14 de dezembro de 2011

GRAVITO

gravito
qual lua grávida de granito
em torno do leve corpo astral
em que te expões
e desta órbita pesada
não consigo
por mais que tente
escapar

levito
tão leve aerólito me sinto
quando toco teu corpo
e deste atrito
explodem estrelas novas
novos gritos
num reboar de sons
imprevisíveis

e sigo
a tua rota límpida
e neste rito transformo
em meteoritos meus desejos
que se perdem na via láctea
do teu riso
e na poeira cósmica
dos teus beijos

Imagem em sitedecuriosidades.com.

13 de dezembro de 2011

DIGA QUE ME AMA

preciso que você minta e diga que me ama
assovie chupe cana cuspa longe ria falso
mas diga que me ama
invente história iluda o dia esqueça leis
mas diga que me ama
aplique golpes fraude documentos troque nomes
mas diga que me ama

Paul Gauguin, Mahana Maa I Aka
O momento da verdade I
(em mystudios.com).
diga que sou seu homem
diga que sou insuperável irresistível
oh! por favor diga que me ama

eu ando tão cheio das verdades do mundo


12 de dezembro de 2011

É DA PARTE DE SEU ELEUTÉRIO!

Bateu palmas, chegou com ares de compadre, meneando a cabeça e levando a mão à aba larga do chapéu de feltro:
- Lorrado seje Nosso Sinhô Jesus Cristo!
O outro respondeu, porta já aberta:
- Para sempre seje lorrado!
E não teve tempo de voltar correndo para dentro da casa simples, porque o tiro lhe atingiu as costas.
O que chegou tirou o chapéu, fez uma reverência, certificou-se de que o tiro pegara em local mortífero, deu uma cusparada de lado e disse para o moribundo:
- Passe munto bem! É da parte de seu Leutero.
Recolocou o pito na boca, montou no cavalo castanho pé-duro, mal arriado, e sumiu na volta da estrada que contorna o morro plantado de café e milho.
A mulher da vítima, tão logo ouviu o estampido, voltou correndo dos fundos do quintal, onde dava milho às galinhas. Isto era cedinho. Mal o sol despontara nas abas da Serra da Boa Esperança, e já havia desgraça plantada na chácara.
Desesperada, chegou à frente da casa e encontrou o marido agonizando, de borco, na soleira da porta, as pernas espichadas para a varanda de madeira seca, o resto do corpo para dentro. Um rombo nas costas vertia sangue.
Ainda viu um pouco de poeira levantada na curva do caminho, amarelada pelo sol matinal de um abril fresco e despreocupado.
Naquele dia, Honório, seu marido ali estendido, agora já morto, completaria trinta e dois anos. Morreu em antes de arredondar a conta, com a galinha ao molho pardo que a mulher prepararia para comemorar a data, como combinado na véspera: Mulher, faz aquela galinha que só você sabe!
Os dois filhos pequenos, de nove e sete anos, ainda dormiam. Não haveria aula na escolinha rural a uns bons dois quilômetros dali. A nova professora tinha compromisso na sede do município, para resolver problemas de sua matrícula na Secretaria de Educação.
Com os gritos da mulher, os filhos acordaram sobressaltados e chegaram até a porta da frente da casa. De início, não entenderam muito bem a cena, porém entraram em pânico, ao ver a mãe agarrada ao corpo do pai, o sangue correndo pelo chão e entrando nas gretas das tábuas do assoalho.
A casa ficava isolada no meio de uma chácara, cercada de arame farpado, uma tronqueira a barrar o acesso de animais, e um rústico canteiro de florezinhas bobas da roça do lado esquerdo de quem entra.
Vizinhos de algumas centenas de metros correram em direção à fonte do barulho do tiro e chegaram, três deles, em poucos minutos. Neca trazia a espingarda; Dilino, o facão e Crisanto, uma garrucha quarenta e quatro, armas sem utilidade. Não houve tempo para nada. Honório, naquele instante, já era defunto.
Providenciaram a saída da viúva e das crianças da cena. Neca os levou para sua casa, e Crisanto arriou o cavalo para ir até a sede do distrito – que eles chamavam simplesmente “rua” –, a fim de comunicar o fato ao subdelegado de polícia.
