19 de dezembro de 2011

APRENDIZAGEM AMOROSA

um tanto é amar-te morto
absorto dos problemas diários.
outro tanto é sofrer-te
em conjunto, acasalados,
com todas as peripécias
a nos empurrarem um para o outro.
mas entre o primeiro amar-te
tranquilo e evasivo
e o segundo,
o mundo normalmente nos impõe
a dura condição de sermos dois,
pessoas bem distintas
a se quererem machucando-se.
amar-nos, então, além do tal
remédio eficaz da solidão,
é também uma dor na carne
um mal no cerne,
que agride, que estraçalha, que corrompe.

William Bouguereau, Elegie et manque
d'amour, séc. XIX
(enviedailleurs.forumpro.fr).




17 de dezembro de 2011

BENQUERENÇA NUMA HORA DESSAS?

Melaine tinha ficado viúva às cinco horas da manhã, após um afrontamento cardíaco que lhe levara o marido, Melchíades, com CH e tudo, já um tanto imprestável de alguns anos para serviços pesados ou leves, e, às quatro da tarde, seu vizinho olhudo, Messias, já estava fazendo propostas a ela.

A viúva, ainda nem bem acomodara a roupa de luto sobre suas curvas e boleios, e já havia urubu de olho grande sobre seus guardados. Achou aquilo um despropósito, e justamente na hora em que o povo do velório entoava o hino que diz “Com minha mãe estarei, na santa glória um dia”, em molde de última despedida.
Ele se aproveitou do momento de vozerio entoado na sala ampla, para sentar-se ao lado dela, lenço molhado em suas mãos fechadas sobre o colo, e desfiar rosário de duvidosas intenções em seus ouvidos.

Messias tinha essa capacidade extra, além do artesanato em couros e dos remendos em sapatos, que praticava com razoável perícia: dizer saliências nos ouvidos das mulheres que ele imaginava  dispostas a qualquer tipo de franquia de suas pudendas partes.

Para não fazer escândalo no meio da cantoria religiosa, olhou feio para ele, que se levantou de mansinho, sorriso amarelo pregado logo abaixo de um bigodezinho muito do sem-vergonha, do tipo cantor de bolero de bar da guaxa, na beira rio.
Saiu com o chapéu na mão e pegou o primeiro pedaço de broa que encontrou no caminho da cozinha, encheu aquela boca infame e foi sentar-se no banco da mesa espaçosa, onde estavam os quitutes preparados para a ocasião.

Para a mãe de Melaine, dona Mariquinha, que preparava os comes e bebes, Messias fez tais mesuras e rapapés, que a própria senhora desconfiou. Ele era, na verdade, um sapateiro que ia acima das tamancas, sem a menor cerimônia.
Ali ficou por mais um bom quarto de hora, quando percebeu o movimento de fechar a tampa do caixão, ocasião que aproveitou para voltar para perto da viúva, agora ao lado do extinto todo florido de margaridinhas e marias-sem-vergonha.

Imagem em singrandohorizontes.wordpress.com.

Quando as tarraxas começaram a gemer, ao serem arrochadas pelos amigos mais chegados, Melaine entrou em pranto convulso, entrecortado de soluços de rasgar o coração dos circunstantes. Messias, muito prestativo, segurou-lhe o cotovelo, como quem a amparasse, com a mão quente da lubricidade.
Melaine sentiu uma coisa ruim subindo-lhe da base da coluna até o alto da nuca, com aquela mão em seu cotovelo, que interrompeu o choro para assoar o nariz, movimento com que se libertou do sapateiro abusado.

Moto contínuo, o conquistador disse-lhe em sussurro, no pavilhão da orelha esquerda:
- Gostaria de que, agora, a senhora considerasse essa minha benquerença de muitos anos.

- Que benquerença é essa, seu Messias? E numa hora dessas, seu Messias sapateiro? Dê-se ao respeito! Tenha respeito pela dor alheia!
E disse isto com a voz alterada, em bom timbre, de modo que os mais próximos olharam em direção a Messias. Vermelho como uma brasa, o sapateiro enfiou o chapéu na cabeça e tratou de sair o mais depressa que pôde, a fim de não tomar uns catiripapos naquela cara estanhada de homem safado e acabar como o finado Melchíades, com CH e tudo, de canelas espichadas e rodeado por margaridinhas e marias-sem-vergonha.

