4 de dezembro de 2011

LOUVADO SEJA

Louvado seja
O louva-deus
E o escaravelho
A coruja
E o percevejo
O corisco                                                               
E o trovejo
O que eu calo
E o que eu vejo
James Jordan, Walking a crooked mile
(em vivelibre.blogvie.com).
O gaturamo
E o coleiro do brejo
O canário da terra
Com seus arpejos
O dito sério
E o motejo
O vinho tinto
E a cerveja
O gole em seco
E o gargarejo
O sedentário
E o andejo
O grafite frio
No azulejo
O homem sério
E seus desejos
O que sou falta
E o que sou sobejo
O que vislumbro
Ou que entrevejo
O Douro, o Minho,
O Sado, o Tejo,
Onde eu esteja
E não esteja.
Louvado seja
Aquele que não fraqueja
Ou o que fraqueja
Somos todos irmãos
Nesta peleja
Somos todos pescadores
Nesta igreja
E ainda que não seja
Viveremos de lampejos
Eternamente entregues
À esperança vã
E seus atropelos
Como se fôssemos
Meros escaravelhos
Simples Louva-deuses
Que perdem a cabeça
No exato momento
De aplacar o desejo.

3 de dezembro de 2011

PENSAMENTOS BEM PENSADOS X

Em steelturman.typepad.com.

Nunca duvide da capacidade de uma mente em estado de ócio. Eis aqui mais uma vintena de pensamentos bem pensados, que tentam abarcar todo o espectro das preocupações da vida humana, sem, contudo, querer se meter nela de modo invasivo. Se apenas fizerem cosquinhas, já está de bom tamanho.

Ei-los. 
1. Uma coisa que não dá pé é dar pé de atleta em perna de pau.
2. Na dúvida, duvide sempre.
3. Se você não tiver segurança em fazer alguma coisa que não ofereça segurança, é melhor, por segurança, não fazer mesmo! Pode ser que tudo dê errado, o que será altamente inseguro.
4. Não se abre caixa de dinamite a poder de marteladas.
5. No Planalto, in dubio, pro Delúbio!
6. Cavalo que não escoiceia leva arreio.
7. Cada um gosta do que gosta. E o resto, no seu juízo, é bosta.
8. Cão bernento, dono piolhento.
9. Solidão de três, suruba à vista.
10. Maminha pouca, meu soneto primeiro: “Alma minha gentil que te partiste...”*
11. O samba é a única manifestação humana que o sambista diz com a boca e diz com o pé, sem que este se confunda com o que diz.
12. Se, por um remoto e improvável acaso, houvesse a prática japonesa do haraquiri entre nossos homens públicos pegos na prática de atos condenáveis, haveria no Brasil uma autocarnificina de proporções catastróficas. Ainda bem que somos um povo sem um pingo de vergonha na cara.
13. Coveiro que trabalha sério não cava seu próprio túmulo.
14. A quem importará a desgraça de um homem desonrado senão a seus iguais?
15. Periga que a constituição deste novo governo de salvação da Itália, formado sem nenhum político de carreira, venha comprovar que, desgraçadamente, estamos sustentando uma categoria totalmente inútil ao longo de centena de anos: os políticos.
16. Quanto mais ministérios componham o governo, tanto mais áreas de interesse público deixarão de ser atendidas convenientemente pelos serviços oficiais. É a tal da razão inversamente proporcional da matemática atuando no campo político.
17. No Ministério da Agricultura, enquanto a vaca vai para o brejo, o boi arranja um jeito de ir para o abate. Já o pessoal do gabinete se dá bem.
18. Vai ficar preta a situação do cara que atirou na Casa Branca: nem acertou no Obama e vai entrar em cana. Bem feito, quem mandou ser ruim de pontaria! Pagará até por sua incompetência.
19. Estudante da USP agora não queima mais a mufa para estudar. Queima outras coisas!
20. Ninguém consegue tirar a honradez de um homem honesto, assim como não consegue dá-la a um desonesto.
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* Luís de Camões, Soneto 080 (em Canal do estudante).

