21 de novembro de 2011

SOLANGE E LEONARDO

Não sei se deveria contar-lhes, mas é que há certas histórias que não podem passar em branco. E certos narradores têm o mau hábito de não guardar segredos confessionais.

Solange trabalhava comigo na escola. Tinha lá seus trinta e tantos anos, um sorriso ingênuo, um olhar ingênuo, uma fala também ingênua e andava com um passo ingênuo, de tal modo que despertava nos canalhas certo desejo de com ela fazer coisas, na pretensão de ensinar-lhe algo que ela supostamente não soubesse. Era a própria ingenuidade em pessoa, embora tivesse dois filhos adolescentes, o corpo redondo, cheio de belas formas curvas, prenunciando Botero em seus quadros adiposos.

Leonardo, seu ex-marido, tinha ido procurar novas esbórnias nos braços de outra. Feio, baixo, atarracado, peludo como Toni Ramos, os dentes aleatoriamente espalhados na boca como milhos mal debulhados, não havia jeito de parecer de cara limpa com aquela barba preta e densa, por mais que se escanhoasse. Trabalhava comigo no outro emprego, nos corredores do fórum da cidade, embora tivéssemos fortuitos encontros em horário de expediente, quando, então, trocávamos algumas frases inconsequentes.
Eu sabia dos acontecidos de suas vidas, porque Solange via em mim uma espécie de pessoa confiável, quase um confessor, que se manteria mudo, não importasse quais fossem as circunstâncias. E também porque era pai do colega de classe de um de seus filhos, o mais velho.

Um dia, no entanto, a outra, a dita sirigaita aproveitadora, cansou-se daquela vida minguada de funcionário subalterno sem cargo em comissão e mandou Leonardo andar.
Alguns homens têm a cara de pau, nessas ocasiões, de se socorrerem da ex, com argumentos que só se sustentam na ingenuidade delas. E foi o que ele fez.

E voltou para casa extravasando boas intenções e sinceros arrependimentos. Logo procurou psicólogo misto de macumbeiro, indicado por colega de cartório, a fim de tentar colocar a cabeça em ordem. O dito profissional polivalente o aconselhou a exercer alguma atividade artística, para dar vazão a desconhecido espírito que se encostara nele e que, na outra vida, mexia com pincéis, tintas e paletas, a par da lubricidade que acometia suas partes baixas.
Leonardo misturou suas aulas de pintura com orientações espirituais e foi-se desenvolvendo. Se melhorou espiritualmente, não percebi, como também nunca indaguei. Porém sua expressão estética passou dos garranchos iniciais de alfabetizado, para caligrafia de múltiplas expressões. Era, realmente, um progresso artístico admirável. Por isso passou a ser requisitado, a vender seus quadros, a participar de coletivas, até chegar a exposições individuais.

Solange viu naquilo a redenção do marido, que voltara aos primeiros tempos de casamento. Ela, muito católica, toda entusiasmada, certa ocasião convidou-me a participar de encontro de casais. Sem que pudesse perder a oportunidade de fazer troça, disse-lhe:
- Marque o motel e o horário, que chego lá!

Ela tomou um susto ingênuo, como pude perceber por seu sorriso maroto. Mas depois caiu em boas gargalhadas, chamando-me de brincalhão, mas reafirmou que o convite era sério. E indicou a igreja e o horário a que deveria comparecer, levando minha mulher.
É claro que nunca lá estive.

As coisas caminhavam bem para Leonardo e Solange, sempre pelas informações que ela me passava, até que certa manhã duvidosa de agosto, recheada de atropelos espirituais e confusões de ordem econômica e política, vem ela, com seu passo ingênuo, os olhos inchados, a boca carnuda de musa do artista colombiano, me dizer que Leonardo, mais uma vez, tinha dado o pinote, atrás de outra sirigaita aproveitadora de homens casados, a qual conhecera num de seus vernissages, entre um gole de vinho branco e outro, um canapé requentado e um copo d’água sem gás.
Olhei para ela, entre penalizado e excitado, e quase lhe propus um encontro de casais: ela e eu, só nós dois, para fazer as coisas pouco recomendáveis que me passavam pela cabeça. Talvez ela não aceitasse. Talvez sim. Nunca se sabe o que se passa pela mente de uma mulher ferida.