Onde já se viu?!

16 de dezembro de 2011

BARCA VIDA DESGARRADA

eu te transei transado em tempo
e foi pecado
eu te perdi em barca vida desgarrada
sem sair do pequeno cais do nosso porto
e meu silêncio profundo como o campo
navegou errado e vai seguindo
ainda que o tempo caduco sem sossego
apague a trilha estreita da tua boca
 ou reviva inconsequente o teu sorriso


Imagem em momentosarrepiadospelovento.blogspot.com.


15 de dezembro de 2011

ANOTA AÍ, ZIFIO!

Anota aí, zifio, o que eu vô passá pra suncê.
Suncê pega uma galinha preta, um moio de arruda, umas foia de comigo-ninguém-pode. Amarra as foia, mais a arruda, no pé da galinha. Leva tudo pruma cachoeira no meio da mata fechada, numa menhãzinha de sexta-fera treze. Chegano lá, suncê tira a ropa, fica pelado, c’as coisa de fora, balangano, tumano a viração da menhã. Moia os pé na água fria, pega o amarrado que tô mandano suncê fazê, merguia bem merguiado na água, que não pode sê de remanso, tem de sê de correnteza, e começa a batê no corpo de suncê do mais baixo pro mais arto, da solera dos pé à cumiera da cabeça, de frente e despois des costa. No momento em que suncê tivé bateno vai dizeno essas palavra que eu vô ditá pra suncê. Anota direitim que é pra mode num tê enroscamento com os orixá, com as potença celeste. Tá prestano atenção, zifio? Então, anote aí: Eu – aí fala cumé que suncê chama - sou um disgramado ferrado, tô no mato sem cachorro e perciso de proteção. Venho trazê meu corpo nu aqui nessa água pura e de corrente, que é pra afastá os male do corpo e fechá ele das quizília dos meus inimigo. Arrogo a todos os orixá, a todas as potença celeste, daqui e da mãe África, que é pra mode eu pará de fazê merda, caçá rumo na vida, aprumá meus negoço, largá mão de andá atrás de muié casada, butá um freio na marafa e no cisprandi. Des’ modo, entrego meu destino nas mão de todos os orixá e de todas as potença celeste, arrenego as bestera que fiz no antigamente e bem nesses úrtimo dia, como no entrevero c'a muié do Vardi, que quaje cabô em morte matada. E, se no prazo de três mês huvé quarqué miora na minha situação, prometo arriá despacho suntuoso, de fazê inveja nos otro, nos conforme das orientação do Pai Prudenço, nas intenção do seu orixá de cabeça. Saravá! Aí, suncê fala saravá três vez. Joga o amarrado da galinha, c’arruda, mais a comigo-ninguém-pode no meio do mato, e dá um merguio nas água fria do riberão, sem se incomodá se os trem encoeiê demais. Despois eles vorta no normá, conforme a lei naturá do encoie-espicha, do espicha-encoie.
Escreveu tudim, zifio? Tá tudo anotadim aí? Entonce, suncê pricura um corgo d’água conforme disse e vai fazê essa obrigação. No finá de três lua cheia, suncê vorta aqui, com um conto de réis na mão, mais dois frango preto, sangue de um bode novo, sete pena de urubu, quatro pata de galinha d’angola e meio quilo de mio de pipoca, pra mode fazê as obrigação pro meu santo. Causa que senão, isso vai dá um revertero na sua vida, de suncê se arrependê de tê nascido. Periga de suncê até virá muiezinha. Num toma tenença não, pra suncê vê só! Vai em paz, zifio, debaixo da proteção de Pai Prudenço!

Imagem em talesvale.blogspot.com.