2 de dezembro de 2011

UM JEITO DE VIVER

não recuperarei a memória que não tenho
das coisas sofridas ou desfrutadas.
não removerei as pedras do passado
tentando entender o presente
para preparar o futuro.
o que veio já passou ou está passando
sem que eu saiba se tomou direção.
ali adiante não há bifurcação.
simplesmente o caminho está por construir
do mesmo modo que se apaga
ao chegar até aqui.
vivo o presente
e reticências...

Theodore Robinson, Barcos num aterro, séc XIX (imagem
em mystudios.com).

1 de dezembro de 2011

PANORAMA

debaixo dos teus lençóis
tempestades de desejos
sortilégios desesperos dor enganos.
pelo colchão da tua cama
mil lacraias escaravelhos
escorpiões percevejos
roedores.
nas paredes do teu quarto
projeções em preto e branco 
Foto de Drzewo Ulica em ulicafotograficzna.pl.
pesadelos sonhos negros
desencantos.
nos externos corredores
liberdades deletérias
escuridão abandono
ânsia de vômito e medo.
pelas praças da cidade
coxos mendigos e cegos
devastação e miséria.
enfim na vastidão do país
a existência por um triz.

30 de novembro de 2011

TIPOS INESQUECÍVEIS DE QUE TENHO APENAS VAGA LEMBRANÇA

Quió: Vendia jiló na feira e ajudava Toim Cu de Burro a desonrar muares nos pastos, nas noites de lua cheia. Pior que não guardava segredos.
Querêncio: Vivia querendo coisa com Cremilda, filha de Quelemente e Cacilda. Levou pelas platibandas coice de mula prenha e perdeu os dentes da frente.
Zeferino de Zefa: Zelador da Praça do Sabiá. Também tinha zelo por Zoraide, mulher de Zoroastro, que armou zoeira, quando o encontrou cuidando da área de lazer lá dela.
Quintiliano do Cartório: Só trabalhava cantando. Lavrava certidão de nascimento ao som de Mamãe eu quero; certidão de óbito, a poder do hino Com minha mãe estarei; e certidão de casamento, com A moda da mula preta. Averbação de desquite era especial: Acorda, patativa!, de Vicente Celestino.
Cocote: Era o goleiro do Liberdade Esporte Clube e pegava chutes de todos os calibres. Mas não lia, nem escrevia. Ao Jorge, de batismo, o presidente do clube acrescentou Sá, para facilitar que aprendesse a assinar o nome na súmula dos jogos, e assim o registrou.
João Preca: Pegou caxumba e, para não ficar rendido, ficou um tempão de cama. Aproveitou para aprender a tocar violão e nunca mais cavucou um buraco, carpiu uma roça, arrancou um toco. E tocava sempre: “Peida aqui, caga no canto, que eu daqui não me levanto”.
Bonga: Ponta esquerda do Liberdade Esporte Clube. Nos dias úteis, carreava bois, os quais espicaçava com grande remorso. Nos inúteis, dava botinadas impiedosas nos zagueiros adversários, pelo Campeonato Bonjesuense de Futebol. Tinha a pele exageradamente tinta de melanina, de modo que, de branco, só o branco dos olhos e dos dentes.
Zé Caboclo, Dentista
(artepopulardobrasil.
blogspot.com).
Alcides Dentista: Subia em lombo de mula os caminhos da serra, arrancando dentes, devastando bocas – o paciente sentado nas toras amontoadas no terreirão. Quando voltava, tirava do saco de aniagem as dentaduras que ia experimentando nas bocas murchas, até encaixar firme. Cobrava barato e tinha muito serviço.
Barrosinho: Dono de botequim, misturador de refresco e fazedor de picolé. Deixava as formas lavadas do lado de fora no quintal, de modo que seus picolés sempre tinham uma penugenzinha de pombo, a destacar os sabores: de coco, de creme, de groselha e de uva.