Na rua, Ivo tomava café no bar do Roldão, quando foi cientificado do crime. Mandou chamar o soldado Afrânio e o cabo Guilherme, e partiram os três, mais Crisanto, para a chácara Providência, localizada a uns seis quilômetros da vila, um pouco depois da Fazenda da Forquilha, já ameaçando subir a Serra.
A cena era a mesma que Crisanto havia deixado sob a vigilância de Dilino, preocupado em espantar os cachorros de perto do corpo do vizinho morto. Naquela hora, o sangue talhado no chão tinha uma cor esquisita.
Ivo e os dois meganhas examinaram canhestramente a cena, rodaram em torno do cadáver, fizeram perguntas, verificaram o chão próximo à casa à procura de pistas, olharam a estrada em curva, viram a altura do sol naquele momento e imaginaram coisas.
A viúva, muito abalada, foi poupada naquele instante pelo subdelegado, que mandou providenciar a remoção do corpo até a sede do município, onde o legista faria a autópsia.
Dois meses depois do ocorrido, as investigações chegadas a termo, o subdelegado encaminhou ao delegado da cidade o relato da ocorrência.
Como um cão farejador, o cabo Guilherme apurara tudo esmiuçadamente, indagando uns e outros, de casa em casa, de venda em venda, de birosca em birosca, por aqueles caminhos, e não tinha dúvidas de quem praticara o crime: Nestor da Zefa.
Nestor da Zefa não tinha trabalho certo. Fingia coisas, dizia que herdara herança em dinheiro do pai, com fazenda para os lados de Resplendor, em Minas, negociava cavalos, vendia relógios, ausentava-se com frequência, mas estava sempre bem, sem aparentar necessidades, sem dever na praça, comprando sempre à vista, coisa desacostumada na vila.
Depois do levantamento feito, tudo dentro do maior sigilo que um meganha conseguia naqueles tempos, naquelas bandas de mundo, ele e o soldado Afrânio, sob a chefia de Ivo, astuciaram plano para pôr as mãos em cima de Nestor da Zefa, no momento em que ele jogava partida de sinuca no bar do Roldão, o subdelegado na porta, com reforço de mais quatro meganhas da delegacia da cidade.
Quando Nestor da Zefa percebeu que o caldo havia entornado, quis fugir pelos fundos, passando por detrás do balcão, de onde derrubou um vidro de pirulitos. Foi recebido por dois soldados, que o imobilizaram, amarraram-no com corda grossa e o conduziram para a sede do município.
Lá aplicaram os corretivos de praxe nos interrogatórios policiais dos idos dos anos cinquenta, e Nestor da Zefa deu com a língua nos dentes de não deixar pormenor sem esclarecimento, nomeando mandante, preço e demais combinações da encomenda, inclusive a data do aniversário do infeliz.
Eleutério Rocha, assim que soube da prisão de Nestor e conhecendo-o como o conhecia, sabedor de que era um cabra frouxo, sem couro na língua, disse para a mulher que estava de viagem marcada para São Mateus, no norte do Espírito Santo, divisa com a Bahia. E saiu dirigindo seu Ford cristaleira, cinquenta quilômetros por hora, pulando na estrada de chão, para fugir da justiça.
Nunca mais foi encontrado, ou dele notícia se teve. A mulher, mal recebeu carta sem remetente identificado, daí a uns tempos também se mudou da vila, levando filhos e abandonando tudo o que tinham construído até então.
Nestor da Zefa foi julgado, condenado e morreu na cadeia, por conta de desavenças com outro preso, dois anos depois. E não se soube que chorassem por ele. Na vila, mesmo, houve certo alívio nas pessoas.
A mulher e os filhos de Honório nunca saíram da chácara Providência.
Os meninos cresceram, viraram homens e, por qualquer conto de réis, dão cabo de não importa que sujeito tenha atravessado a vida de fazendeiros como seu Eleutério. Tal qual ocorreu com seu pai, tantos anos atrás, por conta de migalhas e mesquinharias, sem a mínima importância. A vida humana levada na conta de raspa de tacho.
Grant Wood, Stone city (séc. XX).