14 de dezembro de 2011

GRAVITO

gravito
qual lua grávida de granito
em torno do leve corpo astral
em que te expões
e desta órbita pesada
não consigo
por mais que tente
escapar

levito
tão leve aerólito me sinto
quando toco teu corpo
e deste atrito
explodem estrelas novas
novos gritos
num reboar de sons
imprevisíveis

e sigo
a tua rota límpida
e neste rito transformo
em meteoritos meus desejos
que se perdem na via láctea
do teu riso
e na poeira cósmica
dos teus beijos

Imagem em sitedecuriosidades.com.

13 de dezembro de 2011

DIGA QUE ME AMA

preciso que você minta e diga que me ama
assovie chupe cana cuspa longe ria falso
mas diga que me ama
invente história iluda o dia esqueça leis
mas diga que me ama
aplique golpes fraude documentos troque nomes
mas diga que me ama

Paul Gauguin, Mahana Maa I Aka
O momento da verdade I
(em mystudios.com).
diga que sou seu homem
diga que sou insuperável irresistível
oh! por favor diga que me ama

eu ando tão cheio das verdades do mundo


12 de dezembro de 2011

É DA PARTE DE SEU ELEUTÉRIO!

Bateu palmas, chegou com ares de compadre, meneando a cabeça e levando a mão à aba larga do chapéu de feltro:
- Lorrado seje Nosso Sinhô Jesus Cristo!
O outro respondeu, porta já aberta:
- Para sempre seje lorrado!
E não teve tempo de voltar correndo para dentro da casa simples, porque o tiro lhe atingiu as costas.
O que chegou tirou o chapéu, fez uma reverência, certificou-se de que o tiro pegara em local mortífero, deu uma cusparada de lado e disse para o moribundo:
- Passe munto bem! É da parte de seu Leutero.
Recolocou o pito na boca, montou no cavalo castanho pé-duro, mal arriado, e sumiu na volta da estrada que contorna o morro plantado de café e milho.
A mulher da vítima, tão logo ouviu o estampido, voltou correndo dos fundos do quintal, onde dava milho às galinhas. Isto era cedinho. Mal o sol despontara nas abas da Serra da Boa Esperança, e já havia desgraça plantada na chácara.
Desesperada, chegou à frente da casa e encontrou o marido agonizando, de borco, na soleira da porta, as pernas espichadas para a varanda de madeira seca, o resto do corpo para dentro. Um rombo nas costas vertia sangue.
Ainda viu um pouco de poeira levantada na curva do caminho, amarelada pelo sol matinal de um abril fresco e despreocupado.
Naquele dia, Honório, seu marido ali estendido, agora já morto, completaria trinta e dois anos. Morreu em antes de arredondar a conta, com a galinha ao molho pardo que a mulher prepararia para comemorar a data, como combinado na véspera: Mulher, faz aquela galinha que só você sabe!
Os dois filhos pequenos, de nove e sete anos, ainda dormiam. Não haveria aula na escolinha rural a uns bons dois quilômetros dali. A nova professora tinha compromisso na sede do município, para resolver problemas de sua matrícula na Secretaria de Educação.
Com os gritos da mulher, os filhos acordaram sobressaltados e chegaram até a porta da frente da casa. De início, não entenderam muito bem a cena, porém entraram em pânico, ao ver a mãe agarrada ao corpo do pai, o sangue correndo pelo chão e entrando nas gretas das tábuas do assoalho.
A casa ficava isolada no meio de uma chácara, cercada de arame farpado, uma tronqueira a barrar o acesso de animais, e um rústico canteiro de florezinhas bobas da roça do lado esquerdo de quem entra.
Vizinhos de algumas centenas de metros correram em direção à fonte do barulho do tiro e chegaram, três deles, em poucos minutos. Neca trazia a espingarda; Dilino, o facão e Crisanto, uma garrucha quarenta e quatro, armas sem utilidade. Não houve tempo para nada. Honório, naquele instante, já era defunto.
Providenciaram a saída da viúva e das crianças da cena. Neca os levou para sua casa, e Crisanto arriou o cavalo para ir até a sede do distrito – que eles chamavam simplesmente “rua” –, a fim de comunicar o fato ao subdelegado de polícia.