Essa dúvida ficou comigo.
Anos depois, encontrei-a, por acaso, na Rua Moreira César, e ela estava ainda mais redonda, os cabelos pintados de um preto forte, com o mesmo sorriso ingênuo nos lábios:

- Oi, amigo! Sabia que Leonardo voltou novamente. E agora não tem retorno: ele está com aquela doença ruim na próstata. A outra não quis saber dele e eu fiquei com pena de que morresse sozinho, desamparado. Meu coração me dizia isso: fosse a última caridade que lhe faço.
Deu mais notícias dos filhos, do netinho que já estava andando e fazendo gracinhas, e dobrou a esquina da Lopes Trovão, com seu passo ingênuo e seu coração do tamanho do mundo!

Fernando Botero, Casal, 1995
(artchive.com).

20 de novembro de 2011

ANTAGONISMOS

física e geograficamente
quanto mais me deito
mais me levanto
quanto mais sucumbo
mais crio forças
quanto mais padeço
mais me alegro
quanto mais afundo
mais tenho o corpo redimido

tudo isso por causa de você

Imagem escolabiblicadiaria.blogspot.com.

19 de novembro de 2011

E AS MULHERES FINGEM...

cada caminho lembra pedra
cada moinho o tempo rolado como seixo
cada desejo esta merda de vida sem paixões
            (as mulheres fingem não notar
            que lhes esmolo o corpo
            e seguem indiferentes)
cada aperto no coração muito mais para enfarte
cada suspiro perigo de poluição
cada delírio caso de internação psiquiátrica
            (as mulheres fingem não notar
            que me apaixono à toa
            e seguem indiferentes)
cada cantada arquivo morto
cada sorriso um pedido de desculpa
cada aceno um gesto inútil de espantar moscas
            (as mulheres fingem não notar
            que me descomponho todo
            e seguem indiferentes)
cada sonho um antigo filme em preto&branco
cada beijo babugem entre beiços
cada orgasmo um desajeitado sacolejo da carne
            (e as mulheres fingem não notar
            que me destruo aos poucos
            e seguem indiferentes)
Catherina Spaak (vivagringo.blogspot.com)

18 de novembro de 2011

MITOLOGIA GRECO-ROMANA ADAPTADA A TEMPOS DE CRISE

Com a derrocada da nova civilização (?) greco-romana, na pessoa de seus países, suas contas públicas e seus políticos incompetentes, acrescentada a bunga-bunga berluscônica, sinto comichar nos meandros das minhas circunvoluções cerebrais a necessidade de adaptação da antiga mitologia, velha de milhares de anos, a esses novos tempos.

Destarte, pude captar as novas atribuições de algumas entidades do panteão do Olimpo, como vou passar a fazer.
O próprio Olimpo perdeu muito de sua mística, em virtude da quebradeira geral imposta à Grécia, onde miticamente se situa, e agora baixou de categoria, operando presentemente no varejo da gastronomia, com franquias abertas em Niterói, no Olimpo, localizado no bairro de Charitas, e no Rio de Janeiro, em sua versão franco-brasileira, no Olympe, do chef Claude Troisgros, que funciona no Jardim Botânico. Em Bom Jesus do Itabapoana, é meramente um adjetivo clubístico, sem maiores pretensões, já que nem a LBD – Liga Bonjesuense de Desportos –, de tão gloriosa memória, funciona: Olímpico Futebol Clube. Ou, se quiserem, ainda no ramo da gastronomia, porém agora de extração popular: a carroça de churrasquinho do José Olímpio, que vem a ser meu parente afastado. E bem afastado, depois que fiquei sabendo do desaparecimento misterioso de vários exemplares da raça dos felinos, tão logo ele abriu seu comércio ambulante de espetinhos grelhados.
Hefesto (ou Hefaistos) fechou sua siderúrgica em Lemnos, onde chegou a trabalhar para Zeus na confecção do escudo deste, e abriu serralheria modesta, de duas portas estreitas, na Rua Noronha Torrezão, no Cubango, atendendo a pedidos de basculantes e grades peito de pombo para apartamentos e residências. Vulcano, seu equivalente romano, terceiriza para o grego as encomendas que recebe, pois sua franquia faliu. Antes tinha passado pela Metalúrgica Castor, em Bangu, mas foi despedido da função de forjador-mor, após a morte de seu proprietário, também corretor zoológico, presidente de clube e benemérito de escola de samba. Contudo tem dado expediente nuns vulcões chilenos que estão dando um trabalho hercúleo à aviação internacional.

