15 de outubro de 2011

ESTOU DESTINADO AOS VERMES

Estou destinado aos vermes
Como você, caro leitor,
E disso não tenho orgulho
Como também não tive quando nasci
E continuei não tendo durante a vida
Esse orgulho tão caro aos humanos
Que nos faz crer superiores
Até mesmo aos vermes que nos consumirão
Até a última molécula
Como o tempo
Que fará de nós memória perdida
Na vastidão da vida
(Isto se não a destruirmos na próxima esquina).

Jean-Baptiste Debret, Engenho, séc. XVII/XIX.

14 de outubro de 2011

MARIA MATA O PORCO

(Para a tia Alda Gomes Schuab.)

O dia tinha amanhecido esquisito, céu de chumbo malparado, tanto que Maria não atinara com a hora, no momento em que foi dar milho à criação. Pela cara da manhã, bem poderiam ser seis horas, quanto oito. O sol não havia saído e o tempo parecia a pasta acinzentada do sabão que ela frequentemente fazia no tacho colocado do lado de fora da casa e com o qual lavava os teréns da cozinha.

E a jornada prometia, com a faina de matar porco, que se dava, pelo menos, a cada dois meses.
Até parecia que os bichos desconfiavam: era um bulício só nas cevas e galinheiros. Deve haver algum anjo da guarda encarregado de lhes avisar sobre as desgraças anunciadas. Ou eles não teriam aquele comportamento alvoroçado.
Pergentino, o marido de Maria, preparava o borralho com a palha de café a queimar, a fim de fazer o café da manhã.
Na sua casa de roça, não havia muita distinção em quem fazia a primeira refeição do dia. Aquele que primeiro pulasse da cama tratava dos bichos de terreiro; o outro ia para o fogão. E foi isso o que se deu naquele sábado.
As crianças, seus três filhos – dois meninos e uma menina –, mais dois sobrinhos que vieram passar uns dias na folga da escola, só acordariam um pouco depois, para acompanhar a lida. Isto era como uma diversão para eles.
Criança de roça não tem o sentimento pelos animais que têm as crianças da cidade, que só os conhecem por fotos, filmes e programas de tevê. Como estão diuturnamente com eles e aprendem com os mais velhos o uso que há milhares de anos o ser humano faz dos bichos, não sentem pena ou se mortificam com o sacrifício de alguns para o sustento da família.
Assim matar porco, matar galinha, cortar a cabeça do pato, que sai esguichando sangue pelo terreiro em desorientada carreira, não provoca horror ou repugnância. Felizmente ou infelizmente, os bichos estão aí para que deles se tire o proveito e o paladar.
Até mesmo o gato e o cachorro, que pretensamente são os bichos de estimação, não merecem a estima que os citadinos lhes devotam. São mais bichos domésticos, que compartilham espaços comuns, sem que sobre eles se derrame a quantidade de afeto e carinho que se vê nas casas e nos apartamentos das grandes cidades. E ninguém fica mais ou menos humano ou desumano por tal tipo de comportamento.
Quando, após o café da manhã, Pergentino se dirigiu à ceva para escolher o capado a ser abatido naquele dia, as crianças já haviam acordado e correram todas para ver o início da função.
O abate do animal era o mais simples possível, sem sofisticação e com as dores normais que os animais padecem para que, após algum tempo, se transformem em costelinhas, carrés, lombos, pernis, chouriços, torresmos, linguiças e outras delícias, que poderiam ficar guardadas, mergulhadas na gordura do animal, numa grande lata. E serviam para o consumo durante mês e tal, quando, então, outro leitão iria para o sacrifício.
Pergentino não perdia uma gota de sangue do bicho, que se debatia e grunhia desesperadamente, após ter a faca pontuda enterrada, de forma certeira, por sob sua pata dianteira esquerda, indo atingir diretamente o coração. O passo seguinte, também, por conta dele, era sapecar a pele, a fim de que os pelos fossem retirados, o que fazia com um banho de álcool, a que se ateava fogo com um palito de fósforo.
Neste momento, os meninos deveriam afastar-se ainda mais, para que não se queimassem com o porco.
Em seguida, seguia-se o descarne do sacrificado, com a retirada da pele com o toucinho, a separação das peças de carne, a extração dos intestinos que, depois de muito bem lavados com água corrente e limão galego, se prestariam a chouriços e linguiças. Apartava-se cuidadosamente a banha, a barriga para o torresmo, as partes terminais, como orelhas e pés, porque sempre havia a ameaça de uma feijoada num dia festivo, na comemoração de uma data especial. E Maria era exímia nesta parte da lida. Fazia-a com a rapidez e a competência que a prática lhe dera.
A tudo, as crianças acompanhavam com certo ar de espanto, porém sem medo ou horror. Sabiam que, daí a pouco, iriam comer um bom bife de porco acebolado, um pouco depois um saboroso chouriço cheio de pimentas e, mais um pouco à frente, linguiças que se desmanchavam na boca, após curarem no fumo do borralho, por alguns dias.
Por isso é que, na roça, esses bichos que se prestam à alimentação não tinham nome. Apenas os gatos e os cães mereciam tal distinção.
Lá para o fim da tarde, tudo já terminado, o terreiro limpo, as crianças retomavam suas brincadeiras normais, como puxar carrinhos de boi feitos de sabugos de milho, que cortavam imaginários morros imensos no montinho de areia junto à tulha. A menina voltava às falas e cuidados com suas bonecas de pano. E a vida seguia nos mesmos planos normais, naturais, previstos desde que, neste mundão desembestado, o ser humano começou sua trajetória e se multiplicou numa sucessão milenar, até os dias de hoje.
Hoje, em algum canto do país, Maria vai matar o porco, para a subsistência de sua família. E ninguém será mais ou menos humano ou desumano por isto.
Luiz Taquelim, Matar o porco (séc. XX),
em centroculturaldelagos.wordpress.com.