Na rua, Ivo tomava café no bar do Roldão, quando foi cientificado do crime. Mandou chamar o soldado Afrânio e o cabo Guilherme, e partiram os três, mais Crisanto, para a chácara Providência, localizada a uns seis quilômetros da vila, um pouco depois da Fazenda da Forquilha, já ameaçando subir a Serra.
A cena era a mesma que Crisanto havia deixado sob a vigilância de Dilino, preocupado em espantar os cachorros de perto do corpo do vizinho morto. Naquela hora, o sangue talhado no chão tinha uma cor esquisita.
Ivo e os dois meganhas examinaram canhestramente a cena, rodaram em torno do cadáver, fizeram perguntas, verificaram o chão próximo à casa à procura de pistas, olharam a estrada em curva, viram a altura do sol naquele momento e imaginaram coisas.
A viúva, muito abalada, foi poupada naquele instante pelo subdelegado, que mandou providenciar a remoção do corpo até a sede do município, onde o legista faria a autópsia.
Dois meses depois do ocorrido, as investigações chegadas a termo, o subdelegado encaminhou ao delegado da cidade o relato da ocorrência.
Como um cão farejador, o cabo Guilherme apurara tudo esmiuçadamente, indagando uns e outros, de casa em casa, de venda em venda, de birosca em birosca, por aqueles caminhos, e não tinha dúvidas de quem praticara o crime: Nestor da Zefa.
Nestor da Zefa não tinha trabalho certo. Fingia coisas, dizia que herdara herança em dinheiro do pai, com fazenda para os lados de Resplendor, em Minas, negociava cavalos, vendia relógios, ausentava-se com frequência, mas estava sempre bem, sem aparentar necessidades, sem dever na praça, comprando sempre à vista, coisa desacostumada na vila.
Depois do levantamento feito, tudo dentro do maior sigilo que um meganha conseguia naqueles tempos, naquelas bandas de mundo, ele e o soldado Afrânio, sob a chefia de Ivo, astuciaram plano para pôr as mãos em cima de Nestor da Zefa, no momento em que ele jogava partida de sinuca no bar do Roldão, o subdelegado na porta, com reforço de mais quatro meganhas da delegacia da cidade.
Quando Nestor da Zefa percebeu que o caldo havia entornado, quis fugir pelos fundos, passando por detrás do balcão, de onde derrubou um vidro de pirulitos. Foi recebido por dois soldados, que o imobilizaram, amarraram-no com corda grossa e o conduziram para a sede do município.
Lá aplicaram os corretivos de praxe nos interrogatórios policiais dos idos dos anos cinquenta, e Nestor da Zefa deu com a língua nos dentes de não deixar pormenor sem esclarecimento, nomeando mandante, preço e demais combinações da encomenda, inclusive a data do aniversário do infeliz.
Eleutério Rocha, assim que soube da prisão de Nestor e conhecendo-o como o conhecia, sabedor de que era um cabra frouxo, sem couro na língua, disse para a mulher que estava de viagem marcada para São Mateus, no norte do Espírito Santo, divisa com a Bahia. E saiu dirigindo seu Ford cristaleira, cinquenta quilômetros por hora, pulando na estrada de chão, para fugir da justiça.
Nunca mais foi encontrado, ou dele notícia se teve. A mulher, mal recebeu carta sem remetente identificado, daí a uns tempos também se mudou da vila, levando filhos e abandonando tudo o que tinham construído até então.
Nestor da Zefa foi julgado, condenado e morreu na cadeia, por conta de desavenças com outro preso, dois anos depois. E não se soube que chorassem por ele. Na vila, mesmo, houve certo alívio nas pessoas.
A mulher e os filhos de Honório nunca saíram da chácara Providência.
Os meninos cresceram, viraram homens e, por qualquer conto de réis, dão cabo de não importa que sujeito tenha atravessado a vida de fazendeiros como seu Eleutério. Tal qual ocorreu com seu pai, tantos anos atrás, por conta de migalhas e mesquinharias, sem a mínima importância. A vida humana levada na conta de raspa de tacho.
Grant Wood, Stone city (séc. XX).