Por falar em hercúleo, vamos ao herói. Hércules, coitado, virou marca de garfos, facas e colheres. E seu trabalho mais difícil é encher a barriga de seu proprietário e continuar brilhando, após cada lavada. Nada mais daqueles portentos, como matar a hidra de Lerna, o leão de Nemeia, o gigante Gerião e as aves do lago Estínfalo, dentre otras cositas más, se pode esperar dele. Seu nome grego, Héracles, atualmente não serve nem mesmo para nomear menino homem, nascido nos cafundós do país. Hoje é tudo Maicon, Uóxito, Maicosuel, Macojequis, por aí afora.
Mercúrio teve seu comércio abalado por negócios mal realizados e também pela falta de encomendas do setor público, onde conseguia superfaturar nos contratos advindos de licitações manipuladas. Abriu uma farmácia de manipulação – sua especialidade, como se vê – onde é especialista numa tintura muito eficaz em escoriações generalizadas, à qual deu seu nome adaptado: mercurocromo. Seu equivalente grego Hermes, no entanto, está em melhor situação, porque franqueou o uso do nome para marca de produtos muito cobiçados por gente endinheirada e seus cavalos: Hermès, assim mesmo com acento afrescalhado de revés e tudo.
Minerva, a deusa romana da sabedoria, virou marca de sabão em pó  - agora é da sabãodoria, com perdão do trocadilho infame -, que também anda desaparecida do mercado, numa clara tendência de extinção total. Sua coirmã grega, Atena, vive às voltas como capital do país, cheia de mazelas, sofrendo com manifestações frequentes de milhares de pessoas que vão para as ruas falando uma língua muito esquisita que ninguém entende: parece grego, pô!
Plutão perdeu tanto prestígio, com esses problemas todos, que teve sua condição de planeta caçada, que dirá a de deus. Contra isso não pôde fazer nada, porque a Ciência pode tudo, inclusive dizer besteiras agora, para, daqui a pouco, alterar tudo, como tem feito nos últimos cinco mil anos. Assim, Plutão fica na geladeira, aguardando melhor sorte. Seu equivalente grego Hades, entrou na letra de canções brasileiras chorosas: “hades chorar, hades sofrer” (Veja lá em Amor perdido, por Silvinho). Mais ou menos por aí. 

Para não me delongar demasiadamente e não misturar sua cabeça com tanta informação pertinente e suspicaz, suspendo por agora esta minha teogonia adaptada a tempos de crise, prometendo voltar, assim que me der na telha, ou que alguma Musa desocupada me atender.

"Antigo busto de bronze, o chamado Pseudo-Sêneca,
que atualmente especula-se como sendo um retrato
imaginativo de Hesíodo", autor de Teogonia
(imagem em pt.wikipedia.org).

17 de novembro de 2011

FRASES BANAIS

o dia amanhece em teus olhos tristes
e o vento morno sopra em tua boca.
nada como um dia depois do outro
numa sucessão de coisas tangíveis
em que não se pode prescindir
da dor do pranto e da miséria.

cada amanhecer em tuas pupilas
borra de nuvens o horizonte atrapalhado
por montanhas e folhas de jornais.
nada permanecerá impassível
se tu não o quiseres.

mas de nada adiantará teu hálito morno
sem o som plausível e o cheiro forte
de tua carne silenciosa e doce.

o dia assim se construirá
com as peças com que recompões o tédio
dos dias claros
ou o delírio brumoso das nuvens negras
que cobrem o céu como que por acaso.

e tu estarás eterna neste interstício de tempo
a que chamam amor.

Gustav Klimt, O beijo, 1907-1908 (imagem em
mocasaki.rmc.fr).

16 de novembro de 2011

PERDIDA CHANCE

quando tudo sucumbir ao tempo
e nada mais restar sobre a face da vida
no silêncio então imposto
sobrará uma última manifestação
das coisas que não vivemos por inteiro
como uma perdida chance

Chapada Diamantina, BA (www2.uol.com.br).

15 de novembro de 2011

A MAGIA DA ARTE DE ANTÔNIO ROCHA

Antônio Rocha foi convidado, pela coordenadora Benita Prieto, a participar do Simpósio Internacional de Contadores de História 2011, apresentado no SESC Copacabana, entre os dias 9 e 13 de novembro, em que ministrou cursos e se apresentou na abertura da maratona de vinte e quatro horas, das 18 horas do sábado às 18 deste domingo, de contação de histórias, como está na moda dizer, como grand finale do encontro, que se vem repetindo há alguns anos.