13 de outubro de 2011

POEMA DESESPERADO

é tão antiga essa nova dor que me estreita o peito
é tão velha tão obsoleta
que não é possível vivê-la por inteiro
se não a repartir igualmente com alguém.
além de tudo é tão nojenta tão abjeta
que já me parece vê-la enterrando-se a si própria
ou enterrando-me ainda cedo ainda antes de morrer.
e por ser tão negra tão megera
essa dor é muito mais que dor
é o vazio de sentir que não há mais com quem vivê-la.

Camille Pissarro, Castanheiras em Osny, 1873.

12 de outubro de 2011

TRÊS HAICAIS DESBORDADOS

1.
à margem da estrada
que dá no nada, vacilo
entre a carona e o suicídio.

2.
aguardo o trem da consciência
em paz
na estação enlouquecida da vida.

3.
a primavera chegou às 16h29min
de hoje, mas é como se estivesse
em mim morta desde sempre.

Camille Pissarro, Entrada da cidade de Voisins (1872),
Museu D'Orsay, Paris.

11 de outubro de 2011

POR UMA BOLA SETE




Só não parto sua cara, porque não sou parteiro!
Com esta frase estapafúrdia, Niquinho da Cremilda, baixinho de metro e meio, deu por encerrada a discussão com Nicão da Tonha, palmeando os dois metros, durante uma partida de sinuca no bar do Enéas, bem no centro da vila, a qual discussão tinha como raiz e fundamento o jogo entre o Soca-Terreiro e o Boa Esperança, times da derradeira divisão do campeonato brasileiro de futebol de várzea, naqueles idos de mil novecentos e dom João caroço.
Cada um defendia as cores do rival: Niquinho, veloz, era o centroavante rompedor, enfiado na defesa; Nicão era o beque de espera, tipo assim de leão de chácara da defesa do Boa Esperança e cuja cara enfezada espantava mais que as caneladas distribuídas em quem se aventurasse em seus domínios na grande área.
Depois daquela frase lapidar, colocou o taco encostado à parede, quis saber quanto devia ao dono do botequim, porque não gosto de dever a ninguém, nem ao meu pai, pagou a conta e saiu bufando feito uma locomotiva a vapor, a resfolegar na saída da estação.
Não houve um que não se risse de quase rolar pelo chão com o destempero do baixinho.
Ele e Nicão – ambos Antônio de papel passado e água de batismo – eram amigos de longa data. Desde meninos frequentaram o Grupo Escolar Marcílio Dias, no alto do morro, na mesma série, com as mesmas professoras. Faziam os poucos trabalhos extraclasse juntos, na casa de um e de outro.  Quando adolescentes, chegaram ao cúmulo de se apaixonarem pela mesma menina de tranças duplas do final da rua do matadouro, a Tininha, filha de Januário e de dona Deolinda. Só não se casaram com ela, porque não era possível. E também Jorge Amado ainda não havia publicado Dona Flor e seus dois maridos. Aí Tininha resolveu entregar seu coraçãozinho tímido e desanuviado para o Duardo, filho do dono da sortida venda de tecidos e aviamentos perto da Praça do Sabiá.
Os dois seguiram seu companheirismo e agora, beirando os trinta, já eram tidos na vila como solteirões convictos, que viviam de frequentar a guaxa de Bom Jesus do Itabapoana, atrás das damas de preço acertado e cheiro de leite de rosas, que facilitavam seus guardados e pertences a uns e outros.
Só não concordavam em nada, quando o assunto era futebol, começando da primeira divisão do Rio de Janeiro, cujas partidas ouviam pelo rádio rabo-quente da marca Lancaster na venda do Argemiro, em volta do vidro de pés de moleque, até a rivalidade minúscula de Soca-Terreiro, da Fazenda do Jacó e sua camiseta listrada de azul e branco na vertical, e Boa Esperança, da fazenda do mesmo nome e seu uniforme grená com amarelo em listras deitadas. Aí não havia acordo, não havia companheirismo. Era cada um com sua opinião inabalável nas coisas inúteis da bola rolando, da cor da camisa, da bola que entrou ou não entrou nas traves de bambu de rede imaginária, porque ela triscou na moita de vassoura, porque não triscou, esbarrou foi na touceira de guiné do lado direito da trave. E assuntos assim eram discutidos até a próxima partida, até a próxima batalha campal em que, às vezes, se transformavam aquelas brincadeiras simples de gente simples do interior.
