31 de outubro de 2011

NO MEIO DO MEU CAMINHO

(Nos 106 anos do nascimento de Carlos Drummond de Andrade.)

No meio do meu caminho teve um Drummond
de Andrade teve no meu caminho
Teve um Carlos
No meio do meu caminho um Carlos Drummond de Andrade

E nunca mais fui eu mesmo nem mesmo
Na vida de minhas pretensões tão jovens
E nunca mais me perdi no meio do meu caminho
Pois nele teve uma pedra
Que refletia o mundo que a cada instante se abre
No meio do meu caminho Carlos Drummond de Andrade

Autocaricatura de Carlos Druumond
de Andrade (em ronaldorossi.com.br).


30 de outubro de 2011

JUÍZO CRÍTICO

Renoir, A leitora (séc. XIX/XX).


minha amiga interessante
não gosta de poesia descritiva
eu também não
prefiro a poesia viva
que é minha amiga interessante
lendo poesia descritiva

29 de outubro de 2011

PENSAMENTOS BEM PENSADOS VIII




Encontrei numa livraria do Rio de Janeiro a obra Migalhas de Machado de Assis*, livro de compilação de frases do escritor carioca, colhidas em sua vasta obra por Miguel Matos.
Machado é também reconhecido como grande frasista. Seus escritos estão repletos delas. Assim o compilador se deu ao trabalho, com auxiliares, de fazer tal coleta.
Uma delas diz o seguinte: "Há frases assim felizes. Nascem modestamente, como a gente pobre; quando menos pensam, estão governando o mundo à semelhança das ideias" (in Esaú e Jacó e indicada pelo número de ordem 280 na compilação).
Vejam, então, vocês que, daqui mais alguns anos, posso ser citado, como faço agora; posso ser pai de alguma filosofia – algum –ismo –; inclusive posso ser guru de alguma religião muito lucrativa. Pretensão e caldo de galinha, na medida certa, nunca fazem mal a ninguém.
Continuemos, pois, com a publicação desses pensamentos bem pensados.
Imagem em
edmort999.blogspot.com.

1.      No Ministério da Agricultura, de cada enxadada que se dá, sai um corrupto. Já a mandioca anda escassa.

2.      Dos buracos das estradas brasileiras saem ratos peludos filiados ao PR - Partido dos Roedores.

3.      O salário mínimo brasileiro teve seu valor calculado de modo a não permitir a quem o recebe sair por aí, gastando a três por quatro. Pobre, quando tem, é um perdulário de marca maior.

4.      Vi notícias do lançamento de documentário sobre a reação do ex-presidente Lula vendo um filme sobre ele mesmo. Sei não, mas acho que o cinema nacional anda sem argumentos interessantes.

5.      É engraçado como nossa vida se desenrola, ou antes, marcha na fieira do tempo. Chega um momento em que, inopinadamente, dobramos do Cabo da Boa Esperança para o Cabo das Tormentas, num percurso inverso ao de Bartolomeu Dias. E o pior é que, ao nos darmos conta disto, nossa nau desembestada já está se aproximando de Calecute.

6. O haraquiri jamais pegaria no Brasil. Aqui, a vergonha pública que, lá no Japão, leva ao suicídio é virtude inexistente.

7.  Recebi e-mail solicitando minha assinatura em protesto contra um homem matador de gatos nos EUA.  Ora, lá só me interesso pela integridade da Demi Moore e da Beyoncé.

8.  Não há paixão, por mais doentia que seja, que um simples casamento não cure completamente.

9.  A única idade que não existe é a meia idade. Ninguém sabe quando será o fim: assim não existe o meio.

10.  A corrupção é uma prática tão difundida entre nós, que já se pensa em elevá-la à categoria de patrimônio imaterial do Brasil.

11.  Não confie muito que os políticos sejam capazes das maiores falcatruas. Eles, definitivamente, não são confiáveis.

12.  A primeira necessidade básica do homem é mamar. A segunda, caso se torne político, é mamata.

13.  Se você toma uma atitude numa latitude equidistante de qualquer ponto do planeta, o resultado vai estar numa longitude inconveniente a que este seja alcançado.

14.  Nos esportes patrocinados pelo Ministério idem, é no Segundo Tempo que os árbitros metem a mão no resultado dos jogos.

15.  Toda vez que assacam aleivosias e insinuações maliciosas contra o Ministro dos Esportes, o esqueleto do Cantor das Multidões sofre espasmos no Cemitério do Caju.

16.  Porco chauvinista é tão imprestável, que não serve nem para torresmo; quanto mais para leitão à pururuca ou leitão da Bairrada.