Carlinda do Procópio: Tinha ficado viúva do Procópio, mas não perdeu o nome. Criava galinha e pato e, na altura dos quarenta e tantos anos, começou a dar bola para Chico Padeiro, que enfiou a mão na massa de não deixar partes sem apertar. Carlinda ficou um brinco de pessoa, toda jeitosa.
Chico Padeiro: Já peguei Chico Padeiro na virada dos sessenta anos, por sua vez já viúvo de Carlinda, a qual não aguentou tanto aperto, tanto amasso. Chico Padeiro era bom de um tudo, mas pensava que as carnes de Carlinda fossem massa de rosca baroa.
Tatão Florindo: Homem forte, dobrado, pegador de vaca pelo chifre. Trabalhava na Fazenda do Jacó e, nas festas de São João, passava sobre as brasas da fogueira com os pés descalços. A sola dos pés era grossa de quase um dedo. Queimava a bainha da calça, porém os pés saíam fumegando, mas sãos.
Zé Gago: Zé Gago era mestre em gaguejar. Gaguejava até nas vias-sacras na época da Quaresma, rezadas na Capela de Santo Antônio. Quando ele não aparecia na reza, dava uma diferença tão grande, que o sacrifício ficava bem maior. Meu joelho doía ainda mais.
Dona Cotinha Rezadeira: Tirava tudo que é tipo de malefício do corpo: pescoço duro, lumbago, descadeiramento, dor de olhos, espinhela caída, esporão, caxumba, unha encravada, panarício, bucho virado, tersol, nó nas tripas, lombriga, verrugas e até infestação de piolho em cabelo de menino de escola. Não cobrava nada, mas aceitava doações. Sempre estava com um pano branco sobre os cabelos.
Pedro Puri: Maluquete que se dizia índio puri, nascido e criado em “Capiun”, como ele chamava Itaperuna em seu jeito estropiado de falar (Itaperuna já não via índio há mais de cem anos). Vivia de ganhar dinheirinho miúdo comendo baratas em frente a mulheres, que saíam correndo esbaforidas de nojo. Depois de mastigar a barata, ia cobrar o combinado, com o engraçadinho que encomendara a troça.
Homem da carroça, de Luís Rodrigues
(em naturezamoldável.blogspot.com)
Seu Osório: Revisteiro, que é como chamávamos aquele jornaleiro itinerante da vizinha Boa Vista, que, uma vez por semana, ia à vila. Sua carroça era toda montada para transportar galinhas, patos, galinholas, que ele comprava durante as viagens para revender em outros lugares, como comerciante de aves e ovos. Minha mãe tinha coleção gigante de O Cruzeiro, comprada dele.

29 de novembro de 2011

O L H O S

por que andam teus olhos tristes
assim jogados pelos cantos da vida?
com quem vão teus olhos claros
percorrer os espantos do amor?
o que indagam teus olhos mornos
entre as frestas em que vislumbram
a luz e a escuridão?
por que são teus olhos grandes
esses faróis de milha bi-iodo
a ofuscar outros olhos que transitam
tua mesma estrada em contramão?

Imagem em perfectissimo.over-blog.fr.

28 de novembro de 2011

E TUDO TORNA-SE...

meus tormentos só os sinto
quando tento ser mais lúcido
e tudo torna-se insensível

estes fogos de artifício
em que se queima meu desejo
destroem-me também o siso
e tudo torna-se impossível

a caldeira de meu peito
compressão de meus defeitos
com defeitos ela mesma
não explode só comprime
e tudo torna-se impassível

Georges Mathieu, Regards de flamme (séc. XX),
em ien.lorient.centre.free.fr.
o cinema de meus sonhos
pelos olhos mais que abertos
mais despertos mais desertos
tem imagens desconexas
sem legendas sem roteiro
e tudo torna-se invisível

o discurso destes versos
ilusão ânsia protesto
discurso não é por certo:
alguma coisa inaudível
desprovida de sentido
com que me sinto perdido
e tudo torna-se indizível