Por isso é que todos riram como cobertas velhas sendo rasgadas do destempero de Niquinho e chegaram até a calçada do bar a chamá-lo de volta, deixe de bobagem, homem, vocês são amigos desde o berço, são até irmãos de leite. De fato, um havia mamado na mãe do outro, porque a sua secara o leite bem durante o resguardo e ele correria o risco de não ver os são-joões vida afora.
Nicão que, fora do campo de jogo, era praticamente uma dama, como diziam os amigos, apesar do tamanho descomunal para aqueles tempos, ria que ria, sem se sentir ofendido, porque sabia que, daí a pouco, lá viria Niquinho se retratar, dizer que  tinha perdido as estribeiras, subido nas tamancas, por bobagem, que a nossa amizade vale mais do que tudo na vida, cê pode ter certeza disso, Nicão. E tudo voltava à paz, com a condição de que não voltassem a falar do pênalti marcado/não marcado, da bola que entrou/que não entrou, do placar final da última pelada disputada aguerridamente, daquele miserento juiz que não vê nada.
Nem bem chegou à esquina da venda do João Mestre, cinquenta metros adiante, a cabeça mais fria, Niquinho resolveu voltar, com a cara de tacho de sempre, a pedir desculpas ao amigo e aos demais que sapeavam o jogo de sinuca, ao Enéas, que, rindo da diatribe do baixinho, liberou uma rodada de Matinha para todos, em sinal de paz selada e molhada no gole da branquinha.
E Liberdade, naquele dia, viu evitada uma tragédia de consequências catastróficas: Niquinho da Cremilda e Nicão da Tonha trocarem de mal por uma bola sete encaçapada no meio, seguida de suicídio na caçapa do fundo, que dera a vitória ao grandão, que logo traçou paralelo com o jogo do domingo anterior com a vitória de virada do glorioso Boa Esperança de grená e amarelo, sobre o não menos glorioso Soca-Terreiro de azul e branco, feitinho um céu encarneirado de nuvens.

Foto de Gilson Camargo, em lisandronogueira.blogspot.com.

10 de outubro de 2011

EM QUALQUER ESQUINA

em qualquer esquina insólita do rio de janeiro
a morte não é apenas um pressuposto lógico
é uma tática de conversão da vida
 – esse aparatoso armamento bélico –
em possibilidade concreta
de inexistir:
basta um passo em falso
uma inocência boba
e tudo estará completo...

Paul Klee, Rodovias e atalhos, 1929
(imagem em sai.smu.su).

9 de outubro de 2011

SE A VIDA FOSSE

Se um dia a vida fosse feita com muito gosto
Como fazemos sushi
Ou cheia de açúcar e de afeto
Como um toucinho do céu
Se fosse um prato bem rústico
Tal qual um sarapatel
Será que a vida seria comida
Indigesta
Malsã
Ou de tranquila digestão?
Conquanto seja fumaça
Que encha os pulmões
De eflúvios malignos
E penetre no sangue
Com a toxidade das drogas pesadas
A vida será suportada
Sem máscara de proteção?
Ou ácida chuva que caia das nuvens
E derreta os corpos
Ou feroz tempestade que arraste encostas
Subverta os lugares por onde vivamos
Seria a vida esta vaga que leva
Todos ao mesmo e derradeiro plano?
Não sei como é
Esta vida vivida com jeito de coisa esquisita
Mas vou vivendo o que é vida
E assim esperando
Seja ela indigesta comida
Fumaça que entope pulmões
Ou chuva de terríveis tragédias
Que possa juntar os humanos
Num projeto mais simples
Mais amplo:
Viver como irmãos!

Imagem em etudiants.jeunesadultesvo.net.