17.  No bate-boca entre Orlando Silva e João Dias nada há de musical, porém não sei qual desafina mais.
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*MATOS, Miguel (org.). Migalhas de Machado de Assis. 4. ed. São Paulo, Ed. Migalhas, 2009.

28 de outubro de 2011

POEMAS MÍNIMOS IV

I
ninguém ouve minha boca
nem olha meus olhos.
estou comigo há séculos
e não me basto...


II
uns dias o sol
outros a chuva
no último de minha vida
pó de lágrimas secas


III
salga a terra o pranto copioso dos homens
um pouco depois
seus corpos adubarão
o que sobrar estéril


IV
os rios são corpos fluidos atemporais
atópicos atípicos
deuses helênicos
onde os pescadores pescam peixes míticos


V
meia parede clara iluminada pelo sol de outono
meio sono nas pálpebras cansadas
meia vida exposta à galhofa dos contemporâneos
meia morte minha noite em meio ao nada


VI – RELATIVIDADE (PAISAGEM INTERIOR DIANTE DO MAR ABERTO)
toda esta planura é curva
toda esta aflição é vida
todo este amor, desencanto
... desespero

Imagem em imagensdeposito.com.

27 de outubro de 2011

POEMA-TORPEDO

(Para Estefânia)
Bem te amo:
um tanto como um oceano;
um tempo como mil anos;
uma vida com seus enganos.
Mas é assim que te amo.
E pronto!


Arpoador, por Sheila Machado, em flickr.com, 10/4//2010.

26 de outubro de 2011

POR UM BIDÊ

Viúva, fora morar com o filho mais velho, a nora e os netos, após alguns anos de solidão na casa grande da serra de Rosal de Santana, já quase embicando para o Espírito Santo, em terras de São José de Calçado.
Habituada à dura vida da roça, embora de algumas posses, sem contato com os confortos que o século XX oferecia. Principalmente, banheiro montado dentro de casa. Na sua época, essa peça quase não existia. Ou, quando existisse, ficava apartada do corpo da construção e atendia pelo nome de quartinho.
Assim, começou a se deliciar com cada aparelho novo, cada objeto que facilitava a vida: o liquidificador, a panela de pressão, o fogão a gás, o rádio, a televisão e o banheiro ao alcance da mão. Sobretudo, o banheiro. E, no banheiro, a paixão maior: o bidê. Que aparelhozinho interessante, confortável! Era sentar ali e perder quase uma manhã toda, a água quentinha, carinhosa, sensual. Ela que já perdera seu homem há muito, quase deslembrada dessas coisas saborosas. Mas ali estava o bidê aconchegante, amigo, amante.
Imagem em gartic.uol.com.br.
A nora, quando descobriu o motivo de tanta demora no banheiro, ficou entre chocada e penalizada. Comentou com o marido que, cheio de pudores filiais, mandou fazer uma reforma geral. A peça, propositadamente, foi esquecida.
A velha, ao ver o novo banheiro sem bidê, entrou numa depressão tão grande, numa apatia tão dolorosa, que o filho se viu na obrigação de, por amor filial, devolver ao seu devido lugar o aparelho objeto do prazer do restinho da chama que ainda queimava dentro de sua velha mãe.

25 de outubro de 2011

AQUARELA BRASILEIRA EM PRETO E BRANCO

 (Para José Antonio Lahud.)

Turvei-me em Águas Claras,
Afoguei-me em Mangue Seco,
Encontrei águas clarinhas
Próximas a Rio Negro.
Em Monte Alegre do Sul,
Afundei-me na tristeza
De estar perdido no mundo.
E foi com tanta certeza
Que provei do desespero
Lá em Boa Esperança,
Mas voltei a ser criança
Em São José do Bonfim,
Achando que, para mim,
A vida seria eterna.
E, contudo, em Cruz das Almas,
A vil matéria brilhou
E fez com que me iludisse
E na pobreza caísse
Num tal de Cascalho Rico.
Entrei assim, pés descalços,
Em São José do Calçado,
Como perdi a visão
Em Alto da Boa Vista.
Em Bom Jesus dos Perdões,
Executei a vingança
De fixar residência
Junto a Desterro do Melo,
Que, não sendo meu parente,
Segurou-me em Vai-Volta,
Bem como em Varre-Sai,
Onde, de birra, fiquei,
Sem quase nada varrer,
E plantei flores estranhas
Lá em Jardim de Piranhas.
Mas a descrença me valha
Em Santa Fé do Araguaia,
Para que eu possa, então,
Elevar-me em Fundão
E afundar-me, num salto,
Em Barão de Monte Alto,
Para que a morte me encontre,
Morando em Natividade,
Rindo feliz e sem medo,
Em Dores do Rio Preto,
Cercado de multidão
Na cidade Solidão.




Imagem em inclusive.org.br.