Você não sabe quem é Antônio Rocha? Que pena!
Capa do dvd de Antônio Rocha
(imagem em http://www.storyinmotion.com/).
Por uma série de fatores históricos e acasos, fui até lá com minha mulher Jane, e saímos encantados com a magia com que Antônio Rocha conta histórias, com e sem palavras. Aliás, não só nós, mas todos os que ali estávamos. Ele foi ovacionado ao final de sua apresentação.
Antônio Rocha é um artista brasileiro, natural de Miracema, terra de minha mulher, que é amiga de toda a sua família e o conhece desde criança. Por intermédio dela, também conheço toda ela. Porém Antônio Rocha, ou simplesmente Júnior para os mais próximos, já que ele é o filho caçula de uma prole eminentemente feminina – são quatro irmãs mais velhas – e recebeu o nome do pai, não víamos desde que era um adolescente magrelo, comprido e tímido.
Todavia, como timidez não impede vontade e talento, Antônio foi para os Estados Unidos em 1988, a fim de aprimorar sua arte. Hoje ele é ator, mímico e contador de histórias já consagrado no exterior, com agenda lotada para espetáculos em vários países. Mas, infelizmente, fixou residência lá, onde está já há vinte e oito anos, produziu dvds e recentemente reescreveu o conto folclórico Uma história no céu em inglês e em português. E consta, em sua história profissional, apresentação feita para a turma da filha do presidente Barak Obama, na escola que ela frequenta.
Antônio tem o domínio completo de sua arte. De início, começou contando, por palavras e gestual, O filho de Mussa, história do folclore africano que narra a iniciação do filho de um chefe tribal, levado por seu pai ao deserto para a prova definitiva, a fim de testar sua capacidade de, um dia, tornar-se também chefe. As variações de voz, as nuances de entonação e timbre, a incorporação do velho chefe, um tanto alquebrado, que porta seu cajado, a máscara facial do jovem durante a difícil prova a que se submete, nada disto fica sem o toque magistral do ator.
Em seguida, mostra sua habilidade como mímico, discípulo que foi de Tony Montanaro, responsável maior por toda sua formação na área, embora tenha também feito um curso rápido com Marcel Marceau, numa das vezes em que o mestre francês esteve nos EUA. A história da transformação da lagarta em borboleta não leva cinco minutos, mas encanta pela sofisticação e a poesia dos gestos.

Na sequência, conta com palavras e expressão corporal extremamente criativa a antiga história do folclore brasileiro O veado e onça, aquela em que os dois resolvem fazer uma casa, na margem de um rio, e, cada um a seu turno, sem saber do trabalho do outro, vai fazendo a casa e achando um milagre de Tupã o progresso da obra. A alternância na representação da onça e do veado foi, ao mesmo tempo, precisa e cheia de bom humor, com sugestões muito sutis do que, em nossa cultura, atribuímos a um e outro bicho.
Após, interpreta, também por mímica, uma história de terror clássica: o cidadão que se vê na contingência de entrar numa casa mal-assombrada, porque seu carro sofreu uma pane na estrada deserta. Esta história, que ele “escreveu” há cerca de quinze anos, se não me falha a memória, tem todas as peripécias por que passa o personagem, ao entrar num ambiente escuro, desconhecido, fantasmagórico, com portas que rangem; escuridão que se tenta vencer a poder de vela, archote, lanterna; calabouço que se abre; paredes movediças, ratos e cadáveres. Tudo isto traduzido em gestos, em expressão corporal e na expressão facial necessários a que a plateia acompanhe, entenda, sinta medo e, ao final, aplauda estrepitosamente o desempenho do artista. De todo o rico repertório de recursos de Antônio, chamaram, sobretudo, a atenção de todos a representação do eco e a lanterna problemática que teimava em não funcionar bem.
Ao final, para coroar sua saída, compõe pequena peça cheia de lirismo: enche com a boca uma hipotética grande bola de soprar, que o “eleva” do chão e o conduz suavemente para fora do palco, sob o aplauso de pé de toda a plateia.
Terminada a apresentação consagradora em seu país natal, saímos, em companhia de sua irmã, seu cunhado e diversos amigos, para jantar, conversar e saber das novidades da vida daquele menino magro, comprido e tímido, o Júnior, que saiu de Miracema para ganhar o mundo com sua arte mágica, como Antônio Rocha.
------------
Para mais informações, veja seu sítio na Internet: http://www.storyinmotion.com/ .