofre
a dor antiga da perda
e lamenta não ter nada a dizer.
no dia internacional da poesia
a única certeza que paira no ar
são os aviões de carreira
e invisíveis fragmentos de filosofia.
no dia internacional da poesia
nenhum poema se faz
oblitera-se a vida
turvo é o horizonte
são findos todos os sonhos.
no dia internacional da poesia
as palavras quedam mudas
em estado de dicionário
e não comunicam nada
absolutamente
e o poeta padece
da dor antiga
Kazimir Malevich. O amola tesouras, 1912
(em esec-josepha-obidos.rct.pt).
de não ter nada a dizer.

9 de janeiro de 2012

MÚSCIA LIGEIRA COM AS SETE NOTAS


fá sol lá em mi vida
si dó ré mi com você
lá si dão dolorida
si mi ré dó sem te ver

Imagem em nunation.com.