11 de dezembro de 2011

PROPOSTA

não falemos mais das coisas passadas sob os cobertores
numa tarde fria de agosto
deixemos que o tempo apague o que sobrar de nós dois
das coisas que fizemos
dos sonhos não realizados
do azedume da boca frustrada
deixemos que o calor do corpo
se perca no ar infestado de pernilongos e muriçocas
e o suor escorra no canto da boca para cair
sobre os lençóis
finjamos que os dias são sempre os mesmos
a despeito de todas as dores e guerras
e não sintamos mais
o peso dos séculos sobre nossas cabeças
nem o desconhecimento do futuro
no conglomerado orgânico dos nossos intestinos em fogo
fiquemos apenas contentes em saber
que o amanhã será talvez
e tudo o mais será pois é

Jean-François Millet, As respigadoras, séc. XIX
(imagem em http://www.rmn.fr/).

10 de dezembro de 2011

TALVEZ SEJA TARDE

Talvez seja tarde
E eu não devesse começar meu discurso
Talvez seja tarde
E eu não devesse começar a te dizer
Que a esperança já nasceu morta
Que a esperança é uma porta aberta para o nada
Que a esperança
Essa tola procura de nós todos
Já está sepultada sob o ódio que nos precedeu

Talvez seja tarde, amor
Para te dizer que os castelos que construímos
Com rebeldia
Estão sepultados sob os escombros de nossa juventude
Talvez seja tarde
Mas preciso te dizer
Embora seja muito tarde
Que a vida é mesmo esta incógnita escondida
Que não irá jamais resolver problema algum

Marc Chagall (séc. XX), O circo azul
(imagem em http://www.rmn.fr/).

9 de dezembro de 2011

A EXPRESSÃO CRÍTICA MODERNA DIANTE DE OBRAS ETERNAS

1.      APRECIAÇÃO ESTÉTICA DA OBRA DE ARTE




 Caraca, maneiro!


2. APRECIAÇÃO INTELECTUAL DA OBRA FILOSÓFICA


                 Caraca, maneiro!

3. APRECIAÇÃO INTELECTUAL DA ARGUMENTAÇÃO POLÍTICA
               
             Caraca, maneiro!

4. APRECIAÇÃO ESTÉTICA DA GRANDE MÚSICA
               
 Caraca, maneiro!

5. REAÇÃO DIANTE DO GRANDIOSO SHOW DE ROCK

               
 Caraca, maneiro!

6. REAÇÃO DIANTE DE GRANDES FEITOS DA CIÊNCIA

               
 Caraca, maneiro!

7. EXPRESSÃO DA SENSIBILIDADE DIANTE DA BELEZA NATURAL

               
 Caraca, maneiro!

8. MANIFESTAÇÃO DE ÊXTASE DIANTE DA OBRA ARQUITETÔNICA

               
Caraca, maneiro!

9. REAÇÃO DE PROFUNDA ADMIRAÇÃO PELA FORÇA DA NATUREZA

              Caraca, maneiro!
E, POR FIM...


10. REAÇÃO EMBASBACADA DIANTE DA BELEZA FEMININA
                       
      



 – Aê, caraca, maneiro!


(Formatado com imagens colhidas na internet e a frase, por aí mesmo. Caraca, maneiro!)

8 de dezembro de 2011

ESTOU SÓ NO MEU PAÍS

Imagem em buenosairesgol.com.ar.


Estou só no meu país
Cada um de nós está só neste país
Irremediavelmente só e massacrado
Sem compreender o que acontece com nossos estômagos
Com nossas angústias
E nossa infinita paciência de cães bernentos.
Estamos definitivamente desamparados nos becos
Sem futuro da nação que sequer tentamos construir
Da nação espezinhada dilacerada
Entregue à sanha de uns poucos
Para a miséria endêmica de milhões.
Estamos inapelavelmente privados da consciência
De que somos o próprio mal que não se cura
De que somos o próprio desespero que se basta
E continuamos a fomentar a discórdia
Entre nós mesmos
Enquanto a canalha que nos domina
Olha o horizonte e vê um céu de brigadeiro.

(Explicação necessária: Este texto é antigo - década de 70/80 -, mas penso que ainda não perdeu de todo seu sentido.)